01/09/2007 10:30

O plebiscito da Vale

A campanha “A Vale é nossa” traz a tona as discussões acerca da privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), gigante de mineração e metais nacional, tentando reverter o processo, “reestatizando” a companhia.

A idéia é a união de argumentos de defesa nacional com ilegalidades constitucionais e jurídicas operadas no processo de venda da Companhia.

É necessário, no entanto, entender as dinâmicas ecônomicas que ditavam o governo à época e influenciaram as vendas de ativos públicos.

Há exatos dez anos, o governo de Fernando Henrique Cardoso implantava as platitudes neoliberais do Consenso de Washington (1990), enxugando o poder de Estado na economia através da venda dos ativos estatais para empresas privadas e investidores externos.

O câmbio era fixo, com juros de até 45% ao ano funcionando como âncora, impulsionando a especulação, que, ao mesmo tempo em que mantinha o erro cambial, tornava a dívida pública ainda mais explosiva. Daí que o dinheiro arrecadado com a venda das grandes empresas nacionais funcionaria como aportes para pagamentos de juros.

Em leilão em maio de 1997, o governo federal vendeu a Companhia Vale do Rio Doce por R$ 3,3 bilhões. Em 1999 a empresa acusou lucro líquido de mais de R$ 1,2 bilhão, quase metade do seu valor total de venda. Mas foi a partir de 2002 que a empresa se projetou como uma das maiores do mundo em mineração.

A partir daquele ano a escalada nos preços das commodities, processo ligado à enorme demanda chinesa que se industrializava rapidamente, aumentou enormemente os preços históricos da produção da Vale. Hoje seu valor de mercado é avaliado em R$ 103 bilhões (algo como US$ 50 bilhões). Apenas em 2006 suas vendas totais alcançaram US$ 9,6 bilhões, sendo US$ 6 bilhões (62,5%) em exportações.

“A Vale é nossa” é organizada por entidades e movimentos sociais, como o MST, a CUT, além de sindicatos, associações, ONGs e até partidos políticos, como o PSOL. O principal questionamento do movimento é sobre a privatização em si, quando grupos que realizaram a avaliação do valor de mercado da empresa foram os mesmos que participaram da compra.

Marcaram plebiscito para início de setembro, propondo participação popular, para trazer a Vale de volta ao Estado, tornando-a patrimônio público. A intenção é realizar algo semelhante ao plebiscito popular de 2003, contra o ingresso do Brasil na Alca, que reuniu 10 milhões de votos.

 

03/09/2007 07:31

Os acordos de Basiléia

Na edição desta semana de Veja Stephen Kanitz escreve sobre a origem da atual crise financeira, deflagrada no insandecido processo de busca por lucros nos derivativos do mercado de hipotecas de alto-risco norte americanas.

A tese de Kanitz é simples. Para ele a origem dessa instabilidade financeira se deu concomitante a perda dos bancos do papel primordial que lhes cabe, de conceder capital financeiro e produtivo.

E isso se deu, segundo o autor, com os acordos mundiais Basiléia I e II, que regulamentaram algumas regras de funcionamento para os bancos operarem. A regra básica, comum à todos: "Os bancos poderão emprestar no máximo doze vezes seu capital e reservas, corroídos pela inflação do ano, ano após ano". Para Kanitz, a regra mais "estapafúrdia e incoerente da história econômica do mundo, porque enfraquece a capacidade de emprestar dos bancos ano após ano, justamente o contrário do que queriam fazer".

E é essa regulamentação, que restringe o total de empréstimos que um banco pode realizar, lastreados em seu patrimônio, que produziu como efeito colateral uma mudança no perfil bancário e permitiu o surgimento de "hedge funds", fundos de pensão e empresas de "private equity" como grandes emprestadores.

A tese faz sentido. Mais preocupados em manter o patamar de lucros, os bancos passam a desenvolver e inevstidor em toda a sorte de operações. As operações financeiras entre fundos de bancos passam à valer tanto quanto um aumento de escala de clientes na ponta.

Não é coincidência ocorrerem excessos, principalmente com mercados tão desregulados como os atuais mercados financeiros globalizados. No ano passado, somente os bancos americanos realizaram a loucura de US$ 157 trilhões em derivativos, contra US$ 500 bilhões em 1988.

 

03/09/2007 14:12

Venha plantar cana

O lobby internacional pelo etanol têm se mostrado bem sucedido. O governo não se propõe a maiores fiscalizações, preferindo lucrar na euforia dos investidores e na exposição internacional. Reside-se em duas frentes: criar demanda e produção interna/externa e investir em pesquisa e desenvolvimento.

A falta de uma grande empresa nacional e de regulamentações mais firmes têm proporcionado as bases perfeitas para o pouso do grande capital externo, que vêm ao Brasil em busca das novas oportunidades de lucros.

Como o café de 100 anos atrás, ou a própria cana-de-açucar dos séculos XVII e XVIII, a produção de cana-de-açucar têm visto aumentos vertiginosos em todo o território nacional.

Organizam-se empresas a partir de grandes investidores internacionais, ou até de fundos institucionais. Estes aproveitam todas as oportunidades de negócio, guardando pouca relação com a produção ou capital produtivo.

Daí que vê-se empresas que investem em soja no Centro-Oeste e em cana no Sudeste e Nordeste. A guerra interna para receber esse capital financeiro têm melhorado as condições de troca, com os estados e municípios renunciando impostos e especializando a mão-de-obra, que se torna viciada no mesmo trabalho, sem qualquer emancipação.

A cana já chegou no Norte. A empresa Biocapital adquiriu terrenos, arrendou terras e trouxe mudas de cana de São Paulo para começar a produção em Roraima. Já possui todas as licenças ambientais. Como a variedade de mudas levadas para a Amazônia não foi desenvolvida especialmente para a região a empresa está na fase de multiplicação das mudas.

O projeto da usina prevê que ela será instalada na savana, e começará a operar em 2009. Os planos é chegar em 2014 com moagem de 6 milhões de toneladas, rendendo 530 mil litros de álcool.

O capitalismo financeiro e concorrencial aceitou o convite brasileiro de plantar cana.

 

04/09/2007 07:00

Biblioteca do futuro

Quem se propor, no futuro, a escrever sobre a história econômica e financeira do Brasil, obrigatoriamente dedicará boa soma de texto apenas ao primeiro semestre de 2007. Cabe uma obra por si só.

A combinação de vinte anos de mercados financeiros fortemente desregulados, grande inserção no comércio internacional, efeitos de globalização e alta liquidez formaram um período único de faruta para os financistas e rentistas internos e externos ganharem dinheiro fácil sem suar em produção.

Este Blog alertou as diferentes operações que ocorreram no período, seja através de colunas próprias, seja através de comentários a partir de textos de outros autores.

Vejamos a sucessão dos fatos, que sustentaram a fanfarra com nossos ativos financeiros. Em fevereiro do ano passado, com juros de mais de 15% ao ano, o Tesouro Nacional suspendeu a cobrança de Imposto de Renda do capital externo. Não houve muito tempo para festa, afinal logo em abril e maio se sucederam os primeiros choques de uma crise no mercado de hipotecas americanas.

Apenas a partir de agosto/setembro a situação se normalizou, mas o momento era de eleição presidencial, mesmo que sem grandes emoções políticas, causava certo constrangimento nos financistas aplicar seu capital aqui. Reeleito Lula a festa recebeu a chancela que precisava: o Banco Central ampliou o limite de capital de patrimônio dos bancos que serviria de referência para operações no mercado de opções futuras. De 30% para 60%, em novembro.

Não foi coincidência a enorme supervalorização do real que se viu a partir de então. O saldo comercial permaneceu estável de início, diminuindo ao longo de 2007, deixando claro que os dólares que inundavam nossos mercados apreciando o real eram oriundos da conta financeira. Basta conferir os dados mensais de nossa Balança de Pagamentos.

Nem mesmo o segundo presságio da crise financeira americana, em março (com o episódio de 28 de fevereiro na China), foi capaz de mudar a situação. O que aliviava uma derrocada maior no valor do dólar foram as compras do BC nos mercados à vista e no mercados futuros (sob o lançamento de “swaps reversos” que aumentaram nosso endividamento). As reservas eram de US$ 60 bilhões em outubro do ano passado, 10 meses depois são de US$ 162 milhões.

