EXPERIÊNCIA COM OS PSICODÉLICOS INTERPESSOAIS

Claudio Naranjo, M.D.

Introdução


Em resposta ao convite de Julie Holland para contribuir neste volume, eu propus que ela publicasse minha palestra sobre "ampliadores de sentimentos" apresentada em 1993 no Psychedelic Summit -Encontro Psicodélico na Igreja Unitária em San Francisco, onde tive a honra de ser o palestrante na abertura.


Como alguém que veio para os Estados Unidos no meio dos anos 60 de um país onde não havia nem um movimento psicodélico nem proibição aos psicodélicos, eu estava particularmente consciente de como a guerra americana entre o governo e os entusiastas dos psicodélicos interferia com a utilização dos psicodélicos na psicoterapia.


Me parecia que a resistência do establishment americano não era somente um resposta a sua não familiaridade com a experiência psicodélica mas também uma expressão da implícita cultura anti-Dionisiana. E a intensidade da proibição aos psicodélicos não é apenas o resultado de uma tendência engrenhada ao controle excessivo existente no caráter americano; há também o fato de que o movimento psicodélico insultou de forma tão veemente as instituições que tradicionalmente controlam drogas e através das quais o LSD poderia de outra maneira encontrar um canal de distribuição oficial. Tome, por exemplo, o pedido romântico de Tim Leary por uma total liberdade no começo dos 60s e ainda seu próprio desdém pelo mundo psiquiátrico. Poderíamos simpatizar com ele em vista de quão devagar profissionais de saúde mental foram em entender o potencial terapêutico do LSD e o fato de que alguns investigadores médicos do LSD foram patrocinados pela Central Intelligence Agency - CIA. Não obstante, eu sempre pensei que seu modo rebelde e heróico e sua vontade messiânica de liberar o mundo resultou, paradoxalmente, em uma interferência na adoção do LSD pelo estabelecimento.


A guerra Americana a favor e contra as drogas foi o background para meu livro The Healing Journey - A Jornada de Cura, publicado no final dos anos 60. Eu queria chamar atenção para as substâncias psicotrópicas que não tinham sido rotuladas perigosas ou sido criminalizadas e não parecia que seriam, pois elas constituíam o que considerávamos psicodélicos "mais domesticáveis" que não originavam distúrbios no pensamento ou reações psicóticas. Além disso, eu me foquei no uso especificamente terapêutico destas substâncias que classifiquei em dois grupos: os "ampliadores de sentimentos" e os "ampliadores de fantasia".


Antes de voltar ao assunto específico dos ampliadores de sentimentos eu quero compartilhar minha impressão geral de que os aspectos terapêuticos das experiências psicodélicas têm um impacto mais significante na avaliação pessoas que os maravilhosos aspectos espirituais. Onde os estados espirituais induzidos por psicodélicos são transitórios, os ganhos terapêuticos têm uma considerável maior estabilidade. Mais ainda, o processo terapêutico, que envolve limpar a psique das impressões disfuncionais da infância e recobrar a habilidade de amar, abre as pessoas de uma maneira mais estável e as traz mais para perto e profundo de seus potenciais espirituais. Eu acho que os ampliadores de sentimentos guardam a maior promessa. Me considero muito afortunado por ter tido a oportunidade de abrir o campo da aplicação terapêutica algumas décadas atrás. Aqui eu faço um plano geral sobre o que aprendi.


Sobre Ampliadores de Sentimentos e a Facilitação da Psicoterapia


Em 1962 eu conheci Sasha Shulgin, o mais criativo dos químicos psicodélicos, que me apresentou ao potencial contido na investigação que substituiu as fenilisopropilaminas. Eu estava a caminho da Amazônia, onde eu conduziria meu primeiro projeto de pesquisa com psicodélicos. Eu estava interessado na bebida conhecida como yagé, ou ayahuasca, cujos efeitos eu vim interpretar como um despertar do cérebro reptiliano e o presente que é a sacralidade no corpo e em nosso "animal interno".


Se todos psicodélicos contribuem para o refazer do ego - a Pequena Mente que obstrui a Grande Mente - poderia se dizer que o efeito de psicodélicos como o LSD é mais proeminente no refazer da estrutura cognitiva que constitui a base fundamental do ego. A "morte do ego" que eles propiciam é da natureza de uma "explosão da mente", e portanto eles podem ser apropriadamente chamados de drogas "cabeça". Por contraste, os alcalóides harmala como a ayahuasca pareciam ser drogas "vísceras"--catalizadores ajudando o fluir da auto-regulação instintiva, inclusive no nível físico. É com este background que eu embarquei na exploração do MDA, uma droga que foi domesticada para ser um psicotrópico de uma nova espécie: uma droga "coração".


