01/08/2007 17:24

Reconstituindo o acidente

Dica enviada por leitores do Blog: o endereço eletrônico do segundo maior jornal da Espanha, o El País traz a melhor reconstituição do acidente do Airbus A320 da TAM.

O site do El País é dos mais completos da imprensa internacional, sendo um dos primeiros a apostar na internet como meio complementar de informação. Mas com um detalhe: hoje, seu site já é mais lido que sua versão impressa (média de 400 mil exemplares diários).

A animação foi feita pela área gráfica do jornal, se baseando nas informações colhidas pelos repórteres e se utilizando do programa Maps do portal Google.

O vídeo se divide em duas partes. A primeira é apresentada a reconstituição do acidente. Na segunda, cada movimento do võo 3054 é congelado, trazendo informações adicionais com animações extras.

Para ver o vídeo,
clique aqui

 

01/08/2007 19:00

Música para descontrair

Acabo de colocar na aba de Música do Blog a terceira e última parte do ensaio que conta a história dos Rolling Stones, uma das cinco bandas favoritas deste Blog, que é enorme fã de música.

O ensaio foi publicado sempre as quartas-feiras, começando pelo último dia 18, às 19 horas.

O leitor encontra a Aba de Música localizada à sua esquerda, na seção "Bligs Amigos", ou clicando
aqui.

 

02/08/2007 07:00

O apagão tem suas razões de ser

A sucessão de problemas e crises no setor de aviação aérea brasileira não podem ser debitados da conta de um só culpado. Tanto o setor público como o setor privado apresentam doses semelhantes de culpa.

Apontar os culpados é o primeiro passo necessário no diagnóstico global que se deve fazer em todo o plano gerencial. Mais importante (sempre) que apontar o culpado, é trabalhar para contorná-lo e evitar que o mesmo - e qualquer outra crise - venha a se suceder no longo prazo.

Em ambas as esferas, a pública e a privada, pode-se resumir como causa que acabaria por gerar as trágicas consequências (em variados graus), deficiência gerencial. Cada esfera a sua maneira.

Ambos acusam leniência em perceber o que de fato acontece. Parecem fora da realidade, conscientemente ou não.

O setor público há anos definiu outra área de responsabilidade: o pagamento de juros da dívida pública. O que o setor público gasta com juros em uma semana supera o valor de investimentos previstos no sistema aeroportuário em quatro anos.

A fortuita comparação (que só existiu, diga-se de passagem, graças à enorme atenção dada recentemente ao "apagão aéreo") é do repórter Ney Hayashi da Cruz, na Folha de ontem.

Tndo em mãos o resultado fiscal do primeiro semestre, divulgado pelo Banco Central, o repórter pode constatar que nos primeiros seis meses de 2007, o conjunto formado por União, estados municípios e estatais pagou R$ 78,854 bilhões de juros de suas dívidas, uma média de R$ 435 milhões por dia. O PAC prevê investimentos de R$ 3 bilhões - sete dias de juros - em aeroportos do país até 2010.

É o que Armínio Fraga denominou de superávit primário, quando assumiu a presidência do Banco Central, em junho de 1999, início do segundo governo de FHC. A idéia é cortar gastos do governo e transferir um valor previsto anualmente, apenas para o pagamento de juros. Desde sua instituição o superávti primário tratou de "comer" os investimentos públicos, que secaram. O PAC, lançado em janeiro, tenta reanimar a situação.

Mas como se vê, mesmo o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) é tímido frente à voracidade do pagamento de juros.

Os outros 50% de culpa que nos trouxeram à essa situação de "apagão" são relativos à iniciativa privada. Como no setor público as razões não são de hoje. São fruto de um processo longo de leniência, escolhas erradas, incapacidade gerencial e abusos.

Mas o ano de 2006 serviu de excelente estímulo para a degradação entre as empresas privadas. Foi o ano do surgimento da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e da crise da Varig.

Com a Anac foi institucionalizado o lobby das companhias privadas no Estado. A crise da Varig abriu um espaço enorme que seria preenchido por poucas companhias. Esse acirramento concorrencial levaria ao monopólio.

Nesse ponto entra a TAM. Não é de hoje que a companhia abandonou determinados principios inerentes à seu fundador e presidente Comandante Rolim. Ruiu frente ao seu Conselho Administrativo, perceguindo o maior lucro no menor prazo. Com a crise da Varig quis atropelar.

Aumentou os preços das passagens e manteve o overbooking em situação de estrangulamento na oferta (diminuída com a saída da enorme player que é a Varig). Ao mesmo tempo intensificou sua campanha de corte de custos interna, diminuindo o período de manutenção das aeronaves. O pensamento foi no curto prazo: quando mais tempo parada (em manutenção), menos võo, menos dinheiro.

Mesmo que as razões do acidente do võo 3054 de 17 de julho não tenham sido apenas da empresa, que pode dividir com a Infraero, a Airbus, a chuva, a Anac e os pilotos (que não podem se defender). Mas o enorme arranhão institucional está feito.

 

02/08/2007 14:56

Banco Central e o mercado

A
promíscua relação entre membros do órgão público fiscalizador do sistema financeiro, o Banco Central, e entidades privadas do mesmo setor ganhou mais um capítulo.

O ex-diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Afonso Bevilaqua acabou de assumir uma sociedade minoritária no banco Opportunity, de Daniel Dantas.

Bevilaqua foi o personagem foi proeminente e influente nas decisões do BC (logo abaixo do presidente Henrique Meirelles) do primeiro governo Lula. Assumiu o cargo em julho de 2003, saindo apenas em março de 2007. no período os juros foram de 25% para 14%, subindo até 19,75% ao ano quando a economia se preparava para o crescmento vistoso em 2004.

Essa fatídica decisão matou o crescimento brasileiro dos dois anos seguintes. A lentidão em cortar a taxa tornou o processo mais doloroso, em um período de enorme mudança nas relações socio-econômicas mundiais.

Embora não pode ser culpado sozinho, era notória sua influência em outros diretores - para que votassem à sua maneira, sempre aliada a ortodoxia. Uma de suas últimas decisões entrará para a história como uma das maiores faltas de tino econômico.

Dois dias após o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a diretoria do Banco Central se reuniu para decidir sobre o corte na taxa de juros Selic. Foi a primeira reunião de 2007, e, até então, os cortes eram de 0,5% por reunião. Embora cortes mais simbólicos que efetivamente práticos, não se podia deixar de cortar os mesmos 0,5%. Até porque, nenhum dado de qualquer espécie, acusava aceleração na inflação futura projetada pelo mercado.

E veja bem, o próprio "deus mercado" (quem realmente decide os rumos de nossa economia) previa corte de 0,5%.

Pois a turma de Meirelles, Bevilaqua e Rodrigo Azevedo (diretor de Política Monetária, outro chefe ortodoxo. Saiu do cargo em abril) decidiu por diminuir os juros em apenas 0,25%. A decisão jogou um balde de água fria nas expectativas do empresariado e principalmente do governo.

Foi uma decisão política. Foi a forma que o BC encontrou de mostrar força ao mercado, como quem diz quem verdadeiramente manda. Não à toa, os setores alinhados com o pensamento liberal-ortodoxo dos economistas e da grande mídia, passaram a clamar pela independência formal do Banco Central frente ao governo.

O erro foi parcialmente acusado depois de duas reuniões, quando os diretores (sem Bevilaqua e Azevedo) voltaram aos cortes de 0,5%. Mas o momento político tinha se passado. Aquela decisão permitiu forte ingresso de capital estrangeiro em forma de grandes fundos de investimentos institucionais para ganhar o dinheiro fácil no mercado brasileiro.

A derrocada de 11,89% enfrentada pelo real desde então foi a maior consequência de um processo que contempla anos de erros como o de 24 de janeiro de 2007.

Quatro meses depois de largar sua função no órgão público, Bevilaqua segue os passos de praticamente todos os outros diretores que usaram o BC como trampolim para suas carreiras profissionais.

Depois de trabalhar 4 anos com os segredos de todos os bancos do mercado nacional, assume-se um posto num deles. O salário é ótimo. A estima também. E conta com todos os segredos dos concorrentes.

 

06/08/2007 12:51

A "oposição"

O colunista da Folha em sua intervenção matinal na rádio Bandeirantes, tocou num ponto que provavelmente deve se confirmar: o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB) deve ter seu mandato cassado, mais tempo, menos tempo.

O jogo político que a "oposição" desenhou é claro: ou Renan saí, ou emperram-se as votações estratégicas do governo para esse segundo semestre: o prolongamento da CPMF e da DRU por mais 4 anos.

Mesmo que o imaginário coletivo dos representantes seja o de salvar Renan, um dos mais hábeis políticos com mandato federal, com bons caminhos em quase todos os partidos.

Agora veja só a situação: a "oposição" aproveitará os desmandos de Calheiros para se posicionar contra o governo. A medida será amparada pela mídia, tendo como objetivo final se legitimar frente à opinião pública, que previamente domada pela imprensa, clama pela cassação de Renan.

Destronado Renan a "oposição" votará junto ao governo pela manutenção do "imposto do cheque", a CPMF.

O contrasenso se instala quando se vê que o único partido político alinhado com o movimento "Xô, CPMF", lançado por um grupo de empresários paulistas em março, é o ex-PFL, atual Democratas (DEM).

Nunca é ruim lembrar que foi a atual "oposição" (grosso modo, PSDB e DEM) quem primeiro lançou a CPMF em 1997, após adaptar o antigo IPMF de 1993.

Criou o imposto, criou o movimento contra o imposto, e vai acabar votando pela manutenção do mesmo.

 

07/08/2007 19:56

Argentina-Venezuela

A relação entre Chávez e Kirchner é das mais firmes, entre os países razoavelmente autônomos da nova geografia política da América Latina.

Não que as nações de Equador e Bolívia, mais engajados com a Venezuela de Chávez, não são soberanas. Muito pelo contrário.

Mas é inegável que para contar a história dos anos pós-colapso argentino de 2001, deve-se passar por Chávez. É ele o fiel da balança, que tende à fazer da Venezuela a força hegemônica da região. Tomando o papel que historicamente (salvo períodos especiais) ao Brasil (principalmente) e à Argentina.

O poder de dominação ainda é indiscutivelmente exercido pelos Estados Unidos, mesmo que de maneira declinante.

Apenas no governo Kirchner (a partir de 2002), a Venezuela já adquiriu cerca de S$ 5,2 bilhões de títulos da dívida argentina. e tornou a grande força financiadora da dívida daquele país, que declarou moratória em 2002.

"Já não precisamos dos organismos financeiros internacionais na América do Sul", avisou ontem o presidente venezuelano, quando em encontro com o casal Kirchner (Néstor é o atual presidente, sua esposa Cristina é candidata ao cargo nas eleições de outubro) na capital Buenos Aires.

O econtro selou outros passos de corelação financeiro-estratégica entre os dois países. Em plena crise energética dos argentinos, os dois países firmaram um acordo energético, que inclue a construção de uma usina para reprocessamento de gás na Argentina, que permitirá ao país importar gás liquefeito de petróleo (GLP) da Venezuela, que também financiará a construição.

A usina custará cerca de US$ 400 milhões e levará dois anos para entrar em atividade. Terá capacidade de produzir 10 milhões de metros cúbicos diários, equivalente a cerca de 10% da demanda argentina.

 

08/08/2007 18:17

A revista Amanhã e a coluna de amanhã

A revista sulista Amanhã trata de negócios, economia e gestão e é bimensal. Sua linha mestra é apresentar as grandes histórias de negócios de empresas e governos dos três Estados do sul do Brasil. Daí que, em São Paulo, só se acha o periódico em aeroportos ou em livrarias especializadas.

O segmento é amplamente pulverizado, principalmente no Estado de São Paulo, onde centenas de revistas, surgem e logo somem. A demanda existe, mas é difusa. Ainda assim, Amanhã acerta o pé em atingir todas as camadas do empresariado e de interessados no assunto.

Mas melhor ainda é sua newsletter diária, com uma equipe que trabalha ao mesmo tempo junto e separado da redação do impresso. Essa co-relação de forças entre o meio tradicional (a revista) e a nova mídia (a newsletter e seu site) é usada com maestria pela revista.

A newsletter de hoje por exemplo, apresenta uma matéria sobre o biodiesel produzido através de sebo ou gordura animal, a biomassa. Não existe um projeto pronto, mas pesquisas públicas avançadas no quesito.

Discutirei mais amplamente essa questão na coluna de amanhã.

 

09/08/2007 07:00

Biodiesel de biomassa

O futuro energético mundial definitivamente não será o petróleo. Embora o lobby dos países mega-produtores - como os países da OPEP, que apresentam dependência quase-exclusiva dos "petrodólares" - de petróleo seja firme, a guerra fria da geopolítica mundial começou a apontar para o Brasil.

Nossos combustíveis alternativos são os mais propensos à se tornarem o futuro dentre todos os alternativos. Nosso etanol, extraido da cana-de-açucar, e o biodiesel, produzido a partir de grãos (especialmente a soja), já se tornaram alvos de estudos internacionais. E mais importante: do grande capital internacional. Produtivo e financeiro.

Desde 2005, quando o programa Pró-Alcóol completou 30 anos, os combustíveis alternativos nacionais passaram a serem tidos como alternativas viáveis para os grandes investidores transnacionais.

Em sua coluna na Folha de ontem, Delfim Netto desenhou com precisão o jogo de sinuca, enfrentado pelas grandes potências: "Um bom combustível renovável para o setor de transportes tem de possuir boa combustão, não pode absorver água e deve ser passível de eficiente distribuição e estocagem. É razoavelmente seguro que a biomassa será a origem desse combustível no futuro, mas há, ainda, muita dúvida sobre qual será a matéria-prima mais adequada, o método de produção mais eficiente e se a conversão será produzida por processo biológico -como o do etanol- ou termoquímico -como o do biodiesel".

Nesse ponto, o economista levantou a bola para os investimentos em pesquisa, para melhor desenvolvimento, não só dos processos já usuais - a fim de adequa-los a demanda futura -, como também para desenvolvimento de novos métodos de produção.

Segundo Delfim, a US Department of Energy (o departamento de energia do governo norte-americano) doou 3 centros de pesquisa para um programa de 5 anos, sendo US$ 100 milhões por ano, para resolver "o famoso e dificil problema de extrair etanol de biomassa".

É aí que entram as pesquisas para combustíveis derivados de gordura animal, como o sebo bovino, gordura de aves ou de suínos.