O real caiu de R$ 2,21 para R$ 1,81 em julho, logo antes do terceiro e atual choque nos mercados financeiros mundiais, originados pelo total desleixo das autoridades de fiscalização dos mercados. Órgãos públicos desmobilizados. Órgãos privados – as famigeradas agências de classificação de risco – dando nota alta à torto e à direito, capturadas pelo lobby empresarial. Títulos lastreados em hipotecas “subprime” (alto-risco) dos EUA receberam nota AAA e hoje não têm um tostão para honrar os investidores.

Só não viu quem não quis.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais, acaba de divulgar os dados financeiros mundiais relativos ao segundo trimestre. Embora eloqüentes não contam com maiores análises ou destrinchamento dos números. Tudo a ver com a falta de fiscalização imposta pela liberalização dos mercados.

Ele revela que a movimentação com derivativos em real (R$) cresceu 34% no segundo trimestre, num ritmo sem precedentes. Segundo o BIS, os contratos real-dólar alcançaram US$ 900 bilhões, tornando-se o segundo par de moedas mais negociados, só atrás do euro-dólar, com US$ 1,7 trilhão, e superando o ien-dólar (US$ 700 bilhões).

O crescimento nas movimentações com derivativos de juros foi de 37%, alcançando US$ 463 bilhões. Conforme expliquei ao longo do semestre, era possível lucrar, sem maiores conhecimentos, algo como 6% ou 7% ao mês em aplicações financeiras no Brasil. Trazia os dólares no dia primeiro, aplicava em títulos do governo ou de renda fixa (que por sua vez compram títulos do governo) e saia no dia 31 com a remuneração dos juros e a variação cambial. Lucrava-se em um mês o equivalente à 18 meses de aplicação nos títulos do governo americano, os mais seguros do mundo, em tempos de juros altos por lá.

A coincidência do segundo semestre destituiu um pouco a dança financeira. O BC baixou portaria em julho, voltando atrás em sua decisão de novembro, baixando de 60% para 30% o limite de capital do patrimônio que os bancos podem usar em posições com derivativos. Ao mesmo tempo explodia a crise nos mercados. Houve pequena desvalorização. Mas sem mudança na fonte, na origem da questão, volta tudo de novo.

E um livro diferente se fará necessário.

 

04/09/2007 14:30

Humanizando a cobertura

Estava ótimo o caderno “Dinheiro” de domingo na Folha. Mais humanizado, com menos mercadistas ou aquelas típicas matérias com as mesmas fontes (“analistas do mercado”) de sempre defendendo seus interesses, desvirtuando o fato da vez.

Três matérias em especial chamaram a atenção. Uma tratava de economia regional, especificamente Rondônia, local onde se instalarão as usinas hidrelétricas do Madeira. O jornal enviou repórter e fotógrafo, o que por si só já dá à matéria um tom incomum. A atenção ao social, a vida das pessoas e suas dinâmicas se tornam foco.

Outra mostrava a escalada no plantio de cana por que passa o país. A manchete é eloqüente: “Plantio de cana avança no Norte do país”. Tratei da reportagem no texto abaixo.

E finalmente a reportagem de capa, em que o colunista Guilherme Barros noticia os planos do Ministério da Fazenda de diminuir as taxas de importação de alguns alimentos que pressionaram a inflação de agosto. Tratarei melhor desse repique inflacionário na coluna de amanhã, quando relaciono isso à reunião do BC para decidir sobre os juros Selic.

Sobre os planos da Fazenda dois pontos.

O principal motivo de abrir mais o mercado para alimentos importados é fazer a inflação arrefecer e assim manter o BC despreocupado em continuar cortando os juros. Desde que Guido Mantega assumiu essa têm sido a dinâmica da pasta. Embora os fins sejam honrosos os meios estão equivocados. E aí entra o segundo ponto.

O aumento nos preços de alguns alimentos (leite, carne bovina e o trigo menor medida) é fenômeno mundial. Não é pressão de demanda, que permanece estável. E sim choque de oferta, com quebras de safras e questões de embargos não-tarifários.

O país exporta US$ 22 bilhões em alimentos e importa apenas US$ 2 bilhões.

 

05/09/2007 07:00

A decisão dos juros

A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que decide o nível da taxa básica de juros (Selic) no país, deve considerar todas as nuances internas e externas para tomar sua decisão. Mesmo que o mercado - normalmente de onde saem as decisões do Copom em primeira mão - já tenha previsto o que ocorrerá.

Primeiro ponto: inflação.

O Banco Central tem como missão manter a taxa de inflação na meta estabelecida pelo CMN, órgão definidor da meta de inflação. O BC errou no ano passado, quando a inflação foi de 3,14% frente à meta de 4,5%. A meta para 2007 (e também para os próximos dois anos) é a mesma, de 4,5%.

Embora não admita oficialmente, é através da taxa de câmbio que o BC cumpre suas metas. Nos últimos dois anos, aproveitando-se da supervalorização do real (graças à montanha de dólares que entrou e entra para ganhar nossos juros astronômicos), o BC pode manter a inflação na meta. E como vimos, até quebrar a meta - para baixo - no ano passado.

Daí que qualquer repique no câmbio seja rapidamente controlado por venda de dólares acumulados nas reservas. Se o movimento se prolongar, sobe os juros.

Se, no entanto, houver aceleração inflacionária, por qualquer motivo, deve-se analisar as razões. E é aí que reside a maior possibilidade de erro na reunião de hoje.

Neste mês o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado, calculado pela FGV) acusou a maior alta desde agosto de 2004. A alta foi de 0,98%.

Mas deve ser relativizada e entendida. O que houve foi um aumento nos preços de algumas commodities agrícolas, como o milho, o leite, a carne bovina e a soja. O preço do milho teve ganhos com a maior demanda para produção de álcool combustível nos Estados Unidos, que tem reflexo também no aumento da área plantada, diminuindo o espaço de outras culturas.

As razões do aumento do leite já caíram na consciência popular. Com a quebra na safra de vários países produtores, a demanda, que permaneceu razoavelmente constante, pareceu maior vide a falta de oferta.

O fim de embargos internacionais aumentou a demanda pelo produto, que a produção ainda não acompanhou. A diminuição na pecuária argentina, grande provedor mundial do alimento, também causou efeitos.

E por último a soja, que ainda não aprovietou a maior produção brasileira, ainda com resquícios dos "anos negros de 2005 e 2006" para o setor.

O aumento do IGP-M é pontual. Pode balizar, mas não servir como razão de uma mudança nos cortes nod juros.

Segundo ponto: crise financeira

A crise financeira mundial, originada no mercado de derivativos de hipotecas de alto risco (subprime) dos Estados Unidos pode mexer com o Brasil. Com certeza não passaremos impunes à desregulação dos mercados financeiros, e em especial a fanfarra que viveram os financistas e rentistas nos últimos cinco anos.

É essa desaceleração econômica mundial, que pode ser brusca (os Estados Unido entrarem em recessão já) ou mansa (desacelerando através dos anos) que afetará o Brasil. Nossa balança comercial começará a cair, já que os preços das commodities cairão, e com o real supervalorizado ficaremos ultra dependentes dos importados.

Juros mais baixos ajudam o câmbio à subir, tornando o país menos dependente do mercado externo e das commodities.

 

05/09/2007 15:35

A escolha de prioridades

Em sua coluna no Valor de hoje o repórter Cristiano Romero discute o "inchaço da máquina pública" sob o governo Lula. O texto se baseia em relatos do ex-secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Sérgio Mendonça, que ocupou o cargo durante do primeiro governo de Lula, deixando o cargo no início deste ano.

Entre 2003 e 2006 foram criados 82 mil cargos, sendo 80 mil por meio de concurso público. A idéia era reestruturar órgãos públicos chaves, que se encontravam esvaziados e sem estruturas. Boa parte dos novos contratados foram para esses órgãos, como DNIT, Ibama e a Polícia Federal.

Os contingentes eram definidos pelas próprias entidades beneficiárias das contratações, que se encarregavam de montar seus critérios próprios de cálculo de necessidade de pessoal.

Há claramente um erro de gestão nesse ponto. O governo deve normatizar as regras para os critérios com margens explícitas. Contratar sob a ótica da demanda desses serviços e principalmente criar normas de avaliação de desempenho dos funcionários ou dos órgãos após as contratações.

