JORNALISMO EM QUADRINHOS COMO FONTE DE INFORMAÇÃO – COMO AS HQ´S PODEM AJUDAR NA ÁREA DO JORNALISMO?
CARLA MARIA ARAÚJO DE MOURA
TALITA PIMENTA ESCOBAR
Orientação: Profª Me. Neide Aparecida Arruda de Oliveira
Resumo: Este trabalho estabelece o novo gênero jornalístico, o jornalismo em quadrinhos, como uma nova fonte de informação a ser utilizada pelos veículos impressos, mais especificadamente os jornais, com o objetivo da leitura da notícia se tornar mais dinâmica e compreensível para os leitores, principalmente os jovens. Por meio de pesquisas pudemos comprovar que o jornalismo em quadrinhos não só atrai os adolescentes para a leitura, como também faz com que compreendam melhor a informação. Este estudo pretende, então, ressaltar a importância desse novo gênero para a comunicação e que, por meio dele, utilizando o texto em conjunto com a imagem, a notícia se torna mais prazerosa de ser lida.
Palavras-Chave: jornalismo em quadrinhos, quadrinhos, leitura, notícia, jovens.
Introdução
Este trabalho tem por objetivo conceituar a importância que este novo gênero jornalístico, o jornalismo em quadrinhos, pode adquirir como sendo uma nova forma utilizada pelo jornalismo impresso de se divulgar informações, que se tornem mais compreensíveis pelos leitores, principalmente pelo o público jovem, por meio da utilização da notícia em conjunto com a imagem.
Podemos perceber que hoje em dia, qualquer jornal e revista, não se utiliza somente de textos para fazer suas matérias, mas incorporam também a imagem. Foi compreendido que com a utilização das ilustrações gráficas, o veículo impresso poderia ampliar o seu público, não se delimitando apenas ao dedicado à leitura. Contudo, os jornais e revistas passaram muitos anos sem empregarem a imagem, tornando-se cansativos e não atrativos para o público, apresentando apenas grandes massas de textos.
Moacy Cirne (1970:38) afirma que: “os quadrinhos nasceram dentro do jornal – que abalava (e abala) a mentalidade linear dos literatos”. Assim, desde o século XX, é praticamente impossível um jornal não possuir a sua seção de tirinhas em quadrinhos, as charges e as caricaturas. Além, de que muitas vezes os ilustradores das matérias jornalísticas constroem pequenas narrativas em quadrinhos para fazer a reconstituição de crimes ou outros acontecimentos.
Hoje em dia, os veículos impressos começam a recorrer a uma nova forma de jornalismo, o jornalismo em quadrinhos.
O termo “jornalismo em quadrinhos” ainda é recente, e apesar dos jornais já terem se valido dos quadrinhos ora como entretenimento, ora como informação, foi somente na virada do século que a imprensa o redescobriu, utilizando-o como uma narrativa jornalística.
O jornalista Ary Moraes, que escreve para a revista Imprensa, na seção Design de Imprensa, afirma na edição de jan./fev. 2008 que: “Num período histórico em que as mídias visuais centralizam as atenções, talvez sejam os quadrinhos o código capaz de ajudar o jornalismo a se reaproximar dos leitores”.
Fundamentação: Quadrinhos
A origem semântica da palavra quadrinhos é de difícil definição, sendo que cada autor a define de uma maneira diferente. Porém, Alain Rey em uma única frase consegue definir o que é quadrinhos ressaltando as suas vantagens e o que os quadrinhos modificam em seus leitores: “Quadrinhos é um fragmento fértil de uma história do desejo social, o quadrinho renova os caminhos do olhar, reinventa a leitura, modifica a linguagem” (REY, 2000, p.28).
A indústria quadrinistica surgiu no interior da indústria jornalística, devido ao desenvolvimento das novas tecnologias de impressão e da concorrência mercadologia entre os grupos Pulitzer e Hearst.
O fato é que histórias em quadrinhos e jornalismo em quadrinhos, sempre tiveram uma ligação muito forte e prova disso são que as HQ’s de maiores sucessos sempre têm como personagem principal um jornalista.
As HQ’s são divididas em dez categorias: Super – Heróis, Infantis, Family – Strips, Animais, Femininas, Romance, Terror, Humor, Erótico, Cientifico e os Mangas (histórias japonesas).
Assim como sua definição o surgimento dos quadrinhos também é uma incógnita. Para alguns, 17 de maio de 1890 foi o nascimento das histórias em quadrinhos, através de uma revista semanal, a “Comic Cuts”, da editora de Alfred Harmsworth, que em um mês de publicação já tinha alcançado a marca de 300 mil exemplares, batendo recorde de grandes jornais.