Biodegradáveis, renováveis e com menores emissões de gases poluentes. Todas matérias-primas baratas e que seriam jogadas no lixo. Segundo Frederique Rosa e Abreu, coordenador-geral de Agroenergia do Departamento da Cana-de-Açucar e Agroenergia do Ministério da Agricultura, em entrevista à revista Amanhã,“É possível adquirir sebo bovino a um preço máximo de R$ 1,10 o quilo, com a vantagem de transformar em energia um subproduto da carne".

“O sebo bovino e a gordura suína não são commodities. Enquanto o preço da soja e da canola sobem de acordo com o mercado internacional, por exemplo, é possível garantir um preço final reduzido usando estes produtos alternativos”, avalia. Isso porque, segundo Abreu, a matéria-prima corresponde a 80% do custo final do litro de biodiesel.

Essa forma de transformar biomassa em combustivel é uma alternativa aos combustíveis alternativos, isso porque a irregularidade na produção - que depende do número de abates - pode prejudicar o processo produtivo em larga escala. Não se pode incorrer no erro de praticar a pecuária apenas visando o biodiesel. O negócio está na complementariedade dos processos.

No curto prazo a produção de combustível através do sebo e da gordura animal pode ser adotada por cooperativas que integrem pequenos produtores com o objetivo de suprir suas próprias necessidades energéticas. Esse barateamento de custos pode ser capaz de gerar um conforto aos pequenos produtores, que deixariam de arcar com esse custo.

Segundo a matéria da revista, já existe um projeto neste formato para Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, um município que compreende quatro frigoríficos no seu entorno. A idéia, no entanto, ainda não foi colocada em prática.

 

09/08/2007 14:28

Classe média

O jornalista-blogueiro Ricardo Noblat, hoje colunista de O Globo, colocou em seu blog, no primeiro semestre do ano passado, indicação de uma canção de Max Gonzaga.

Na Folha de hoje, Nelson de Sá, assinante da coluna "Toda Mídia", voltou a chamar a atenção para a mesma canção de Gonzaga, reverberando notícia do site Blue Bus. "O vídeo foi postado em maio de 2006", avisou Sá.

A música "Classe Média", além da letra fora-de-série, conta cm uma seção instrumental muito ajeitada. Firme mesmo.

Em tempos de movimento dos cansados da Oscar Freire, nada melhor que Classe Média.
Clique aqui

 

09/08/2007 17:40

O Brasil e a nova geografia social

Da nota "Mapa-Múndi" da coluna de hoje de Guilherme Barros na Folha:

"Circula nas mesas do mercado financeiro uma nova geografia econômica para o planeta. A China vai ser a fábrica do mundo; a Índia, o call center; a Europa irá concentrar o turismo; os Estados Unidos, o shopping center, e o Brasil, a fazenda. Faz todo o sentido".

Completo: se tivessemos plano de vôo, com políticas nacionais bem planejadas e geridas, com metas bem definidas para todos os setores, com atenção à setores estratégicos, temos potencial para sermos tudo: a fábrica, o call center, o turismo, o shopping center e a fazenda.

 

10/08/2007 07:00

A crise e os negócios

A crise energética vivida pela Argentina este ano, têm dinamizado empresas do Brasil no setor, que aproveitaram a demanda para exportar mais equipamentos e serviços para o vizinho. A fórmula ajuda a contornar a crise do nosso comércio externo, abalado pela derrubada do real.

A empresa norte-americana Cummins Power Generation é fabricante de geradores de energia elétrica. Tem uma fábrica em Guarulhos (SP), que produz geradores cuja potência varia entre 40 quilowatts (kW) e 400 kW.

A filial nacional teve faturamento de US$ 35 milhões no ano passado, quando escoou cerca de 280 geradores para a Argentina. Apenas se baseando nos números alcançado sno primeiro semestre a empresa já prevê alcançar faturamento de S$ 50 milhões em 2007, vendendo mais de 800 geradores para industriais argentinos, que são os principais compradores.

A Cummins no Brasil produz cerca de 4 mil geradores ao ano, mas a partir de um turno de operação apenas. Há espaço, sem maiores investimentos em automação, para se aumentar a produção.

O modelo de negócios da multinacional é todo baseado nas exportações. Daí que pulverizou seus parques produtivos, elencando países para produção de determinados geradores, que são depois vendidos internacionalmente.

As fábricas da Inglaterra e dos Estados Unidos são responsáveis por produzir equipamentos acima dos 400 k. Já a operação da Índia ficou com a incumbência de manufaturar geradores com potência inferior a 40 kW. A fábrica brasileira exporta 75% de sua produção.

Daí que o empresariado industrial argentino comprou 1,2 mil geradores da empresa globalmente.

Se por um lado os investimentos em geradores de energia são benéficos para garantir conforto à atividade industrial e a economia argentina como um todo, é certo que a real questão para os nossos vizinhos é como realinhar seu setor energético. Aí reside o principal conforto para sua economia.

 

10/08/2007 21:26

Os partidos pós-2006

Na seção destinada as mensagens dos leitores da edição de hoje do Valor, o habitual leitor Antonio Negrão de Sá - ao menos uma mensagem dele é publicada por semana, é incrível - fez uma excelente análise da atual conjuntura político partidária nacional.

"O DEM e o PSDB fazerem uma oposição raivosa ao PT e ao Lula não é crime. O PT também fez. A preocupação é a partidarizaç~da grande imprensa. Está se criando um clima de luta de classe, tão temida e criticada pela burguesia na época da guerra fria. A burguesia com o controle dos meios de produção e comunicação atinge a classe média e alta. Lula, com a máquina e o poder, atinge a classe desfavorecida. As pesquisas apontam isso. A falta de uma reforma política agrava o quadro".

Em toada semelhante, a colunista Maria Inês Nassif escreveu sobre como as eleições e o ano de 2006 foi importante em demarcar uma nova dicotomia política, com dinâmicas próprias.

A coluna de Maria Inês foi publicada no Valor de ontem, mas pode ser lida
clicando aqui.

 

11/08/2007 09:05

Moeda e crescimento

A edição deste final de semana do jornal Valor Econômico traz um precioso texto de Dani Rodrik, professor de Economia Política da Universidade de Harvard. Embora não seja tão ligada ao pensamento neoliberal como a Universidade de Chicago, a escola de Harvard é caracterizada pelo pensamento hegemônico norte-americano: com pequenas sutilezas ideológicas, mas dentro do conservadorismo liberal.

Essa constatação torna o trabalho de Rodrik ainda mais primoroso. Sob o título de "A valia de ser subvalorizado", o economista escreve como um manual para uma nação que deseja se desenvolver. E sua lição, comprovada pela análise empírica e histórica, é que uma taxa cambial depreciada bem administrada é ponto-chave.

"O mais importante dilema de política enfrentado pelos mercados emergentes atualmente é o seguinte: por um lado, o crescimento econômico sustentado exige uma moeda competitiva (leia-se “subvalorizada”). Por outro lado, toda boa notícia é imediatamente seguida de apreciação da moeda, tornando a tarefa de se manter competitivo tão mais difícil."

"(...)Em resposta, os bancos centrais podem intervir nos mercados de moeda para prevenir a apreciação, ao custo de acumularem reservas externas de baixo rendimento e de se distraírem do seu objetivo primário, a estabilidade dos preços. Esta é a estratégia adotada por países como China e Argentina. Ou então o banco central deixa os mercados se moverem para onde quiserem, ao custo de provocar a ira do empresariado, dos trabalhadores e do resto do governo e, na verdade, de praticamente todos, menos da classe financeira. Esta é a estratégia conduzida por países como Turquia e África do Sul, que adotaram regimes de “metas de inflação” mais convencionais. A primeira estratégia é problemática porque é insustentável. A segunda é indesejável, pois compra estabilidade à custa do crescimento."

"(...) A subvalorização da moeda é um instrumento tão possante para o crescimento pelo simples motivo de que ela gera incentivos para os setores promotores de crescimento na economia. Ela aumenta a rentabilidade dos setores industrial e agrícola não-tradicional, que são as atividades com o maior nível de produtividade de mão-de-obra e que também apresentam as mais velozes taxas de aumento de produtividade."

"Uma moeda subvalorizada permite que uma economia se integre à economia mundial sobre uma base de desempenho robusto nas exportações. Ela estimula a produção (e portanto, o emprego), ao contrário da supervalorização, que estimula o consumo."

"(...)Existem outros instrumentos disponíveis para aumentar a poupança interna e reduzir o consumo, além do equilíbrio fiscal. As políticas de governo podem visar a poupança privada diretamente, por meio de iniciativas para poupar através de políticas previdenciárias e tributárias apropriadas. Mais importante ainda, as políticas podem desestimular os surtos de consumo puxados pelo crédito por meio da tributação dos ingressos de capital (no estilo do Chile) ou aumentando as exigências de liquidez dos intermediários financeiros. Há pouco a lucrar com a concessão de ingresso livre ao capital de curtíssimo prazo na economia."

"(...)Assim que as regras do jogo monetário incorporarem a taxa de câmbio real, e pressupondo que a política fiscal continue oferecendo apoio, os investidores poderão esperar por uma moeda mais competitiva e menos volátil no futuro. Isso significará mais investimento em setores negociáveis, mais emprego na economia como um todo e crescimento mais acelerado."

"Você saberá que teve êxito quando o secretário do Tesouro dos Estados Unidos vier bater à sua porta dizendo que você é culpado de manipular a sua moeda."

 

11/08/2007 14:15

Simonsen, o economista mais importante do Brasil...?

O economista Mário Henrique Simonsen foi escolhido o maior economista brasileiro, em votação do jornal Valor com 63 eleitores de diferentes escolas de pensamento. Simonsen recebeu 27 votos, dois a mais que Celso Furtado, que receberia o voto deste Blog, fosse este blogueiro um eleitor potencial.

Simonsen não ficou marcado pelos trabalhos acadêmicos, mesmo tendo sido professor da Escola de Pós Graduação em Economia da FGV, que ajudou a criar. Também não é lembrado por obras históricas, mesmo tendo escrito alguns livros importantes de teoria.

Ficou marcado pelos estudos acerca do que se revelou ser a "inflação inercial"; por sua incapacidade de transformar teorias em práticas, exceção honrosa à "inflação inercial"; e por suas passagens pelas equipes econômicas dos governos militares dos anos 60 e 70.

Vejamos algumas de suas realizações e idéias:

Quando do golpe militar de 1964, sob o primeiro presidente general, Castelo Branco, assumiu a dupla Octávio Gouvêia de Bulhões (Fazenda) e Roberto Campos (Planejamento). A série de medidas dos dois no período Castelo (1964-1966) preparam o Brasil para um grande salto de desenvolvimento, mas que acabou no que viria a ser chamado de o "milagre econômico". Mas isso é outra história.

Com apenas 29 anos, Simonsen foi convidado por Campos para colaborar no primeiro Paeg (Plano de Ação Econômica do Governo), que foi a estratégia de política econômica do governo Castelo.

Em 1967 assumiu Costa e Silva. Foi quando a ditadura começou a endurecer e o autoritarismo assassino realmente começou. Na área econômica João Paulo dos Reis Velloso, então presidente do Ipea, convidou Simonsen para escrever o capítulo de macroeconomia do Programa Estratégico de Desenvolvimento.

No governo Médici foi presidente do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização).

Mas foi a partir do período inaugurado pela posse de Geisel, em março de 1974, que Simonsen é melhor lembrado. O economista assumiu o Ministério da Fazenda, quando começou dupla com Reis Velloso, então empossado Ministro do Planejamento.

A dupla tocou o segundo PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), que desenvolveram, baseados no primeiro, que produziu o "milagre" do governo Médici (1969-1973).

O II PND era um programa ambicioso de criação de um parque industrial para produção de insumos básicos e bens de capital, para substituição de importações e geração de excedentes exportáveis. Isso, logo após o primeiro choque do petróleo.

No final de 1973, a Opep foi criada a partir da organização dos países árabes produtores de petróleo. O cartel decidiu elevar o preço do barril de US$ 2,90 para US$ 11,65. Isso provocou uma reorganização orçamentária em todo o mundo, que passou a crescer menos.

O Brasil de Geisel não aceitou qualquer diminuição, e sem recorrer a desvios de rota, passou a se endividar externamente. O déficit em transações correntes passou de 2,48% para 6,8%. Simonsen criou o "refinanciamento compensatório", que residia em farta concessão de crédito ao setor privado. Entre 1974 e 1976 o país cresceu 8,15%, 5,17% e 10,26% nos três anos. Foi apenas em 1977 que Simonsen/Velloso diminuiram o ritmo, quando o PIB cresceu 4,9 e o déficit corrente caiu para 2,72%. A inflação caiu pela primeira vez, para 38,84% ao ano.

Com a substituição anunciada de Geisel por Figueiredo, em março de 1979, Simonsen foi convocado pelo futuro presidente para assumir o Planejamento. Ele aceitou, com planos de tornar rígidos as formas de crescimento nacional, cada vez mais endividado.

Naquele ano o mundo sofria o segundo choque do petróleo, mais forte, e seguido de um aumento nos juros americanos. A recessão americana significava recessão mundial. O Brasil não tinha muitas alternativas.

Se sob Geisel, Simonsen se mostrava complacente, mesmo sabendo o que deveria, e como deveria proceder para evitar o caos futuro, sob a pasta do Planejamento o economista estava disposto a se mexer.

Pretendia reduzir o crescimento para a casa dos 3% e adequar o país ao segundo choque. Figueiredo não aceitou a idéia, e transferiu Delfim Netto, que assumira como Ministro da Agricultura, para seu lugar.

E veio a recessão de 1981, com a crise da dívida externa de 1982. E o FMI passou a ditar os rumos.

 

12/08/2007 19:24

Finalmente melhorando aos poucos em TI

A nova Lei de Informática (Lei nº 10.176, de 11 de janeiro de 2001), estabeleceu regras para incentivos fiscais para os produtores de bens e serviços de informática e automação. Foi quando se deu o grande salto para a produção de componentes de tecnologia da informação no Brasil.

Com o empurrão não intencional do câmbio no triênio 2002-2004, várias fabricantes multinacionais aproveitaram para ganhar escala, transferindo parte da produção para cá.

Depois foi a vez do foco governamental, através de novas regulamentações e benefícios, deslanchando principalmente a partir do segundo semestre de 2006, que os preços no varejo foram caindo. Essa é a ponta que mais importa.

Mas o caminho das pedras está longe de solucionado. A produção de componentes, softwares embarcados, entre outros, ainda é incipiente em território nacional. Mesmo com os benefícios fiscais da Zona de Manaus (que distorcem a concorrência), agora estendidos a todo o território nacional, são variados custos que tornam a produção nacional cara.