É importante deter órgãos públicos fortes, estratégicos para o bom desenvolvimento do Estado. Para isso condições de infra-estrutura e pessoal devem ser contrapartidas primárias. O passo seguinte é imprimir gestão séria sobre as funções e serviços. Cada um à sua maneira, bom que se diga.

Assim como controlar o "Inchaço da máquina pública" é importante, deve-se antes de tudo relativizar alguns pontos.

A revista Veja dessa semana traz matéria que critica esse "inchaço", chamando a atenção para os quase 1 milhão de funcionários públicos, chamando esses empregos de cabides.

Em determinado parágrafo, a partir de dados do economista ALexandre Marinis, da consultoria Mosaico a revista afirma que "números compilados por Marinis mostram que o governo americano gasta o equivalente a 1,2% de seu produto interno bruto (PIB) com o pagamento de salários dos servidores civis, ao passo que no Brasil o custo é de 2,7% do PIB - e não se tem notícia de que a burocracia brasileira seja mais eficiente".

De fato podemos discutir e implementar melhorias para equacionar problemas de eficiência nos serviços públicos. Mas não é preciso fazer disso um terror nacional.

Com os números citados pela revista é possível constatar que os 2,7% do PIB gastos com o funcionalismo, embora altos, não passam nem perto dos 7% de tudo o que é produzido no país transferidos para o pagamentos de juros.

Esse é nosso maior gasto. A rubrica do Orçamento federal que consome mais recursos. Os juros da dívida pública. Deve-se atacar este problema com a mesma ênfase com que se ataca o "inchaço".

 

05/09/2007 17:01

Enrolado

Mal começou e a TV JB já pode acabar. Segundo informa o jornal O Povo o dono do Jornal do Brasil (JB), Nelson Tanure, têm tido dificuldade em honrar seus compromissos financeiros com a família Martinez, o que pode tirar o canal da televisão, poucos meses depois de sua estréia.

A família Martinez é a dona das concessões para transmissão de conteúdo televisivo, que firmou contrato de arrendamento com Tanure ainda em setembro do ano passado. Conforme previa o acordo o Grupo JB pagaria mensalmente uma cota, tendo em troca as concessões por um ano.

Com dois meses de atrasos, que totabilizam R$ 6 milhões, a família Martinez quer retomar seus canais até o dia 5. Hoje, como se percebe.

O impasse não foi solucionado mesmo com proposta conciliatória, em que o Grupo JB se encarregaria de pagar R$ 1 milhão por mês apenas pelo horário nobre, até dezembro, com a atual dívida prorrogada. No entanto, não se chegou a um consenso.

A sede que a Companhia Brasileira de Mídia, liderada por Tanure, pretendia utilizar na avenida Paulista já foi devolvida. E o mesmo deve ocorrer com a GGP, complexo de estúdios de Gugu Liberato em Alphaville (SP), atualmente ocupado com os programas da JB. Especula-se na possibilidade de transferir o telejornal ancorado por Boris Casoy para uma das salas da Gazeta Mercantil.

A maior possibilidade é da família Martinez reaver sua concessão, retomando o loteamento dos canais por igrejas e empresas de telemarketing.

 

05/09/2007 20:25

Mais do mesmo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central acaba de anunciar corte de 0,25% na taxa básica de juros brasileira. A decisão que decidiu pela Selic de 11,25% ao ano foi unânime, com todos os seis diretores votando a favor do corte de 25 pontos-base.

Como o BC e o mercado se balizam, o foco da cobertura midiática de amanhã será sobre como o "mercado" recebeu a notícia, o que o "mercado" entendeu e o que o "mercado" prevê que ocorrerá daqui para frente.

Com essa decisão unânime pela ortodoxia o "mercado" irá receber a notícia como autorização para suas operações. Entenderá que o BC está preocupado com a inflação, que sofreu
repique pontual e sazonal em agosto. E irá prever nova queda de 0,25% na próxima reunião.

Há muito interesse em jogo. Sempre houve. Aos "analistas" do mercado ouvidos - os mesmos de sempre, diga-se de passagem - interessa que os juros permaneçam altos, ou que demorem a cair. Isso porque seus chefes (os bancos e bancos de investimentos) lucram com taxas maiores.

Aos membros do BC interessa não desapontar essa gente por dois motivos:

1. Torna o trabalho deles, no presente, mais fácil. Como têm por função manter a estabilidade da moeda e inflação baixa, uma situação calma no mercado financeiro, em que todos os seus personagens principais ganhem, é o desejável.

2. Torna o trabalho deles, no futuro, mais seguro. Como a enorme maioria dos que uma vez integraram um cargo de regulação de mercado no governo assumem um posto em empresa privada, é de seu interesse fazer o jogo do futuro chefe ou sócio desde já.

E como sempre, nos resta perguntar: E onde fica o interesse nacional nisso tudo?

 

06/09/2007 10:05

Frase da semana curta do feriado

Nunca é demais falar sobre os programas sociais. Sejam assistencialistas ou simplesmente políticas de lazer para segmento carente da sociedade, todos os programas sociais devem cumprir sua função de diminuir a desigualdade.

Essa é a maior discussão e problema da humanidade. E aqui no Brasil estamos muito longe de mudarmos a situação.

Como origem teórica para todo programa social, é evidente à contrapartida de dar ao beneficiado as condições para sua emancipação. Para isso, a frase dessa semana curta do feriado é do economista Antônio Delfim Netto, que trata dessa origem teórica.

"O que se deve exigir de qualquer política assistencialista emergencial que suporta os cidadãos em dificuldades é que ela contenha em si a semente de sua própria destruição: que seja acompanhada de políticas de estímulos e incentivos que propiciem aos seus recipientes que se libertem -pelo aumento das oportunidades de emprego e de renda- dos programas que os amparam no curto prazo".

 

07/09/2007 10:53

O Ipea e o Longo Prazo

A criação da Secretaria do Longo Prazo, encarregada à Mangabeira Unger teve como plano de fundo reorganizar o funcionamento de alguns órgãos de estudos públicos, para dar mais dinâmica e utilidade à um sistema sensivelmente descolado do governo.

Mangabeira não demorou muito. Debruçado sobre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), partiu para mudanças de base. Fortemente vinculado ao PSDB, rival político do PT, e antenado com pesquisas e trabalhos de críticas ao tamanho do Estado e outras teorias neoliberais, o Ipea começou a ser destrinchado.

O Instituto era vinculado ao Ministério do Planejamento, agora estaria sob a Secretaria de Longo Prazo. Daí a legitimidade de Mangabeira para efetuar a reorganização.

Para a presidência do órão Mangabeira nomeou o economista da Unicamp Márcio Pochman, estudioso do mundo do trabalho e aliado à teoria keynesiana desenvolvimentista. Foi a vez então de Pochman produzir suas mudanças. Colocou Jorge Abrahão na Diretoria Social, João Sícsu na Diretoria de Macroeconomia e Liana Cardeal na Diretoria Regional e Urbana.

Agora o foco da reorganização recai sobre o Grupo de Conjuntura do Ipea.

Criado durante o governo Geisel (1974-1979), o Grupo de Conjuntura do Ipea foi idéia bancada pelo então Ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso. Assim como o Ipea, o Grupo de Conjuntura sempre foi vinculado ao Ministério do Planejamento, se descolando apenas recentemente, em junho passado.

As desanvenças entre esse Grupo e o governo estão postas entre Fábio Giambiagi, principal economista do Ipea e o Ministro da Fazenda Guido Mantega, crítico das idéias de Giambiagi.

Como bem lembra Renata Lo Prete na Folha de hoje, o Grupo de Conjuntura enfrentou dois "embates fortes" com a autoridade de turno. O primeiro se deu quando o Ministro do Planejamento era Delfim Netto (1979-1985). O segundo, já no governo FHC, quando a pasta foi ocupada por José Serra (1995-1996).

O maior entrave para Mangabeira destituir o Grupo de Conjuntura é justamente seu criador, João Paulo dos Reis Velloso.

 

08/09/2007 14:15

Mudanças na Defesa

O recém-empossado (final de julho) Ministro da Defesa, Nelosn Jobim (PMDB) começa a mudar a organização institucional do controle da aviação civil. É uma sucessão de mudanças importantes, que tendem a tornar mais inteligente a transmissão de decisões. Vejamos.