MDA: A Droga da Análise


Ficou óbvio desde o começo que esta anfetamina substituta estava relacionada com o coração e não com as vísceras ou a cabeça. Com a expressão "ampliador de sentimento" eu queria transmitir que seus efeitos primários eram na esfera emocional, e que estes efeitos não eram como de um simples estimulante. Uma faceta desta ampliação parecia ser o aumento da consciência dos sentimentos, e outra era a inclinação ampliada para expressar sentimentos, mas isto não era tudo. Hoje eu a chamaria de "otimizador de sentimento" do sentimento superior, que é o amor.


Nosso sangue do coração psicológico é o amor, mas na vida acadêmica, amor é uma expressão evitada por não ser científica. Já que o assunto, contudo, não pode ser evitado, é reconhecido como de mais bom gosto falar sobre empatia ou reforço emocional positivo. "Ampliador de sentimento" parecia apropriado em termos do ambiente do discurso acadêmico. Aparentava apropriado sugerir não apenas a de sentimentos amigáveis mas também os sentimentos de felicidade que freqüentemente derivam do fluir externo do coração. Esta qualidade foi depois enfatizada com o nome dado ao MDMA - Êxtase. Ainda mais profundamente - como uma precondição ou fundação para o amor - acredito que ainda há uma outra otimização, um aperfeiçoamento de nossa atitude em relação a dor. Creio que todos nossos problemas estão relacionados com uma atitude errada em relação a dor, uma forma de defesa a experiências anteriores de dor que não estávamos prontos para encarar e que se encravou em nós. Consequentemente, muito de nossa tendência em viver certo - o "portão para a felicidade", podemos dizer - está em encontrar outra atitude para a dor, outra forma de estarmos cara a cara com a dor. Isto eu considero ser o aspecto mais significante dos ampliadores de sentimentos. Antes de continuar partilhando pensamentos sobre as características da MDA, contarei uma história.

Sasha Shulgin havia me relatado sobre algumas observações nas notas do laboratório de Gordon Alles. Alles, descobridor da anfetamina, pensava que MDA poderia ser útil como vasodilatador (um remédio que abaixa a pressão sangüínea), e ele testou em si mesmo com um platismografo em torno de um de seus dedos para testar sua hipótese. Depois de algum tempo ele notou que estava falando mais que o usual. Em certo momento viu um anel de fumaça amarela na sala, mas ninguém estava fumando. Isso sugeria uma propriedade alucinógena, particularmente visto o fato de que a estrutura da molécula de MDA é como um híbrido entre anfetamina e mescalina.


Era o lugar e o momento certos, um buscador ansioso esperando encontrar mais remédios para a alma, então me veio a idéia de explorar a substância mais atentamente. Eu trabalhava como psiquiatra para o Centro para Estudos em Antropologia Médica na Escuela de Medicina de la Universidad de Chile, que estava pronta a me patrocinar em tais empreitadas. Já que não havia uma cena de droga e nenhum escândalo de drogas no Chile, eu me encontrei na posição muito parecida com a do Dr. Stanislav Grof, que pôde estudar o LSD durante os mesmos anos na Tchecoslováquia. Ao invés de me concentrar no LSD, eu fui em outras direções. Uma era o domínio das fenilisopropilaminas, e outra era a investigação do chá xamânico da América do Sul (yagé ou ayahuasca) e os alcalóides da planta psicotrópica iboga.


Desde o princípio, onde eu testei em mim mesmo e poucos conhecidos, ficou claro que MDA era uma droga, diferente do LSD, que trazia uma expansão da consciência emocional sem interferir com o pensamento. Seu efeito não levava o sujeito para longe do mundo ordinário dos objetos e pessoas, mas parecia específico para o processamento de assuntos não terminado no mundo interpessoal. Em retrospecto, posso dizer que fui extremamente sortudo em encontrar a MDA, porque seus efeitos são similares `a agora bem conhecida droga MDMA, Êxtase. A descoberta deste tipo diferente de psicodélico foi publicada em um artigo sucinto, co-autorado junto com Shulgin e Sargent (1967), avaliando MDA como um apoio `a psicoterapia. Depois, eu fiquei envolvido em psicoterapia com auxílio de MDA, tal como descrito em The Healing Journey.