Na maioria dos casos, os componentes tecnológicos são importados, cabendo a empresa a função de montadora e prestadora de serviços. Este, o principal filão das empresas brasileiras.

Deve-se continuar insistindo em criar as condições necessárias para a produção em solo nacional. O suprasumo tecnologico derivado é o de capacitar a mão de obra brasileira. Com câmbio correto, cria-se espaço até para pólo exportador, passado o primeiro momento (atual) que o câmbio baixo permite a importação de componentes à preços mais baixos.

Embora atrasados no setor, frente inclusive à outros emergentes, estamos, no entanto, mil anos à frente de nós mesmos do passado recente.

Me refiro à bisonha Lei da Informática, de 1984, que matou todas as oportunidades de políticas e negócios no setor que definiria o futuro (hoje). Criou uma reserva de mercado ao mesmo tempo que desestimulava a exportação. Essa estrangulação foi chave para o aparecimento dos empresários rentistas (rent-seekers).

O ex-ministro Roberto Campos se indignava com a Lei, em entrevista de 1994, quando o projeto completava 10 anos:

"Quando é que foi votada a lei de informática? 1984. Quando é que surgiu o computador pessoal? Foi no meio de l984. Quando é que houve o grande deslanche asiático? Em 1984.
O Brasil deixou de ser uma opção de investimento, exatamente no momento em que a tecnologia dava um salto de tecnologia de elite para tecnologia de ``marketing'' e no momento em que os dois maiores credores, exportadores de capital, eram os dois países amigos e tradicionais do Brasil.
Nesse momento, outubro de 1984, cortamos japoneses e alemães. Para instalar um microprocessador, tinha que pedir licença. Não há país que suporte isso. O Brasil podia estar hoje na posição da Coréia ou do Sudeste da China".

 

13/08/2007 07:00

O ciclo humano de exuberância irracional dá uma volta

O noticiário e a cobertura econômica da atual crise nos mercados financeiros mundiais têm sido bem acima da média. Informativa, deixando a opinião à cargo dos especialistas de todo o tipo ideológico. A Folha, o Valor e a revista Época, se sobressaíram com as melhores coberturas. O artigo de Gustavo Franco, por exemplo, é precioso, pois abre mão das teorias e da politização para explicar o que acontece.

Como se sabe, a crise ainda não alcançou a economia real, sendo fruto dessa exuberância irracional que tomam os financistas e rentistas, em tempos de bonança e liquidez farta. Não é a primeira vez, não será a última.

O exemplo da crise de 1929 é emblemático. O mundo se desenvolvia em patamares semelhantes aos atuais, com pequenas crises, desde, pelo menos, os processos de unificação territorial européia, de 1870-71.

Como antes, uma hora a desregulamentação dos mercados cobra sua dívida. E a conta têm de ser paga.

Embora com semelhanças latentes, não vejo a atual crise das hipotecas norte-americana (motorzinho da economia dos EUA) como o espelho de 1929.

O negócio é o seguinte: os juros internacionais estão excepcionalmente baixos há muito tempo. As consequências são as seguintes: o crédito se torna baratíssimo, ao mesmo tempo que o investimento mais seguro - remunerados por esses mesmos juros - não são satisfatórios.

Com isso, toma-se dinheiro para fazer o que cultura e historicamente mais importa aos americanos: comprar uma casa. Lá, todo o mercado imobiliário é baseado nas hipotecas, ou seja, financia-se o negócio por anos à fio, e ainda se usa o bem, para contrair mais empréstimos.

Nesse filão de dinheiro farto e barato e endinheirados entediados com a renda fixa, surgem os grandes fundos de hedge, que administram enormes quantias, alocadas em toda a sorte de ativos financeiros.

Tudo é especulado pelo mercado americano. Não é força de linguagem.

Daí que os hedge funds fazem a festa. Mas novamente vêm a questão: com crédito barato, investe-se alavancado. Ou seja, investe-se com dinheiro emprestado, não apenas com patrimônio próprio.

E é essa relação hedge funds-bancos que torna o jogo perigoso. Mais ainda quando entram empresas especializadas em hipotecas "subprime", ou de alto risco.

O especulador pegava dinheiro no banco, comprava o imóvel, esperava uns meses para que a propriedade se valorizasse e então a vendia para outro. Com a receita da venda, liquidava o empréstimo e embolsava a diferença. Com tantas casas a venda, o preço dos imóveis parou de subir e a ciranda foi subitamente interrompida. Resultado: muita gente falida e bancos entupidos de hipotecas que dificilmente receberão.

Com um agravante: os juros para os empréstimos começaram a subir.

Toda essa irracionalidade especulativa foi montada na aposta que, na ponta, o tomador de empréstimo imobiliário de alto-risco (aquele que têm menos garantias de renda para honrar o contrato) pagasse.

 

13/08/2007 21:22

Até logo, Josué

O São Paulo F.C. acaba de anunciar a venda do volante Josué, para o Wolfsburg, da Alemanha por US$ 2 milhões, sendo US$ 280 mil para o jogador.

Josué fez 157 partidas com a camisa tricolor, tendo estreado na primeira partida do São Paulo pelo Campeonato Paulista de 2005, contra o Ituano. O clube acabaria vencendo torneio, que marcaria pelo surgimento de um das maiores duplas de volantes do clube do futebol mundial por extensão: Mineiro e Josué.

O São Paulo de 2005 conquistaria ainda a Libertadores e o Mundial de Clubes. A partir de 2006 o time campeão do mundo começou aos poucos a sumir. O ano de 2006 foi igualmente mágico. O clube venceu o Campeonato Brasileiro pela quarta vez, com 10 pontos de vantagens para o segundo colocado, o Internacional. O mesmo Inter que bateu o São Paulo na final da Libertadores do mesmo ano.

Em 2007 novas mudanças foram feitas. O craque Ilsinho, lateral-direito, trazido para suprir o espaço de Cicinho, parcialmente coberto por Souza, foi comprado em 2006 e vendido um ano depois.

Com a venda de Josué, do time Campeão do Mundo de 2005 restam Rogério Ceni, Edcarlos, Júnior, Souza, Richarlysson, Bosco e Aloísio. Parecem poucos, mas são muitos. É só ver o quanto cada time guardou de semelhanças com seus respectivos escretes de dois anos atrás.

Estive na primeira e na última partida de Josué pelo São Paulo. Não poderia ter terminado melhor: vitória sobre o Atlético PR por 2 a zero, com mais de 36 mil pagantes no Morumbi, no último jogo do primeiro turno do Brasileiro 2007. O jogo do título simbólico do troféu Osmar Santos, de campeão do primeiro turno.

Resta ver como o São Paulo fará para manter o nível, que já vêm caindo. A janela européia só se fecha no início de setembro, e há riscos de novas saídas ocorrerem.

 

14/08/2007 07:00

Consolidação nas distribuidoras elétricas

O setor de distribuição de energia elétrica brasileira está iniciando longo processo de consolidação. Como em praticamente todos os setores estratégicos ou em alta no momento (caso das commodities), a tendência é de acirramento nas disputas entre empresas, em processo inerente do capitalismo concorrencial.

As empresas deixam de competir apenas em ganhos de escala para e capitalizarem e adquirirem a concorrência. E o modelo é sempre o mesmo: começa-se adquirindo pequenas empresas para em seguida passar a fase mais aguda, de fusão e aquisição com concorrentes diretos ou maiores.

O mercado se nivela, ficando concentrado em poucas empresas, que se tornam grandes players nacionais. O passo seguinte é o fortalecimento internacional.

Pois bem, o que ocorre no Brasil, já há alguns anos é o primeiro passo.

O mercado de distribuição conta atualmente com 62 empresas. Especialistas e empresários do setor apontam que apenas de 15 a 20 dessas companhias devem continuar atuando firmemente, no médio e longo prazo. O cenário, de aquecimento da economia, é ideal para que as empresas do setor se mexam no sentido de adquirir a concorrência.

Os primeiros alvos são as distribuidoras "federalizadas", do Norte e Nordeste. Essas companhias foram incluídas no plano de privatizações dos anos 1990, mas não encontraram empresas interessadas em adquiri-las. A comodidade é alta: penetra-se em uma região diferente com bastante dinheiro.

Esse acirramento tem duas esferas distintas; a CPFL Energia adquiriu recentemente a CMS Energy, e passou a controlar a atividade de distribuidoras como a Companhia Paulista de Energia Elétrica (CPEE) e a Companhia Sul Paulista de Energia (CSPE). Com essa aquisição a CPFL Energia passa a deter 13,1% do market share de distribuição de eletricidade no Brasil, ultrapassando a barreira dos seis milhões de clientes em 568 municípios, nos estados de São Paulo, Ro Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.

Entrou com força no mercado paranaense depois de comprar a Companhia Luz e Força Santa Cruz, que também atuava em 24 cidades paulistas.

De outro lado pode afastar outros grandes players. A americana AES poderá deixar suas operações no país, caso não faça prevalecer sua prioridade de compra das ações da Companhia Brasiliana de Energia, controladora de empresas como a Eletropaulo.

 

14/08/2007 22:11

O real frente à crise das hipotecas

O pregão de dólar futuro fechou hoje, com o nosso real subindo 2,21%, valendo R$ 1,986 por dólar. Hoje, pela primeira vez desde setembro de 2006, o Banco Central não realizou leilão de compra de dólres no mercado à vista.

Esse movimento deixa claro algumas dinâmicas:

Primeiro: o que têm levado a inflação ao piso é o câmbio ultra valorizado, que funciona como âncora dos preços, ao privlegiar os importados. Com isso, o BC regula a cotação real-dólar de modo a manter a inflação sobre controle. Quando entram muitos dólares o B compra moeda.Como entrou pouco, o BC não comprou.

Segundo: a importância dos investidores externos, e sua influência sobre os grandes fundos institucionais brasileiros. A crise do mercado financeiro mundial se dá graças à problemas nas hipotecas de alto risco americanas, que podem ou não atrapalhar a economia real dos EUA ou Europa. No mais, atinge fundos de hedge que investiram alavancados nessa modalidade ultra variável.

Terceiro: Não é o superávit comercial que pressiona a cotação do real. Embora é evidente que nunca entraram tantos dólares na conta comercial, devido às nossas vendas externas. Mas não mudou nada de ontem para hoje nas operações comerciais entre países. Fica mais do que claro, que, se entraram menos dólares hoje no país, que fez com que o real subisse, é devido principalmente à dança especulativa da conta financeira.

 

15/08/2007 07:00

Menos movimento na geração elétrica

A tendência de consolidação no setor de distribuidoras de energia elétrica não procede no setor de geração da energia a ser distribuida.

Isso porque o setor de geração trabalha com margens de retorno muito baixas para justificar os investimentos privados. E o setor demanda altos investimentos.

Outro ponto são os diferentes entraves burocráticos, ambientais e regulatório, que inibem inclusive a ação do Estado.

Nessa questão a licitação para as usinas do rio Madeira funcionaram como um passo firme na direção de tornar o setor viável, diminuindo o gargalo existente, que inibiria as distribuidoras.

Ao passar pelos critérios ambientais, e de constar, no próprio edital, de medidas reparativas, que facilitem a fiscalização a cada dois anos que proporcionem os desvios de rota, o governo deu um aceno muito importante, formal e simbolicamente falando.

O acirramento do capitalismo concorrencial, que percorre todas as esferas de negócios e setores, não foge da cartilha teórica. E portanto, nem do setor de enrgia.

No ano passado, o setor de energia registrou 886 transações envolvendo fusões e aquisições entre as empresas, no mundo todo. O número é inferior às 906 transações verificadas no ano anterior, porém, o volume financeiro oriundo desses negócios em 2006 supera o que foi constatado em 2005. No ano passado, o valor movimentado nesses acordos atingiu US$ 420 bilhões, enquanto que em 2005 esse montante não passara dos US$ 257 bilhões.

Foi assim em números globais, foi assim no Brasil. Em praticamente todos os setores. Diminui o número de pequenas empresas que se sustentam, e as compras passam a ser de médias e grandes concorrentes. Daí que em quantidade o número tende a cair, mas em valor (por envolver operações entre grandes players) tende a aumentar.

 

15/08/2007 15:45

Os militares e a industrialização

Estou lendo "Brasil em perspectiva", coletânea de vários historiadores e cientistas sociais, organizados por Carlos Guilherme Mota e sob direção de Boris Fausto e Fernando Henrique Cardoso. O livro é de 1982, quando FHC era "apenas sociólogo" e Fausto um habilidoso historiador, sem deixar ideologias atrapalhar suas análises, como ocorre hoje.

O capítulo referente ao golpe de 1937, que porduziu o Estado Novo, sob ditadura do então presidente constitucional Getúlio Vargas é escrito por Lourdes Sola. E apresenta uma tese incomum, embora muito bem exposta, da industrialização brasileira dos anos 30.

Segundo Lourdes os militares tiveram participação importantíssima para fomentar a industrialização em um país essencialmente agrícola, monocultor quase, com a atenção dada ao café.

Com a quebra financeira mundial de 1929, que levou, à exceção da União Soviética, todos os países à recessão, os preços internacionais do café (então já uma commodity) cairam abruptamente. Não havia mais procura por importação, devido à crise. O que Vargas fez, através do Conselho Nacional do Café e do Banco do Brasil foi a fixação das cotas de sacrificio de 30% e de retenção de outros 30%.

Isto é, a queima anual de grandes quantidades do produto. Havia fixação de uma taxa por saca exportada e mais outra para cada novo pé plantado, com o objetivo de desestimular quedas maiores nos preços. Mais ainda, o Brasil porque sustentava os preços, estimulava indiretamente a produção em outros países competidores.

Com isso, o setor que produzia para o mercado interno teve de cara uma apreciação: os industriais. A desvalorização de nossa moeda - um dos instrumentos de defesa da renda no setor cafeeiro - encarecendo os produtos importados, estimulara a produção interna de bens manufaturados, reforçada pelo crescimento do mercado consumidor urbano.

E o exército com isso?

O problema da unidade e da segurança nacional era tema universalmente valorizado, num mundo dividido por "nacionalismos" e em preparativos de guerra. No Brasil, nação economicamente dependente, em que predominava a produção de matérias-primas, o problema da defesa nacional era associado pelas cúpulas militares (e por Vargas) à instalação de indústrias de base, à exploração autônoma das fontes de energia e à produção das riquezas do subsolo, condições também de "reaparelhamento militar eficiente".

Instalava-se então uma dicotomia: no campo econômico, uma política francamente expansionista e progressista. No campo político, com a Lei de Segurança Nacional, política recheada de elementos ultra-reacionários.

