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Os bastidores de
uma guerra
Fitas
revelam o lado oculto de uma
disputa bilionária no setor de telefonia.
Elas mostram todo o arsenal de recursos
com que muitos operam nos subterrâneos
dos grandes negócios

Consuelo
Dieguez
Bia Parreiras

O empresário
Nelson Tanure tem mandato dos canadenses para enfrentar o dono do
Opportunity: "Estou convencido de que temos de levá-lo
à loucura" |
O empresário Nelson Tanure é conhecido por se meter em grandes
negócios. Baiano, 50 anos, formado em administração
de empresas, em pouco mais de uma década já se aventurou
por vários setores da economia nacional - quase sempre deixando
atrás de si um rastro de polêmica. Foi assim com a Sade,
produtora de turbinas para geração de energia elétrica.
Em 1990, num controvertido episódio da era Collor, um grupo de
fundos de pensão de estatais enterrou 11 milhões de dólares
na empresa, que vivia em dificuldades financeiras. Por trás da
compra da companhia de Tanure, estaria a mão forte da amiga do
peito do empresário e então ministra da Economia, Zélia
Cardoso de Mello, que teria pressionado os fundos a aderir à operação.
Em sua meteórica trajetória ao olimpo dos grandes empresários,
Tanure chegou a ser dono de três grandes estaleiros, que detinham
80% de toda a capacidade instalada da indústria naval do Brasil.
Acumulou dívidas tão pesadas que, em 1997, afundou em sua
megalomania, sendo obrigado a retalhar seu latifúndio. No ano passado,
estima-se que tenha botado no bolso 100 milhões de reais, numa
transação espetacular: foi o preço para acertar os
ponteiros com os antigos proprietários do Banco Boavista, contra
quem vivia em guerra judicial – estes por sua vez tiveram de aceitar
o acordo com Tanure para conseguir vender o banco ao Bradesco, que queria
comprá-lo sem nenhuma pendência judicial. Recentemente, Nelson
Tanure comprou um dos mais tradicionais diários do país,
o centenário Jornal
do Brasil, estreando no ramo da comunicação.
Nos
últimos três meses, Tanure tem-se dedicado de corpo e alma
a outro negócio. Coisa de grande vulto e intrincada, como parece
ser do seu gosto. Uma empreitada que, segundo se comenta nos meios empresariais,
poderá engordar sua conta bancária em até 40 milhões
de dólares, caso seja bem-sucedido. Trata-se de uma negociação
para o grupo de telecomunicações canadense TIW, sócio
de duas empresas de telefonia celular no Brasil: a Telemig Celular e a
Tele Norte Celular, avaliadas em 2 bilhões de dólares. A
tarefa de Tanure é desfazer o nó em que a TIW se embolou
ao formar uma complicada e nada amigável sociedade com o Banco
Opportunity, de Daniel Dantas, outro baiano não menos polêmico.
A sociedade
foi formada na privatização do sistema Telebrás,
em 1998, e tem ainda como parceiros cinco grandes fundos de pensão.
O embaraço está no acordo de acionistas que Dantas conseguiu
produzir, numa jogada de mestre. A TIW, por exemplo, uma operadora de
telefonia que, pelo menos em tese, deveria intervir na gestão de
uma companhia telefônica, não tem poder nem para nomear um
contínuo. Por causa desse acordo, há quase três anos
os sócios se engalfinham numa disputa sem tréguas pelo controle
das empresas.
Bia Parreiras

Dantas:
ação para assumir o comando das telefônicas irritou
sócios e disparou a guerra |
Agora surge mais um ingrediente nesse enredo. Uma série de fitas,
que mostram com crueza impressionante a montagem de uma operação
de guerra para derrubar um adversário do mundo dos negócios.
Nas últimas semanas, a existência dessas fitas, ao que tudo
indica gravadas ilegalmente entre os meses de março e abril, tornou-se
o rumor da hora entre jornalistas bem informados, empresários e
políticos. VEJA teve acesso ao material gravado. Ali se apresenta
um exemplo extraordinário de como funcionam os bastidores de algumas
grandes negociações. Dos diálogos saltam estratégias
secretas e ataques pesados, que permaneceriam para sempre camuflados pelos
discursos oficiais, obviamente mais polidos, articulados. Pela primeira
vez os bastidores de um caso concreto são revelados em estado bruto.
