Música tema : Greatest Story Ever Told , by Oliver James




Esta não é uma história de príncipes e muito menos de princesas. Talvez ela só tenha sido contada para assustar e alertar as criancinhas de uma era onde a “solidão” é só uma opção...


O fato é que talvez seja muito mais que isso.


A maior das histórias.

 

 

3 de Agosto de 1283 – Hamelin, Alemanha

 

Nas ruelas de uma cidade extremamente pequena algumas crianças sentavam-se no chão e batiam suas bolinhas de gude umas contra as outras a fim de ver quem era o melhor da região. Todas tinham um sorriso despreocupado no rosto, mas seus pais estavam de vigia há alguns metros dali...

 

As mulheres daquela cidade tinham se acostumado a andar sempre armadas. Afinal, os homens trabalhavam nos campos e elas eram as responsáveis por cuidarem da cidade enquanto eles estavam fora. Manter o comércio em alta, as plantas regadas, as roupas passadas... e as crianças sãs e salvas, fora dos perigos que assolavam a era.

 

Entretanto, o perigo maior estava mesmo debaixo do nariz de cada uma delas; quase que literalmente. Por isso andavam com uma vassoura rua acima e abaixo. De nada adiantava, na verdade, pois eram lentas demais para saber usá-las com astúcia. Desse modo, todos estavam sempre correndo perigo.

 

O perigo de uma doença que devastava regiões e que a maioria não sabia nem pronunciar o nome. Mas sabiam de onde ela vinha.

 

Deles.

 

Daqueles ratos imundos que infestavam cada cantinho, cada casa, cada centímetro das poucas milhas que a cidade ocupava no meio da Europa pouco formada.

 

A infestação tinha começado há pouco tempo, mas tinha acabado com muita das coisas consideradas normais no povoado. A comida aparecia sempre mexida e estragada; os comerciantes ficavam receosos de aparecerem; as crianças tinham perdido a liberdade de brincarem nos canaviais... Pois, afinal, os sábios diziam que eles eram os maiores esconderijos desses roedores.

 

Bicinhos tão pequenos e quase inofensivos tinham transformado a vida dos cidadãos daquele povoado como um furacão. Até as pedrinhas falhas que cobriam as ruas e as diferenciavam das calçadas mal feitas escondiam ninhos de centenas de ratinhos...

 

E estava decidido, então, que aquele ser de quatro patas, rabo comprido e bigode farejador era o inimigo que ocupava todas as posições da lista dos aldeões; se é que tal coisa chegou a existir. Portanto, todos da cidade concordavam que sua extinção era necessária a quase qualquer custo.

 

Os esforços para tal começaram rápido. Quando queriam se mobilizar para fazer algo, os seres humanos dali até conseguiam agilizar bastante as coisas. Ganharam ajuda até dos comerciantes da cidade vizinha... Ou seria porque, talvez, ela seria a próxima a ser atacada pelos malditos roedores de esgoto?

 

As mulheres começaram a se revezar entra as vassouras e a pintura. Como poucas sabiam escrever, desenhavam o que conseguiam chamar de “rato” em vários panos e seus maridos completavam com a frase que tinham escolhido por votação na praça principal:

 

“Procura-se um caçador de ratos

 

E foram feitos dezenas, centenas desses panos com desenhos de ratos e frases borradas de tinta preta. Depois, os comerciantes começaram a distribuir pelas aldeias e povoados ao redor daquela que já estava amaldiçoada, pedindo clemência. O trigo plantado ali era de extrema qualidade; eles não podiam correr o risco de ficarem sem... Por isso ajudavam.

 

Cada um pensando na própria mesquinhez, pouco a pouco a notícia e o pedido de ajuda foram se espalhando pelo país. As pessoas cochichavam e comentavam a todo momento. Nada mais era como antes. Algumas até chegavam a duvidar e iam à cidade de Hamelin para verem com os próprios olhos a infestação de ratos.

 

E viram. Comprovaram e depois trataram de colocar a notícia nos ventos para que ele se encarregasse de trazer o caçador de ratos de que tanto precisavam.

 

Então um dia ele apareceu.

 


11 de Maio de 1284 – Hamelin, Alemanha

 

O dia estava ensolarado. O céu, bastante claro, iluminava a fonte que jorrava água no meio da praça central. As gotas caiam nas pedrinhas úmidas da rua e nos matinhos que se aglomeravam ao redor do local... Todas brilhando com o dia. As árvores maiores cobriam com a sombra as barraquinhas de verdura e legumes que se espalhavam pela praça. As senhoras com seus vestidos bufantes carregavam cestas de alimentos e gritavam seus preços em voz alta.