Eu relatei naquele livro o que havia sido encontrado no trabalho com pessoas na clínica da universidade em Santiago. Esses pacientes receberam MDA e viajavam direto para o começo da infância e para memórias de traumas, particularmente estupro incestuoso. Freud descobriu o mesmo campo de experiência no começo de sua careira mas depois criou uma teoria para explicar e deixar isso de lado. (acredito que ele tomou o lado dos pais, não estando pronto para crer que eles podiam fazer tais coisas). O desfazer da amnésia infantil podia envolver outros tipos de memória também. Em uma sessão com MDA, por exemplo, uma mulher de meia idade relembrou que quando criança ela tinha sido trancada em um quarto e testemunhou pela janela o assassinato de seu pai pelo amante de sua mãe. Eu não pude provar que o fato era verdade, mas acreditei que fosse. O entendimento de si mesma e de sua vida que resultou desta memória trouxe uma cura impressionante.


No The Healing Journey eu nomeei a MDA como a "droga da análise", por causa da regressão de idade espontânea que ela induz e o interesse que ela estimula na reformulação - quase redigerindo - o passado. Uma descrição apropriada, uma característica ainda mais essencial da MDA poderia ser explicada se a nomearmos a droga da verdade, em vista da abertura não defensiva que ela (e alguns outros fenilisopropilaminas) catalisa. Diferente do soro verdadeiro da ficção, esta não é uma droga que leva `a exposição de informação contra a vontade do sujeito. Ao invés, há uma preocupação pela verdade e um apoio `a autenticidade.


Porque a autenticidade é o veículo principal das terapias direcionadas ao autoconhecimento, a MDA e outros ampliadores de sentimentos são potencializadores impressionantes para a psicoterapia. Assim como outros psicodélicos têm aplicações terapêuticas especializadas, tais como a indução de experiências místicas, trabalho com sonhos, ou a experiência dos estado perinatal, os ampliadores de sentimentos abrem o que poderíamos chamar de "caminho do amor". Esta é uma vontade espontânea de manter acesa a chama do amor ainda que com dor e não se tornar defensivo ou manipulativo e, em conseqüência, cego. O dom dos otimizadores de sentimentos é a habilidade de se manter uma criança do Paraíso, saudável e amorosa a despeito da contaminação do passado ou poluição do mundo interpessoal. A habilidade é apoiada por uma visão radicalmente diferente ao encarar a dor, uma atitude não defensiva que permite a transmutação da dor em alegria.


O sofrimento é inextrincavelmente ligado `a existência terrena, mas ele pode ser um narcótico ou um despertador, dependendo de nossa vontade em tomar dele e o usar para nosso crescimento. Nossa dor pode ser um estímulo `a defesa e egoísmo ou compaixão e amor. A diferença é parecida com um vento contrário que obstrui nosso progresso e que, através do uso habilidoso da vela, nos permite avançar contra ele. Tal vontade pode ser o fruto de uma austeridade desenvolvida ao longo de nossa jornada psico-espiritual, mas é também o presente transitório dos ampliadores de sentimentos. Eles podem levar quem os utiliza diretamente para o reino de Adão e Eva (tal uma recompensa pela abertura do coração) ou podem levá-los não para o inferno, como é o caso de psicodélicos como o LSD, mas para um lugar terreno de dor, o outro lado do Paraíso na terra, que é o purgatório. Este é o reino da psicoterapia par excellence.


Acho que o nome Adam, como Leo Zeff batizou a MDMA, foi de muito sorte. Eu nunca me satisfiz com o termo excessivamente acadêmico e eufemístico "entactógeno" (que soa Latin e Grego e sugere os sentido interior de contato mais acertadamente chamado "relacionamento"). Sempre gostei de Adam, porque indica paraíso terreno. E se o céu psicodélico pode ser relacionado com a condição pré natal da vida no útero, o paraíso terreno ecoa com a condição pós natal do recém nascido.