As fitas mostram apenas um lado atuando, e o leitor deve levar essa peculiaridade
em consideração.
As gravações
reproduzem diálogos de Tanure com o presidente mundial da TIW,
o canadense Bruno Ducharme, definindo estratégias de atuação
contra o Banco Opportunity, de Daniel Dantas. Foram flagradas também
conversas do principal assessor de Tanure, Paulo Marinho, uma peça
ativa nas negociações em favor dos canadenses. Marinho,
que até o ano passado trabalhava para Daniel Dantas, é um
personagem bastante conhecido na sociedade carioca. Está sempre
próximo de cabeças coroadas do mundo dos negócios
e de mulheres bonitas, como a atriz Maitê Proença, com quem
foi casado. As gravações envolvem também um dos mais
influentes e respeitados jornalistas do país, o colunista Ricardo
Boechat, do jornal O Globo.
Na fita,
ele aparece participando de uma operação para ajudar Tanure.
Em um dos diálogos, ocorrido em 15 de abril, Boechat conta a Marinho
os termos da reportagem que está escrevendo para revelar manobras
do Opportunity e que seria publicada no dia seguinte em O Globo.
Pela conversa, fica evidente que a direção do jornal não
foi informada sobre o grau de ligação do jornalista com
Nelson Tanure e sobre o fato de que a reportagem foi minuciosamente discutida
com Paulo Marinho (veja a reprodução
de trechos). Não há nenhuma menção
a favor, pagamento e outras práticas irregulares de compensação.
Boechat e Marinho são, aliás, compadres e amigos de longa
data. Curiosamente, a reportagem acabou sendo usada, dez dias depois,
como peça de processo na ação judicial dos fundos
de pensão – aliados da TIW – contra o Opportunity. Advogados
utilizam com freqüência reportagens para embasar ações
que impetram. No caso de Boechat, a combinação anterior
pelo telefone com Marinho – e, muito especialmente, os termos usados
na conversa – é que torna a história constrangedora.
"Minhas fontes não são o cardeal Eugênio Sales nem
o presidente do Supremo Tribunal Federal. Já negociei matérias
com Daniel Dantas também. Não levo vantagem financeira com
isso", diz Boechat. "O que quero é a notícia." Em outro
diálogo, não reproduzido nesta reportagem, o jornalista
instrui Tanure sobre como agir e o que falar numa conversa com João
Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo,
para passar a imagem de um empresário sem ambições
políticas nem projeto de poder – características que
a Globo não veria com simpatia no concorrente dono do Jornal
do Brasil. Uma análise feita na semana passada, a pedido de
VEJA, pelo perito Ricardo Molina concluiu que "todas as evidências
indicam que, acima de qualquer dúvida razoável, a voz analisada
é do jornalista Ricardo Boechat". Molina afirma também que
"não existe nenhum indício de manipulação
que possa representar tentativa de montagem".
É
evidente que o mundo dos negócios não vive permanentemente
nesse clima de ataques abaixo da linha da cintura. Mas quando um dos personagens
da briga é Daniel Dantas, um economista de 45 anos, considerado
um dos mais brilhantes de sua geração, dificilmente se pode
esperar um cenário de calmaria. O dono do Opportunity é
um operador audacioso como poucos. Em apenas seis anos transformou seu
banco num colosso que administra fundos de investimento no valor de 3,4
bilhões de dólares. Seus domínios se estendem a setores
tão diversos quanto saneamento, transportes, telecomunicações,
portos, metrô, internet e futebol. Tem uma capacidade para fazer
inimigos tão espetacular quanto seu talento para os negócios.
A briga pela Telemig Celular e pela Tele Norte Celular é a mais
perfeita tradução do jeito Daniel Dantas de atuar.
Para participar
do leilão de privatização das duas empresas, em 1998,
o Opportunity se associou à TIW e aos fundos de pensão.
A TIW entrou com 49% dos recursos necessários para a compra das
empresas. Os fundos de pensão, por sua vez, entraram com 24% de
investimento direto, mais 27% através de recursos aplicados em
um fundo de investimento do Opportunity, que colocou ali uma parcela correspondente
a menos de 1% do valor da operação. No leilão, o
sócio canadense desembolsou, sozinho, 380 milhões de dólares,
com a promessa de ter participação na gestão das
empresas adquiridas. Foi feita uma carta de intenções estabelecendo
essas bases para o contrato. Tudo ficou só como intenção.