 

Uma, duas charretes com altos cavalos negros rodearam o chafariz de mármore. Uma delas parou e o condutor desceu para abrir a porta de uma das cabines. As pessoas pararam de gritar e alguns olhares se viraram para o centro da praça.

 

Do outro lado da cena, um par de botas bateu com força nas pedras do chão e observou a situação com precisão, caminhando lentamente até o chafariz depois.

 

Um homem baixinho, de bigodes grisalhos e chapéu com penas desceu da charrete. Suas botas eram de uma textura diferente de todas as outras. Seu chapéu era colorido e a fivela que prendia seu cinto tilintava com o sol assim como a água. Ele fungou alto e olhou a sua volta. Algumas mulheres fizeram uma reverência e depois voltaram aos seus afazeres quando reconheceram quem era: o burguês mais rico da região, Karl Drek.

 

Ele tinha ordenado a caça aos ratos que estavam prejudicando seus lucros.

 

Naquele dia, Drek estava na praça principal, local que quase nunca visitava, por um motivo especial. Ouvira um boato bastante tentador sobre um senhorzinho que se dizia ser capaz de acabar com o maior problema de sua vida: os roedores de Hamelin.

 

Ele passou os dedos sujos pelo bigode e os envergou até o nariz, apertando os olhos para as pessoas ao redor. Não via ninguém diferente. Estava impaciente para esperar o tal forasteiro, mas não podia arriscar. Ou era sua roupa suada e a obrigação de ter de tomar um banho depois, ou sua fortuna nos canaviais. Lógico que isso não era uma escolha.

 

O outro par de botas que não conheciam aquelas pedras úmidas da água do chafariz quase tropeçou em um rato ligeiro, que saiu sabe-se lá de onde e correu entre suas pernas para uma das barracas. Uma mulher soltou um gritinho agudo e o burguês se virou para ver um garoto sorrindo com prazer da cena. Seus olhos se desviaram do rato e da barraca e encontraram o bigode áspero do homem mais velho. Seu sorriso se alargou ao ver seu cinto, suas botas lustrosas e suas charretes com belos cavalos.

 

O burguês soube então que talvez não estivesse perdendo seu precioso tempo. O jovem se aproximou com cautela dele, tirou o chapéu velho e cheio de ácaros da cabeça e se curvou, colocando uma das mãos à frente a outra nas costas. Não havia nenhuma bagagem nem ninguém ao redor dele.

 

A mulher que gritou começou a prestar atenção na cena quando não conseguiu reconhecer pela memória o rosto daquele garoto que se curvava diante do burguês majestoso.

 

_Permita me apresentar, senhor. – o garoto se endireitou e colocou o chapéu novamente na cabeça, cobrindo seus cabelos escuros que iam até as bochechas, em um corte nada harmonioso. Além disso, sua aparência era de quem não via uma gota de água no corpo há uns meses. Drek não quis se aproximar dele mais do que aquele metro de distância para comprovar.

 

_Quem é você? – Drek resmungou, interrompendo-o na sua voz rouca de charutos. O mais jovem arqueou as sobrancelhas e suspirou. Odiava burgueses irritadiços.

 

_Eldrich. – ele disse. Karl Drek olhou-o das botas surradas ao chapéu marrom. – Eldrich, o caçador de ratos, ao seu dispor.

 

Seus olhos se arregalaram um pouco. As mulheres que estavam em volta se viraram para o chafariz e começaram a cochichar entre si. Não era uma brincadeira, afinal. Alguém realmente tinha aparecido.

 

_Você... – Drek começou, olhando com desdém e desgosto para o jovem. Ele não parecia ter mais que a idade de seu filho de 17 anos – que, graças ao seu dinheiro, podia viver bem longe daquela cidade amaldiçoada. – Só pode estar brincando.

 

_Como não, senhor. – Eldrich respondeu, cortês, mas ainda com o chapéu na cabeça. Todos consideravam um abuso não tirar objetos que cobriam o couro cabeludo na frente daquele homem poderoso. Mas o garoto não se importava, talvez por não saber exatamente quem ele era ou por pura rebeldia mesmo. – Posso livrar o senhor e toda essa gente dessa “praga” quando quiserem...

 

O burguês encarou-o novamente e resmungou.

 

_Não são um, ou dois...