No tempo em que escrevia The Healing Journey, pensava que já que são os mais doentes que mais precisam de lidar com dores do passado, o seguimento seria que pessoas potencialmente viciadas teriam a tendência de ter "viagens ruins" e pouco entusiasmo em usar MDA como um escape para o prazer. Quando MDMA (com seus efeitos sutilmente diferentes da MDA) se tornou disponível, eu pude ver que estava errado. Há pessoas (com disposição hipomaníaca) que conseguem reprimir a dor e sentem euforia e calor de um modo que parece ecoar sua costumeira negação da dor e raiva. Ao invés do purgatório terapêutico que precisam, sua maneira hedonística tem sucesso em direcioná-los ao paraíso, apesar das visitas deles ao paraíso continuarem a ser um tipo de ópio para as pessoas, uma exaltação espiritual que se torna um substituto ao contrário de um remédio para sua condição. Em tais casos, creio que preparação psicoterápica e a prontidão terapêutica de uma pessoa antes de sua sessão inicial - e a habilidade terapêutica de alguém durante a sessão - pode fazer uma grande diferença.

MMDA: O Eterno Agora

Aqui eu tomo o fio de minha história. Eu estava pronto para mudar para uma nova investigação, e ela seria a MMDA. Quando Sasha Shulgin e eu publicamos suas características farmacológicas animal e humana em colaboração com Sargent (1973), eu a usava em psicoterapia. A qualidade mais importante que encontrei na MMDA - um sentido do que eu chamo de "eterno agora" - era algo que eu estava realmente pronto para apreciar, em vistas de uma inesperada fonte de frustração que tinha acabado de encontrar em minhas tentativas de conduzir terapia sob MDA.


Eu era um terapeuta da Gestalt ainda em botão naqueles dias, vindo de um recente contato com Fritz Perls,

e tinha tentado trazer a terapia Gestalt para apoiar a experiência psicodélica. Eu estava frustrado neste empreendimento porque enquanto tentava fazer as pessoas focalizarem no aqui e agora, elas insistiam no "lá e naquele tempo", avidamente determinados em viver suas memórias. Devo confessar que eu fui um pouco devagar em perceber o fato de que como o potencial mais relevante da MDA é sua habilidade de trazer `a tona memórias reprimidas de longa data, o potencial da MMDA é uma percepção ampliada do presente.


Por esta razão a MMDA se prestou admiravelmente para o trabalho Gestáltico, melhor do que a MDA. Ela não apenas focava no aqui e agora mas também dinamizava o trabalho envolvendo imagens - não as imagens arquetípicas como o LSD e os ampliadores de fantasia mas imagens pessoais, como em sonhos comuns. (Eu coloco iboga e harmala na categoria de ampliadores de fantasia). Ainda mais, descobri que a MMDA geralmente disparava sintomas psicossomáticos e auxiliava na exploração deste universo. Em tudo e por tudo, creio que através do uso da MMDA em conjunção com a terapia Gestáltica eu ajudei muitas pessoas. Descobrir a excelência específica da MDA e da MMDA na facilitação da psicoterapia foi como ter gêmeos além do sentido intelectual, mas os ventos da aventura me inclinaram para o novo.

A habilidade de Sasha Shulgin em sintetizar as novas moléculas psicoativas está agora sendo largamente conhecida. Naqueles dias ele já tinha produzido uma quantidade de análogos que estavam esperando para serem testados em humanos, e isso me levou a mudar para o estudo comparativo com algumas destas substâncias. Shulgin, Sargent, e eu (1969) também publicamos um relatório resumindo os testes com várias isopropilaminas e compostos estreitamente relacionados.

MDMA: Uma Alternativa Não Tóxica para a MDA


Para mim, a maior notícia desde o descobrimento da MDA e seu potencial curativo foi a MDMA - que difere quimicamente da MDA do mesmo modo que a anfetamina difere da metanfetamina. Os efeitos são essencialmente os mesmos que os da MDA, apesar de ter uma duração relativamente menor da ação e menos toxicidade.


Enquanto a MDA é um catalizador de terapia sem o potencial psicomimético do LSD, ela tem a séria debilidade da toxicidade. Em minha experiência este não foi um efeito constante mas se tornou aparente em algumas vezes de uma forma imprevisível. Neste sentido é como o clorofórmio. Nos velhos tempos, alguns pacientes morriam com a anestesia com clorofórmio, mas isto não podia ser previsto. As razões eram desconhecidas, e algo semelhante parecia ser o caso com a MDA. Eu já observara durante a escrita de The Healing Journey que vez ou outra a MDA produzia rachaduras na pele e que além de uma certa dose (aproximadamente 250 mg), algumas pessoas se tornavam incoerentes, o que poderia ser atribuído a efeitos vasculares no cérebro. Eu alertara meus leitores, instando-os a testarem a reação da pessoa `a MDA cautelosamente, começando com uma dose muito baixa. Felizmente eu não tive nenhum acidente durante meu trabalho no Chile. Diante do fato de que cerca de trinta pessoas tomaram a droga, vejo isso como uma benção. Um colega Chileno foi menos afortunado (e certamente menos cuidadoso), pois administrou 500 mg a um amigo e este teve afasia. Depois disso, várias mortes foram relatadas nos Estados Unidos.