O Ministério da Defesa tem vinculado a si quatro secretarias. São elas: Política, Estratégia e Assuntos Internacionais; Logística, Mobilização, Ciência e Tecnologia; Organização Institucional; e Estudos de Cooperação.

Esta última será transformada na nova Secretaria de Aviação Civil, desvinculando a aviação civil da Secretaria de Organização Institucional, passando a ter uma Secretaria toda para si.

Com a nova criação, Jobim indicou a economista Solange Vieira para chefia-la. Solange é funcionária de carreira do BNDES e foi secretária da Previdência no governo FHC.

Outra importante mudança na reformulação do setor é a Anac. A Agência Nacional de Aviação Civil foi criada no início de 2006, substituindo o DAC, Departamento de Aviação Civil. A Anac perderá status, e principalmente, autonomia. Passará a atuar exclusivamente como executora das diretrizes formuladas por Solange Vieira na Secretaria da Aviação Civil e aprovadas pelo Conac (Conselho Nacional de Aviação Civil).

O Conac é presidido pelo Ministro da Defesa e integrado, por exemplo, pelos ministros da Fazenda, das Relações Exteriores e da Casa Civil.

O braço direito de Jobim para o setor é o major-brigadeiro Jorge Godinho, que foi o último diretor do extinto DAC. Godinho é assessor especial e intermediador das negociações da Defesa com os órgãos de aviação civil. Outro ex membro da DAC, Allemander Jesus Pereira Filho, brigadeiro e doutor em engenharia foi escolhido para ocupar o espaço deixado vago por Leur Lomanto, após se demitir do cargo de diretor na Anac.

Por fim Jobim também planeja criar uma Secretaria Geral, ou Secretaria Executiva, para tornar sistêmico o trabalho das diferentes Secretarias e órgãos.

 

09/09/2007 12:10

Conglomerado argentino de mídia abre capital

Neste mês de setembro (ou no mais tardar em outubro) o Grupo Clarín, maior conglomerado de mídia da Argentina, vai abrir capital e lançar ações nos mercados local, americano e europeu. Será o primeiro jornal latino-americano cotado na Bolsa de Nova York.

Fundado em 1945 pelo jornalista e advogado Roberto Noble, o Clarín sempre foi marcado pelo jornal de mesmo nome, famoso por estar constantemente em reorganizações, seja em layout seja corporativo. Em junho último produziu sua mais recente mudança gráfica.

Desde 1969 o comando do jornal está nas mãos da viúva de Noble, Ernestina Herrera de Noble. O grupo é administrado pelo sócio e principal executivo Héctor Magneto.

Em 1999 o banco americano Goldman Sachs comprou 18% do capital do Clarín, por US$ 500 milhões. É essa a porcentagem de capital que o grupo planeja vender ao público. O gigante banco americano planeja há algum tempo vender sua parte da empresa argentina, mas ainda não se sabe se a fatia que será ofertada aos investidores de ações será do Goldman Sachs.

Ernestina Herrera de Noble, Héctor Magneto e outros dois sócios, José Aranda e Lúcio Pagliaro, são donos dos outros 82% do capital da holding.

 

10/09/2007 13:11

Frase da semana que se inicia

"Como dizia Tancredo, na votação secreta dá vontade de trair. Resta saber se os senadores trairão Renan ou a opinião pública"

Do jornalista de O Globo, Merval Pereira, em seu comentário diário na rádio CBN. Merval lembra frase do ex-presidente Tancredo Neves (morto antes de assumir em abril de 1985) sobre as votações secretas no Senado, para tratar da votação secreta na Casa nesta quarta-feira, sobre a cassação de seu presidente, Renan Calheiros.

 

10/09/2007 15:41

Chaves do crescimento

Um dos pontos chaves para tornar o crescimento brasileiro sustentável é um sistema de transportes desenvolvido e ágil para tornar a logística de escoamento dos produtos para dentro e fora do Brasil segura e útil.

Os melhores meios, por preço, segurança e nível físico dos materiais transportados intacto são o marítmo e ferroviário. O rodoviário é melhor para distâncias curtas e com menor carga.

Como se sabe, aqui é tudo inverso. Temos ampla malha rodoviária, que torna o escoamento da produção interiorana cara e improdutiva. Não faltam estatísticas que mostram que mais da metade das cargas de produtos como frutas e grãos se perdem nas viagens de caminhão.

Já o sistema ferroviário foi totalmente abandonado - alguns diriam que o sistema nunca foi de fato adotado - por falta de investimentos e leniência política. Esses dois motivos foram causa também do abandono do sistema hidroviário.

Temos dois portos importantíssimos para o comércio mundial, Santos em São Paulo e Itajaí em Santa Catarina. E ainda assim algumas grandes empresas optam por meios alternativos para trabalhar.

A coluna de amanhã discutirá melhor essa questão portuária. Como sempre, fica o convite para aqueles que quiserem opinar e discutir a questão.

 

11/09/2007 07:00

Infra-estrutura: Os portos 1

A inglesa "Container Management" divulgou recentemente o ranking dos 120 maiores portos do mundo em movimentação de contêineres. As maiores movimentações foram nos portos de Cingapura (24,7 milhões); Hong Kong (23,5 milhões); Xangai (21,7 milhões); Shenzhen (18,4 milhões); Busan (12,03 milhões). Os primeiros portos de países "desenvolvidos" foram de Rotterdam na Holanda, com 9,6 milhões, Hamburgo (Alemanha) com 8,8 milhões e Los Angeles (EUA) com 8,4 milhões.

Nessa lista o porto de Santos (SP) alcançou a 39ª colocação, com um total de 2,446 milhões de Teus (unidades que são equivalentes a contêineres de 20 pés). O outro porto brasileiro que entrou na lista da publicação inglesa foi o de Itajaí, em Santa Catarina, que alcançou a 113ª posição, que movimentou 688 mil contêineres em 2006.

O porto de Santos é o principal entre os mais de 40 portos marítmos brasileiros. De janeiro a julho participou com US$ 39,2 bilhões das exportações do país, o que equivale à 26% da balança comercial do período. Sua taxa de ocupação dos berços de operação de contêineres já supera 60%, o que é considerado perigoso.

Nos primeiros sete meses de 2007 o porto movimentou 7,542 milhões de toneladas, que superou em 9,2% a movimentação no mesmo período do ano passado.

Para evitar um estrangulamento foi aprovado projeto de criação da Empresa Brasileira de Terminais Portuários (Embraport), estrutura com terminal de dois píeres, armazéns e pátio ferroviário. O empreendimento é orçado em US$ 500 milhões (quase R$ 1 bilhão), e deve ampliar em 10% a movimentação do porto.

E aí é que está a questão. Deve-se articular planos de investimentos públicos em ampliação da malha portuária e na capacitação dos portos já existentes. O primeiro passo foi dado, com a criação da Secretaria Especial dos Portos, antigamente vinculado ao Ministério dos Transportes.

Com essa criação institucional dá-se maior atenção à um problema crucial: a retenção de dinheiro para outras prioridades, entre elas o pagamento de juros. São três os principais entraves: a criação de uma política séria para o setor; ganhos de gestão pública com metas e acompanhamento; mais dinheiro para investimentos. Claro, condicionando a liberação de recursos às necessidades, tornadas claras por uma gestão eficiente.

O dinheiro para investir nos portos é previsto no Orçamento. Conforme demonstrou Cláudia Safatle em coluna do final de julho no Valor, são R$ 465 milhões de dotação orçamentária, valor superior ao que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinou aos portos este ano, de R$ 434 milhões. Mas até agosto o Tesouro Nacional liberou para empenho (que autoriza a realização do gasto) apenas R$ 68 milhões. Desses, R$ 50 milhões foram efetivamente liquidados e pagos, sendo que somente R$ 13 milhões se referem ao orçamento deste ano. Os restantes R$ 37 milhões correspondem a restos a pagar de 2005 e 2006, que somam R$ 96,3 milhões.

Para se ter uma idéia, o Orçamento de 2006 previa R$ 55,5 milhões. O liquidado e efetivamente pago foi somente R$ 8,9 milhões. Percebe-se aí que o principal enfoque que o Ministro Pedro Brito, à frente da Secretaria Especial dos Portos deve dar é na operacionalização entre os gastos previstos no Orçamento e a liberação destes pelo Tesouro.