 

_Já tomei conhecimento da situação. – Eldrich caminhou alguns passos até o chafariz, olhou as plantinhas em volta, passou a ponta do dedo no mármore gelado e úmido e sorriu, voltando-se para o mais velho depois. – É uma infestação bastante grande. Posso dizer que pelo menos uns milhares vivem aqui... Talvez uns cinco; não... Sete milhares, para ser mais preciso.

 

Drek piscou os olhos de peixe com força.

 

_ E com o quê vai caçar esses ratos?

 

O garoto passou as costas das mãos pela nariz e olhou ao seu redor pela primeira vez. Percebeu que era o centro da atenção aldeã. Viu alguns garotos grudados nas saias de suas mães, meninas penduradas nas janelas das sacadas principais, velhas apurando seus ouvidos e olhos para apreciar a cena... E um par de olhos claros tilintando com a luz do sol.

 

Desses olhos Eldrich teve dificuldades em desviar.

 

_Tenho um acordo a propor. – ele disse, por fim, encarando o burguês. O homem mais velho podia jurar que estava sonhando. Ninguém fazia acordos com ele; a não ser que ele mesmo os propusesse, claro.

 

_Como ousa... – ele começou, mas foi interrompido pelo movimento brusco do jovem, que deu dois passos a frente.

 

_Eu elimino-os para vocês e não falamos sobre os modos. – ele sorriu – Além disso, é uma troca. Eles por algo.

 

Karl Drek sentiu o coração martelar nas suas têmporas e a cabeça ferver mais que o sol que estava a pino. Mas ou era isso ou sua fortuna. Agora ele podia escolher... E podia conduzir a negociação do seu jeito. Afinal, era um homem de negócios.

 

_Certo. – se recompôs e continuou. – Um bom pagamento, hm? Uma moeda pela cabeça de cada um.

 

Eldrich, o caçador, passou um dos dedos pelo queixo, fechou os olhos por um instante e depois voltou a sorrir.

 

_Um bom pagamento, então. – o garoto esticou o braço a frente, mostrando a mão calejada e suja para o burguês. O mais velho olhou-a por alguns instantes e depois esticou a sua própria, sentindo um imenso nojo de apertá-la. – Acordo fechado.

 

_Ótimo. Então comece agora mesmo.

 

Foi a vez de Eldrich piscar repetidamente. Ele elevou o dedo para o céu e disse, a voz doce e suave:

 

_Creio que está na hora do desjejum. Além disso, preciso me hospedar em algum lugar... Não creio que seja possível eliminar sete milhares em algumas horas. Não concorda comigo, senhor?

 

Drek torceu o bigode e, antes de dar as costas ao chafariz e subir na charrete, murmurou com muita pouca vontade:

 

_Venha comigo.

 

Eldrich, o caçador de ratos recém chegado, foi levado à mansão que o burguês possuía na cidade. A casa, imensa, estava quase abandonada. O homem preferia o campo à imundice de Hamelin. Eram três andares repletos de cômodos bem mobiliados, empregados e uma charrete à sua disposição, além de comida farta, localização privilegiada e olhos curiosos sempre dispostos a dar o máximo de atenção que ele quisesse.

 

O garoto agradeceu a cortesia e se acomodou facilmente. Seu trabalho começaria em breve; ele ainda podia desfrutar por algum tempo de boas coisas como aquelas.

 

 

20 de Maio de 1284 – Hamelin, Alemanha

 

Pouco tempo depois e a cidade inteira já conhecia o famoso caçador de ratos chamado Eldrich. A casa do burguês Drek tinha se tornado a “Residência do Caçador de Ratos” e nada mais. Pouco importava se ele não a possuía; era ele, o salvador, quem a ocupava. Era mais que suficiente para, todos os dias, dezenas de pessoas passarem na sua porta.

 

Todos os dias quando acordava, Eldrich era recebido com leite, ovos, roupas novas e uma agradável sensação de ser indispensável naquela cidade. Seu ego se enchia a cada hora que passava andando pelas ruas e cumprimentando as velhas senhoras dedicadas, que ainda não largavam suas vassouras. Afinal, o senhorzinho ainda não tinha começado seu trabalho.

 

Os ratos agora conviviam no mesmo ambiente que todos os seres humanos do local. Era quase impossível não vê-los entre as frutas das barraquinhas, ou entre as bolinhas de gude das crianças...