Sabemos que com a MDMA o caso é totalmente diferente. Tem sido de amplo conhecimento e uso por muitos anos e, apesar dos acidentes atribuídos `a pressão alta do sangue ou uso inapropriado, ela é impressionante por não apresentar perigos a pessoas sadias. Eu diria que é o champagne dos ampliadores de sentimentos. Meu método em terapia assistida por MDMA (exatamente como era o caso com MDA) poderia ser descrito como dar uma oportunidade especial `as pessoas de falar sobre sua vida passada e presente e seus problemas, com vistas a desenvolver o insight nas relações e personalidades. Eu enfatizo isso porque a maioria das pessoas que conheço tem usado o MDMA com um modelo emprestado do uso do LSD - ouvindo música pelos headphones enquanto vendados. Muito pode ser ganho desta forma apenas, mas essencialmente os ampliadores de sentimentos têm a ver com o mundo dos relacionamentos e com a dinamização do sentido do "Eu" e do sentido do "Você" (que são interdependentes) Eles são notáveis pela grande abertura que promovem e a habilidade de gerar melhor comunicação sobre problemas de relacionamento.


Também enfatizo este aspecto porque durante uma das conferências do Esalen ARUPA (Association for the Responsible Use of Psychedelic Agents - Associação para o Uso Responsável dos Agentes Psicodélicos) devotada ao intercâmbio entre terapeutas de MDMA, eu me achei discordando dos meus colegas da rede psicodélica. Para o meu espanto, todos que palestraram lá advogaram acreditar que o melhor modo de guiar pessoas em uma viagem com MDMA é fazê-los recolher através da escuta de música. Eu lembro que

Dr. Rick Ingrasci (antigo presidente da Association of Humanistic Psychology - Associação de Psicologia Humanista) e eu éramos os únicos excêntricos naquela reunião: nós conversávamos com as pessoas e as ouvíamos.


Eu uso música também, mas freqüentemente prefiro começar uma sessão sem ela. Vejo a interação verbal como um veículo valoroso para guiar pessoas e ajudá-las a irem mais fundo em suas experiências difíceis. Isso ficou aparente quando eu voltava para a sala após pequena saída, e um paciente dizia, "Oh, pensei que o efeito tinha ido embora, mas enquanto conversamos tudo está retornando". Não que o falar precisa ser uma distração; depende do tipo de conversa e o entendimento empático que se pode oferecer.


Depois de algum tempo trabalhando com a MDMA com indivíduos e grupo, meu interesse capital passou a ser seu uso com grupos de pessoas que tem relacionamento entre si, tais como famílias e comunidades. nesta situação a MDMA se presta a sessões ocasionais direcionadas a "limpar o lixo" para manter as relações saudáveis. Trabalhei desta maneira não apenas com psicoterapeutas associados mas também com pessoas concernidas com a qualidade de suas parcerias em negócio ou com bons amigos que queriam manter suas relações livres da deterioração que a maioria é passível de sofrer ao curso do tempo. Tipicamente, eu trabalhava com grupos de quinze a vinte pessoas constituído por alguns subgrupos, dentro de cada um estariam pessoas envolvidas em relações fora da terapia, por exemplo, uma família de três, quatro parceiros de uma empresa, ou pessoas de uma comunidade espiritual.


Um relatório de caso pode trazer algum sentido sobre a natureza da experiência de terapia em grupo no modo que eu tenho conduzido. Enquanto eu uso a expressão "psicoterapia analítica" em conexão com meu método de terapia individual com MDA e MDMA, no tipo de terapia em grupo que eu desenvolvi minhas intervenções são mínimas, exceto na preparação do grupo e no curso de uma sessão de partilha retrospectiva ou feedback grupal. Eu não apenas coordeno e compartilho minhas próprias percepções mas também auxilio a discussão aprofundada sobre a experiência.