 

15/08/2007 19:18

A economia mundial e o Estado Novo

Esse processo de industrialização se intensificou a partir da instituição da ditadura Vargas, inaugurada pelo Estado Novo de novembro de 1937. O ano coincidiu com a retomada da economia norte americana, que voltava à crescer forte, retomando os níveis pré-1929.

As condições externas não poderiam ser melhores: a demanda internacional pegava ritmo, com o retorno americano e o crescimento europeu, impulsionado pelo acirramento ideológico nazi-fascista e os Estados de Bem Estar.

E por aqui, a declaração de Estado de emergência possibilitou Vargas à governar à bel-prazer. Mantinha os militares apaziguados com a assombra comunista, e esmagando a oposição.

A dissolução de todos os partidos foi um golpe de mestre de GV, que, com isso, dissociava de sua imagem qualquer resquício partidário, ao abandonar a Ação Integralista Brasileira.

Foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda, sob o mando de Lourival Fontes, antigo aliado varguista. O DIP ficava subordinado ao Ministério da Justiça, do ministro Francisco Campos, maior atingido com o desmembramento da AIB, sem, no entanto, diminuir seu apoio à Vargas.

Enquanto as indústrias se multiplicavam, os cafeicultores começavam à fazer negócio de novo com os Estados Unidos, maiores compradores históricos do produto. O início da Segunda Guerra Mundial em 1939, e a subsequente entrada dos EUA em dezembro de 1941 impediu que o crescmento fosse maior: o governo manteve o sistema de cotas de sacrifício (queima anual dde milhões de sacas de cafés) até 1944.

 

15/08/2007 19:39

Keynesianismo varguista

A eclosão da Segunda Guerra Mundial mexeu nas dinâmicas da economia do Estado Novo. Seguindo as tendências das economias nacionais, Vargas, como Perón, promovia um Estado intervencionista, com políticas setoriais e gestão descentralizada, pulverizada em diversas autarquias especiais.

O Japão e a Alemanha, focados que estavam na Guerra, aumentaram sensivelmente suas importações, especialmente do algodão. Histórico provedor do produto, os Estados Unidos cortaram relações diplomáticas e comerciais com os países do Eixo.

Junta-se a isso a indefinição ideológica de Vargas até agosto de 1942 - mantendo relações com os dois blocos de países em Guerra -, surgiram no Brasil enormes plantações de algodão, que via seus preços subirem, atraindo parte dos capitais antes alocados no café.

Um outro ponto "benéfico" para o desenvolvimento da economia do Estado Novo foi o surgimento oficial da política de substituição de importações.

Com o foco todo na Guerra, o suprimento de bens manufaturados europeus caiu cerca de 40% (segundo dados de Lourdes Sola). Com o crescente aumento nos preços, se tornava mais barato produzir em solo nacional. Getúlio se antecipou, e aproveitando a base formada na década anterior, passou a estimular ainda mais a industrialização, com claro privilégio para o eixo Rio-São Paulo.

Um ponto que, ao lado da urbanização, intensificou a demanda interna foi a criação do salário mínimo em 1940, que trazia junto uma série de medidas trabalhistas, como as férias remuneradas, a indenização por dispensa sem justa causa e os Institutos de Aposentadoria e Pensões.

 

15/08/2007 19:50

O Estado Novo e as concessões aos trabalhadores

Ainda assim foi social a melhor tacada do Estado Novo (1937-1945) de Getúlio Vargas. Com a criação dos direitos dos trabalhadores, que davam maior autonomia e estabilidade ao trabalhador urbano, Vargas também permitiu a criação dos sindicatos profissionais.

Estes tinham representação nas Juntas e Tribunais (dois dos vários quadros institucionais ligados ao judiciário, criados na ditadura). De resto, esse resultado derivava de uma política consciente por parte do governo, que já antes do Estado Novo procurara disciplinar, unificando-o sob seu controle, o movimento sindical.

Com a obrigatoriedade na vinculação dos sindicatos aos órgãos oficiais, o governo desarticulava qualquer reinvidicação mais séria, que não pudesse ser antecipada por um órgão varguista.

O golpe definitivo foi a criação do imposto compulsório sindical, arrecadado pelo governo e depois repassados aos sindicatos.

 

15/08/2007 20:08

Getúlio e a política

Na política Vargas acumulava diversos quadros de diferentes tendências e pensamentos sobre seu comando. Em situação razoavelmente similar ao que Perón passava na Argentina.

Segundo Lourdes Sola eram três tendências dentro do governo. A primeira era ligada aos Estados Unidos, e contava com Lourival Fontes (chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão estratégico do governo) e Osvaldo Aranha (primeiro como embaixador em Washington, depois como ministro do Exterior).

A segunda linha era ligada aos alemães, e tinha em Francisco Campos (líder da Ação Integralista Brasileira e ministro da Justiça) e Felinto Müller seus maiores aliados no poder.

A terceira força era personificada por Góes Monteiro e Dutra, que, militares, oscilavam entre o lado que oferecesse maiores vantagens. O objetivo era claro: o Exército, então em fase de reorganização, esperava por armas e equipamentos baratos, além de financiamentos para as indústrias de base.

Vargas escolheu então o caminho da ambiguidade, se segurando como pode num meio termo entre todos os pensamentos, lidando com idas e vindas, até meados de 1943, quando se definiu aliado dos americanos e ingleses.

O plano econômico era bem definido. A escolha pelo intervencionismo keynesiano era baseada no New Deal do presidente Franklin Roosevelt, na opinião deste blogueiro o maior estadista do século XX.

No social as concessões, fiscalizações e oficializações dos sindicatos dos trabalhadores andavam juntas.

Na política, o aceno às várias tendências mantinham o jogo da maneira que Vargas almejava, que seja, nenhum grupo privilegiado mas com na eterna disputa por melhores condições.

 

16/08/2007 07:00

Banrisul e o reequilíbrio gaúcho

O momento financeiro vivido no Brasil não encontra paralelos em nossa história. Passado o choque do Plano Real, que, ao acabar com a inflação matou todas as operações feitas no overnight entre os bancos e o governo, e tendo o Proer como consequência, desde 2002 o sistema bancário vêm crescendo como nunca.

Nesse ponto o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, o Banrisul, têm aproveitado todas as janelas de modalidades de crédito e operações dos últimos anos. Mesmo sendo o banco do Estado em pior situação fiscal da União.

A eleição de Yeda Crusius (PSDB) para governadora do Rio Grande do Sul foi acompanhada de notas oficiais de esclarecimento que o Banrisul teria posição ainda mais privilegiada na condução das políticas de reequilibrio financeiro das contas estaduais.

E mesmo assim seu lucro semestral foi 283% maior que o lucro do mesmo período do ano passado - o lucro líquido nos primeiros seis meses de 2007 foi de R$ 725,1 milhões. A previsão é que o banco termine 2007 com patrimônio líquido de $ 3 bilhões, o maior valor de sua história.

O que ocorre é o seguinte: o presidente do Conselho de Administração do banco, Aod Cunha, foi absorvido pela administração Yeda, e feito Secretário das Finanças. A atuação dobrada e conciliada de Aod nas duas frentes permitiu ao Banrisul cumprir a meta de abertura de capital na Bovespa.

Com os constantes cortes na ainda absurda taxa Selic, o único caminho para os bancos têm sido o ganho de escala, aumentando a base de correntistas. Vale tudo: agregar serviços, automação, e, claro, abertura de capital.

Para isso foi traçado o plano de entrar no Novo Mercado da Bovespa, aliando melhoras na gestão que capacitaram aina mais a instituição.

Mesmo em tempos de desaceleração no Estado, muito dependente do setor industrial e agrícola, afetados pelo câmbio excessivamente valorizado, o aumento do crédito concedido ao setor prvado foi de 14%, totalizando R$ 4,5 bilhões.

Para o Estado o sucesso da emissão de ações do Banrisul - que movimentou cerca de R$ 2 bilhões com a oferta primária e secundária de papéis preferenciais [sem direito a voto] - abre uma brecha para que o governo gaúcho estenda a estratégia a outras empresas públicas. “Sem perder o controle e sem privatizar as instituições”, conforme ressaltou a governadora Yeda Crusius.

O processo de depender menos dos repasses federais é a estratégia da tucana, que pretende proceder da mesma forma com Compnhia Rio grandense de saneamento (Corsan) e com o Deartamento Estadual de Estradas de Rodagem (Daer).

O primeiro passo para a capitalização da Corsan através do IPO foi dado pelo PAC do governo Lula, que abriu a possibilidade de emissão de debêntures para empresas de saneamento.

 

16/08/2007 19:01

Afunilamento regional

Do inacreditável presidente da Phillips no Brasil, Paulo Zottolo, em entrevista ao Valor:

"Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".

Respostas não demoraram. A melhor delas, porque descartou o baixo nível, foi do governador do Piauí, Wellington Dias:

"Para se ter uma idéia, o Piauí tem 80% de suas florestas nativas preservadas e produz oxigênio para o Brasil e para o mundo. O Piauí, segundo estudos em andamento, tem uma das maiores bacias de gás e petróleo do país. É do Piauí a melhor escola do Brasil, eleita dois anos consecutivos pelo Enem. O Piauí tem a melhor produtividade de soja, mel e algodão do país".

E terminou:

"Tenho certeza de que o capitalismo afasta o homem do ser humano. Que Deus dê a ele a oportunidade de conhecer o Piauí e os homens e mulheres que aqui vivem".

Amanhã tem o famigerado minuto de silêncio do movimento "Cansei", lançado por Zottolo, Dória e OAB-SP. Não há notícia de piauienses cansados. E definitivamente Zottolo não é político.

 

17/08/2007 07:00

E lá vamos nós, de novo

O Banco Central mantém em sua página na internet todo o tipo de informação acerca de sua política: atas de reuniões, teorias, posição e composição de nossa reserva internacional.

Esse último dado, atualizado com posições referentes ao mês de julho, define a composição de nossas reservas no exterior, principal escudo da equipe econômica do governo e daqueles alinhados com essa política.

Segundo eles, com o nível recordes de reservas (US$ 155 bilhões) estamos mais do que prontos e seguros para enfrentar qualquer solavanco mundial. Como disse o presidente Lula ontem à tarde, agora vamos mostrar como valeu a pena essa "política da estabilidade" que reduziu os stocks de endividamento externo com a mesma parcimônia com que se acumulavam reservas.

A questão que se coloca é o que o órgão definidor de nossa política econômica, o BC, vai fazer, mantida a atual situação.

Como se sabe a principal meta do BC é manter a inflação dentro do intervalo de 2% à 6% ao ano. Hoje está em 3%, graças à âncora cambial. O real supervalorizado combina-se com o efeito China, numa ordem econômica mundial sino-cêntrica, que traz os importados baratos e em enorme quantidade.

Mata-se a industrialização, inibe o agronegócio, permitindo o crescimento apenas de nossas "vantagens comparativas": as commodities agrícolas e metálicas e o etanol. Todo o resto se importa.

Mas com a secura do crédito nos Estados Unidos e na Europa, os investidores externos, hiperalavancados, começam a desmontar suas posições nos mercados financeiros emergentes. O nosso é o mais afetado porque mais chamativo: juros altos com risco cambial baixo.

O que ocorreu foi uma leniência política, um desleixo por parte de nossos definidores de políticas ao legar a tão falada estabilidade ao bom momento mundial. Não há como ter estabilidade aqui a partir do momento que estamos com este grau de inserção ao comércio mundial. E com mercados tão desregulados.

A saída do capital especulativo têm produzido uma elevação na cotação do nosso real. Em menos de um mês subiu de R$ 1,84 para quase R$ 2,10.

Isso têm um limite claro. Como é o câmbio o que mantém a inflação sobre controle, em determinado momento o BC terá de intervir em sua cotação, em sentido inverso ao que ocorreu até agora no governo Lula. Ou aumentará os juros, matando o ainda incipiente crescimento gerado pelos sucessivos cortes e o PAC, ou começará a vender os dólares estocados nas reservas.

O Tesouro não mais conseguirá ofertar títulos prefixados à taxas baixas. O movimento de alta já começou. Para renascer os papéis pós-fixados é um pulo.

E toda essa estabilidade acaba, sem que tenhamos aproveitado os tempos de "bonança na economia", ou o "céu de brigadeiro".

O filme não é novo. Aliás, não poderia ser mais velho.

 

17/08/2007 10:45

Os multimercados dos ex-BC

Em entrevista ontem à Veja On-Line, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, ligou a atual crise nos mrcados financeiros mundiais aos hedge funds, e menos às economias nacionais.

Nessa toada, o Estadão de hoje traz matéria relatando as perdas dos hedge funds brasileiros. Aqui, eles são chamados de fundos multimercados, e os maiores são administrados por ex-diretores e presidentes do BC brasileiro.

Entre os dias 23 de julho e 14 de agosto, o fundo Luxor, administrado pela Opportunity Asset Management, amargou perdas de R$ 95 milhões (12,15%), a maior entre os multimercados classificados como não-exclusivos. Recentemente, o ex-diretor de Política Econômica do Banco Central Afonso Bevilaqua assumiu o comando da instituição. Outros portfólios da Asset apresentaram quedas ainda maiores, embora com impacto reduzido por conta do patrimônio menor.

Também figura na lista das maiores perdas entre os multimercados o fundo da Mauá, gestora de recursos do também ex-diretor do BC Luiz Fernando Figueiredo, que registrou desvalorização de R$ 77,8 milhões (5,46%) no mesmo período. O Gávea Brasil, do ex-presidente do BC Armínio Fraga, acumula uma queda de R$ 55 milhões, o equivalente a 3,46%.

 

17/08/2007 18:26

Sobe-e-desce

A jornalista Mara Luquet, do Valor avisou em sua intervenção diária na rádio CBN: agora que o dólar subiu os investidores procuram comprar divisas, apostando em um movimento de alta.

Com isso, os fundos cambiais aumentaram suas participações. Muitos bancos também adquiririam a moeda norte-americana como forma de seguro ontra a crise financeira.

Ao mesmo tempo que os exportadores aproveitaram para trazer todos os dólares ainda retidos fora do país através de contratos de câmbio. Os importadores por sua vez, deixaram de comprar dólares, apostando na retomada da apreciação do real dos tempos pré-crise.

O BC novamente não realizou leilões de compras de dólares - pela quarta vez consecutiva - como parte de sua política de utilizar o câmbio baixo como âncora dos índices de preços.