 

Alias, os menores agora já não ligavam para a falta de liberdade. Corriam em volta de Endrich todas as vezes em que viam-no. Muitas delas não sabiam nem o porquê dele ser o motivo de tanta conversa entre os mais velhos, mas julgavam-no como um ser importante. Talvez até mais que o próprio burguês Karl Drek.

 

Na medida em que o tempo ia passando, Eldrich se mostrava mais gentil do que um ser humano podia ser. Ou pelo menos era o que as pessoas achavam. As mulheres se derretiam ao vê-lo. Fizeram uma fila para ver qual seria a primeira a cortar seus cabelos escuros, alinhando-os às maças do rosto. Disputaram para ver quais das roupas que elas tinham feito ele usaria mais... Até de qual bolo ele mais gostaria.

 

O caçador de ratos tinha se tornado uma atração maior que os próprios ratos.

 

Eldrich gostava disso. Gostava da atenção. E, todas as vezes que saia de casa, gostava de sentir que, no meio daquela multidão, um par de olhos parecia sempre disposto a seguí-lo não importa para onde nem por que. Ele se sentia confortável com essa sensação. Só não conseguia entender como ainda não tinha descoberto a quem eles pertenciam; sempre aparecia algo que o impedia de ver seu verdadeiro dono: uma criança tropeçando, um cachorro latindo, uma oferenda de alguma família... Qualquer coisa tirava seu foco desses olhos e, quando o retornava, já tinham desaparecido.

 

Naquele dia, entretanto, o garoto estava mais inquieto que de costume. Caminhou a cidade de cima a baixo e não conseguiu descobrir o motivo de sua impaciência. Aqueles olhos claros não estavam seguindo-o, tampouco.

 

Quando voltou aos seus aposentos, trocou-se rapidamente, pegou o único objeto que carregara na viagem até Hamelin e saiu novamente. Andou até as fronteiras com os canaviais e depois para o lado oposto, nas margens do Rio Weser.

 

Ali ele parou. Eldrich se agachou e mergulhou a mão na água gelada. A correnteza era forte e a natureza parecia querer lhe dizer algo. O jovem fechou os olhos por breves momentos e sorriu para o ar.

 

Então ele sentiu alguma coisa queimar por dentro.

 

Nas suas costas, entre as árvores da margem, alguém o espiava com curiosidade e interesse. Afinal, ninguém sabia como o caçador de ratos ia agir.

 

Eldrich se levantou e retirou do bolso traseiro da roupa colorida que vestia um objeto cilíndrico. Seu chapéu balançou com a leve brisa que se seguiu. Ao contrário do que tinha quando entrou naquela aldeia, agora ele era colorido. Tanto ou mais que as penas que despencavam do chapéu do burguês Karl Drek. Assim como suas vestes; novas, cheirosas e visualmente deslumbrantes.

 

O objeto cilíndrico escorregou por entre seus dedos e Eldrich novamente fechou os olhos antes de encostá-lo na ponta dos lábios. Os olhinhos curiosos de detrás da árvore se arregalaram.

 

A melodia que saiu fraquinha da boca para dentro do objeto de Eldrich coloriu o ar à sua frente. A paisagem ficou inquieta e, depois dos poucos segundos de música, ouviu-se um farfalhar de folhas entre as moitas.

 

Os olhos vigilantes que o observavam com certo medo se dilataram mais ainda quando focalizaram alguns roedores correndo na direção do jovem misterioso. Eram poucos; talvez menos de vinte, mas o que espantou o curioso par de olhos claros foi o que aconteceu depois.

 

Os ratos, de todos os tamanhos, pararam em frente a Eldrich em uma fila mal formada. O garoto olhou cada um deles e depois fechou as pálpebras novamente, colocando o objeto cilíndrico na boca mais uma vez. Um minuto depois e todos eles, todos os roedores começaram a saltar para o rio Weser, sendo arrastados pela correnteza impiedosa.

 

Ao terminarem, Eldrich guardou a flauta no bolso detrás da calça e se virou para encarar com um sorriso caloroso os olhos que lhe observavam desde sua chegada a Hamelin.

 


 

21 de Maio de 1284 – Hamelin, Alemanha

 

No dia seguinte, Eldrich amanheceu nos canaviais. Estava sozinho, mas, como já era de costume, sentia alguém lhe observando. Sentia também que já estava na hora de fazer cumprir sua parte do trato. Os moradores estavam começando a sofrer demais e ele achava que não precisava de mais roupas.