Quadrinhos no Brasil
O Brasil teve como precursor das histórias em quadrinhos o ítalo – brasileiro Ângelo Agostini, que após sua infância e adolescência em Paris, chegou ao Brasil em 1859 e com apenas 21 anos estreou no pasquim Diabo Coxo em São Paulo.
Porém, foi em 1868 que Agostini publicou as primeiras HQ’s no Brasil, que conta as trapalhadas de um interiorano em uma viagem pelo Rio “As aventuras de Nhô Quim”. Em janeiro de 1869 Agostini começou a publicar semanalmente “Impressões de uma viagem à corte”.
Ângelo Agostini depois que entrou para o mundo das HQ’s não parou mais criou a revista Ilustrada e juntamente com Luiz Bartolomeu de Souza e Silva criou em 1905 da revista “O Tico – Tico”, voltada para o público infantil.
Segue abaixo a imagem do quadrinho “Nhô Quim”.
Segue abaixo a imagem do quadrinho “O Tico - Tico”
Fundamentação: Jornalismo em Quadrinhos
De acordo com Moacy Cirne (1970, p.12), “os quadrinhos surgiram como uma conseqüência das relações tecnológicas e sociais que alimentavam o complexo editorial capitalista, amparados numa rivalidade entre grupos jornalísticos (Hearts vs. Pulitzer), dentro de um esquema preestabelecido para aumentar a vendagem de jornais, aproveitando os novos meios de reprodução e criando uma lógica própria de consumo”. Desta maneira, a indústria quadrinística, que nasceu dentro da indústria jornalística, conseguiu tornar-se independente, conquistando as suas próprias páginas em revistinhas em quadrinhos e não dependendo mais do jornal.
Contudo, esses quadrinhos publicados ainda eram relacionados a histórias fantasiosas e irreais, destinadas ao público infantil e juvenil. Somente a partir dos anos 1960 e 1970 é que este quadro mudou com o surgimento da contracultura, que trazia consigo os quadrinhos underground.
Este tipo de quadrinho tinha um duplo papel: 1) permitia que se ampliasse o número de ferramentas utilizadas a serviço dos processos revolucionários; 2) fez com que surgisse uma inversão de valores, ao utilizar histórias sujas, cruéis e realistas, ao invés das fantasiosas e ingênuas.
Utilizando uma linguagem mais pesada, os quadrinhos underground abordavam temas vigentes das duas décadas, como as drogas, a revolução sexual e a guerra. De acordo com Fabiana Reinholz e Auryane Borges, que escreveram o artigo “Jornalismo em quadrinhos é uma opção narrativa”, em 31 de julho de 2007, no site Observatório da Imprensa, nesse período da contracultura, “os quadrinhos deixaram de ser apenas mero divertimento infanto-juvenil e para os adolescentes e passaram a ser a base para a reconstrução da forma de se propagar notícia”. Foi nesse momento que a idéia de jornalismo em quadrinhos começou a se formar.
Nos anos 80, duas reportagens foram feitas em forma de quadrinhos, Brought to Light (1989), escrita por Allan Moore e Joyce Brabner, e Maus – a história de um sobrevivente (1986 – 1992), escrita por Art Spiegelman. A primeira reportagem tratava sobre o envolvimento da CIA no atentado para matar Eden Pastora, líder dos Contra, em 1984 na Nicarágua e em outras ações na América Latina. A segunda, com certo teor autobiográfico, se dá em dois tempos: no atual, Spiegelman nos conta a difícil convivência com seu pai Vladek, um judeu mesquinho e pouco emotivo. No tempo passado, a narrativa mostra a dura luta de Vladek para sobreviver em um campo de concentração nazista. Em 1992, Maus rendeu a Spiegelman um Pullitzer especial. As duas reportagens são consideradas exemplos de primeiros atos do jornalismo em quadrinhos.
Mas, ao falarmos de jornalismo em quadrinhos, é preciso citar também Joe Sacco, o precursor dessa nova forma de se fazer jornalismo.
Sacco é um jornalista especializado em conflitos internacionais, escritor de dois livros-reportagens considerados importantes na área do jornalismo em quadrinhos, pois ao invés de serem escritos na forma do jornalismo tradicional, foram escritos inteiros em forma de HQ´s. Seu trabalho foi tão bem visto no meio jornalístico que fez até que se cunhasse o nome dessa modalidade de comics journalism (jornalismo em quadrinhos).
O seu primeiro trabalho nesse formato foi o livro-reportagem Palestina, lançado em 1992 primeiramente em forma de revista, sendo mais tarde publicado em um livro de dois volumes. Nele, Sacco aborda de uma maneira informal, mas incisiva, a guerra entre palestinos e israelenses na Faixa de Gaza. O livro apresenta os sobreviventes da intifada, crianças armadas de pedras, histórias de aprisionamento, tortura, posições políticas inflexíveis, falta de esperança e a luta de sobrevivência de um povo, tudo retratado em forma de quadrinhos.