 

11/09/2007 13:33

O julgamento de Calheiros

Após o "julgamento histórico" dos 40 acusados pelo imbróglio "mensalão" no Superior Tribunal Federal - que aliás, voltou ao anonimato - o efeito manada se volta ao antigo caso Renan Calheiros.

A história toda surgiu em fins de maio, com acusações da revista Veja, seguida de perto dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo. Conforme Renan respondia, se defendendo das acusações/reportagens, o caso ia pegando velocidade.

Não só o presidente do Senado não conseguia se explicar corretamente, como também foi infeliz ao criticar a mídia e a sucessão das investigações. Aí mexeu com vara curta o real partido de oposição: a imprensa.

O movimento pela cassação de Renan tomou proporções tais que nem o recesso parlamentar de julho arrefeceu o caso. Mesmo com a tragédia do võo 3054 da TAM, a crise nos mercados financeiros mundiais e o julgamento dos "40 do mensalão".

A primeira acareação pela cassação do mandato do presidente do Senado será realizada amanhã, por voto secreto, no Conselho de Ética do Senado.
No meio de tudo isso, se esqueceu o que realmente incrimina Renan. O que torna sua permanência na presidência, ou seu mandato como senador insustentável. O julgamento é político, avisou André Petry em brilhante artigo tempos atrás.

Em todo o caso uma explicação convincente ainda resta. É justamente o que pergunta Jânio de Freitas na Folha de hoje.

Se não vejamos: "Apesar de tudo o que já apareceu sobre o presidente do Senado, a origem do processo a ser julgado são os numerosos pagamentos feitos por um lobista da empreiteira Mendes Júnior, Cláudio Gontijo, para quitação de deveres de Renan Calheiros com Mônica Veloso e a filha de ambos. Todas as sucessivas explicações do senador, para induzir a crença de que os pagamentos usaram recursos seus, revelaram-se uma mentira continuada, embora em capítulos. Foi essa série de inverdades e fraudes que levou ao reconhecimento da falta de decoro de Calheiros, pelo Conselho de Ética".

"Mas, se a acusação original era de benefício recebido indevidamente de uma empreiteira, e as explicações em contrário não se sustentavam, a providência lógica seria a verificação na apontada fonte pagadora. Era o meio de saber se saíram de seu caixa, fosse para Cláudio Gontijo, fosse em nome de Renan Calheiros ou de Mônica Veloso, importâncias coerentes em valor e em data com os recebimentos comprovados".

"
Nenhum dos 81 senadores fez sequer sugestão naquele sentido, tão óbvio. Nem ao menos houve menção alguma à Mendes Jr., a não ser para qualificar o seu lobista Cláudio Gontijo.
Se Renan Calheiros não foi capaz de comprovar a posse dos recursos repassados a Mônica Veloso, e não houve motivo para a suposição de que Cláudio Gontijo usasse dinheiro seu, a omissão deliberada dos senadores vale por uma indicação clara da fonte dos pagamentos. E, com a identificação, o motivo que levou a poupá-la
".

 

11/09/2007 19:35

Conclusão sobre o acidente em Nova Iguaçu

A empresa que administra o sistema de trens do subúrbio do Rio de Janeiro, a SuperVia, concluiu laudo técnico sobre o acidente de 30 de agosto, em que dois trens se chocaram em Nova Iguaçu, matando oito e ferindo 101 pessoas.

A conclusão apresentada no laudo foi de falha humana. O trem UP-171 tinha oito vagões, e saiu lotado com 800 passageiros da Central do Brasil às 15h10 de ontem, com destino a Japeri. Exatos 59 minutos depois, quando estava à cerca de 200 metros da estação de Austin, em Nova Iguaçu, o UP-171 se chocou com outro trem, este de testes, que manobrava da linha 1 para a 2.

Segundo o documento a causa do acidente foi uma sequência de cinco erros cometidos pelo maquinista do trem de passageiros (UP-171) e pelo controlador de circulação do ramal de Japeri. O controlador não fechou o sinal da estação de Comendador Soares, além de comandar a mudança de rota do trem que manobrava para a mesma em que circulava o trem de passageiros.

O maquinista por sua vez trafegava à 76 km/h, 16 km/h acima do permitido para aquele trecho, não diminuiu ao passar pelo sinal amarelo e não parou no sinal vermelho. A própria polícia do Estado já havia apontado que não ocorrera sinal de falha mecânica, e que ocorrera avanço de sinal vermelho.

As pastilhas de freio do trem de passageiros estava travada. Alguns passageiros ouvidos disseram não terem ouvido o veículo frear. Segundo o delegado Fábio Pacífico, encarregado pela investigação, o maquinista pode ter freado já no momento da colisão.

 

12/09/2007 07:00

Infra-estrutura: Os portos 2

Uma tarefa muito importante para o bom desenrolar do trabalho de Pedro Brito à frente da Secretaria Especial dos Portos é solucionar os problemas das Companhias Docas. São dois os principais problemas das Docas: passivos trabalhistas e politização de seu estafe.

Em cada uma das Companhias Docas a direção é indicada pelos partidos da base de apoio do governo. Essa partidarização não é de agora. É um problema que além da leniência dos governos enfrenta a comodidade da falta de atenção que se dá à essas nomeações.

Quando se nomeia um político (especialmente se não for um técnico na respectiva área) para presidir ou dirigir uma empresa estatal, os faróis da mídia se acendem. É assim com Furnas, Petrobrás e outros. Não ocorre da mesma maneira com as Companhias Docas.

O ministro prometeu, quando de sua posse, mudar as diretorias, privilegiando o critério da competência profissional e não o da indicação política. Olho nisso.

As dívidas trabalhistas das Docas é outra questão importante. segundo a jornalista Cláudia Safatle, elas acumulam passivo de mais de R$ 1,4 bilhão, principalmente trabalhista. São cerca de R$ 800 milhões da Codesp, Companhia Docas de São Paulo, que administra o porto de Santos, e outros R$ 600 milhões da Coderj (Rio de Janeiro). O dinheiro que entra no caixa dessas empresas é imediatamente arrestado pelos sindicatos, graças aos enormes passivos trabalhistas.

A primeira missão de uma nova diretoria (não preenchita pela cota política) nessas Docas é acertar o pagamento das dívidas. Deve-se refinanciar se for necessário, alongando os prazos para saldar todo o montante.

Depois trabalhar no aumento de produtividade dos portos. Para isso a primeira alternativa é aumentar o calado dos portos. Para isso é preciso fazer a dragagem. Para os próximos 4 anos o governo disponibilizou R$ 1,4 bilhão do PAC para dragagem dos portos. O dinheiro deverá ser encaminhado para disponibilizar mais dragas, pois o número disponível é inferior à quantidade de obras.

O setor nacional de dragas forma quase um cartel, com apenas três empresas, Dragaport, Bandeirantes e Enterpa, que salgam o preço (Safatle, Cláudia - "Nos portos as obras estão paradas" no Valor Econômico de 27 de julho), além de não possuírem maquinário suficiente - o que por si só aumenta o preço.

Aí entra a medida provisória encaminhada ao Congresso Nacional essa semana, que altera a Lei dos Portos, derrubando o veto à entrada de empresas estrangeiras para execução de serviços de dragagem. Os contratos serão de até dez anos, além da criação da modalidade de dragagem por resultado.

A medida prevê, ainda, a implantação de unidades de gestão ambiental em cada porto, com o objetivo de destravar a obtenção de licenciamento. Essa questão deve ser discutida de perto. É normal o governo elencar os setores da vez, criando todas as condições para a resolução "do problema", passando por cima de questões ambientais. E a conta vem mais salgada no futuro.

Pretende-se também equalizar os créditos que o governo têm a receber. Avalia-se que a dívida da Cosipa e da Libra Terminais com a União chegue a R$ 200 milhões, para cada empresa, e a R$ 80 milhões no caso da Triunfo.

A Secretaria Especial dos Portos, que preparou a MP da Dragagem (como ficou conhecida a medida provisória), organizou nova dinâmica para a operação dinheiro do Tesouro-dívidas trabalhistas.

A remuneração dos serviços de dragagem virá diretamente das taxas cobradas pelos portos de seus usuários. A arrecadação das taxas será depositada, de imediato, em uma conta do Tesouro Nacional. Segundo ministro "isso não elimina, mas torna mais difícil a possibilidade de bloqueio dos recursos para investimentos", frequentemente bloqueados pelas ações trabalhistas que corroem as já combalidas Codesp e Coderj.