 

Então, usando as mesmas vestes coloridas do dia anterior, Eldrich colocou sua flauta entre os dedos, reuniu a maior quantidade de ar que conseguiu nos pulmões e liberou-o na pequena fenda do objeto cilíndrico apoiado em seus lábios.

 

Mais uma vez a paisagem mudou e o caçador de ratos começou a andar.

 

Eldrich caminhou entre todo o canavial, sempre tocando a melodia mais bonita que qualquer um já tivesse ouvido na vida. Depois ele adentrou Hamelin, ainda segurando a flauta entre os lábios e de olhos fechados. Ele já conhecia as ruas o suficiente para saber por onde passar até chegar ao seu destino.

 

A diferença era que Eldrich não estava mais andando sozinho; centenas... Talvez milhares de ratos o acompanhavam, amontoando-se atrás do garoto de chapéu e vestes coloridas.

 

Os aldeões não sabiam se riam ou se aplaudiam. Não sabiam se fazer qualquer uma das duas coisas pudesse atrapalhar o trabalho do rapaz; mesmo porque não sabiam o que estava acontecendo exatamente. O que ouviam era uma melodia linda, e o que viam eram ruas cheias de animais alvoroçados e eufóricos atrás de um garoto miúdo.

 

Eldrich continuou caminhando de olhos fechados por entre todas as ruas até sair da cidade. A essa altura, dezenas de pessoas o acompanharam até o Rio Weser. Lá, o jovem tocador de flauta e exímio caçador de ratos terminou a melodia de maneira doce e amigável. Entretanto, as pessoas se assustaram ainda mais ao verem milhares de ratos se jogando na água gelada da correnteza.

 

Um por um, os animais se suicidaram. Eldrich parou de tocar a flauta e abriu os olhos, observando a cena com pesar. Ele não gostava exatamente de fazer aquilo.

 

Quando o último dos roedores caiu na água, uma salva de palmas foi erguida. Alguns comemoraram, se abraçaram e riram. Eldrich olhou a multidão atrás de si, misturada às árvores e às folhagens. Seus olhos lânguidos pairaram sobre um par de pupilas dilatadas, brilhantes e claras como as águas daquele rio assassino.

 

O jovem flautista sentiu o coração palpitar mais forte com a imagem que finalmente conseguia ter do dono daqueles olhos.

 

As pessoas começaram a chegar perto dele para cumprimentá-lo, mas seus olhos ainda estavam focalizados na multidão atrás delas. Ele não sabia como, mas o calor que aqueles olhos claros lhe proporcionaram era mais gratificante que qualquer outra coisa que já tivesse experimentado. E era algo inesquecível.

 

Aquele par de olhos claros que o acompanhara durante toda sua estadia em Hamelin, que o vigiara no dia anterior, que o tinha acompanhado até o canavial naquela manhã e que agora lhe parabenizavam com doçura.

 

Eldrich se desvencilhou dos apertos de mão e dos abraços desengonçados e caminhou até o dono daquele olhar quente. Quando se aproximou, só então percebeu que ele não estava só e era somente mais um garoto de Hamelin. Uma de suas mãos estava entrelaçada a de uma garotinha de cabelos claros e pele branquinha, com olhos igualmente claros. Ela se encolheu quando o caçador parou à frente dos dois.

 

Eldrich ficou estático por muitos minutos, ouvindo a multidão se dispersar enquanto mergulhava no azul dos olhos daquele garoto. Parecia pouco mais novo que ele próprio; uns catorze, quinze anos no máximo. Altura mediana, cabelos loiros e pele translúcida... Iguais as da garotinha, que o puxou pela mão, sussurrando...

 

_Egon, vamos embora... Mamãe já foi.

 

O garoto desviou o olhar de Eldrich e encarou a irmã, fazendo um movimento leve com a cabeça. Ele deixou um sorriso tímido pairar no ar e tocou de leve a roupa colorida do flautista. Com o coração doendo de tanto bater, o caçador de ratos observou os dois se afastarem devagar e suspirou.

 

Na cidade, o burguês Karl Drek descia da charrete de cavalos negros para passar uma temporada na própria mansão.

 


25 de Maio de 1284 – Hamelin, Alemanha

 

_Mas senhor...

 

_Chega! – gritou Drek. – Ele não vai me tirar essa fortuna, não mesmo!

 

O conselheiro piscou fundo. A lareira acesa na mansão principal iluminava a sala.

 

_Senhor Karl, temo que não seja possível romper um acordo desses à essa altura. O garoto cumpriu a sua parte; não há mais nenhum rato na cidade. Nós podemos afirmar isso, senhor... – relatou o conselheiro.

