1


A COOPERAÇÃO COLETIVA NA PRODUÇÃO E SEUS DESAFIOS1


  1. Aspectos Gerais da Luta no Meio Rural


Na década de 90 ocorreu em todo mundo, um intenso processo de concentração e centralização do capital. Nunca se viu na história moderna o tamanho controle de algumas multinacionais sobre o comércio mundial e sobre o processamento de alimentos. Junto a isto se iniciou uma profunda mudança na base técnica da produção na agricultura. A biotecnologia é a base para o novo jeito de se produzir na ótica capitalista.

Estes fenômenos recentes, trouxeram ao pequeno agricultor uma dificuldade ainda maior de se reproduzir com dignidade na terra. Mesmo para as formas sociais superiores de organização (coletivos), as dificuldades de se manterem neste contexto ampliaram-se.

Assim aos pobres do campo se colocou uma necessidade de destruir este modelo agrícola que as elites brasileiras estão introduzindo no meio rural. Este passa a ser o objetivo estratégico daqueles que lutam no campo.

Se destruir o modelo agrícola vigente é o objetivo principal, como caminhar neste sentido, num período em que ha um intenso controle social por parte do Estado Brasileiro, onde se verifica ainda um refluxo nas lutas populares?

Este caminho (tática) é justamente o da RESISTÊNCIA. Não porque queremos que seja assim. Mas porque neste contexto é o caminho que nos garante a sobrevivência e não a seleção e a exclusão. Resistir na terra, negando o modelo que nos quer negar como pequeno agricultor, buscando destruí-lo. Este é o caminho neste período histórico. Teremos de construir núcleos de resistência na terra, onde se afirme outros “modelos” que negue na essência o modelo atual e que permita construir um novo animo e uma nova comunidade de idéias entorno de um projeto político.

Como traduzir então este momento tático de resistência em vistas de impulsionarmos a cooperação na produção? Abaixo segue uma tentativa, apontando elementos que nos ajudam a formular novos coletivos e ajustar os atuais. Então vejamos:


  1. Evolução e Desenvolvimento de um Coletivo (suas Fases)


Ao estudarmos a evolução de nossos coletivos, observasse um ciclo comum entre eles, embora com tempos distintos, que podem ser sistematizadas em 3 grandes fases:


1º Fase: Refere-se aos primeiros anos do coletivo, onde as condições são precárias, norteadas pela escassez. Observasse ai a inexperiência administrativa e organizativa e o desenvolvimento das forças produtivas são muito pequenas. A distribuição da riqueza gerada esta atrelada as necessidades das famílias. Existem varias demandas de investimentos no campo econômico e as condições sociais são precárias (moradia, nível de consumo). Com isto os postos de trabalho existentes são poucos em vistas do grande número de mão de obra disponível. Verifica-se também que no grupo há em média, um baixo domínio técnico e um predomínio da desvalorização do trabalho administrativo.


2º Fase: Esta fase se inicia na medida em que entram os primeiros recursos. Os investimentos decorrentes deste ingresso de capital, força um salto econômico no coletivo. Aumenta-se a produção (normalmente num modelo tradicional de agricultura). Elevasse as forças produtivas, aumentando com isto a produtividade do trabalho. Apesar de continuar o descompasso entre a mão de obra existente e o baixo número de postos de trabalho. A inserção nos mercados consolida-se. Como produto deste processo aumenta a monetarização da vida no coletivo e as necessidades gerenciais e organizativas crescem, tornando-se mais complexas e exigentes.Os desejos dos associados orientam-se pelas melhorias na qualidade de vida, mas frustram-se pela pequena resposta econômica obtida. Neste contexto os coletivos passam por fortes rachas internos e desistência.


3º Fase: Tem inicio quando o processo de agroindustrialização se consolida (observasse que os coletivos que ficarem na produção primaria não chegarão a esta fase). Aqui a inserção nos mercados já apresenta uma especialização em uma ou duas atividades, mas com um “mix” de produto. A organização administrativa torna-se mais complexas e exigente e o capital de giro passa a ser um ponto estrangulante na atividade econômica. Quanto a organização do trabalho nesta fase ocorrem diferenciações entre os coletivos podendo caminhar para:


  1. aqueles coletivos que ainda não conseguiram equilibrar a força de trabalho disponível com a força de trabalho necessária, seja em uma atividade ou no conjunto das atividades do coletivo.


  1. Aquele coletivo que conseguiu ajustar a F. Trabalho Disponível com as necessidades de trabalho em algum setor, mas no geral do coletivo continua o descompasso;


  1. Coletivo que conseguiu ajustar a força de trabalho as reais necessidades de trabalho no conjunto das atividades


  1. Aqueles coletivos que presenciam a falta de força de trabalho em vistas das demandas de trabalho, buscando o assalariamento externo ou buscando a entrada de novos sócios.