Bia Parreiras

O presidente
mundial da TIW, Bruno Ducharme: permissão para Tanure negociar
e articulação telefônica da estratégia
para destituir aliados de Daniel Dantas |
Batido o martelo, começou a confusão. Quinze dias depois
do leilão, Dantas sinalizou para os canadenses que o acordo inicial
não valia mais. Num estranho acerto com os presidentes dos fundos
de pensão, o Opportunity montou uma sociedade totalmente diferente
da desenhada inicialmente com os parceiros estrangeiros. Na época,
os fundos eram capitaneados por Jair Bilachi, da Previ, o fundo de pensão
do Banco do Brasil, e por Francisco Gonzaga, da Petros, o fundo de pensão
da Petrobras, que deixaram o cargo sob suspeita de má gestão
dos recursos dos fundos. A estratégia de Dantas foi juntar os recursos
dos fundos de pensão em uma só empresa, a Newtel, que passou
a deter 51% das ações da Telpart, holding da Telemig e da
Tele Norte. Embora tivessem maioria das ações, os presidentes
dos fundos concordaram em passar para Dantas o poder de gerir a companhia,
incluído aí o direito de escolher todos os dirigentes das
duas celulares e de definir todos os fornecedores. Assinaram ainda uma
cláusula bizarra, em que os conselheiros dos fundos se obrigam
a votar com o Opportunity, qualquer que seja a decisão do banco.
Caso votem contra, são imediatamente destituídos. Dantas
conseguiu manter-se forte enquanto teve os fundos do seu lado. No entanto,
as novas diretorias dos fundos de pensão começaram a questionar
os acordos feitos por seus antecessores. A briga esquentou quando os dois
sócios se uniram contra Dantas. Os fundos e os canadenses querem
que a Newtel seja desfeita e que, em seu lugar, seja criada uma sociedade
em que os três sócios tenham pesos iguais.
Foi em março,
no meio dessa confusão, que Nelson Tanure surgiu na história
como a figura que poderia salvar os canadenses. O presidente da TIW, Bruno
Ducharme, vislumbrou a chance de encontrar um competidor à altura
de seu adversário. Tanure era o homem. O que fica claro nessa história
é que os canadenses, que entendem quase nada de Brasil, acharam
que Tanure conhece suficientemente as artimanhas do adversário
para jogar um jogo de igual para igual. A manobra parece ter começado
a dar resultado. Há cerca de um mês os sócios conseguiram
uma vitória em cima do parceiro indesejado. Emplacaram o novo presidente
da Telemig e da Tele Norte, que passou a ser o executivo Gunnar Vikberg.
A manobra para a escolha do novo executivo foi montada com a ajuda de
Tanure, que combinou a operação com Ducharme, por telefone.
"Nosso foco é para tentar tirar o diretor (escolhido por Dantas)",
explica Tanure, num dos trechos grampeados. Deu certo, embora seja uma
vitória provisória, questionada na Justiça pelo Opportunity,
que já conseguiu destituir Vikberg da presidência da Telpart.
Enquanto
os dois sócios se armam para tentar enfraquecer Daniel Dantas nas
duas telefônicas, o banqueiro baiano tenta garantir as conquistas
obtidas. Nos últimos meses, tem feito ofertas aos fundos para a
compra das empresas. Quanto aos canadenses, embora sejam o maior acionista
individual, suas ações não têm o mesmo poder
de fogo sem o controle das empresas, que continua nas mãos de Dantas.
Até o final da contenda, as entranhas dessa guerra bilionária
deverão ficar cada vez mais à mostra. Mesmo porque o jogo
de poder entre Dantas, Tanure, canadenses e fundos de pensão está
longe do epílogo. Estão todos operando os meios à
disposição com ferocidade.
Com
reportagem de
Marcelo Carneiro
e Ronaldo França
|
A
construção de uma
estratégia de combate
Nelson
Tanure sabe perfeitamente o tamanho do adversário que tem
pela frente, mas, ao contrário do que acreditam os canadenses
da TIW, não conhece Daniel Dantas em detalhes. No diálogo
abaixo, o empresário se aconselha com Paulo Marinho, seu
principal assessor, sobre os caminhos que deve tomar para neutralizar
o inimigo. Um dos possíveis aliados que Tanure quer conquistar
agora é Jair Bilachi, que presidia o bilionário fundo
de pensão do Banco do Brasil na época do leilão
da Telemig e da Tele Norte. Outro que querem atrair para apoiá-los
é o ex-czar do fundo de pensão do BNDES. "Eu boto
esse cara no seu colo", diz Marinho. "Ele tá louco para ganhar
uma grana"
Marcos Rodrigues

Paulo
Marinho, assessor de Tanure: jogo "abaixo da cintura"
para derrotar o adversário |
Nelson Tanure – ...O que eu não conheço direito
é o nosso inimigo (Daniel Dantas).