Uma parte importante do meu papel em preparar para uma sessão com MDMA tem sido criar uma atmosfera de entrega e espontaneidade dentro das margens de uma estrutura simples que limita o movimento para fora do grupo mas permite o recuo, protegendo a experiência de todos contra invasões. No caso da MDMA administrada a um grupo de tamanho e composição adequada, eu testemunhei uma coincidência memorável entre a necessidade de alguns participantes em regressar e receber carinho materno e a disponibilidade de outros em dar tal carinho. Já que o efeito da MDMA pode ser uma experiência pico ou o mergulho na dor (ou ambos), é fácil ver como é possível que algumas pessoas se encontrem em um jardim de paraíso terreno enquanto outros passam pelos fogos da purificação - e a experiência dos primeiros é um presente para os últimos. Várias vezes eu tive a impressão que, como resultado do efeito catalizador da MDMA sobre os participantes, o grupo se torna um sistema organizado espontaneamente, para o benefício de todos.


Agora mostro uma carta pessoal na qual uma mulher de meia-idade me conta sobre sua experiência em uma sessão grupal, como uma ilustração do tipo de coisas que podem acontecer através uma preparação adequada de um grupo, sem interações terapêuticas individuais. Creio que terapeutas com experiência saberão bem que esta não interação não é uma questão de simples estratégia, mas um tipo de arte do "não fazer" desenvolvida pela experiência e apoiada pela fé na auto-regulação do indivíduo e do grupo. De qualquer forma isto não é algo que possa ser explicado facilmente, nem é algo que se possa prescrever mecanicamente, pois ela requer uma habilidade trabalhada em estar presente da maneira correta com sensibilidade ao que está acontecendo. Devo acrescentar que este grupo em particular tinha se preparado para a vivência com vários dias de exercícios de psicoterapia e meditação. A mulher identificada como K era membro deste grupo e escolheu participar sem tomar MDMA, e J, que tomou MDMA, é um terapeuta sexual.


""Depois de engolir a cápsula, eu adotei uma atitude de confiança em mim mesma, na vida, ante o desconhecido (que sempre me amedronta). A presença forte e amorosa da Rachel facilitou isso para mim. Eu senti palpitações fortes que me assustaram, mas eu tinha confiança em você, que me auxiliaria se fosse necessário. Comecei a perder as sensações da pele; senti frio e como se me faltasse o ar. Isso me deixou muito temerosa da morte, com medo de dissolver ou que o meu coração explodisse. Eu deitei de lado como se dobrada sobre mim mesma, fechada em mim, e dentro de mim comecei a sentir mais calma e segura. Um gemido veio do meu corpo, suave e trepidante, como se tremendo de frio. Depois percebi que eu era um bebê, um feto, ainda não nascido e mandado ser para para realizar "Ser", emergindo do nada, solitária e com frio. Eu tinha muito medo de nascer.


Então alguém me cobriu, e senti que alguém estava ao meu lado e me acariciava. Eu vi que era K e disse a ela, "Estou nascendo neste mundo". Eu tinha tanta certeza disso quanto da luz do dia. Daí pude liberar a dor e o choro, pois me senti segura perante outro ser humano, que me deu muito calor e carinho. Eu chupei meus dedos e os dedos dela, e senti meus dentes com os quais podia morder. Quando me senti mais calma, desenrolei meu corpo um pouco para conversar com ela. Eu lhe disse, "Não vá ainda". Eu precisava muito de falar com ela e contar-lhe o que estava passando e que o que eu tinha vivido com os meus pais. Eu não sentia nenhuma raiva da minha mãe, só dor; falei isso com grande convicção, como se estivesse tomando toda propriedade por aquilo. "Ela não podia fazer mais nada; ela não sabia como ficar comigo". Eu sentia raiva do meu pai. Eu lhe falei palavras duras de maneira sutil por toda minha vida, por causa do tamanho dano que ele me causou.