Toda essa combinação de fatores - sem excluir o fato de o dia ter sido mais calmo nos mercados mundiais - fez com que o dólar despencasse 3,34%, fechando a R$ 2,024. A maior valorizaçãodo real em um dia, em mais de 15 meses.

E a crise financeira continua desviando a atenção da economia real dos países. Faz parecer que essa jogatina louca de câmbio e empréstimos internacionais é o que realmente importa.

 

18/08/2007 10:12

A mídia e a crise financeira mundial

A atual crise financeira mundial, surgida nos mercados de hipotecas norte-americanas e seus derivativos financeiros - estes com alcance mundial - já tem ingredientes para formar um livro. Diferentes opiniões foram expressas, fontes variadas foram expostas, gente graúda de seu pitaco.

Nas últimas duas semanas alguns meios de comunicação exerceram bem seu papel, a dar voz à diversas interpretações. Já citei aqui os casos dos jornais Valor Econômico e Folha de S.Paulo, e das revistas CartaCapital e Época.

A edição deste sábado da Folha traz dois textos importantes para formar um consenso do que acontece, e como sair dessa.
São dois textos traduzidos do inglês. Uma matéria de Matthew Gaarrahan do "Financial Times" traz o incomum: as famílias em dificuldades de honrar as hipotecas com juros crescentes.

Até então via-se apenas o lado financeiro da história. Como aliás, se especializou a mídia americana - na qual a brasileira se espelha como modelo máximo. Se se transcender as planilhas, verá que na ponta, existem milhões de famílias em dificuldades. Aí é que vive o problema.

O outro é um artigo de Paul Krugman, economista da Universidade de Princeton, colunista do "The New York Times". Krugman critca as agências de risco e propõe uma solução de médio prazo para o mercado financeiro.

Analisarei em seguida os textos.

 

18/08/2007 10:29

As famílias na ponta

A matéria do "Financial Times", traduzida por Luiz Roberto Mendes Gonçalves para a Folha apresenta o lado de uma família californiana dessa crise financeira.

O casal Cynthia e Joe esperanza, com dois filhos, tomou um empréstimo da Countrywide três anos atrás, depois de receber material promocional de uma corretora de hipotecas local.

A Countrywide é a maior financeira de hipotecas dos Estados Unidos.

Os Esperanza obtiveram uma taxa de "incentivo" de 1% nos primeiros dois meses do empréstimo. Mas, então, de acordo com eles, a taxa subiu em degraus de 2,8% no início, até chegar a 8% atualmente. Com o tempo alcançará 9,5%.

Resultado: não cabe mais no orçamento familiar o pagamento do principal da hipoteca. Estão pagando mensalmente apenas parte dos juros devidos, e não o principal, e isso significa que sua dívida continua aumentando. Na indústria de hipotecas dos EUA isso é conhecido como amortização negativa. Para os Esperanza, significa que emprestaram US$ 326 mil três anos atrás e hoje devem US$ 344 mil.

Na Califórnia, onde fica a sede da Countrywide, as execuções de hipotecas aumentaram 800%,. pois os mutuários não conseguem pagar as prestações. "Disseram-nos que a taxa de juros continuaria igual", disse Cynthia.

Outra família, que pediu para não ser citada, disse qu está quase prdendo sua casa depois de fazer uma hipoteca com taxa reajustável na Countrywide. Seu empréstimo foi fixado em 5,9% nos primeiros dois aos. Depois desse período de "incentivo", a taxa subiu para 8,9%. E vai aumentar um ponto percentual a cada seius meses até alcançar 12,4%.

"Eles não nos disseram que isso ia acontecer", diz o pai de família. Sua mulher acrescenta que lhe disseram que eles poderiam refinanciar o empréstimo antes do fim do período inicial de dois anos.

"Fiquei confusa, mas estava tão entusiasmada por comprar minha casa. A pessoa que me ajudou não me disse para olhar o papel [que estava assinando]. Ela não disse que eu não poderia refinanciar".

 

18/08/2007 10:52

Bradies hipotecários

O economista da Universidade de Princeton e colunista do "New York Times", Paul Krugman, teve sua coluna recente traduzida por Paulo Migliacci para a Folha. Ele ataca essa loucura do mercado de derivativos financeiros que negociou e especulou com as hipotecas das famílias americanas. E propõe o refinanciamento das dívidas dessas famílias, como uma espécie de Plano Brady (1994).

Krugman escreve que está cada vez mais claro que a bolha imobiliária dos últimos anos, como a bolha nos mercados de ações do final da década de 20, tanto causou quanto foi causada por incúria generalizada. Agências de classificação de crédito como a Moody's, que cobram caro para classificar os títulos lastreados por créditos hipotecários, parecem ter desempenhado papel semelhante ao dos auditores complacentes nos escândalos empresariais de alguns anos atrás.

Nos anos 90, as empresas de auditoria certificaram como aceitáveis balanços dúbios; nesta década, as agências de classificação de crédito declaram que títulos dúbios lastreados por crédito hipotecário eram papéis da mais alta qualidade, merecedores da classificação AAA.

O caso de um devedor que não consiga honrar sua hipoteca seria contornado pelo banco responsável pelo empréstimo oferecendo um refinanciamento da dívida, alongando os prazos e diminuindo os juros. Pagamentos que o devedor fosse capaz de manter valeriam mais para a instituição do que os custos em que incorreria para retomar a casa e posteriormente revendê-la.

Hoje não é bem assim. Num processo chamado de "carrossel financeiro", o corretor de hipotecas que fez o empréstimo representa apenas o primeiro cavalo. A hipoteca foi empacotada com outras transações semelhantes e vendida a bancos de investimento, que, por sua vez, a reembalaram a fim de produzir ativos artificiais que a Moody's ou a Standard & Poor's estavam dispostas a classificar como AAA. E o resultado é que não existe com quem negociar.

Isso é um argumento claro em favor da intervenção governamental, segundo Paul Krugman. "Existe uma séria falha do mercado, e consertar o problema poderia ajudar imensamente a milhares, talvez centenas de milhares, de domicílios norte-americanos. O governo federal não deveria estar organizando resgates, mas deveria ajudar a organizar acordos".

Daí surge a idéia de instituir uma espécie de Plano Brady para os devedores hipotecários. O Plano Brady constituiu no refinanciamento das dívidas externas dos países latino-americanos, através dos títulos bradies, que alongavam suas dívidas, diminuindo os juros.

A idéia já tinha sido proposta por Bresser-Pereira, quando Ministro da Fazenda do Brasil em 1987. Não foi adotada, Bresser largou o ministério, e a proposta foi renascer sete anos depois nos Estados Unidos. Mas isso é outra história.

Fato é que a proposta de Krugman é que isso envolveria a aquisição de títulos hipotecários por agências federais - mas não os títulos criados em passe de mágica com base nas hipotecas, e sim os créditos originais -, com desconto, e a seguir uma renegociação dos empréstimos.

 

18/08/2007 12:42

Petrobrás e Braskem

A Petrobrás vai aumentar sua participação no capital da Braskem. Atualmente detém 6%, e vai passar a ter 25%. Em troca a Braskem ficará com a participação que a Petrobrás detém na Ipiranga Petroquímica (IPQ) e na Copesul, a central petroquímica do Pólo do triunfo (RS). A Braskem se tornará a única proprietária dessas empresas.

Mais à frente a Braskem se tornaria controladora direta dos ativos do Sul, passo lógico, seguinte à extinção da IPq e da Copesul como empresas separadas. Assim, IPQ e Copesul se tornarão a unidade da Braskem no Sul.

Já para a Petrobrás a troca faz sentido, pois, ao manter uma fatia maior na Braskem, participa da consolidação dos resultados das outras empresas, deixando a área operacional e executiva à cargo da empresa de José Carlos Grubisich.

 

19/08/2007 07:00

A política dos EUA pós-2008

O programa "Globonews: Painel", comandado pelo jornalista William Waack teve sua edição de ontem dedicada à análise da atual crise financeira dos Estados Unidos. Foram três convidados: Antônio Corrêa de Lacerda, economista da PUC-SP; Rubens Barbosa, ex-embaixador nos EUA, atualmente consultor de negócios; e Demétrio Magnolli, geógrafo político.

Três grandes analistas, em suas áreas, cada um com suas visões. Sobre a crise, Corrêa e Barbosa formaram consenso de um crescimento menor americano, com ajustes no médio a longo prazo. Magnolli insistiu que uma recessão não está descartada.

Mas foi quando a conversa debandou para a política interna norte-americana que o debate ficou bom.

Excelente analista da guerra no Iraque, Magnolli cravou que o exército americano sai do solo iraquiano no dia seguinte à posse do novo presidente americano, após as eleições de novembro de 2008. E foi além: Hillary Clinton será eleita.

Para Magnolli o foco deixará de ser no Golfo Pérsico, e cada vez mais passar aos conflitos Israel-Palestina. Os cerca de 130 mil soldados americanos não sairão da noite para o dia, mas abandonarão o Iraque em curtíssimo prazo, já em 2008.

O ex-embaixador Rubens Barbosa, chamou a atenção para a inversão de papéis entre o histórico dos democratas e dos republicanos. Enquanto os primeiros sempre foram ligados à uma economia mais expansionista, são os republicanos quem gastaram e agora podem ir lona através de seu discurso por um orçamento restritivo.

Corrêa de Lacerda comparou os governos da família Bush. O primeiro, de Bush-pai (1989-1992), herdou um orçamento superavitário com superávit nas contas externas também. Se envolveu em uma guerra no Golfo Pérsico, esfrangalhou o orçamento e foi derrotado por um democrata - Clinton (1993-2000) - com um discurso ligado à economia. (dessas eleições o clássico slogan: "É a economia, estúpido").

Já Bush-filho (2001-2008) herdou condições ainda mais folgadas, com superávits ainda maiores, tanto internos quanto exernos. Também se envolveu numa guerra doida no Golfo, e levou as contas norte-americanas ao fundo do poço. O duplo déficit nasceu daí: déficit nas contas correntes, e déficit comercial.

Por isso o cnsenso sobre uma vitória democrata nas eleições presidenciais do ano que vem. Sob um slogan parecido com o de Clinton em 1992, dando maior relevância à economia, e menos aos gastos bélicos.

Rubens Barbosa foi ainda mais longe. Para ele, há ainda uma maior tendência no imaginário do eleitorado americano por uma maior igualdade social, liderada por um melhor funcionamento dos serviços públicos. É essa visão estratégica do Estado que os democratas se baseiam.

A disparidade de renda entre os norte-americanos cresceu muito desde que o atual governo republicano assumiu. Baseando-se no histórico discurso de impostos menores dos republicanos, a administração Bush baixou consideravelmente os impostos, especialmente nos setores "que não precisam", isto é, nas camadas mais ricas.

Ao mesmo tempo que inflaou seus gastos, com um aumento desvairado nas suas despesas com a guerra. Resultado: não só déficit orçamentário, mas "céu de brigadeiro" para as grandes empresas, que pagam menos impostos e ainda vivem com demanda aquecida pelos gastos governamentais.

 

19/08/2007 11:54

Chávez e seu socialismo do séc. XXI

A nova Constituição de Hugo Chávez na Venezuela têm produzido material farto, com acompanhamento diario na imprensa mundial. O viés, em sua maioria, é contra a proposta do "socialismo do século XXI".

De fato é preciso relativizar alguns pontos. Chávez assumiu a presidência em 1998, para mandato de cinco anos sem direito à reeleição. Estava em vigor a antiga Cosntituição venezuelana. O novo presidente tratou de convocar uma constituinte, como uma de suas primeiras medidas no poder.

Aprovada em 1999, a famosa Constituição Bolivariana aumentava o mandato para seis anos, permitindo também a reeleição. Outras medidas institucionais foram tomadas.

Oito anos depois - reeleito em 2006 - Chávez propõe nova Constituição, a do socialismo do século XXI. Aumenta o mandato para sete anos, dando agora poder de reeleição indeterminado. Também torna o Banco Central menos independente, passando a administração das reservas internacionais diretamente para o presidente.

A Folha de hoje traz entrevista com Gustavo Linares, professor de direito administrativo da Universidade Central da Venezuela, e crítico de Hugo Chávez. À parte de ideologismos, Linares toca num ponto interessante, que a nova Carta Constitucional venezuelana ignora: a propriedade privada.

"A única mudança que poderia ter sido feita na Constituição era eliminar a propriedade privada, mas isso não aconteceu. Todas as Constituições comunistas, como a cubana, apenas permitem a propriedade sobre bens de uso e consumo. Esta reforma diz expressamente que pode haver propriedade privada sobre os meios de produção, e isso é a definição mesma do capitalismo".

 

19/08/2007 19:35

Frase da semana que termina

“Uma lição que fica dessa crise é que há necessidade de se fazer uma regulamentação no mercado de derivativos. Eles não têm regulamentação e não têm limites. É preciso estabelecer regras”.

De Guido Mantega, Ministro da Fazenda, acerca das lições dessa crise financeira mundial.

 

20/08/2007 10:15

Frase da semana que se inicia

"Em 1996, o Partido dos Trabalhadores praticamente expulsou de seus quadros o deputado federal Eduardo Jorge, que contrariou decisão partidária e votou a favor da implantação da CPMF, cujos recursos seriam destinados para a área da saúde. Agora, o PT está oferecendo cargos no governo e outros benefícios no Congresso Nacional para assegurar que os aliados votem na continuidade da CPMF. O que mudou?"

Do jornalista Hamilton Octávio de Souza, titular da coluna "Fatos em Foco" do Brasil de Fato e colunista da revista Caros Amigos.

 

20/08/2007 13:28

Abusos reincidentes

A colunista de O Globo, Miriam Leitão, tem tratado em suas últimas colunas para o jornal da atual crise financeira americana, após estouro da bolha imobiliária. Miriam relatou, em sua coluna de sábado, que muitos economistas não-operadores, mais ligados à academia, já vinham avisando que a bolha existia e explodiria - como todas as outras bolhas financeiras.

Cita nominalmente o economista americano Paul Krugman, alvo de coluna neste Blog, que há tempos avisava sobre a "complacência irracional" nos mercados; e José Roberto Mendonça de Barros que cunhou a expressão "o mundo está fazendo um piquenique perto de um vulcão".

A expressão de Mendonça de Barros (irmão de Luiz Carlos) serve como símbolo, não é de todo exata. Isso porque, o vulcão fora criado pelos mesmos que participavam do piquenique. Não houvesse essa fanfarra doida de lucros em todo o tipo de derivativos imobiliários, não teria ocorrido o que ocorreu.