 

12/09/2007 14:35

Ignorem o presidente por um dia

Desde que venceu as eleições presidenciais na França, o direitista Nicolas Sarkozy vêm sendo bombardeado pela mídia francesa com a mídia internacional vindo a reboque. Tudo à ver com o acirramento da globalização das comunicações.

Independentemente do que propôs, ou efetivamente produziu nesses primeiros quatro meses na presidência, Sarkozy já é tido como figura tarimbada em matérias e reportagens mundo afora.

Para os franceses esse excesso de atenção, semelhante às celebridades norte-americanas ou inglesas, têm afastado a atenção para seu trabalho a frente do executivo francês. Um exemplo: tente adivinhar o nome do primeiro-ministro da França.

Este blogueiro teve de recorrer à pesquisa, afinal a memória não ajudava. François Fillon é ele, que tão pouca - se não nula - atenção recebeu.

Diante disso a organização Democracia na Televisão, criada pelo sociólogo Pierre Boutin, convocou a imprensa da França a observar um dia de abstinência de Sarkozy. Escolheram o próximo dia 30 de novembro, quando se completa um ano do lançamento da candidatura do atual presidente, para que a mídia não fizesse qualquer menção à Sarkozy.

"Nem uma única imagem, nenhum som, nenhuma linha de texto sobre os atos ou gestos de Nicolas Sarkozy deve sair na mídia nesse dia. Nenhum elogio, nenhuma crítica, nenhum comentário. Nada, por favor, exceto um silêncio incomum e democrático", disse o comunicado do grupo. Segundo Boutin afirmou à Reuters, a preocupação não é tanto em transformar o 30 de novembro em "dia livre de Sarkozy", mas sim passar uma mensagem:

"Muitos jornalistas estão exasperados com o culto à personalidade que surgiu em torno de Sarkozy, e o mais importante é lançar essa idéia", disse Boutin.

 

14/09/2007 18:45

Apenas dominante

Escritor e jornalista do "The New York Times", Thomas L. Friedman se tornou famoso por seu livro "O Mundo é plano", que recebeu traduções para diversos idiomas, português incluso. Com linguagem assimilável tratava do tema comum da globalização cultural e social, que torna as perenes barreiras geográficas entre nações em diversidade comercial.

Isto é, usa-se as diferenças políticas e culturais entre países como vantagem comparativa nas disputas comerciais entre Estados. Friedman baseia sua obra no "lado bom" da globalização: os negócios, agora ultracompetitivos porque disputam mercado com produtos de outros países, tornam-se também mais amplos, porque aumenta o número de compradores.

Se tornou coqueluche do empresariado brasileiro. Cá como lá.

Enviado pelo "The New York Times" em Dalian, China, para cobrir uma conferência internacional, Friedman produziu artigo que traduz um pouco a visão da mídia americana à cerca do futuro político do país.

Basicamente são três pontos. Dois se referem à política externa: como lidar com a China e o que fazer do Iraque. O outro é a questão nacional, ou seja, que rumo tomar.

Todas são questões cruciais, que podem, sem que haja uma mudança firme de posição, acarretar em uma mudança para uma nova ordem mundial. Giovanni Arrigui, excelente sociólogo e historiador, separa a atual ordem mundial em duas frentes, ambas norte-americanas: poder hegemônico e poder dominante.

O poder hegemônico é aquele originado nos anos 1980, com o surgimento do neoliberalismo de Reagan e Thatcher (Inglaterra), somado à decadência da União Soviética como símbolo ideológico de resistência. Os anos 1990 viram o auge do poder hegemônico norte-americano.

A hegemonia é, grosso modo, o ato de fazer países (especialmente os países "em desenvolvimento") pensarem que as políticas de um, as idéias de um, serão boas para si. Isto é, aceitava-se a política americana de comércio, de política econômica, entre outras, como se fosse algo realmente bom para os países. O Consenso de Washington, de 1990, organizou os ideias americanos.

A América Latina foi o grande foco de aceitação. Terceirizava-se a política nacional pelos ideais do poder hegemônico. A conta está sendo paga até hoje: dívida pública explosiva, desigualdade social acentuada e um capitalismo torto. Não é exclusividade do Brasil.

Poder dominante é exercido pela nação dona do poderio econômico. Além de nação mais industrializada, os Estados Unidos são também a maior máquina de guerra dos tempos atuais, dono da moeda de liquidação internacional, enfim.

Os três pontos de Friedman tocam na prática da manutenção desses poderes. Embora ainda exerça os dois, uma sociedade sino-cêntrica pode se formar nesse vácuo hegemônico deixado pelo esfacelamento econômico americano.

Vou destrinchar os três pontos de Friedman na coluna de amanhã.

 

15/09/2007 07:00

As questões americanas: a China

Em artigo recente ao jornal "The New York Times" o colunista Thomas L. Friedman - autor de "O mundo é plano" - elencou os três pontos que devem ser estudados e trabalhados pela política dos Estados Unidos para manterem sua dominação e hegemonia.

A posição de Friedman é exemplar por seu caráter generalisante. O escritor é famoso entusiasta das teorias de "boa globalização", ligado ao liberalismo norte-americano. Sua posição, no principal jornal daquele país, mostra a visão dos americanos, por eles mesmos, de seus problemas e soluções.

Se não vejamos. Dois pontos dizem respeito à política externa estadunidense. Basicamente é a discussão que envolve os Estados Unidos com outros dois países: China e Iraque. O primeiro é estabelecida relação econômica, comercial, que mexe com o caráter dominante. O outro é a guerra, a disputa entre ideologias e interesses. Mexe com o caráter hegemônico.

A relação do país com a China, que caminha para se tornar a terceira maior economia do mundo, é de dependência total. Há anos que os chineses mantém a economia americana funcionando, mesmo com déficits enormes e irracionalidade nos mercados financeiros.

Industrializando-se rapidamente os chineses têm a maior população mundial, com um enorme (literalmente) contingente de pessoas - potenciais trabalhadores sob a ótica capitalista, já fincada na China pós Mao - migrando do campo para a cidade. Urbanização rápida, desenfreada, produzindo as maiores megalópoles do mundo da noite para o dia.

Sem proteção social, sem direitos trabalhistas e outros encargos comuns à países com legislação humana - a brasileira inclusa - os salários são baixíssimos, com enorme reserva de trabalhadores.

O câmbio é desvalorizado - um dólar compra o equivalente à sete yuans - tornando a situação econômica para negócios um céu de brigadeiro. Produzindo para exportação, centenas de milhares de produtos industrializados chineses - de toda a ordem - invadem os Estados Unidos todos os dias.

É indiscutivelmente mais barato comprar importado que produzir lá. Daí o enorme número de empresas (de todos os países, bom que se diga) que migram do solo americano para produzirem na China.

Sem entrar nos méritos da qualidade dos produtos "made in China", ou do seu grau de respeitabilidade aos conformes sanitários e/ou ambientais, fato é que o preço baixo da enorme quantidade de importados têm mantido a inflação dos Estados Unidos sob controle há mais de cinco anos.

A inflação baixa deixou os juros baixíssimos (por anos foi de 1%), o que, junto aos mercados desregulados, provocou esse movimento doido dos investidores e financistas colocando dinheiro em toda a sorte de ativos.

Ao mesmo tempo que ao importar muito mais que exportar deixou os americanos com um enorme déficit comercial, provocando déficit também na conta corrente. Os chamados "déficits gêmeos".

A simples retórica ensaiada pelos americanos, tendo seu secretário do Tesouro da vez, à frente, não funcionará. Insistem que a China deve valorizar sua taxa de câmbio, controlada pela maciça compra de dólares pelo Banco Central chinês.

Esses dólares aliás, são os que bancam os gastos dos americanos. São mais de US$ 1,3 trilhão (mais que o PIB do Brasil, nona maior economia do mundo) investidos em títulos do Tesouro norte-americano. Imaginem se a China decide sacar esse dinheiro.

 

15/09/2007 13:45

As questões americanas: o Iraque

Afora os distúrbios nas contas internas e externas causadas pelo "efeito China", os americanos têm outros dois pontos de interesse para manterem o xadrez mundial como está: a guerra no Iraque.