O seu segundo livro-reportagem foi lançado em 2000, intitulado Área de Segurança: Goradze. Nesta obra Sacco retrata o massacre que ocorreu contra os mulçumanos na Bósnia. A guerra no país durou entre março de 1992 e novembro de 1995, o povo mulçumano era vítima de crueldades pelo exército da Sérvia, visto isso, a ONU criou as “Áreas de Segurança”. Contudo, essas áreas eram constantemente atacadas pelo exército. Sacco contou essa história com muito detalhe nos desenhos e mostrando uma dessas áreas de segurança. Goradze teve mais de 2.600 civis mortos de uma população de 37.000 habitantes.
Em seus livros-reportagens, Joe Sacco sempre teve como objetivo atrair o interesse das pessoas para as questões sociais:
É muito difícil encontrar um amigo meu interessado em saber o que se passa no Oriente Médio ou na Bósnia. Mas se eles vêem um livro de histórias em quadrinhos, por alguma razão isso parece mais acessível a eles. Os quadrinhos têm muito apelo em razão das imagens. Assim, você conquista a atenção do leitor, é capaz de contar a ele histórias difíceis e introduzir a informação. (SACCO apud STAROBINAS, 2001, p. E2).
Seguem abaixo imagens do livro Palestina:
Jornalismo em quadrinhos no mundo e no Brasil
O jornalismo em quadrinhos é uma inovação que vem tomando força nos últimos anos na imprensa do mundo todo, inclusive no Brasil.
Este novo tipo de jornalismo trabalha com a reportagem, dando ênfase a sua narrativa, humanizando a notícia e contextualizando os fatos, através da linguagem quadrinística.
Várias foram as manifestações do jornalismo em quadrinhos nos jornais brasileiros. Somente em 2007, foram três os projetos jornalísticos que se valeram da linguagem para contar boas histórias: O jornal baiano A Tarde publicou “Vanguarda: Histórias do Movimento Estudantil na Bahia”, TCC dos jornalistas Caio Coutinho, Fábio Franco e Leandro Silveira; O Dia publicou a saga da vinda da família real portuguesa para o Brasil combinando quadrinhos, arte e infográficos; Folha de S. Paulo publicou a reportagem “Sobe! Desce!” de Joe Sacco sobre o treinamento de soldados iraquianos.
Jornal A Tarde, Caderno Dez, Vanguarda, 06/11/07
Para Marques de Melo (2003:167), os quadrinhos (comics), assim como os cartuns não pertencem ao universo jornalístico, deste modo, não poderia existir quadrinhos que fossem fonte de informação. A seu ver, somente a caricatura e a charge poderiam fazer parte deste universo por sua validade humorística advir do real. Segundo ele, os quadrinhos e os cartuns “ultrapassam a fronteira do real e se fundam no imaginário”. Com essa afirmação decidiu-se realizar uma pesquisa de opinião pública, cujas perguntas feitas eram: O jornalismo em quadrinhos pode ser considerado uma fonte de informação? E se for, ele atrairia mais leitores jovens para os jornais?
Para comprovar então que o jornalismo em quadrinhos pode ser também uma fonte de informação e que os jovens podem vir a se interessar pela leitura graças a ele, faremos a seguinte pesquisa de coleta de dados: Escolhemos a notícia “Mulher diz ser amante de Cabrini em depoimento; jornalista nega”, publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 16 de abril de 2008, e a transformamos em quadrinhos. As duas formas de notícias foram entregues a 40 alunos do 1º Ano de Jornalismo das Faculdades Integradas Teresa D’Ávila (FATEA) e a 40 alunos do curso pré-vestibular comunitário Educafro, núcleo de Guaratinguetá. Após terem lido as duas notícias, os alunos responderam as seguintes questões:
1) Qual nível social pertence: classe A, B, C, D ou E?
2) Com que freqüência lê jornais?
3) De qual maneira assimilou melhor a notícia: em quadrinhos ou da forma convencional?
4) Acha que, se a notícia fosse informada em forma de quadrinhos se interessaria mais em ler os jornais?
1º Ano Jornalismo
Educafro
Análise e resultados da pesquisa
Os dados dessa pesquisa corroboraram a nossa tese de que jornalismo em quadrinhos tem um grande potencial para se tornar uma nova fonte de informação. Tanto os alunos do 1º Ano de Jornalismo da FATEA, quanto os alunos da Educafro demonstraram compreender melhor a notícia na forma de quadrinhos. 66% da turma de jornalismo e 85% da turma da Educafro disseram que entenderam melhor a informação devido a ajuda das imagens, contra, respectivamente, 34% e 15% que disseram entender melhor na forma convencional. Também a maioria das duas turmas preferiria ler um jornal que contivesse uma notícia trabalhada em forma de quadrinhos, tendo uma porcentagem de 57% na turma de jornalismo e 74% da turma da Educafro.