E a complacência do mercado pode, e deve, ser generalizada. Embora formado e baseado no mercado de hipotecas "subprime" (de alto risco) americano, esses títulos derivados foram especulados por todo o tipo de "hedge fund", com empréstimos de todos os tipos de bancos. O dinheiro não têm nacionalidade.

O gatilho foi o anúncio do gigante banco francês BNP Paribas que cancelou os resgates de um de seus fundos, que detinha papéis lastreados nas hipotecas. O castelo de cartas desmoronou quando os preços das casas começaram a cair, as famílias deixaram de honrar suas hipotecas devido ao aumento nos juros, e os papéis derivados perderam muito de seu valor.

Não é que simplesmente se apostou errado e perdeu dinheiro. Não. O mercado levou a fanfarra à niveis estratosféricos. Daí outra fortuita expressão, largamente usada por este Blog: "exuberância irracional". Esses papéis foram comprados utilizando dinheiro emprestado. O papel perde valor, os fundos não conseguem honrar o empréstimo com o banco, e ainda deve honrar com seus cotistas.

Agora com uma crise séria os bancos acordaram e passaram a investigar melhor antes de sair concedendo empréstimos. Mas esse primeiro movimento é violento: como nenhum banco sabe ao certo quando já emprestou para essas operações que dificilmente retornarão, essas instituições preferem deixar de emprestar para todos os setores, até que a coisa se acalme.

Diante disso os bancos centrais dos Estados Unidos, Europa e Japão passaram à emprestar à todos os bancos que necessitavam para poder operar no overnight. O FED (banco central dos EUA) chegou a baixar sua taxa de juros cobrada para empréstimos entre bancos.

A medida surtiu efeito, mas deve-se ter cuidado agora. Assim como antes haviam avisos de que isso ocorreria, deve-se prever que, ao conceder empréstimos salvadores, os bancos centrais não estejam sancionando os mercados para voltarem à operar com toda a sorte de operações malucas.

Deve-se aproveitar esse estouro da bolha das hipotecas para regular melhor o mercado, como forma de inibir futuros abusos reincidentes.

 

20/08/2007 21:29

Sofismas contra a CPMF

O economista tributarista Marcos Cintra vêm trazendo, nos últimos meses, defesas à favor da CPMF. Como a prorrogação do imposto virou discussão da vez no campo político (ignore Renan, agências reguladoras, apagão aéreo ou criminalidade), cabe à este espaço um pouco mais de atenção para a questão.

Já escrevi algumas colunas sobre o imposto, uma delas, de fevereiro, tratava do início do agora famigerado movimento "Xô, CPMF".

Colunista quinzenal da Folha, Cintra produz defesa consistente em seu texto de hoje, atacando alguns dos argumentos daqueles que defendem a extinção do imposto.

Um deles é muito bem tratado, sobre o sofisma de que, se o imposto nasceu para financiar os gastos com o sistema público e saúde, e ele vai mal, logo a CPMF deveser eliminada.

"Por esse argumento, todos os impostos existentes no país deveriam ser extintos, já que os serviços públicos em geral são deficientes. O IPTU não garante bom asfalto nas ruas e o IPVA não resolve os problemas de trânsito. Mas, se eliminarem o IPTU, o IPVA e a CPMF, a pavimentação, o trânsito e a saúde melhorarão?", se pergunta o economista.

Cintra conclui que há apenas uma hipótese razoável para justificar o que chamou de "cruzada anti-CPMF": "politicagem misturada com interesses escusos de sonegadores e burocratascorruptos. Afinal, eles nunca toleraram a CPMF por ela ser não-declaratória e insonegável".

 

21/08/2007 07:00

Fiscalizando o Jornalismo e os gestores

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estuda regra de fiscalização dos jornalistas financeiros como forma de coibir promiscuidade entre a função profissional e o ganho pessoal. Se baseia em normas de conduta européias, em que tanto os orgãos de regulação dos mercados de capitais quanto as empresas de comunicação inibem a relação público-privado.

É a primeira grande decisão da nova presidente da autarquia, Maria Helena Santana, que já enfrenta as denúncias de vazamento de informação privilegiada na aquisição da Suzano Petroquímica pela Petrobrás.

Além de positiva, a nova regra virá para coibir, inclusive, casos de promiscuidade indireta, entre os jornalistas financeiros e operadores e tesoureiros de mercado.

Nessa relação imprensa-operadores, é inesquecível o caso Hermitage e Gazprom, em 2000.

Tudo girou ao redor da esperteza de Bill Browder, gestor do Hermitage Fund, um "hedge fund" especializado em investimentos na Rússia. Browder preparou um dossiê em que mostrava como os administradores russos da gigante petroleira Gazprom vinham transferindo os ativos da empresa para entidades controladas por amigos e parentes.

O gestor produziu um verdadeiro trabalho de jornalismo investitivo, juntando todo o tipo de informação, sempre contando com provas e dados comprovatórios. Depois, saiu à imprensa especializada - e globalizada - para vender sua história.

Partiu para os grandes veículos: "Wall Street Journal", "Financial Times" e "Business Week", sempre conversando com os próprios jornalistas, evitando correr às direções. Com isso, tinha-os entre os dedos, e não duvidou em lançar mão de todo o tipo de convencimentos para que sua história fosse contada. Usou até chantagem, dizendo que iria entregar o dossiê à concorrência.

Os jornalistas passaram, então, a publicar uma série de histórias em torno dos problemas observados na Gazprom, que culminaram com a demissão do principal executivo a empresa e com o início das reformas na companhia.

Ao mesmo tempo, os investimentos de Browder na Gazprom cresceram dez vezes, passando de US$ 150 milhões para US$ 1,5 bilhão. Os interesses financeiros do gestor do Hermitage nunca foram escondidos, o que causou um "frisson" na imprensa sobre a validade de publicação. Mas era óbvio, o bem público falava mais alto, mesmo com o sucesso profissional da principal fonte como consequência.

Browder foi proibido pelas autoridades russas de entrar no país. Mas isso não impede seu trabalho, que continua totalmente focado em negócios naquele país. Ele administra, do exterior, as ações de sua empresa no mercado acionário russo e já pensa em investir em outros mercados emergentes. O Hermitage captou US$ 625 milhões para investir em outras partes do mundo, inclusive no Oriente Médio e na América Latina.

 

21/08/2007 13:30

MSN no Brasil

Reportagem no Estadão de hoje conta que dos 40,6 milhões de brasileiros internautas, 75%, ou 30,5 milhões, utilizam os serviços do MSN Messenger, programa deconversas instantâneas da Microsoft. Desde o final de julho o país passou a ter a maior comunidade de usuários de Messenger no mundo - que equivale a 11,4% de todos os usuários.

De fato a base de sustentação para serviços ligados à Tecnologia da Informação, especialmente ligados à comunicação, é enorme no Brasil. Os custos de telefonia são muito altos, antes e depois da privatização do setor em 1997. O MSN, partindo de sua disseminação no público jovem, alcançou o status de serviço número um para comunicação.

E há negócios ai. Com os milhares de acessos diários para a página do portal do MSN, a Microsoft sacou que o local era perfeito para o merchandising de marcas. Hoje, entre outros, constam anúncios da Gol, Coca-Cola, Mercado LIvre, Chevrolet e Skol.

Segundo Steve Berkowitz, vice-presidente sênior da divisão de serviços online da Microsoft, para ter sucesso na web, duas coisas são necessárias: audiência e anunciantes. O Brasil já garante à Microsoft uma das cinco melhores receitas publicitárias do mundo.

 

21/08/2007 15:44

A irracionalidade cobra sua conta

A crise financeira originada no mercado de hipotecas norte-americanas já produziu 164% mais demissões no setor financeiro nos 8 meses de 2007 do que em igual período do ano passado.

Segundo dados divulgados hoje pela empresa de consultoria Challenger, Gray & Christmas, 87.962 funcionários de empresas do setor financeiro já foram demitidos no ano. Só em agosto (estamos no meio do mês, lembre-se) foram 20.957 demissões. Metade destes ligados à grandes empresas especializadas em hipotecas.

Desde sexta-feira, Bear Stearns, Capital One Financial, Countrywide Financial e First Magnus Financial anunciaram 8.640 demissões ligadas a problemas no mercado de hipotecas. Outros 2.400 cortes foram anunciados por SunTrust Banks como parte de um programa de redução de custos.

 

21/08/2007 20:55

Honrado de farda

A coluna de amanhã tratará do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e de seu personagem principal, Tarso Genro. Diferentemente do que parte da mídia alardeou, o plano não é simplesmente mais do mesmo no combate à violência.

De fato ele responde aos estímulos da sociedade, após o descalabro gerencial que gerou, criou e eclodiu com o PCC nos ataques de maio do ano passado em São Paulo e o assassinato do menino João Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro, em fevereiro passado.

Mas elenca metas críveis de desenvolvimento, com propostas de medidas. O melhor de tudo é a atenção ao aspecto humano. Tanto do lado do "bandido", quanto do lado do policial. A parceria da Justiça com a Caixa Econômica Federal para financiar 19 mil casas populares e distribuir outras 41 mil cartas de crédito para policiais quemoram em zonas de risco é um exemplo.

 

22/08/2007 07:00

Pronasci e o gerenciamento público

O Ministro da Justiça, Tarso Genro, é um excelente homem de marketing. Intelectual do Direito e de História, sabe aliar seus conhecimentos acadêmicos com a política partidária e se comunica bem entre os seus. O marketing aparece na comunicação com os meios de comunicação e com a população.

O lançamento do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) foi um engendrado jogo político, que começou antes do lançamento oficial, na segunda-feira. E esse jogo foi preciso ao resgatar um pouco do Estado ativo de outrora, e melhor: o plano é o melhor de combate à violência em muitos anos.

O que não é sinônimo de sucesso, há de se dizer.

Embora tenha clara a mão do presidente Lula, é Genro quem logo se relaciona ao Pronasci. Antes do lançamento não escondeu o caráter coletânia do programa, ao armazenar idéias de variados planos de mesmo teor lançados na Europa recentemente.

No dia do lançamento o titular da Justiça estava em todo o lugar, de manhã logo cedo até a participação ao vivo no telejornal noturno do canal "Globonews". Ontem pela manhã concedia entrevistas ao vivo para as rádios.

Para formar o programa, equipes do Ministério da Justiça e da Saúde trabalharam conjuntamente para, em posse de dados cruzados, traçar as 11 regiões mais violentas do país. E são nelas que o Pronasci se apoiará: Belém, Belo Horizonte, Brasília (entorno), Curitiba, Maceió, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória.

Constitucionalmente a responsabilidade da segurança pública é tarefa dos governos estaduais. O programa não muda isso. Mas torna a dinâmica financeira entre o governo federal e esses onze municípios diferentes.

A meta é reduzir o número de homicídios, dos atuais 29 por 100 mil habitantes para 12 por 100 mil habitantes nos próximos quatro anos. A meta é ambiciosa, mas o próprio plano prevê os pontos à serem atacados. E aí entra a grande mudança gerencial: os municípios só receberam as verbas federais (o Pronasci estabeleceu o teto de R$ 6,7 bilhões até 2012) se cumprirem sua parte.

O cacique político do petista entrou em campo na hora de alterar um dos principais pontos do programa. Antes se previa o estabelecimento imediato do piso salarial para policiais civis, militares, bombeiros, agentes penitenciários e peritos de R$ 1,4 mil. Diante da pressão dos governadores, que temiam o "efeito cascata" em seus respectivos orçamentos, Tarso Genro aceitou institucionalizar o piso salarial apenas em 2012.

Até lá se concederá uma bolsa-formação, de até R$ 400, para 225 mil profissionais de segurança, que, em contrapartida, terão de fazer pelo menos um curso de reciclagem por ano.

O principal ponto do Pronasci, no entanto, reside no esforço conjunto de diferentes setores, para auxiliarem nas melhorias humanas. Embora investimentos em infra-estrutura sejam peremptórios, e o reconhecimento financeiro urgente, é na prevenção, com medidas como estímulo ao lazer que está a questão. Na ponta, ações repressivas sem excessos.

Com metas definidas, e formas de incentivo detalhadas é preciso, no entanto, o pulso firme gerencial. Acompanhar o desenrolar do programa com transparência, permitindo controle social sobre todos os envolvidos permitirá o sucesso da idéia, impulsionando atitudes em todos os setores da administração pública.

 

23/08/2007 07:00

80 anos depois

"A sociedade onde nos obrigam a viver, e que queremos destruir está toda construída sobre a violência".

"Mendigar, na vida, por pão é violência. A fome e a miséria a que ficam submetidos tantos homens, é violência. O dinheiro é violência. A guerra. E até o medo de morrer que todos temos, todos os dias, pensando bem, é violência".

Por essas e outras frases, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram sentenciados à morte por cadeira elétrica, baseados num processo até hoje muito mal explicado, cheio de falhas.

Sacco e Vanzetti eram imigrantes italianos, imersos na terra das oportunidades dos anos 1920. Era o auge do liberalismo econômico, da exuberância irracional dos mercados financeiros desregulados, do nascimento da dicotomia com a União Soviética de Stálin. Os comunistas eram inimigos de Estado. Os anarquistas, feitos clandestinos, pior.

Sacco e Vanzetti foram executados sob condenação pelo roubo seguido de morte de duas pessoas. Pela forma como foi contada e conduzida, a história foi o primeiro grande drama do mundo que se globalizava, pós-Primeira Guerra Mundial.

O presidente norte-americano de então, John Calvin Coolidge Jr. (1923-1929) recusou o perdão oficial sob o pretexto de que a dupla italiana usaria o dinheiro do "crime" na "revolução do proletariado".

De fato Sacco e Vanzetti eram ligados ao anarquismo, como as frases que abriram esse artigo comprovam. Mais: simpatizavam com as idéias do anarquista italiano Luigi Galleani, que antes de ser deportado, defendia a revolução violenta e cujos seguidores planejaram o assassinato em série de personalidades norte-americanas.

Mas simpatia não significa ação. Não significa cooperação, acobertamento ou violência. Como as discussões públicas que tomaram o mundo, da São Paulo cafeeira de Washington Luis à Londres financeira do conservador Stanley Baldwin, Sacco e vanzetti foram condenados à cadeira elétrica por ideologismo, num mundo de acirramento político ideológico.

O 23 de agosto de 1927 completa 80 anos. Como qualquer evento histórico, deve ser debatido e refletido para que possamos entender o mundo de hoje. Tudo a ver com o passado. Haja vista essa complacência irracional que toma o mercado financeiro, e que agora cobra a conta. Depois de Sacco e Vanzetti veio a Crise da Bolsa de 1929.