Paulo
Marinho – Eu conheço, Nelson.
Tanure
– Não sei como vai ser a reação dele.
Paulo
– Eu atuei ao lado dele nos piores momentos dele neste
um ano e meio. Eu tava ali do lado no inferno astral dele, vi as
reações todas.
Tanure
– Não sei qual vai ser a reação dele.
Isso é o que me angustia.
Paulo
– (...) Como ele é muito talentoso e muito preparado,
Nelson... A gente não pode perder isso de vista. Ele pensa
pra c.... Se você se acha um cara que pensa, multiplica isso
por dez, é ele. Até porque você joga golfe,
tem quatro filhos. Ele só tem uma filha, que não vê.
E não tem outro prazer a não ser trabalhar. Então,
ele se aplica pra c...
Tanure
– Mas estou convencido de que temos que levá-lo
à loucura.
Paulo
– Ele não está, até pela qualidade
dos inimigos que colecionou até agora, acostumado a jogar
com o jogo abaixo da cintura.
Tanure
– Mais do que isso, fizeram coisas primárias. Eles
pediram destituição da companhia da qual eles não
eram sócios. Estou convencido de que estes advogados pegam
umas causas pra pegar honorários e só fazem m....
Mas não sei qual é a reação dele. Eu
quero tentar produzir algo pra gente dar uma sucessão de
feridas nele. E o seu papel é importante pra dizer (para
Daniel) 'é só o começo. Acabe com isso
no começo, vai ser um erro, Frank Sinatra (diz, em tom
irônico, claramente substituindo o nome de Daniel Dantas pelo
de FS) nesta operação'. (...)
Tanure
– Liguei pro Leleco (Barbosa) e o homem é
íntimo do Jair (Bilachi, ex-presidente da Previ).
Quer ir no nosso escritório amanhã. E esse cara tem
coisa pra gente operar com ele.
Paulo
– E ele é homem de trazer o Jair pro nosso lado.
Mas eu te liguei porque tenho a grande solução de
nome. Paulo Vales, foi durante dez presidências do BNDES ,
presidente da Fapes, o fundo de pensão do BNDES. Esse cara,
o Daniel, se você fala o nome dele, se c... todo nas calças.
Só de falar no nome dele. Se c... de medo. Se este cara sentar
numa mesa de operação... E conhece todos os caras
de fundos de pensão do Brasil. Você sabe quem é?
Tanure
– Sei demais. Mas, Paulo, esse cara não vai entrar
no nosso jogo não. Sabe por quê? Porque foi ele um
dos caras que me deu a f... na Sade (empresa que pertenceu a
Tanure e recebeu recursos dos fundos de pensão).
Paulo
– Eu boto esse cara sentado no seu colo.
Tanure
– Esquece. ...Eu lembro muito bem que foi a Fapes, lembro
que aquela maluca ligou (Zélia Cardoso de Mello, que no
cargo de ministra teria pressionado os fundos a investir na Sade)
e ele aproveitou e ligou para a imprensa.
Paulo
– Esse cara se aposentou e tá na mão e tá
naquele fundo de infra-estrutura.
E tá louco pra ganhar uma grana.
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A
corte ao senador
Jader Barbalho
Uma
operação selada em janeiro transferiu o controle do
Jornal do Brasil da família Nascimento Brito para
Tanure. Neste trecho, Paulo Marinho avalia os resultados da corte
que sua turma está fazendo ao senador Jader Barbalho. Jader
foi procurado sucessivamente por Tanure, o diretor da sucursal do
JB em Brasília, Teodomiro Braga, e pelo herdeiro da
família Nascimento Brito, José Antonio Nascimento
Brito, no mês de março. "Dali vai sair muita coisa",
diz Paulo Marinho. "O suficiente para pagar muitos compromissos"
Ana Araujo

Barbalho:
mais um na lista de amigos diligentes de Tanure |
Nelson Tanure – Alô.
Paulo
Marinho – Alô.
