A rainha louca
A primeira mulher que governou Portugal. D.Maria l (1734-1816) subiu ao trono com a promessa de apaziguar a sociedade portuguesa, crispada pelas medidas reformadoras impostas pelo Marques de Pombal. Logo nos primeiros meses de reinado, em 1777, decretou um indulto geral que libertou perto de 800 presos- entre nobres(incluindo os familiares de Távora), eclesiásticos (como o bispo de Coimbra e vários jesuítas)e, sobretudo, gente do povo. Foram iniciativas como esta que logo associaram à nova rainha o cognome de a Piedosa.
A demissão de Pombal, a mudança de pessoal político e a influência recuperada pela alta nobreza caída em desgraça no reinado de D.José fizeram com que este período ficasse conhecido como a " Viradeira". A aristocracia era encabeçada pelo marido (e tio) da rainha, D.Pedro lll, irmão de D.José. Além da alta nobreza, também a igreja regressou ao poder com a viradeira. D.Maria era extremamente devota e a sua religiosidade exacerbada tocava as raias da superstição, já desde os tempos de princesa na corte do avô D.João V. Por altura da sua aclamação, um viajante francês escreveu que o confessor a convencia a gastar em penitencias o tempo que devia empregar com mais utilidade para o bem do povo. No entanto, era precisamente esse confessor- D.Frei Inácio de S.Caetano, arcebispo de Tessalónica e inquisidor-geral, nomeado ainda pelo Marques de Pombal quem acalmava os exageros da devoção que atormentavam D.Maria.
A morte de D.Pedro lll, em 1786, afectou-a, mas o grande golpe na sua saúde mental foi a dupla perda que sofreu em 1788. A 11 de Setembro morreu, com um ataque de bexigas, o filho mais velho, o príncipe herdeiro D.José, com 27 anos. Poucos meses depois, a 29 de Dezembro, morreu D.Frei Inácio de S.Caetano. Sucedeu-lhe como confessor da rainha e inquisidor-geral o bispo do Algarve. D.José Maria Melo, um dos homens mais reaccionários da corte.
O novo confessor atormentava constantemente a soberana, lembrando-lhe as penas que o pai D.José l, estaria a sofrer no inferno por ter consentido a politica de pombal. Não perdia uma oportunidade para alimentar a perturbação de D.Maria, dividida entre os deveres de Rainha e filha- recusava-se a condenar a memória paterna, o que resultava numa incessante tortura psicológica. As noticias da Revolução Francesa encontraram-na num estado de grande fragilidade. Acabou por perder completamente o juízo.
No principio de 1792, a rainha foi sangrada e levada a banhos, mas, no dia 10 de Fevereiro, os mais prestigiados médicos do reino assinaram um boletim confirmando que a saúde de sua majestade no estado em que se encontrava não lhe permitiria ocupar-se dos assuntos do estado. Tinha 57 anos e estava oficialmente louca.
O príncipe D.João (futuro D.João Vl) passou a governar em nome da mãe, mas só em Julho de 1799 assumiu o título de príncipe regente. A última aparição pública de D.Maria l em Portugal foi a 27 de Novembro de 1807, no dia em que a corte embarcou para o Brasil para escapar á invasão francesa comandada por junot. Perante a confusão geral da fuga, a rainha já com 73 anos, teve um assomo de lucidez, resistindo a descer do coche:" mais devagar! Diriam que fugimos".
Morreu no Rio de Janeiro, com 81 anos. Está sepultada na Basílica da Estrela, em Lisboa.

Adaptação da reportagem "histórias da História" de João Ferreira.