Friedman resumiu bem o pensamento americano, escrevendo da China: "Existe um claro desequilíbrio nos EUA, hoje. Observando o mundo daqui, é dificil não sentir que a China passou os últimos seis anos treinando para a Olimpíada enquanto nós contraimos imensa dívida nacional comprando iPods e combatendo a Al Qaeda".

Há também o rombo no orçamento, causado pela enorme diminuição nos impostos (mal feita, atingindo apenas os mais ricos) realizada pelo governo republicano de George W. Bush, que aumentou os gastos com defesa e armamento com a guerra.

Nesse quesito se amarram os pontos entre contas públicas e o Iraque. Financiados pelos Sovereign Wealth Funds (SWF), fundos de dinheiro soberanos, isto é, de dólares pertencentes à Estados Nacionais, o governo americano promoveu corte nos impostos desde 2001, numa época de gastos governamentais crescentes.

O início do bombardeio do Iraque, em março de 2003 foi o estopim da escalada nos gastos com guerra e equipamentos. O contingente de soldados não diminuiu - e Bush acena que não diminuirá até o fim de seu governo em dezembro de 2008 - e os gastos com armas, equipamentos e pesquisa não param de aumentar.

A virada para um Congresso de maioria democrata não mudou em nada. Não há dinheiro suficiente em caixa. A conta não fecha.

Mas o perigo maior que a guerra no Iraque pode produzir é a decaída dos Estados Unidos do poder hegemônico. O erro estratégico de passar por cima de instituições internacionais, e dos fatos em si, ao invadir um país que nada teve a ver com os ataques de 11 de setembro de 2001 é incomensurável.

Nunca a teoria oriunda dos EUA foi tão contestada. A coincidência da nova conjuntura na América Latina, que tão bem recebeu o receituário americano nos anos 1990, não ajuda.

Esse erro, estimulado pela relação promíscua da família Bush com investidores sauditas, da ânsia em construir um gasoduto de gás pelo Afeganistão, não será esquecido. Se bem lidarem, uma recuperação não é impossível, mas as marcas ficarão.

A única maneira de uma rápida restituição de seu poderio hegemônico, contaria, além da retirada das tropas do Iraque, uam séria política interna nacional.

 

15/09/2007 21:15

As questões americanas: Política nacional

Restabelecer o poder hegemônico como o exercido nos anos 1990, auge da conquistação hegemônica e dominante dos Estados Unidos passa por um engendramento de suas deficitária relação com a China e seu erro político de invadir um país soberano, o Iraque.

Não é razão deste texto discutir a situação política e social do Iraque pré-invasão, sobre a ditadura de Saddam Hussein. O foco está em invadir um Estado soberano sobre um falso pretexto. Houve conivência da oposição democrata, da mídia, de grande parcela da população e até de outros países, Inglaterra à frente.

Essa formação de pacto social pela invasão solapou toda e qualquer crítica que se fizesse à guerra e aos ideais. A situação demorou a balançar. Hoje está desmoronada. O governo Bush, esvaziado. A mídia agora está contra, a parcela da população que apoia a guerra é minoria, e muitos países aliados voltaram atrás. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, deixou o cargo.

A única maneira de restituir parte do poderio hegemônico perdido no novo século é através de uma política francamente nacional. Dando maior autonomia ao Estado, regulando melhor os mercados, a fim de evitar barbaridades como a atual crise financeira, deflagrada pela venda de derivativos de hipotecas de alto risco (uma loucura, de fato).

Entre as prioridades a busca incessante por maior justiça social. Os números de desigualdade social aumentaram vertiginiosamente nos EUA nos últimos anos, por várias razões. Separar, quantificar e desenvolver parâmetros para estrangular essas razões é passo lógico.

Colunista do "The New York Times", Thomas L. Friedman cita a adoção de uma política energética real, que desse autonomia aos norte-americanos, incapazes de viver sem as importações do óleo do Oriente Médio e da Venezuela.

"Chegou a hora de nos concentrarmos em como isolar o país contra as instabilidades do mundo", escreve Friedman.

 

17/09/2007 07:00

Semana nacional

O noticiário nacional da semana que se inicia se norteará pela prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). O episódio Renan Calheiros arrefecerá do bombardeio recente, para retornar com mais força mais tarde. O foco agora é a CPMF passar na Câmara.

A discussão em pauta no Congresso têm na CPMF o escudo que recebe as atenções, mas o foco é mais amplo. O pacote do governo inclui a prorrogação da DRU - Desvinculação das Receitas da União. Essa política, esse artifício, é o que de fato ajuda a drenar o insucesso da CPMF.

O famoso "imposto do cheque" foi amplamente discutido neste Blog. Criado em 1996 pelo então Ministro da Saúde, Adib Jatene, a CPMF aperfeiçoava o antigo IPMF, lançado em 1993, pleno governo Itamar Franco.

A razão era nobre: toda a receita oriunda da arrecadação da CPMF seria destinada à Saúde, numa tentativa de retomar os investimentos públicos na área. Nasceu provisória, mas não resistiu à primeira morte. Renasceu em 1999. Sua alíquota aumentou, de 0,28% para os atuais 0,38% sobre toda movimentação financeira.

O imposto é ágil e invisível. Sua importância fiscalizatória - por incidir sobre toda e qualquer movimentação - é quase tão relevante quanto sua receita: previsão de R$ 40 bilhões em 2007.

O problema está justamente na DRU, de 1999. Essa artimanha, criada no início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, permite ao governo gastar livremente o equivalente à 20% de toda a receita corrente, isto é, aqueles investimentos que, em tese, não poderiam ser cortados ou realojados.

É essa liberdade de utilizar até 20% da receita da CPMF, por exemplo, que ajudou a distorcer o já doido cenário tributário nacional. As deficiências na saúde pública decorrem tanto de problemas de gestão quanto de falta de dinheiro.

Mas a DRU não é discutida. Não é pauta.

 

17/09/2007 13:05

Greenspan x Bernanke

As atenções do noticiário mundial, com o brasileiro vindo à reboque, será a reunião que o Fomc - órgão equivalente ao nosso Copom, o Fomc decide as taxas de juros dos Estados Unidos - realizará amanhã. O resultado dessa reunião ditará os humores dos mercados financeiros globalizados.

Desde que a atual crise nos mercados financeiros eclodiu, em 24 de julho último, todos os financistas, bancos, bancos de investimentos, hedge funds, fundos de private equity etc., passaram a clamar por uma redução nos juros americanos.

Hoje a taxa básica de juros nos Estados Unidos é de 5,25% ao ano. Para critérios puramente internos esse número é considerado alto, visto que o histórico recente naquele país são de taxas baixas.

A história é a seguinte. O ex-presidente do Banco Central norte-americano (o Fed), Alan Greenspan, sempre trabalhou com duas variáveis: inflação sob controle e crescimento economico sustentável. Assumiu o cargo em 1987 e deixou a presidência do Fed em fevereiro do ano passado, deixando o posto para Ben Bernanke.

Greenspan era um entusiasta do mercado financeiro. Para controlar a inflação controlava os juros, nunca muito altos, claro. Com juros persistentemente baixos, globalização dos mercados financeiros e liquidez desenfreada nos anos 1990, uma série de inovações surgiram nos mercados. Bom que se diga: os mercados há tempos desregulados, entregues à toda sorte de operações.

Pois bem. Crédito para consumo era incentivado graças as taxas baixas. Com isso se estimulou também empréstimos bancários para investimentos. Pegava-se dinheiro emprestado no banco para realizar operações arriscadas - que no entanto prometiam altos lucros - nos mercados mundiais.

Quando esses excessos dos financistas e rentistas cobrava sua conta, ameaçando levar a economia americana (e portanto mundial, vide a enorme importância dos EUA para o mundo em globalização dos anos 1990 e início do século XXI) junto, Greenspan diminuia os juros sem dó. Podia-se pegar dinheiro ainda mais barato diretamente do Fed, saldavam-se as dívidas e a irracionalidade voltava.

Foi sempre assim. Crise atrás de crise. Não é à toa que Greenspan é tido hoje como um "deus do mercado". Estava criada a fama de que na hora que as coisas apertassem o Fed sempre iria interceder para ajudar os alavancados.

Sua última cartada foi o enorme corte nos juros após a crise deflagrada pelo 11 de setembro de 2001. Os juros americanos caíram até alcançarem 1% ao ano, permanecendo assim por anos, até a metade de 2004.