 

Karl Drek bufou alto de insatisfação. Ele não queria pagar a uma criança; ainda mais porque ainda não entendera como aquele garoto conseguira tal façanha. E isso era um ultraje a sua inteligência.

 

Ele e seu conselheiro estavam trancados na maior sala de sua mansão da cidade. O garoto flautista caminhava pelo corredor a fim de encontrá-los e escutá-los. Não estava gostando da demora em receber sua recompensa... Quando finalmente os encontrou, postou seus ouvidos na madeira grossa e respirou fundo, prendendo o ar para poder escutar.

 

O burguês bateu as palmas da mão na mesa de madeira real e xingou. Ele estava fritando seu cérebro para pensar em algo... De repente, seu conselheiro estalou os dedos. Drek se virou para ele.

 

_Senhor, o acordo foi: uma moeda pela cabeça de cada um.

 

Karl franziu a testa e demorou alguns minutos para entender a firmação. Depois seus olhos se iluminaram com o fogo da lareira.

 

_Claro! – ele gargalhou. – As cabeças! Esse safadinho não me trouxe uma sequer!

 

O conselheiro sorriu ao ver o burguês gargalhando.

 

No corredor escuro, Eldrich suspirou e mordeu o lábio. Sua noite ia ser longa o bastante para que escolhesse por que caminho, que alternativa ia seguir. Talvez somente aquela noite não fosse suficiente...

 

Então ele decidiu ali mesmo que sairia de Hamelin na manhã seguinte. A única coisa que ia sentir falta, afinal, era daquele par de olhos azuis de Egon.

 

Mas ele voltaria para vê-los apesar de que talvez eles não fossem encará-lo com tanta gratidão mais.

 


Manhã de 26 de Junho de 1284 – Hamelin, Alemanha

 

Hamelin seguiu a pacata vida de cidade do interior como se nunca houvesse existido um rato na face da Terra. Entretanto, as crianças ainda diziam ver o Caçador de Ratos e suas vestes coloridas pelos canaviais, perto do Rio Weser e até em alguns becos da cidade.

 

Os adultos receberam ordens severas de não mencionar o nome do jovem caçador responsável pela paz na aldeia. Ele não existia mais...

 

Mas um garoto chamado Egon se lembrava de todos os traços do rosto dele e de sua flauta. Sua irmãzinha já não estava mais grudada em sua mão quando ele caminhou até o rio naquela manhã. Quando se agachou exatamente no mesmo lugar que Eldrich o tinha feito, a brisa que sentiu no rosto foi diferente da que sentira no dia em que o vira tocar sua flauta.

 

Egon se virou e encarou a árvore que costumava lhe esconder. Seus lábios se escorregaram para um sorriso quando percebeu que não estava sozinho.

 

Um jovem pouco mais velho que ele caminhou lentamente entre a folhagem, retirou o chapéu colorido da cabeça e se curvou diante dele. Eldrich também estava sorrindo.

 

De dentro de um de seus bolsos, o flautista retirou dois pedaços de algodão e colocou-os nas mãos de Egon.

 

_Para sua irmã. Faça-a usar nos ouvidos hoje ao meio dia. – ele apontou o indicador para os próprios ouvidos e depois para o céu. Os olhos azuis acompanharam seus movimentos com delicadeza.

 

Os dois ficaram em silêncio por longos minutos. Eldrich analisou cada centímetro do garoto. Seu coração arrebentou seus tímpanos quando Egon esticou uma das mãos e acariciou seus cabelos negros. Seus lábios se mexeram devagar o suficiente para que o flautista acompanhasse a formação da palavra...

 

“Obrigado”.

 

Eldrich não soube dizer se ouvira algo. Sua mente ficou branca e ele quase esqueceu o motivo de voltar a Hamelin depois de ter estado um mês fora. Ele quase nunca era surpreendido daquele jeito; sempre conseguia prever as coisas. Mas sua intuição falhou quando sentiu os mesmos lábios em sua bochecha, a ponta gelada do nariz encostando-se em seus cabelos e a respiração lhe fazendo cócegas nas têmporas.

 

O sorriso que viu depois destruiu completamente sua guarda. Eldrich não tinha idéia de o porquê aquele garoto estava agradecendo-o – porque ele ainda não sabia o motivo dos algodões para os ouvidos. Mas não importava. Talvez aquela simples palavra tivesse valido os sete milhares em moeda que a cidade inteira estava lhe devendo.