Para lembrar, o filme de Giuliano Montaldo, de 1971, com Riccardo Cucciolla (Sacco) e Gian Maria Volontè (Vanzetti) em atuações monumentais.
Trailer aqui.

E a fenomenal parceria de Joan Baez e Ennio Morricone, em
"Here's To You".

 

23/08/2007 22:56

Revolução fonográfica

Acabo de colocar na Aba de Música do Blog uma análise da nova estrutura fonográfica, que se organiza de maneira atabalhoada, ainda sem saber como reagir frente à essa enorme onda revolucionária que a internet vem causando. Não é de hoje.Mas o momento é decisivo.

Para ler a coluna, o atento leitor encontra a Aba de Música à esquerda, na janela "Bligs amigos". Pode também
clicar aqui

 

24/08/2007 07:00

Se rendendo à hegemonia

Em tempos de crise mundial notícias e dados de outros países - especialmente desenvolvidos - aparecem com frequência em nossos meios de comunicação. Aproveitam a demanda por informações e enchem o noticiário com todo o tipo de indicadores internacionais.

Com a atual crise dos mercados financeiros, gestada nas doideras pelo lucro no mercado de derivativos de hipotecas norte-americanas, o processo é o mesmo. E o indicador preferido são os juros.

Discute-se com naturalidade as políticas monetárias dos países desenvolvidos. Fala-se que o juro nos Estados Unidos está alto demais (5,25% ao ano), que deve ser cortado para melhor movimentar o overnight interbancário. Discute se o Banco Central Europeu deve manter ou aumentar seus juros de 4% ao ano. Antes da crise se falava em aumentar a taxa - inflação sendo o álibi - hoje se opta pela manutenção.

O mesmo com o Japão e seus juros de 0,5% ao ano. A Inglaterra é tida como muito conservadora para a inflação apurada, ao regular seus juros em 5,5% ao ano - a maior taxa entre os países do G7.

E quando se volta à analisar os problemas nacionais se depara com os nossos juros internos com outros olhos, certo?

Errado. Nossa absurda taxa de 11,5% ao ano, para uma inflação prevista de 3,5% para os próximos anos, é encarada como "excessivamente baixa". Os grandes bancos, através de seus economistas-chefe, os gestores de fundos multimercados (versão tupiniquim dos hedge funds), ou os agentes de investidores "estrangeiros" (muitos brasileiros, também) passam a vender o mesmo discurso: os juros devem ser mantidos onde estão.

E como sempre encontram ressonância nos economistas mercadistas, ou os acadêmicos ligados ao pensamento neoliberal, e até mesmo nos jornalistas neo-conservadores de sempre, que vivem de repetir o que os intelectuais dessa ideologia propõem.

Daí que espanta que o "rei" do atual pensamento neoliberal, Jonh Williamson, conhecido como "pai do Consenso de Washington" - platitudes que pautaram os governos neoliberais nos países periféricos, no Brasil representados pela dupla de Fernandos dos anos 90 - ter afirmado em entrevista à Folha que "não existe nenhuma base para pânico neste momento", e que seria sábio manter os cortes nos juros brasileiros.

Pode ser um bom sinal. Não há como prever se de fato haverá ou não pânico no futuro próximo. Mas é evidente que os juros estão altos demais, por tempo demais.

Como nossa teoria do desenvolvimento, que a partir dos anos 1980 passou à se alinhar com as receitas importadas dos países desenvolvidos, Consenso de Washington à frente, é uma boa hora para permanecermos "cordeiros bem aplicados". Afinal, se o americano disse, é porque está certo.

 

24/08/2007 18:48

53 anos do suicídio

Hoje se completam 53 anos do suicídio do presidente Getúlio Vargas. Getúlio foi dos mais habeis políticos brasileiros, certamente o melhor do período republicano (iniciado em 1889). Assumiu a presidência após levante popular em 1930. A partir daí iniciou uma verdadeira revolução político-econômica e social da sociedade brasileira.

Industrializou a economia, tornando-a menos dependente das importações e dos capitais oriundos do café; institucionalizou o populismo, sempre antecipando as demandas dos trabalhadores; fincou no presidencialismo nossa política. Mesmo excluíndo suas medidas anti-partidárias do Estado Novo (1937-1945), sua figura era tão maior que os partidos, que estes passaram à ser relegadosao segundo plano.

Sucedido por Dutra na presidência, Vargas retornou constitucionalmente eleito em 1950, com 48,7% dos votos. Nesse mandato, entre outros, criou a Petrobrás (1953) e acirrou sua disputa política com a UDN de Carlos Lacerda.

O suicídio de 24 de agosto de 1954 provocou o apaziguamento forçado da UDN, que teimava em tomar o poder, tendo setores da elite e da mídia como aliados. Cabe lembrar que a edição do dia seguinte do jornal O Estado de S.Paulo sequer fez menção à morte.

O vice, Café Flho, assumiu, com a meta de manter a calma até as eleições de outubro de 1955. Tomou gosto pela coisa e começou ele mesmo à atuar para sua permanência no cargo. Foi substituído por Carlos Luz e depois ainda por Nereu Ramos. As eleições que consagraram Juscelino Kubitschek como presidente, e João Goulart como vice só foram possíveis graças às intervenções do Ministro da Guerra, Marechal Henrique Teixeira Lott, que fez valer a Constituição em vigor.

 

25/08/2007 00:12

Imprensa, furo e envelhecimento

O jornalista Ricardo Noblat é dos mais experientes repórteres de política do país. Ficou marcado pela revolução editorial que transformou o jornal Correio Braziliense em 1994, e por ser um dos primeiros à se aventurar pela internet, através de seu blog de 2004. Hoje dos mais acessados do país.

Vinculou seu blog ao Estadão, mas desde janeiro deste ano está em O Globo. Manteve o blog, mas passou a assinar uma coluna no jornal, toda segunda-feira. Minha impressão é que o blog acabou pegando "a cara" do novo emprego, mais ligado às denúncias, basicamente repercutindo a apuração dos jornalões, especialmente O Globo.

Ontem escreveu uma crítica de mídia, centrada no jornal Folha de S.Paulo. Conta sobre a tal foto que os fotógrafos da Folha e d'O Globo tiraram dos computadores de dois ministros do Supremo. De lá se podia ler uma conversa particular sobre o julgamento dos envolvidos no "mensalão".

No texto Noblat conta que a direção da Folha consultou o Departamento Jurídico da empresa e o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, que estava em Brasília. Foi aconselhada a não publicar a reportagem. Os advogados entenderam que ela violava a privacidade dos ministros e o sigilo de correspondência.

A direção de O Globo entendeu o contrário. A sessão do Supremo era pública. Os ministros trocaram e-mails sabendo que havia fotógrafos por perto. O assunto tratado por eles na correspondência era de interesse público.

De fato foi o jornal carioca que deu o furo na quinta. A Folha no entanto, publicou a matéria na sexta. No mesmo dia, na página de opinião, Clóvis Rossi repercutia o fato. Quando li, na manhã de sexta, pensei uma coisa. Com os dados de Noblat, o mesmo texto de Rossi toma proporções de crítica interna à Folha.

Clóvis Rossi era o jornalista mais afinado com o falecido Octávio Frias de Oliveira, dono do jornal. Têm mais liberdade, entende-se.

"Não me venham, pelo amor de Deus, com 'invasão de privacidade'. Em local público, em sessão pública, tratando de assunto de interesse público, só há vida privada para quem guarda para si suas idéias, seu voto, sua fofoca", escreveu Rossi.

Para Noblat "O episódio do 'furo' que a Folha preferiu levar é o mais emblemático da fase de letargia que o jornal atravessa. Ele se acomodou e envelheceu".

 

25/08/2007 22:08

Ebulição no setor energético

O setor energético brasileiro vive momento de acirramento empresarial, com diferentes grupos capitalizados ganhando escala através de fusões e aquisições. Tratei do tema em duas colunas recentes,
Consolidação nas distribuidoras elétricas e Menos movimento na geração elétrica.

A ebulição proporciona todo o tipo de negócios, desde empresas de capital aberto com dinheiro em caixa, até empresas se juntando à fundos de pensão estatais para adquirirem concorrentes.

O movimento mais recente é a discussão para formar sociedade entre a Cemig e o BNDES-Par para juntos comprarem a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Segundo informa Tereza Cruvinel em sua coluna de hoje em O Globo, o jogo é o seguinte:

O BNDES-Par é acionista da empresa paulista e credor da AES, sócia da Cemig, e agora interessada em deixar o Brasil. A idéia é um "acordo de contas", que envolve o BNDES recebendo as ações da AES em pagamento, tornando-se sócio da Cemig na compra da CPFL, qe por sua vez têm outros sócios, incluindo fundos de pensão.

 

26/08/2007 10:35

Igualdade de condições

Durante a semana o governo se mexeu para equilibrar o leilão da primeira usina hidrelétrica do rio Madeira, de Santo Antônio. O leilão ocorrerá em outubro e, entre os concorrentes estaria o consórico público-privado de Furnas e Odebrecht.

Especulava-se que já havia um acordo tácito entre o governo que o consórcio ganharia, ou ao menos, largaria na frente, por contar com mais vantagens.

Para dissipar dúvidas e elevar a concorrência ao mesmo tempo, o governo liberou os fundos de pensão estatais do sistema Eletrobrás para se comporem com outros consórcios. Os fundos de pensão Petrus e Funcef está dispostos a associar-se ao grupo vencedor do leilão. Cada um dos fundos está disposto a adquirir até 20% das cotas.

 

27/08/2007 07:00

Concorrência inusitada

Analisando a atual crise financeira originada no mercado de hipotecas de alto risco (subprime) dos Estados Unidos, José Roberto Mendonça de Barros comparou o subprime americano como sendo o equivalente (guardadas as devidas proporções) de nosso mercado automobilístico. Isso porque os consumidores passaram a ter acesso a veiculos à taxas menores e distribuídas em longo prazo.

Funciona mais ou menos assim:

A pessoa têm uma dívida de R$ 15 mil no cheque especial, com juros de 7% a mês, o que equivale à R$ 1,05 mil por mês de juros. Ela tem um carro de R$ 15 mil, podendo vendê-lo, quitar o débito e refinanciar um outro. Um carro básico de R$ 25 mil em 60 meses, com juros de 1,25% ao mês, teria prestações de R$ 595,00. Se garimpar, encontra condições melhores, como juros de 0,75% ao mês, ou prestações de R$ 519,00.

Salda-se a dívida com a financeira e ainda troca de carro, por um novo zero quilometro, com prestações que cabem no orçamento. E detalhe: não precisou usar o dinheiro da vendado carro antigo como entrada.

Essas operações são chamadas de "troca com troco" pelas concessionárias, quando o cliente vende o veículo antigo e embolsa parte ou totalmente o dinheiro e financia o novo por um prazo maior.

Mas as "renegociações de dívida" estão com dias contados para José Roberto. Para ele a crise nos mercados financeiros fez os juros nos mercados brasileiros subirem, já proporcionando um aumento nas taxas praticadas no varejo automotivo. Se os juros forem muito altos, acima de 1,75%, o carro novo sairá por um valor muito maior, inviabilizando o processo.

Os cortes recentes nos juros básicos brasileiros (Selic), que trouxeram a taxa para 11,5% não mexeram muito no sistema bancário, que ainda pratica taxas de quase 39% ao ano para empréstimos para pessoas físicas.

A alternativa dos refinanciamentos através de concessionárias de automóveis apenas começou à engatinhar em 2007, mas o estrago foi sentido. Acaba funcionando como uma pressão indireta para os bancos baixarem suas taxas. De certo modo estimulou a concorrência.

Afora qualquer retração no modelo que a crise nos mercados financeiros internacionais pode causar, um movimento de manutenção, ou ainda de aumento nos juros básicos brasileiros matará a alternativa no nascedouro.

 

27/08/2007 14:01

Anacronismo midiático

A edição de hoje da Folha traz uma matéria do repórter Toni Sciarreta com Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central (1997-1999), atualmente à frente da administradora de investimentos Rio Bravo.

Na matéria, Franco atenta para o fato de que o sistema financeiro e os fundos terão de se reorganizar diante de uma situação de juros de um dígito no Brasil. A frase de Gustavo: "O que vai acontecer quando a Selic [taxa básica de juros] estiver em 7%? Descontados impostos e taxas, a poupança renderá mais [que os fundos DI]".

Agora veja caro leitor. Este Blog produziu matéria (no caso, coluna) de igual teor no dia 17 de maio. Literalmente igual. Estive com Gustavo Franco em um curso naquela semana de maio, quando, ao final de sua exposição, durante as conversas informais, disse tudo que foi relatado na coluna. E agora, 3 meses e 10 dias depois, na Folha de S.Paulo.

O erro não é do repórter, evidente. Citei-o nominalmente com sentido estritamente factual. E as declarações de Gustavo Franco só se tornaram manchete porque o repórter foi o enviado do jornal à Campos do Jordão, onde ocorre o Seminário de Derivativos da BM&F. Foi a coincidência da presença do ex-presidente do BC que possibilitou a matéria.

Fato é que os meios de comunicação tradicionais ainda não sabem lidar com a internet, com todo o conhecimento difuso, qe começa a se organizar em torno dos blogs e outras ferramentas que a Web 2.0 disponibiliza. A função da imprensa tradicional, de "operadora da cancela" que define o que é ou não é notícia, está posta em discussão como nunca. A questão não é apenas o jornal amanhecer velho. Mas também amanhecer defasado.

Quando coloquei a referida coluna com a entrevista de Gustavo Franco no Blog, um leitor aconselhou que enviasse o texto ao jornalista Luis Nassif, ele também mantenedor de um blog. Enviei, e o texto foi reproduzido no blog do Nassif no dia 20 de maio.

Com uma audiência indiscutivelmente maior, o texto no blog do Nassif alcançou um público maior, recebendo análises e fomentando um debate qualificado. Enfim, comprovando a que veio.

E ainda assim, só 90 dias depois alcança a grande mídia.

Link para a coluna
"Conversa com Gustavo", aqui no Blog.

Link para o texto
"Gustavo e o sistema financeiro" no Blog do Luis Nassif.

 

28/08/2007 18:25

Contágio da “recessão benéfica”

O editorial da revista "The Economist" dessa semana traz uma série de argumentos para comprovar que uma recessão nos Estados Unidos agora seria melhor do que atrasar um processo inevitável, provocando uma recessão ainda pior no futuro.