  1. Orientações Gerais sobre a Organização Econômica dos Coletivos


Ao longo destes anos a organização dos coletivos evidenciou que o esforço para a melhoria de vida das famílias que se integram nos coletivos, passam por fatores objetivos que abaixo relacionamos. Mas as mudanças ora necessárias passa sobretudo por um forte componente político ideológico, necessário para fazer as mudanças na matriz (modelo) de consumo, na matriz de produção e na matriz cultural. É claro que o ajuste destes fatores nos coletivos atuais, requer uma análise pontual (caso a caso). Mas de qualquer maneira podemos tirar algumas lições e orientações gerais para os novos e para os atuais coletivos:



    1. Estrutura ou Estratégia – Qual Caminho a Seguir ?


A experiências dos coletivos revelaram que demos ênfase maior, valor aos aspectos visíveis do processo econômico (Silos, Maquinas, etc). Desconsideramos o conhecimento, a informação que é uma coisa “invisível”. Neste contexto as informações e conhecimentos sobre os mercados são determinantes, chaves para delineamento da estratégia econômica.

Assim teremos de desenvolver uma estratégia onde a estrutura seja mínima para manter viva a estratégia, calçada num bom conhecimento do mercado. Evitando com isto que as estruturas gerem custos elevados e passem a pressionar os coletivos a buscarem formas para viabiliza-la.

Outro aspecto da estratégia refere-se a garantia de uma plena diversificação da produção para o auto consumo, garantindo uma oferta variada de produtos alimentares e de boa qualidade. Além de se prever, planejar o ingresso de renda monetária mensal, que possibilite a distribuição de recursos aos associados, melhorando a qualidade da satisfação das necessidades básicas familiares.



    1. A Inserção nos Mercados


Dominar o mercado é antes de tudo ter informação sobre ele. Trata-se de um conhecimento do lugar onde me situo, onde me encontro. O que implica em dizer que temos de ter uma postura ativa para construir este conhecimento mercadológico local e regional. Assim a sua inserção deve levar em conta uma estratégia que lhe mantenha sobre seu controle as variáveis deste processo de comercialização. Quando me insero em mercados mais globalizados os centros de decisão ficam mais distantes e menores são as nossas condições de controle e de interferência.

Desta forma, o coletivo pode ter uma presença nos mercados com uma variedade de produtos ou ser especializada (mas com um amplo “mix” de produtos), mas sempre com o domínio e o controle deste mercado.


    1. Processo Produtivo e Modelo Tecnológico


A realidade das cooperativas que foram acompanhadas ao longo destes 3 anos, pela Concrab, revela que o nosso problema não esta em produzir mais. Hoje já fazemos isto. Temos uma expressiva produção dos produtos direcionados aos mercados. Trata-se pois, de vender melhor e produzir com melhor qualidade.

Evidentemente que deveremos buscar alternativas tecnológicas que reduzam os custos econômicos, sendo elas mais adaptadas à realidade, ambientalmente mais sadias e que aproveitem melhor os recursos internos disponíveis. Aqui se requer uma qualificação na gestão tecnológica.


    1. Organização do Trabalho


A agricultura pelas suas características impõe dificuldades técnicas para a introdução plena da divisão técnica do trabalho, implicando em limites a produtividade do trabalho. Reconhecer a necessidade do aumento desta produtividade também se requer reconhecer em que tipo de relação social ela esta inserida em que condições se encontram o desenvolvimento das forças produtivas. Ainda que busquemos o aumento da produtividade do trabalho, devemos reconhecer a sua limitação em nossos coletivos, compreendendo que teremos de conviver com esta forma intermediaria da organização do trabalho expressa pela forma do mutirão.

Apesar disto deveremos caminhar para o estabelecimento de METAS nas atividades principais sobre o tempo de trabalho socialmente necessário para a obtenção de uma determinada produção. Em fim, casar uma meta de trabalho com a produtividade física obtida é o próximo passo que deveremos dar.


    1. Distribuição de Sobras


Por mais que se tenha avançado as formas de controle e de gestão do trabalho em nossos coletivos, ainda ocorre um descompasso entre a distribuição da renda e a efetiva produção obtida. Na realidade a produção efetiva não é a base para a distribuição das sobras aos associados. No fundo a distribuição de sobras ainda é e será um elemento determinado circunstancialmente, de acordo com o clima interno do coletivo, estando dependente do momento político vivido. Por mais que não se recomende ainda se utiliza parte do financiamento agrícola para aliviar as pressões internas vindas da satisfação das necessidades básicas das famílias. Apesar disto é importante à recomendação de que devemos buscar atividades econômicas que gerem alguma renda mensal para satisfação destas necessidades básicas (distribuição monetária). Tal como manter a orientação de que o valor das horas deve estar associado ao volume de recursos gerados pela produção. Esta orientação continua tendo validade e deveremos buscar mante-la. Evidentemente que também deveremos avançar em mecanismo de controle do trabalho que remunere aquelas brigadas ou grupos que trabalham mais e melhor. Por isto as metas de produtividade deveram ser estabelecidas.