Tanure
– Fala Paulinho, tudo bem?
Paulo
– Tudo bem. Falei com o Josa (José Antonio Nascimento
Brito), mas...
Tanure
– Chegou agora?
Paulo
– Cheguei.
Tanure
– Como foi o Josa lá?
Paulo
– Ele me disse que foi bem, que conversou com ele (Jader
Barbalho). Aquela mesma conversa, tava meio apreensivo e tal.
Que ele vai assinar o negócio da CPI, mas combinado que o
partido não vai aceitar. Mas ele pelo menos dá uma
satisfação pública de que tá apoiando
a apuração dos fatos.
Tanure
– Então, ele disse que o partido não vai
aceitar?
Paulo
– É , mas combinado com o partido, entendeu?
Tanure
– Entendi, entendi...
Paulo
– Ele não quer botar querosene na fogueira, mas
ao mesmo tempo quer dar satisfação. Certo?
Tanure
– Certo (...)
Tanure
– Você acha que vamos marcar um tento hoje com ele?
Paulo
– O fato de ter ido de manhã com o Teodomiro (Braga,
diretor da sucursal do JB em Brasília) e o Josa
voltado agora à tarde e você ter tido aquela conversa
com ele... Essas três visitas já mostram interesse
em ajudar pra c... (...)
Tanure
– Outra coisa, Paulo. Nós precisamos conversar um
pouco, nós dois, calmamente, sobre o assunto Canadá.
Paulo
– Tá bom.
Tanure
– Tá bom? Vamos conversar sobre esse assunto que
eu tô com uma série de idéias. Eu tô trabalhando
neste assunto, viu? Hoje de manhã de novo reunião.
Hoje nós perdemos uma liminar. Porque... você se lembra
daquela liminar... O pessoal pediu a ampliação dela.
Hoje, o Tribunal não deu. Então faz com que o nosso
amigo (Daniel Dantas) esteja cada dia mais forte.
Paulo
– O que é bom...
Tanure
– O que é ótimo.
Paulo
– Cá entre nós, é bom.
Tanure
– Quer saber de uma coisa, acho que você tem um papel
muito importante. É, quando a gente entrar, fazer com que
ele não dê muita importância. Tipo assim: 'isso
aí é aventura'. Pra ele não focar.
Paulo
– Ainda que eu faça isso, ele é um cara que
é disciplinadíssimo, entendeu?
Tanure
– Mas, olha, em Brasília foi bem , né?
Paulo
– Foi ótimo, Nelson.
Tanure
– Você acha que dali vai sair, né?
Paulo
– Vai sair e se trabalhar vai sair não é
pouco não. Vai sair o suficiente pra gente pagar... muitos
compromissos.
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A imprensa como
arma na guerra
Ricardo
Boechat é um dos mais respeitados
jornalistas do país. Amigo
de Nelson Tanure há muitos anos, acabou virando munição
na briga do empresário contra o Banco Opportunity. Nesta
conversa que teve com Paulo
Marinho, braço direito de Tanure, Boechat relata os detalhes
de uma reportagem que escreveu e seria publicada no jornal O
Globo no dia
16 de abril contando as manobras planejadas por Daniel Dantas para
uma assembléia. O jornalista leu a reportagem inteira para
o assessor de Tanure, que aprovou. "Tá ótima", comentou
Paulo Marinho. "A matéria diz tudo que a
gente queria falar." Dez dias depois, a
reportagem de Boechat integraria
os documentos de uma ação
judicial (reproduzidos acima) movida
pelos fundos de pensão contra o Opportunity.
Tanure e os fundos estão do mesmo
lado da trincheira
Bruno Veiga

Ricardo
Boechat: "Minhas fontes não são o cardeal
Eugênio Sales nem o presidente do STF" |
Secretária – Pronto.
Boechat
– Oi, o Paulo, por favor.
Secretária
– Quem deseja?
Boechat
– Ricardo Boechat,
Secretária
– Um momento...
Boechat
– Obrigado.
Paulo
Marinho – Oi.
Boechat
– Oi.
Paulo
– Diga lá...
Boechat
– Seguinte: primeiro acho que a matéria talvez saia
assinada...
Paulo
– Hum, por você?
Boechat
– É...
Paulo
– Tá...
Boechat
– E aí temos que ver o seguinte... Eu estive pensando...
Esta é uma possibilidade que eu preferi não perguntar.