Parte da interpretação de que a injeção monetária que os bancos centrais dos Estados Unidos, Europa e Japão fizeram nas últimas semanas podem servir aos investidores e gestores de fundos como um aviso de que podem tomar o risco que quiserem. Em última instância um BC ajudará seus problemas de liquidez.

O chama atenção no texto, não são os argumentos que a revista apresenta para comprovar sua tese de “recessão agora”. Mas sim a tese em si, que guarda pouca relação com a ideologia neoliberal, que historicamente marca a posição editorial da revista. A “pegadinha” está nos efeitos que a revista elenca para mostrar que uma recessão agora é saudável.

Definida a tese, com os pressupostos devidos de que as linhas de crédito bancário especiais e a redução na taxa de redesconto que o Fed (banco central estadunidense) cobra do dinheiro que empresta aos bancos, a escolha de argumentos é, aí sim, condizente com o pensamento da revista.

Lembra da teoria do economista Joseph Shumpeter, que argumentava que recessões são processos de “destruição criativa”, nos quais empresas ineficientes são erradicadas. A revista defende que uma recessão agora liberaria “o capital de empresas agonizantes para novos setores de atividade econômica”. Com uma idéia famosa do mundo acadêmico a "The Economist" parte para um exemplo real para comprovar sua tese.

Interpreta a estagnação econômica do Japão dos últimos vinte anos como sendo um exemplo da falta que uma recessão pode produzir. A revista afirma que as taxas de juros nulas que o Japão praticou (atualmente a taxa é de meio ponto ao ano) permitiram que companhias “zumbis” sobrevivessem até a década de 90. “No Japão, esse crescimento depromido da produtividade e o excesso de capacidade minaram a lucratividade de outras empresas”.

O modelo defendido pelo periódico é o seguinte: recessão = destruição criativa = mais produtividade.

Veículo que pauta as discussões e tomadas de decisões das grandes economias, especialmente os Estados Unidos e a Inglaterra, "The Economist" tenta vender sua mais nova idéia. O primeiro passo foi dado. Agora é ver se haverá contágio.

 

29/08/2007 07:16

"Mensalão" na boca do povo

Começou com a Folha, que já na edição de sábado 17 de agosto, iniciara a pré-cobertura dos processos dos envolvidos com o "mensalão" que o Supremo Tribunal Federal começaria à analisar na semana passada. Se antecipou inclusive à revista Veja, que naquela semana fez dos supostos grampos de membros do STF sua capa.

A partir de então a grande mídia entrou de cabeça na cobertura, enviando repórteres para ficarem 24 horas na cobertura. Alguns entravam ao vivo em programas de rádio antes da seis da manhã.

Não critico o tal "oba-oba". Apenas estou constatando.

O atual movimento midiático pautou a sociedade, que agora trata da história com importância seminal. É uma das maneiras que se dá essa relação sociedade-mídia. O inverso também vale: uma história que a sociedade dá importância, que, de inicío a mídia não dá. Só depois ela pega o bonde, como foram, por exemplo, os movimentos sociais contra a ALCA, em 2003.

Há os chamados "pactos sociais", em que mídia e sociedade se aliam em torno de um tema ou evento, quando basicamente há uma coexistência pacífica dos fatores. Faz parecer que não há nada de errado. Um exemplo disso foi durante a realização dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Começando pouco antes com votação online que escolheu o Cristo Redentor como uma das sete maravilhas, descambou para o que vimos em julho: não se podia distinguir quem torcia.

Além dos movimentos setorizados, quando um dos fatores se antecipa ligeiramente ao outro, tomando para si o método investigatório e inquiridor. Foi assim imediatamente após a tragédia do vôo 3054 da TAM, quando todo um movimento manada tomou conta, buscando culpados, arriscando hipóteses e descartando teorias à bel prazer. Como uma camada da sociedade agia de maneira semelhante, não se sabia o que era o quê.

A situação atual tomou a sociedade após o estardalhaço na imprensa. Fez a Veja esquecer os tais "grampos". Novamente, não estou desmerecendo a história como fato, seja ele "histórico" ou apenas "cotidiano". Estou constatando o que vejo.

O ministro-relator Joaquim Barbosa aceitou a denúncia do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, e o STF abriu processo criminal contra os 40 denunciados. A Folha deu na capa que Dirceu, Genoino e Delúbio viraram réus. O Globo priorizou apenas Dirceu.

A edição de ontem d'O Globo traz uma matéria sobre a fala de Joaquim Barbosa, chamando a atenção que o argumento usado pelo ministro Barbosa para acatar a denúncia foi o mesmo usado pela defesa do ex-presidente Fernando Collor em seu julgamento de dezembro de 1994.

De acordo com o jornal os advogados de defesa do atual processo invocaram o ato de oficío, que representa prátia de ação ou omissão por um funcionário público em troca de uma vantagem indevida. No caso de Collor entendeu-se que ele de fato usava dinheiro pelo então tesoureiro PC Farias para pagar suas despesas. Mas não encontrava provas de que houve favores em retruibuição.

"Ocorre que no caso em questão a denúncia é pródiga ao demonstrar que a expressão apoio político é referente à atuação dos parlamentares", disse o ministro, conforme relata o jornal.

 

29/08/2007 19:53

A economia da região Sul

Os últimos três anos não tem sido bons para a economia sulista. Com a crescente valorização do real, aliada a manutenção de juros enormes, fica cada vez mais dificil competir, seja no mercado externo ou no interno. No interno entra o Efeito China, ainda mais forte que na comeptição externa. Seus produtos encharcam nossos mercados.

Alguns setores, mais que uns, agonizaram na região Sul. Entre eles o agronegócio, especialmente após as crises de endividamento de 2005, pouco solucionadas em 2006. Indústrias como têxtil e calçados, vanguarda histórica da região, sofreram pelo câmbio cada vez mais baixo.

A revista sulista Amanhã, em associação com a multinacional de consultoria PricewaterhouseCoopers, elaborou um ranking com a partir do desempenho das empresas, fábricas e setores, para quantificar e qualificar a economia da região.

O item rentabilidade os cinco setores que mais lucraram em 2006 foram: Construção e Imobiliário com 23,4%; Madeira e florestamento com 15,1%; Energia e Petróleo com 13,9%; Comunicação com 12,6%; e Têxtil e confecções com 12,3%.

O setor vencedor espelha bem o boom imobiliário que vive o Brasil, iniciado em 2006. Capitalizadas as empresas passaram à trabalhar com pessoas de classe mais baixa, que também tiveram estímulo para adquirir, com mais renda e parcelas menores.

O quarto setor que apresentou mais lucratividade, Comunicação, foi puxado muito pela empresa RBS, do Rio Grande do Sul, que recentemente abriu capital na Bovespa, além de contrair empréstimos internacionais.

 

30/08/2007 09:53

As vacas do Chile

Ontem foi um dia cheio para o Chile. Dia de protestos de estudantes, universitários, movimentos sociais, e partidos políticos da esquerda. Estes fortemente representados por membros do Socialista, partido da esquerda chilena.

Os protestos foram represados de maneira rígida pela polícia, que usou bombas de gás, jatos d'água e corpo-a-corpo. As imagens correram os telejornais de ontem, e estão estampadas nos jornais de hoje. Em tempos de globalização, todo mundo viu, todo mundo sabe.

Mas é preciso entender as razões que geraram as reinvidicações, que geraram os combates, e como anda a política do Chile.

Assim como toda a América Latina (à exceção de Cuba), os anos de 1980 foram de graves crises econômicas, em tempos de eclosão do novo liberalismo (neoliberalismo) nos países centrais, com os EUA de Reagan e a Inglaterra de Thatcher à frente. Essas crises, que tornaram o endividamento externo insustentável ajudaram à derrubar as várias ditaduras militares que a região formou nos anos 60 e 70.

O Chile de Augusto Pinochet foi o que mais se aguentou. Deixou o poder apenas em 1990. Por quê isso?

A década seguinte, dos anos 1990 foi a tomada do poder nacional dos países da região pela ideologia neoliberal. Como a maioria dos planos heterodoxos dos 80 tinha fracassado em matar a inflação e aumentaram o endividamento, e por isso, a dependência externa, restava-se curvar as teorias dos países desenvolvidos.

Toda uma elite tomou o poder, liderados pelo Consenso de Washignton (1990) que organizava o passo-a-passo da economia como guia. Se diminuiu o tamanho do Estado através da venda de patrimônio público à iniciativa privada. Permitiu-se a livre mobilidade de capitais, afrouxando os controles sobre o mercado.

Todos seguiram essas platitudes, especialmente Brasil, Argentina e Chile.

Mas aí se amarram os pontos. Pinochet permaneceu mais tempo no poder porque ele mesmo passou a ditar as mudanças na economia chilena, aceitando o neoliberalismo ainda nos anos 1980. Quando saiu do poder, em 1990, foi substituido pela Concertação, que aglutinava os partidos de centro-esquerda (social-democratas e democratas cristãos). A idéia era democratizar a política e diminuir as desigualdades econômicas.

Na prática só a política foi mexida. A economia seguiu ditada pelo mercado, fazendo do Chile a menina dos olhos (junto da Argentina) dos Estados Unidos e da Europa.

Foi o acirramento das desigualdades que permitiu a virada histórica na política chilena do ano passado, com a eleição de Michele Bachele, do partido Socialista, para a presidência. Esperava-se a formação de um pacto social nacional, se desvencilhando das lideranças estrangeiras.

E aí completa-se o ciclo. Na manifestação social de ontem, estiveram membros do partido da presidente, alguns se ferindo, como o senador socialista Navarro, atingido com um cassetete por um policial.

A economia chilena continua forte, com crescimento médio de 6% ao ano - provavelmente crescerá mais de 7% esse ano -, índices macroeconômicos ótimos - como grandes reservas, balança comercial superavitária - toda baseada na alta histórica dos preços do cobre, principal commodity do Chile, maior exportador mundial.

Mas, segundo dados do Programa da ONU para o Desenvolvimento Pnud), o Chile é o segundo país mais desigual da América Latina em distribuição e renda, depois do Brasl. Os 10% mais ricos ficam com 47% da renda, enquanto os 10% mais pobres, com só 1,2%.

O símbolo do protesto de ontem foi uma vaca. "Ela está cansada de ser ordenhada em benefício de poucos".

 

30/08/2007 18:55

De prioridades e desigualdades

O superávit primário do setor público no ano, de janeiro a julho, foi o maior já produzido desde a criação desta conta, em 1999. O primário é, basicamente, o dinheiro que o governo guarda para amortizar os juros que incidem sobre nossa dívida, interna e externa.

Essa economia atinge todo o tipo de rúbrica do Orçamento. Desde os investimentos até as despesas ministeriais. Não há um critério explícito. Corta-se despesas de tudo, o que gera uma visão ainda mais trágica da "ineficiência estatal".

Isso porque, como desde 1999 (ao menos oficialmente) a conta de juros se tornou prioridade nacional, tira-se dinheiro à torto e à direito de tudo quanto é lugar. Muitas das ineficiências das agências reguladoras (para citar a discussão mais recente) vêm da falta de dinheiro. A captura dos órgãos públicos pelas mãos privadas se torna mais fácil.

Criada logo no início do segundo governo FHC, o superávit primário teve seu ego inflado na gestão Antônio Palocci, quando Ministro da Fazenda no primeiro governo Lula. Mas, mesmo a entrada de Guido Mantega, e o lançamento do PAC, não foram capazes de mudar isso. Investe-se pouco. Mas a pagamento de juros permanece firme.

Mas veja. O superávit primário foi recorde histórico. Foram R$ 79,6 bilhões economizados nos sete primeiros meses do ano. E ainda assim não foram capazes de cobrir toda a conta de juros. Estes somaram R$ 92,9 bilhões no período, totalizando R$ 13,3 bilhões de déficit nominal.

A meta de superávit para o ano é de 3,8% do PIB, a menor desde a gestão Armínio Fraga-Pedro Malan no governo Fernando Henrique. Palocci cumpria 4,25%. Essa diminuição da meta é devido ao PAC, que, ao incentivar os investimentos públicos, automaticamente tornaria o superávit primário menor.

Uma comparação interessante com esse valor economizado até aqui foi feita pelo repórter Fernando Nakagawa na Folha, mostrando que a soma equivale à manutenção do Bolsa-Família por mais de 9 anos. Apenas com o dinheiro "economizado" em sete meses de 2007.

 

31/08/2007 13:52

Holofotes em Nova Iguaçu

A cidade de Nova Iguaçu, da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, entrou nas escaladas dos noticiosos televisivos e das manchetes da imprensa escrita e online (com as rádios indo atrás), de uma hora para outra, como centro de dois casos sérios.

Ambos envolvendo mortos, mas em diferentes medidas. O maís crítico, por provocar de fato, a morte de pessoas, foi o bisonho acidente entre dois trens.

O trem UP-171 tinha oito vagões, e saiu lotado com 800 passageiros da Central do Brasil às 15h10 de ontem, com destino a Japeri. Exatos 59 minutos depois, quando estava à cerca de 200 metros da estação de Austin, em Nova Iguaçu, o UP-171 se chocou com outro trem, este de testes, que manobrava da linha 1 para a 2.

O UP-171 estava a mais ou menos 80 km/h na linha 1 quando se chocou diretamente na traseira do trem de testes. Treze pessoas morreram e outras cem ficaram feridas.

A SuperVia, empresa que administra o sistema de trens do subúrbio no Rio, informou que apresentará laudo sobre as causas do acidente em até 10 dias. Serão interrogados dois maquinários sobreviventes, e o controlador da malha que trabalhava no período do acidente.

Como se não bastasse, o diário gratuito Metro, em sua edição de ontem, conta sobre o caso do golpista de Nova Iguaçu.

Um golpista tentou obter o financiamento de um carro em uma concessionária da cidade. Apresentou seus dados: Anderson Luis Falleiro Cassel, gerente de uma empresa de Santa Cruz do Sul (RS). A concessionária foi então, atrás de uma financeira para arrumar o financiamento.

A financeira vetou o empréstimo. Os dados apresentados pelo homem se referem à um dos 199 mortos no acidente do võo 3054 da TAM, em 17 de julho último, em Congonhas.

Mas a concessionária tentou liberar o dinheiro com outra financeira, que concedeu o crédito. O golpe só foi descoberto no final: o consultor da primeira financiadora alertou o colega de que era o nome de uma vítima.

A frase de uma parente da vítima (que não se identificou à reportagem do Metro) é eloquente: "Tinhamos ouvido de um golpe semelhante no acidente da Gol, mas ocorrido muitos meses depois da queda do avião. Não sabíamos de nada sobre os nossos parentes. Nem que isso poderia acontecer tão rápido".