    1. Política de Financiamento


Os estudos demonstram que os coletivos requerem entrada de recursos externos subsidiados. Sem eles as condições de reprodução dos meios de vida e de trabalho tendem a se reduzirem e a se inviabilizarem.

Ocorre que esta necessidade de financiamento, em condições subsidiada, de pouco efeito tiveram quando foram deslocadas de uma estratégia clara de desenvolvimento econômico. Ao contrario o crédito induziu a investimentos equivocados que hoje pressionam para uma insustentável busca da eficiência e da competitividade a todo custo, criando um circulo vicioso que não aponta saída no campo econômico. Restando apenas uma saída no campo político: renegociação das dívidas em condições alongadas, adequadas a cada caso.

A presença do crédito também induziu os nossos coletivos ao relaxamento no controle gerencial, no esforço de adaptações tecnológicas e numa falsa sensação de prosperidade econômica, trazendo agora uma forte ansiedade por parte dos sócios visto ao elevado perfil de dividas de nossos coletivos.

Assim o financiamento deve estar casado, aliado, submetido, a estratégia econômica do coletivo, sendo ele um instrumento para consolidar tal estratégia.


    1. Processo de Agroindustrialização


A presença da agroindústria no coletivo, na medida em que ela se consolidou acelerou rapidamente o faturamento bruto do grupo, trazendo a necessidade de um aumento no controle gerencial, e um movimento financeiro maior, destacando-se a necessidade do capital de giro. Esta claro também que à medida que caminho para a agregação de valor a produção, existe uma correspondente agregação de custos, de forma que estes não devem anular os ganhos vindos desta agregação.

Percebe-se que um bom caminho é iniciar a agroindustrialização com unidades de processamento mínimo em escala ajustada aos mercados locais e regionais. É um aprendizado que leva um bom tempo. Esta dimensão artesanal, neste principio, também ajudam a evitar os custos advindos das imposições da legislação sanitária e em muitos casos tributária.



  1. Considerações sobre as Relações Humanas no Coletivo


O assentamento é hoje um fenômeno social que terá uma crescente investida do Estado para o seu controle. É neste contexto, de permanente disputa e de conflito (vindas da relação com o Estado e com o Mercado) que devem ser entendidas as relações humanas.

As relações humanas, não devem ser reduzidas às relações entre as pessoas. Elas se estendem ao plano das relações com a natureza e ao plano das relações entre os homens mediadas por normas e valores existentes na sociedade.

Ao atuar neste campo devemos ter presente que as relações humanas devem ser trabalhas em todas as esferas da vida: econômica, política e ideológica. Trabalhar fragmentadamente estes aspectos restringe o trabalho à solução momentânea dos problemas das relações entre pessoas e das relações de gênero. Por isto trata-se de um trabalho de Desenvolvimento Organizacional. Portanto este trabalho deve ser compreendido como um processo onde o coletivo deva assumir como seu e ele dirigir, adequando a sua realidade e ao seu tempo.

Em via de regra um trabalho desta natureza pressupõem: a participação de todas as pessoas do coletivo (jovens, mulheres, homens, crianças, idosos); voltadas para as questões concretas e reais; que não deva parar, tendo acompanhamento permanente; não havendo regras pré-estabelecidas variando de caso para caso; Desenvolvida em fases (coleta de dados da realidade, analise, avaliação das ações); Variando de níveis (plano individual, plano intergrupal; plano organizacional)




A forma de se realizar este trabalho de Desenvolvimento Organizacional, visto a limitação de pessoas, deverá iniciar em uma experiência (caso exemplar) com acompanhamento regular onde se faça presente pessoas de outros coletivos que possam absorver o método e futuramente inicia-la em sua realidade. Tal como buscar qualificar pessoas deste coletivo que possam no futuro contribuir em outras localidades.


O objetivo principal deste trabalho é chegarmos a ter um coletivo que consiga conviver melhor, sabendo lidar com seus conflitos internos, motivada a busca de um projeto político maior e uma cooperativa que tenha uma estratégia implementada e mecanismos de gestão e participação que garantam uma qualidade digna de vida as suas famílias.

1 Texto elaborado a partir dos estudos apresentados sobre os Coletivos do MST, durante Seminário sobre as CPAs, realizado entre os dias 4 a 6 de abril 2001, em Caçador/SC.