O olhar do outro
Nestes dias estou refletindo sobre um trecho do livro de Susan Sontag no qual a intelectual americana observa como na sociedade atual "o outro, até quando não é um inimigo, é considerado apenas como alguém a ser visto, e não como alguém que (como nós) vê".
A observação é aguda, pontual. Sontag a faz dentro de uma reflexão que a ocupou por decênios: a da relação entre a fotografia e a guerra. Nesta ótica, a imagem fotográfica se torna espaço seja de exaltação patriótica como de compaixão humana: o corpo massacrado que jaz sob a objetiva pode se tornar ora cimento para a retórica bélica, ora instrumento de condenação à guerra, para todas as guerras. Em todo caso, entretanto, o dispositivo do olhar nos torna espectadores: o outro não tem o direito de olhar, mas apenas de ser olhado. A consideração abre pelo menos duas questões de ordem, todas as duas estreitamente ligadas com a formação enquanto esta possui de valor, e ainda ligado à ética (a formação, enquanto Bildung, construção do humano, não pode fazer referência sempre também ao valor).
Primeira questão. A espetacularização do sofrimento. A imagem da dor é algo que na sociedade da informação se torno mercadoria ao atacado: os telejornais e imprensa preenchem o nosso dia. As justificativas frequentemente são duas: o direito a informar e o suporto valor destas imagens. O implícito é que se somos informados da grandeza da dor que o homem pode causar, deveremos desistir de causar esta dor. Mas de fato o que se gera é algo de diferente. Olhando os sofrimentos dos outros, enquanto provamos compaixão, obtemos ao mesmo tempo um distanciamento de nós, porque tudo somado, aquilo que vemos não está acontecendo conosco. Se trata de um dispositivo seja da catarse aristotélica como da teoria sobre o sublime do ´700: "o espectador goza não do sublime contido nos objetos que a teoria abre – como observa Blumemberg – mas da consciência de si fornida ao turbilhão de átomos que consiste tudo o que observa – incluindo ele próprio". Compaixão sem empenho, compaixão como instrumento de distanciamento, compaixão como sedativo da emoção.
Segunda questão. O mesmo dispositivo de espectatura pode ser assumido como critério de interpretação de muitos fenômenos próprios da nossa sociedade. Penso àqueles que o sociólogo Marc Auge definiu como não-lugares e que ocupam grande parte do nosso tempo livre: o grande certo comercial, o outlet, os parques temáticos. Se trata de espaços nos quais o dispositivo da espetacularização se torna hiperbólico porque o seu objeto não é mais a realidade, mas o espetáculo. Como no caso da Disneylândia: "Nós vamos oferecer a vocês a experiência de uma liberdade pura, sem objeto, sem razão, sem necessidade de se colocar. Não reencontraremos isso nem na América nem na nossa infância, mas na gratuidade absoluta de um jogo de imagens no qual cada um dos que estão próximo a mim, não reencontraremos nunca mais. Disneylândia é o mundo de hoje, naquilo que há de pior e de melhor: a experiência de vazio e da liberdade".