Falei para K que tinha escrito um poema para minha criança interior, e gostaria que ela ouvisse. Quando ela ouviu, vi suas lágrimas. Eu recitei outros poemas para ela, mas daí ela me deixou sozinha por um pouco de tempo. Ela me perguntou se estava tudo bem deixar-me só por um tempinho, e foi até alguém que lhe chamara, afirmando que voltaria. Pela primeira vez eu não me senti só. Eu tinha sua jaqueta sobre meu corpo, a qual podia tocar e sentir o cheiro, e a fantasia dela permaneceu comigo. Eu me senti feliz, pois estava certa de sua volta, e eu podia também ficar comigo mesma. Eu entendi que era bom que ela tivesse me deixado um pouco sozinha, porque depois de deixá-la entrar em mim e me sentir eu podia agora assimilar isso, integrando o fato em mim mesma. Eu tinha muita necessidade de tocar e pressionar o chão com partes diferentes do meu corpo. J se aproximou e eu o recebi também como um presente de Deus. Eu lhe contei o que estava vivendo. Senti-o e lhe contei tudo desde o começo da minha experiência e o abismo profundo que senti interligado com a essência, como se todas minhas células fossem feitas Dele. Eu estava chateada que em nosso "estado normal da mente" não realizamos esta Realidade que somos. E também falamos sobre sexualidade. Ele me auxiliou com suas mãos na integração da cabeça, coração e sexo, abrindo caminhos. Ele me ajudou a liberar meu pai do meu corpo, pois sentia como se eu estivesse possuída por ele até aquele momento.

Foi neste momento que você veio e lhe falei que eu estava me limpando do meu pai. E você sorriu, em confirmação. Eu teria gostado que você ficasse mais tempo, mas não tive coragem de pedir-lhe. Então J me disse que precisava ficar só por um instante, que depois teria de ajudar alguém e em seguida voltaria. Portanto eu aprendi dos dois que poderia encontrar meu espaço de solitude quando precisasse e que isso estava bem; não era ruim. Continuei a me sentir feliz, nem só nem vazia. Continuei a me sentir alimentada enquanto só comigo. Tudo parecia um presente de Deus que me preencheu com alegria - eu estava recebendo muito sem ter de procurar. Sim, eu senti que não precisava mais da procura compulsiva por alguém (mães e pais) mas apenas me abrir para receber o que viesse no momento.


K voltou e em sua companhia eu comecei a olhar ao redor da sala, absorvendo e me abrindo para os arredores, ouvindo grupos de pessoas que conversavam e riam. Por um instante eu entrei em contato com uma admoestação que tinha sido introjetada cedo em minha vida: "Você deve ir com os outros". Mas eu entendi que naquele momento era mais importante que eu permanecesse com minha própria experiência. Depois J me contou sua experiência, e eu pude ouvi-lo e deixá-lo entrar, sentindo clara e livre para mim mesma, com espaço para outro. Então comecei a dançar sozinha, sentindo toda minha alegria, minhas células vivas. Encontrei o eixo do meu corpo e senti que a energia se movia para cima e para baixo dentro dele. Senti que dançava como uma serpente, ondulando meu corpo e sentido-me sucessivamente uma Árabe, Hindú, cigana - cheia de força e energia.


Em vários pontos J se aproximava, como que seduzido por mim. Senti medo, como se ele fosse me estuprar. Contei isso a ele para desencoraja-lo, "Ei, espera. Eu acabei de nascer". Estava com ele em um grupo no qual também estava V, por cuja face pacífica me senti atraída. Com ele eu pude expressar verbalmente minha agressão aos homens. Quando ouvi uma voz masculina cantando, eu disse, "Eu gostaria de ter dançado como uma mulher". Mas ele disse, "Precisamente por isso foi um homem a cantar. Porque você não dança agora e poderá terminar com seu pai desta maneira". Eu tomei este desafio como especial e dancei. Foi uma experiência de força feminina - e auto-afirmação perante meu pai, ou separação a autonomia. Senti como se, nesta história destrutiva, eu tinha chegado a um término.

Bem Cláudio, não contarei mais detalhes, porque esta carta, acredito, refletiu as coisas mais importantes desta experiência. Foi profundamente terapêutico para mim. Eu sinto como se algo da falta arcaica e primordial que sentia foi encoberta e que não poderia ter sido de outra forma. Eu retornei a esta experiência muitas vezes para me nutrir, e sinto que estou chegando ao final de um processo de cura com uma mente mais lúcida, organizada e criativa, mais confiante e ousada para ensinar e compartilhar as riquezas que tenho guardado para mim mesma. Continuo a escrever poesia e aproveito a vida mais e mais.""