Isso comprova o que Moacy Cirne (1970: 20) disse sobre quem consome os quadrinhos. “Para Abraham Moles, em gráfico publicado em obra recente, a leitura dos comics atinge o máximo entre idades de 10/15 anos (quase 80% no cômputo da leitura diária, em primeiro lugar), estacionando entre 30/40 anos (55%, em segundo lugar), decrescendo a partir dos 50 anos, notadamente entre as mulheres (de 40 para 25% em quinto lugar)”.
Considerações finais: A nova forma de se fazer jornalismo
Na correria do cotidiano, certos leitores tem deixado de se atualizar com o que está ocorrendo no mundo, pelo fato dos jornais terem parado no tempo, fazendo com que as pessoas se desinteressassem pela leitura do mesmo. As pessoas apenas se informam pelas manchetes e pelas imagens (fotos, charges, infográficos, gráficos, etc.), com isso tiram suas conclusões somente por meio desses recursos.
Sendo assim, o jornalismo em quadrinhos seria adequado para essa nova realidade em que a sociedade se encontra. Este fato pudemos constatar em nossa pesquisa, pois mesmo sendo realizada com pessoas de nível de escolaridade diferente, ambas apresentaram uma porcentagem elevada referente ao interesse por notícias em forma de quadrinhos.
O jornalismo em quadrinhos, ao contrário do que muitos pensam, não é de fácil realização, pois além dos desenhos quadrinisticos, o jornalista deve apurar os fatos, observando cada detalhe da cena para poder mostrar aos leitores. Dessa forma as informações acabam se tornando mais completas, porque com as imagens existe uma maior compreensão por parte dos leitores.
A prova de que o jornalismo em quadrinhos é tão trabalhoso quanto o convencional é o trabalho realizado pelo jornalista Joe Sacco, que ganhou prestígio e visibilidade com seus livros-reportagens, que são ricos em detalhes e levam em média um ano de pesquisa para depois serem publicados.
Mas esse novo gênero no jornalismo possui uma grande vantagem em cima do jornalismo convencional: os jovens. Por não possuírem interesse na leitura de jornais, acabam não se informando com o que está ocorrendo no mundo. Mas este desinteresse da leitura pelos jovens tem dois fatores fundamentais.
Primeiro é a falta de interesse pela leitura em geral por essa nova geração e o outro fator é a falta de interesse das indústrias jornalísticas de inovarem os jornais, que após o advento das imagens o jornal simplesmente estacionou no tempo.
Por fim, chegamos ao consenso, após os dados obtidos em nossa pesquisa, que assim como os quadrinhos surgiram nos jornais com o intuito de entreter os leitores, o jornalismo em quadrinhos está surgindo aos poucos para dar um novo ar a esse veículo de comunicação. Sendo que o mesmo não perde as características do jornal convencional e tem como maior objetivo resgatar o público jovem para a leitura dos jornais.
Referências bibliográficas:
MELO, José Marques de. Jornalismo Opinativo – gêneros opinativos no jornalismo brasileiro. São Paulo: Editora Mantiqueira, 2003. 3ª edição.
CIRNE, Moacy. A explosão criativa dos quadrinhos. São Paulo: Editora Vozes, 1970.
_____________. Quadrinhos, sedução e paixão – História em quadrinhos. São Paulo: Editora Vozes, 2000.
DUTRA, Antônio Aristides Corrêa. Jornalismo em quadrinhos – a linguagem quadrinística como suporte para reportagens na obra de Joe Sacco e outros autores. Dissertação de mestrado apresentada na ECO/UFRJ; 2003.
SACCO, Joe. “Desce! Sobe!”. Folha de S. Paulo; 18/08/2007.
SILVEIRA, Leandro; COUTINHO, Caio e FRANCO, Fábio. “Vanguarda: histórias do movimento estudantil da Bahia”. A Tarde; 06/11/2007.
Revistas
Imprensa; jan./fev. 2008; Ano 21; n° 231.
Língua Portuguesa; 02/08/2007; Edição 22.
Como desenvolver roteiros; Ano 1; n° 6.
Sites
Universo HQ – http://www.universohq.com
Observatório da Imprensa – http://www.observatorio.ultimosegundo.ig.com.br
Portal Laboratório Tubo de Ensaio – http://www.fafich.ufmg.br/tubo
Projeto Vanguarda – http://www.projetovanguarda.com
Central de Quadrinhos – http://www.centraldequadrinhos.com
Vagão do Humor – http://vagaodohumor.blogspot.com