 

Por mais que isso fosse verdade, ele não podia se esquecer.

 

Então Eldrich devolveu o carinho; a mão no cabelo, o beijo na bochecha e a respiração na orelha.

 

_Nos veremos em breve. – sussurrou.

 

Egon fechou os olhos, sentindo o que o caçador de ratos sentia quando fazia o mesmo: uma paz tão absurda quanto irreal. Mas uma paz tranquilizadora e frágil. Depois, os mesmos lábios que sopravam o objeto cilíndrico e melodioso tocaram com ternura os que tinham-no agradecido. E desapareceram.

 


 

Meio dia de 26 de Junho de 1284 – Hamelin, Alemanha


Como qualquer respeitada cidade alemã, Hamelin tinha suas crenças e histórias. A maior delas se concentrava na igreja, local que todos os habitantes eram obrigados a freqüentar nos fins de semana. Naquele dia as pessoas se acotovelavam na entrada da majestosa construção a fim de congratularem o padre novato. Ele havia ido para a aldeia após o incidente dos ratos a pedido do burguês Karl Drek, com o intuito de abençoá-la. Afinal, a tal infestação só tinha ocorrido ali e em lugar algum. Misteriosamente os ratos tinham desaparecido da região - e da mente dos moradores.

 

O sino da igreja badalou doze vezes seguidas. Algumas crianças correram para fora e se aventuravam em volta do chafariz, contrariando as ordens de suas mães afobadas.  A vida parecia correr tão serenamente quanto antes com uma pequena exceção: os pequenos ainda se lembravam do nome Eldrich e foram os primeiros a perceberem passos estranhos caminhando em direção ao chafariz.

 

Um segundo depois e a praça central de Hamelin foi inundada por uma música suave, lenta e harmoniosa. Os tons despertaram a curiosidade de todos que estavam na igreja. Até o padre saiu para a calçada de pedrinhas, aguçando os ouvidos para apreciar a bela canção.

 

As mulheres donas das barracas de verduras e frutas soltaram uma exclamação ao verem de onde partia a melodia. Botas de couro puído começaram a andar devagar pela praça; a música ficando mais alta.. O chapéu colorido se elevou com o vento, deixando à mostra os cabelos negros de Eldrich, o flautista caçador de ratos. Suas roupas igualmente tingidas chamaram ainda mais atenção.

 

Mas desta vez não existiam mais ratos. Não existiam mais aplausos, nem oferendas nem sorrisos.

 

Então a cidade de Hamelin presenciou algo ainda mais inexplicável: as crianças que corriam em volta do chafariz começaram a seguir o flautista, ignorando as vozes suplicantes de seus pais. Alguns tentaram segurá-las, mas todas pareciam incrivelmente fortes naquela hora. E todas queriam seguí-lo.

 

Eldrich fechou os olhos e caminhou a passos lentos para a saída da cidade. A cada passo que dava, mais crianças se juntavam ao seu encalço. Em cada rua que passava, relembrava sua estadia e cada momento de Hamelin. Ele não estava feliz por fazer aquilo, mas não lhe deram outra escolha. Quando cruzou a fronteira da cidade, cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da visão de seus pais e de Karl, quem assistia a cena e nada fazia; talvez até por medo. Sua incredulidade o deixara imóvel.

 

Todos eles continuaram a andar e a seguir o flautista.

 

Do alto de uma encosta, depois de passar pelo rio e andar mais ao longe, em direção aos ares mais selvagens da região, Eldrich se virou para olhar a cidade desolada. Sem as crianças, o que restavam eram somente celeiros cheios de grãos, despensas abarrotadas e a igreja e a burguesia. Mas o silêncio e a tristeza cobriram Hamelin como um manto que jamais seria retirado.

 

As cento e trinta crianças não valiam sete milhares em moeda; talvez valessem muito mais. Mas esse, afinal, era o preço a ser pago. Os habitantes de Hamelin, então, se lembrariam de Eldrich, o Caçador de Ratos e Feiticeiro.

 

Eldrich levou as crianças para uma imensa gruta em uma montanha. Todas pareciam enfeitiçadas por sua música mesmo depois de ela parar de ser tocada pelo objeto cilíndrico que sempre carregava consigo. Seus olhos percorreram aquela multidão de pequenos rostos e, de repente, seu coração deu um salto, doendo-lhe o peito.

