Assembleia de Freguesia de Stº. Antº. dos Cavaleiros
18 de Abril de 2008
25 de Abril 34 anos depois
“Quando se ameaça a liberdade de alguns, ameaça-se a liberdade de todos"
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
Sophia de Mello Breyner Andresen
Trinta e quatro anos depois, o 25 de Abril tornou-se, por assim dizer, o dia a dia.
É a liberdade de cada dia. Mesmo para aqueles que não sabem o que foi o 25 de Abril.
Ou para aqueles que não gostam dele e o caluniam. Ou para os que, sem o pôr frontalmente em causa, tudo fazem para que pouco a pouco seja esquecido, minimizado ou deturpado.
Por isso, todos aqueles que fazem de conta que o 25 de Abril é um dia como os outros estão, sem o saber, a comemorar o 25 de Abril.
Todos aqueles que hoje disserem mal da revolução dos cravos estão, sem querer, a prestar uma homenagem ao 25 de Abril.
Porque foi o 25 de Abril que restituiu a todos os portugueses, mesmo àqueles que são contra ele, o direito de viver sem medo, de falar sem medo e, sobretudo, a liberdade de discordar sem medo.
E mesmo que o imaginário abrilista não esteja na moda, mesmo que os valores dominantes não sejam propriamente os da revolução de Abril, mesmo aí se manifesta a sua superioridade.
O 25 de Abril rompeu com um passado de miséria e atraso. Um país isolado, triste e escondido do mundo. Um país pobre e exausto, um país massacrado e devorado por uma guerra imposta e travada em nome de um império caduco.
Muitos não guardam memórias desse Portugal. Mas ele existiu, mesmo que haja quem o queira esquecer, esconder, desculpabilizar ou mesmo recuperar.
Esse Portugal acabou no dia 25 de Abril às mãos dos capitães de Abril e por força da torrente revolucionária que o povo trouxe para as ruas. O 25 de Abril foi em Abril, não foi em Novembro, como alguns nos tentam fazer crer, reinventando uma história que não aconteceu como desejavam.
Reafirmamos a nossa cumplicidade com a Revolução. O seu impulso transformador e transgressor projecta-se até aos dias de hoje. Como um património que molda a nossa responsabilidade e nos implica no exercício de uma cidadania exigente e solidária.
Passados que estão hoje 34 anos do 25 de Abril
O estado do país, o estado a que chegámos, é o resultado de opções políticas, de escolhas ideológicas. De uma direita que não desistiu da sua revanche, de uma esquerda envergonhada cuja modernidade está salpicada de naftalina, de uma esquerda simplex.
As políticas e os governos sucederam-se, indistintos, monótonos, cinzentos, incapazes de vencer os problemas do país.
Para quem falhou absolutamente na construção do futuro, tudo serve de álibi: a herança, o governo anterior, os funcionários públicos, o PREC, as nacionalizações, o preço do petróleo, o crescimento da China, a Constituição da República.
Os portugueses estão cansados de tanta desculpa.
E não é da democracia ou da Constituição que se queixam.
Nem uma nem outra são responsáveis pelo défice das contas públicas, a estagnação económica, o crescimento do desemprego, o aumento da pobreza, o mau governo das cidades, as assimetrias regionais.
A democracia e a Constituição não são responsáveis pelo insucesso escolar, não dificultam o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, não burocratizam a Administração Pública, não atrasam o funcionamento dos tribunais, não entravam a produção artística e cultural, não menorizam a investigação científica e o progresso tecnológico.
O povo não se queixa da democracia e da Constituição.
Queixa-se dos escandalosos lucros da banca, da sacralização do mercado, da subordinação da política ao poder dos grupos económicos e financeiros, do assalto ao aparelho de Estado por sucessivas vagas de clientelas partidárias.
Queixa-se da desagregação dos serviços públicos, da transformação do estado social num estado assistencialista de vocação misericordiosa.
Queixa-se da redução das prestações sociais, do encerramento das maternidades, das urgências, das escolas, dos postos de correio, das linhas de comboio. Queixa-se do abandono do interior.
Queixa-se da passividade dos governos e dos governantes perante a corrupção, o crime económico, a fuga aos impostos e a fraude fiscal.
Queixa-se do desvio dos dinheiros públicos, das negociatas de muitos autarcas.
São essas políticas e os partidos que as defendem que estão em crise.
É deles que o povo se queixa, afasta e desinteressa.
Nem a democracia, nem a política estão em crise.
O que está em crise é a alternância sem mudança, a ausência de alternativas, o centrão, os homens providenciais sem alma, sem chama, sem projecto.
Cabe a cada um assumir as suas responsabilidades. A todos. Antes de mais, aos próprios eleitos. Quem não cumpre as suas responsabilidades empobrece a democracia.
Queremos democracia eleitoral, impedindo que, na secretaria, se mude a verdade democrática. Uma Autarquia com os eleitos mais próximos dos eleitores depende da vontade e da competência dos eleitos, não depende de manipulações eleitorais.
Queremos uma democracia mais próxima dos cidadãos, uma verdadeira democracia participativa.
Queremos um Estado Social, esse que nasceu de Abril e que continua Abril.
Um Serviço Nacional de Saúde gratuito, universal e de qualidade. Uma educação inclusiva e dirigida aos cidadãos. Um sistema de segurança social que não se limite a dar a muito poucos o mínimo dos mínimos.
Queremos um desenvolvimento económico que não condene os nossos cidadãos ao trabalho sem direitos e mal pago, e à obrigação de competir com a super-exploração das potências asiáticas, onde há muitos dólares mas muito poucos direitos.
Queremos igualdade com respeito pela diferença. A democracia é para todos, nas suas diferenças.
O 25 de Abril começa, como sempre, hoje. Não é uma peça de museu, não é uma relíquia do passado. É um projecto de futuro.
Saibamos nós porque o fizemos e saberemos voltar sempre a começá-lo. É por isso que repetimos de novo: 25 de Abril sempre!
Bloco de Esquerda
Manuel Silvestre
Santo António dos Cavaleiros, 18 de Abril de 2008