Espero que este relato da sessão servirá para transmitir um entendimento geral de como muitos assuntos distintos e separados na teoria se misturam em uma única experiência. O sujeito anônimo diz que ela tinha acabado de nascer, e a sessão como um todo pode ser vista como um passo no processo de nascimento. Separação e união têm ambas uma parte no nascimento. Ao afirmar sua individualidade, ela se diferencia do pai; ao mesmo tempo o evento ocorre em um contexto de uma situação maternal - uma na qual ela se permite regressar com o apoio de outros (o terapeuta, o grupo, e, mais especificamente, seus companheiros). Todavia, regressão não é tudo o que há no nascimento; assim como ambas separação e união são partes do processo, também há aqui uma regressão em progresso, a permissão de um estado fetal que depois se torna o caminho das pedras, de alguma maneira, para a auto-expressão.

Eu falei que o conteúdo da sessão não é particularmente especial, mas é rico o bastante para trazer `a tona muitos assuntos. Dentre estes assuntos a importância da atitude com que o sujeito embarca em sua experiência - e mais especificamente, uma atitude de confiança e mesmo uma medida de aceitação em face da "morte", ou um sentido de uma "explosão" iminente. É a extensão desta aceitação da experiência vivida que torna possível a profunda entrega que está por trás de um desenrolar orgânico. Os elementos clássicos de uma experiência com MDMA estão todos aqui: consciência da dor psicológica, insight sobre a vida e relacionamentos, auto-expressão em comunicação verbal e movimento, e uma progressão desde uma acusação defensiva até o entendimento dos outros. Está claro pelo relato o quanto pode ser importante a relação entre os membros do grupo, no sentido tanto do contato maternal e partilha da intuição quanto, mais generalizado, a terapia entre pares.


Carl Rogers defendeu que grupos terapêuticos talvez sejam a invenção mais benéfica do século XX, e eu não conheci uma forma de psicoterapia em grupo mais efetiva do que o uso habilidoso da MDMA. Espero que este vislumbre da natureza da experiência possa ser um estímulo para as futuras autoridades de saúde darem uma atenção mais positiva a este método negligenciado, pois não podemos dispor de recursos de forma perdulária nestes dias em que a saúde emocional se tornou tão vital para o destino humano. MDMA é um recurso extremamente valioso para processar experiências passadas de vida e para curar relações no contexto do diálogo. Contudo, o grande dom que os céus parecem estar nos oferecendo através do know-how científico continua mal usado em um tempo em que há uma necessidade urgente de saúde mental coletiva. Dado que o establishment médico e regulatório considera estes argumentos não provados, acredito que sejam prioridade na pesquisa.


Por muito tempo pensei que The Healing Journey tinha sido um fracasso, pois ele não pareceu estimular o interesse nem do establishment médico nem do público laico em encontrar como colocar estes presentes em uso para o bem de todos. O livro pareceu ter sido apreciado mormente por iniciados, que precisavam menos dele. Ao longo dos anos, todavia, eu me surpreendi em ver pouquíssimos livros sobre terapia psicodélica, creio que The Healing Journey continua a preencher um vácuo, até certo ponto, dando credibilidade aos psicodélicos como os catalizadores terapêuticos preciosos que são. Espero que ele sirva para apoiar meus prolongados esforços em dizer que não podemos dispor do luxo de desperdiçar seu potencial enquanto perdemos nosso tempo em uma mentalidade mortalmente policialesca, pois eles são precisamente o tipo de remédio que precisamos ao aproximar uma nova travessia coletiva do Mar Vermelho.

Acredito que é a ausência de um canal para o uso potencialmente benéfico dos psicodélicos que tem de ser responsabilizado por nossa doença psicodélica coletiva, com seu vício e criminalização. Estou convencido que o abuso vem do mau uso, e isto tem sido o resultado da restrição de oportunidades para seu bom uso. Claro que a qualidade repressiva do governo em respeito aos assuntos de drogas é uma expressão de uma formação repressiva na própria estrutura da civilização e também da inclinação proibicionista que herdamos de nossos ancestrais Puritanos. Estamos vivendo tempos, contudo, onde nossa própria sobrevivência depende crucialmente de irmos além do espírito exageradamente estável e fossilizado das instituições que criamos. Creio que nosso governo sairá de seu sono antes que seja tarde e reconsiderará sua política disfuncional. O que é preciso agora não é de proibição mas verdadeira expertise: o treinamento de especialistas que possam usar as substâncias psicotrópicas sabiamente e habilidosamente. Estou feliz em ver que parece que estamos chegando no tempo em que uma reconsideração dos psicodélicos pelo establishment está a caminho, e rezo para que um governo iluminado possa perceber e colocar em uso o potencial dos psicodélicos para a cura individual e coletiva.