 

Grandes olhos azuis o fitavam e, diferente dos outros, piscavam com ternura para ele. Eldrich ficou paralisado, mas esforçou-se para caminhar no meio das crianças e chegar até eles. Então foi quando percebeu que, mais uma vez, não estavam sozinhos.

 

Uma garotinha piscava aflita, com as mãos grudadas na do irmão. Os dois eram os únicos que pareciam vivos no meio das crianças, com exceção do próprio flautista.

 

Ele se espantou mais ainda ao ver a garota. Sua primeira reação foi verificar seus ouvidos. Sorriu para si mesmo quando viu que ela estava usando os algodões. A menina retirou os tufos das orelhas e prestou atenção no Caçador de Ratos.

 

_Porque estão aqui? – Eldrich perguntou, olhando os olhos azuis de Egon. O garoto mais novo não respondeu, então o flautista mirou a garotinha e apontou os tufos de algodão nas mãos dela. – Você estava usando-os, não estava?

 

Ela balançou a cabeça em sinal positivo e depois olhou para o irmão. Os três ficaram em silêncio, mas entre ela e Egon uma conversa de séculos pareceu se desenvolver só com o olhar. A garotinha então soltou a mão do irmão, parecendo triste, mas determinada. Deu dois passos a frente e esticou as mãos com os algodões para Eldrich.

 

_Obrigada. – ela começou. Eldrich sorriu e pegou os tufos.

 

_Podem ir pra casa agora. - o flautista sorriu e encarou Egon. - Tive uma boa recompensa: pelo menos pude vê-lo de perto novamente. É uma dádiva.

 

_Eu vou... – a garotinha olhou de relance para o irmão e continuou, interrompendo o mais velho. – Mas o Egon vai ficar. Não pode voltar comigo mais.

 

Eldrich arregalou os olhos e encarou as íris coloridas de azul do garoto pálido. Sua mente se remexeu num turbilhão de pensamentos... Egon já não era mais uma criança, então não podia ser afetado pela sua música. Então, porque ele estaria ali? E porque não podia mais ir embora?

 

_Ele me pediu para te dizer... – a garotinha interrompeu seus pensamentos – que sua flauta é muito bonita e que ele queria muito escutá-la, por isso ele decidiu que não vai embora até fazer isso. Eu o trouxe até aqui; eu volto e ele fica.

 

_Ele... queria me escutar? Mas já não fez isso? Já toquei em Hamelin antes e... hoje de manhã e agora...

 

Eldrich estava confuso. Mais confuso do que jamais estivera em toda sua vida. Seus olhos dançavam de Egon para a garota.

 

Ela balançou a cabeça com veemência, sacudindo seus pensamentos.

 

_Egon não escuta, é surdo. E ele disse que, se for pra escutar alguma coisa, quer que a sua música seja a primeira e pra isso ele tem que ficar perto de você. Ele quer ficar perto. Então por favor, cuide bem dele.

 

 

Na deserta e vazia cidade de Hamelin, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança. Entretanto, a casa onde o Flautista misterioso ficou hospedado, a Residência do Caçador de Ratos ainda resiste ao tempo e às turvas lembranças.

 

Muitas pessoas ainda passam por ali, dizendo que uma história mágica e misteriosa se desenrolou entre aquelas ruas. Algumas ainda tentam comprovar, mostrando que na esquina do edifício existe uma praga escrita provavelmente pelo amargurado caçador, que não recebeu suas 7 milhares de moedas, afinal. Está escrito:

 

"ANNO 1284 AM DAGE JOHANNIS ET PAULI WAR DER 26. JUNI - DORCH EINEN PIPER MIT ALLERLEY FARVE BEKLEDET GEWESEN CXXX KINDER VERLEDET BINNEN HAMELN GEBOREN - TO CALVARIE BI DEN KOPPEN VERLOREN."

 

 

[No ano de 1284 no Dia de John e Paul, em 26 de Junho –

130 crianças nascidas em Hamelin foram seduzidas

Por um flautista, vestido em todos os tipos de cores,

E perdidas no local da execução (dos ratos) perto do pico de Koppen.]

 

Abaixo desta escritura lêem-se duas pequenas letras, cravadas com muito esforço e dedicação: EE. Ninguém conseguiu decifrá-las, mas uma senhora muito idosa, de pele extremamente clara e olhos extremamente azuis, fez questão de passar para todos os seus netos e netas a mesma resposta para ser dita quando qualquer um perguntar seu significado, com prazer em atiçar a curiosidade dos que passam por ali:

 

_Aah... Esta é a maior história já contada...