Vou te dizer o seguinte: eu também meio que descobri que
não adianta muito tentar dissimular esta relação,
não.
Paulo
– Entendi.
Boechat
– Eles já identificaram esta relação,
certo?
Paulo
– Certo.
Boechat
– ...que acabou sendo meio escancarada com este convite pra
eu ir pro JB.
Paulo
– Perfeito.
Boechat
– E, por mais que eu tenha dado como uma iniciativa do Mario
Sérgio (Conti, diretor de redação do JB)...
Ninguém... ficou aquela... o João Roberto, o Merval,
o Luiz Eduardo (integrantes da cúpula do jornal O
Globo)... Todo mundo sabe que o Nelson (Tanure) tem uma relação
de amizade pessoal.
Paulo
– Certo.
Boechat
– Eu pensei em dizer 'não assina, não'. Mas preferi
ficar calado.
Paulo
– Acho que você dizer pra não assinar eu acho
um erro. Tu não pode dar esta montaria pra esses caras...
Boechat
– Sabe o que mais? O último detalhe é o seguinte:
aquela última nota nossa do dia 3, quando a gente... quando
teve a reunião do conselho, que eu dei a história
da demissão, lembra? Da demissão do Arthur (Carvalho,
cunhado, braço direito de Daniel Dantas no Opportunity e
o representante
do banco nos conselhos de administração das telefônicas)...
Paulo
– Lembro.
Boechat
– Eles... quando deu, eu assinei. Eu dei na Agência Globo
sem assinar.
Paulo
– Eu sei, você disse que eles identificaram em dois minutos
que era sua a nota...
Boechat
– Eles botaram no ar um desmentido com meu nome. Então
é ridículo eu ficar dissimulando...
Paulo
– Claro.
Boechat
– Se fosse uma coisa clandestina.
Paulo
– Também acho, você tem razão.
Boechat
– Conheço o cara e... ele é uma fonte e tá
me dando uma notícia...
Paulo
– Exatamente. Aliás, é um erro dissimular isso.
Agora também é o seguinte, quer dizer...
Boechat
– ...(inaudível) escancarar.
Paulo
– Mas também se os caras não colocarem com seu
nome, você não vai reclamar por causa disso.
Boechat
– Não, de jeito nenhum. Enfim, outra coisa, diferentemente
do seu material é preciso falar com o Nelson: "Nelson, a
adjetivação não é uma característica
da notícia. Não tem como adjetivar".
Paulo
– Perfeito.
Boechat
– Então, o texto que eu mandei pro Duda, o cara que
tá fechando a edição pra amanhã...
Paulo
– Rãrã...
Boechat
– Me disse que tá dando bem. Então, suponho que
ele vá dar a matéria na íntegra, pá-pá-pá.
Não sei que título ele vai dar. Seguinte: o texto
que eu mandei, eu disse assim pro Mineiro (Luiz Antonio Mineiro,
editor de Brasil de O Globo): 'Mineiro, aí vai
a matéria. Eu não consegui falar com o pessoal da
Economia, mas tentarei mais tarde. Estou no telefone tal. Se for
preciso peça à telefonista... Acho que este assunto
vai dar um bom caldo. A intenção de demitir os conselheiros
dos fundos consta da ata da assembléia convocada pelo Opportunity
no dia 17 no Monitor Mercantil (jornal carioca de economia).
E a estréia do ex-governador (Antônio) Britto
(que acabara de ser contratado pelo Opportunity) no fascinante
mundo do lobby financeiro, quem diria?, ainda não foi revelada
por ninguém'. Aí vai o texto...'. Um abraço,
Boechat' e tal. Aí, começei da seguinte maneira. É
um texto curto e tal. Dizendo assim: (O jornalista lê na
íntegra a reportagem que foi publicada em O Globo
no dia seguinte.)
Paulo
– Tá ótima a matéria, diz tudo o que a
gente queria falar.
Boechat
– Agora, não dá pra dizer que a atitude é
ilegal, entendeu? Mas é isso aí.
Paulo
– A matéria tá muito bem-feita, meu querido.
Tá na conta. Não precisa botar mais p... nenhuma,
não. O resto é como você falou: é adjetivação
que você não pode colocar. (...)
Boechat
– Os caras disseram que vão dar bem a matéria,
vamos ver. (...)
Paulo
– Amanhã, eu te ligo pra te dar notícia da matéria.
Boechat
– Pra saber se deu certo.
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