Foi esse "estímulo" que possibilitou o surgimento da bolha imobiliária, fartamente discutida neste Blog. Alan Greenspan iniciou o aumento nos juros, que terminou sob a batuta do atual presidente do Fed, Ben Bernanke, que levou até os atuais 5,25%.

Esse aumento matou toda espécie de contrato, indexado à taxa básica de juros, em tempos em que o negócio da vez era a hipoteca de moradias para pessoas que não poderiam pagar. A falta de regulamentação possibilitou essa loucura.

As empresas de hipotecas embrulhavam alguns desses contratos sob a forma de títulos e vendiam para bancos. Estes vendiam para outros bancos ou hedge funds e assim por diante. Processo chamado de securitização do crédito por espalhar o risco. Toda essa engenhoca era baseada na crença que o tomador na ponta - famílias pobres americanas - iriam honrar os pagamentos.

Deu no que deu.

Um à um começaram a sentir o baque. Com a desvalorização nos preços dos imóveis - e consequentemente nesses papéis negociados no mercado financeiro - os investidores começaram a sacar seu dinheiro dos fundos de hedge e dos bancos de investimento. A chamada de margem. Mas as compras desses papéis eram efetuadas com dinheiro emprestado. Ou seja, do outro lado, os bancos emprestadores começaram a ver que esse dinheiro não voltaria.

Com a crise instalada - pura e simplesmente pelos excessos insandecidos pelo lucro fácil - iniciou-se o lobby pela diminuição dos juros americanos, tanto da taxa básica, quanto da taxa de redesconto, que é aquela que remunera o dinheiro dos Bancos Centrais emprestado à instituições financeiras.

Fosse Greenspan essas taxas já estariam no chão. Bernanke marcou território, ao resistir até a reunião previamente estabelecida, para discutir os juros. Diminuiu sim a taxa de redesconto, mas essa é ainda maior que os juros normais (5,75% contra 5,25%).

Agora é o segundo passo de distanciamento do antecessor.

 

17/09/2007 16:54

Frase da semana que se inicia

"É preciso que os McCann sejam inocentes nessa história. Porque, se forem culpados pela morte, acidental ou não, de sua filha, estaremos diante do maior caso de simulação e cinismo do século até agora".

Do jornalista e escritor Ruy Castro, sobre o caso do desaparecimento da menina Madeleine, inglesa de quatro anos, em 4 de maio. Depois de incessante investigações e teste de hipóteses pela mídia inglesa e portuguesa, agora a suspeita da vez recai sobre os pais da menina.

 

18/09/2007 07:00

Fed, juros internos e externos, e o mercado no meio

A reunião do Fed (banco central dos Estados Unidos) definirá o rumo dos juros norte-americanos. É normalmente a reunião mais aguardada pelo mercado, por se tratar da maior economia do mundo, berço da liquidez mundial, com mercado financeiro mais desenvolvido e mais desregulamentado.

Dito isso há as circunstâncias do momento, somadas à primeira reunião em crise do "novo" presidente do Fed, Ben Bernanke, que assumiu o posto em fevereiro do ano passado.

Com a eclosão da mais recente crise nos mercados financeiros mundiais rejuvenesceu o antigo lobby dos financistas e protagonistas do mercado em si, pela redução dos juros americanos.

Conforme expliquei no texto "Greenspan x Bernanke", publicado ontem, juros mais baixos tornam o dinheiro que o Fed empresta mais barato. Em tempos de crise o crédito tradicional, aquele concedido por instituições privadas (bancos e fundos) torna-se mais caro, graças ao risco embutido de inadimplência. Resta aos endividados e aqueles com dinheiro à saldar pegar emprestado do banco central - o emprestador de última instância.

Quando o banco central empresta moeda para bancos e membros do sistema financeiro em geral, são cobrados juros. É a chamada taxa de redesconto. Ela valia 6,25% nos EUA, um ponto percentual acima da taxa básica de juros, de 5,25%.

No auge da crise, em agosto, Bernanke fez pequena concessão ao mercado, cortando a taxa de redesconto em 0,5%. Neste momento a maioria dos bancos passou a pegar dólares emprestado do Fed. Empréstimos de curtíssimo prazo, para cumprir o overnight, e empréstimos de prazo mais estendido.

As justificativas variam. Desde pegar emprestado para não ir à bancarrota (para instituições ligadas às hipotecas de alto risco, origem da bolha imobiliária, alvo inicial dessa crise) até "gesto de dar força" ao Fed.

Os títulos de dez anos do tesouro norte-americano, considerados os mais seguros do mundo, é aonde estão depositadas a esmagadora maioria das reservas soberanas internacionais e também são os principais ativos que funcionam como lastro para os fundos de hedge, private equity e etc.

Nesses tempos de crise a procura por esses papéis mais seguros do mundo - pelo baixo risco embutido - depreciou a remuneração, com as taxas despencando de 5,30% em junho para 4,30% em meados de agosto.

Para que o governo, instituições bancárias, empresas de todos os ramos, enfim, para o Brasil tomar dinheiro emprestado nos Estados Unidos é calculada uma taxa, diariamente, que servirá como o juros embutido no empréstimo.

Essa taxa é o valor do título de dez anos do tesouro norte-americano somado ao risco-Brasil. Funciona assim com qualquer país.

Esses títulos do tesouro dos Estados Unidos é balizado pelo juro básico daquele país, que vale 5,25%. Sempre que ele cai o risco-Brasil sobe. E vice-versa. O cálculo do custo de empréstimo para o Brasil, hoje, é: 4,6% (título do tesouro) + 2% (risco-Brasil de 200 pontos). Ou seja: 6,6%.

Essa conta varia conforme as andanças do mercado, mas têm permanecido constante entre 6% e 7,5%. Por aí percebe-se o diferencial entre os juros externos e os praticados aqui: 11,25%.

O nosso 11,25% é o menor valor nominal da história do Banco Central, criado por Bulhões e Campos em dezembro de 1964. Os juros americanos, de 5,25% cairão hoje. Pode ser 0,25% ou 0,5%, mas cairão.

 

18/09/2007 14:40

Monopolização bancária no horizonte

Se concretizada a fusão entre o ABN Amro Real e o Santander no Brasil acarreterá um acirramento na concorrência, em um primeiro momento, tendendo para uma monopolização do setor bancário. Junte-se isso à tese do mercado de que o Banco Central não mais cortará os juros, e teremos clara situação de derrota para os brasileiros.

Vejamos. O gigante espanhol Santander já têm operações no Brasil, onde o negócio é superavitário. Até aí nenhuma novidade, o setor bancário é dos mais lucrativos no Brasil. Mas o banco conta também com largo capital de sua matriz, que terá papel relevante na provável operação, com aporte de recursos.

Seria uma terceira fusão envolvendo o Banco Real, após a união com o banco ABN Amro S.A. em 1999. A fusão Santander ABN Amro Real (com ativos avaliados em R$ 272 bilhões) criará o segundo maior banco privado brasileiro, à frente do Itaú (R$ 255 bilhões em ativos) e pouco atrás do Bradesco (R$ 290 bilhões em ativos).

O negócio provavelmente causará demissões no Brasil devido a sobreposição de agências e equipes inteiras entre o Santander e o Real. Além de possível diminuição na média salarial dos empregados do Real, que recebem melhores salários que os funcionários do Santander.

A previsão é que a integração tecnológica e a fusão completa demore até três anos. Inicialmente as duas estruturas comerciais devem ser mantidas separadas, mas depois deve prevalecer a marca Santander.

Esse novo cenário vai funcionar como gatilho para ambos Bradesco e Itaú partirem para um processo de fusões e aquisições agressivo. O foco já está estabelecido: bancos estaduais em programas de privatizações e bancos privados regionais, que atuam em nichos do mercado. De preferência lucrativos - o que não é difícil no setor, repito - mas não haverá muita rigidez neste aspecto.

Na semana passada surgiram rumores de que o Itaú teria oferecido R$ 2 bilhões por 50% do BMG, que também planeja abrir capital na Bolsa de Valores. O BMG têm ampla carteira de crédito consignado, que atua diretamente na folha de pagamentos do devedor.

Na lista dos bancos estaduais em programas de privatizações entram na disputa o Banestes (do Espírito Santo), o BEP (do Piauí) e o Banese (do Sergipe).

Passado este primeiro momento de acirramento nas fusões e aquisições o setor bancário estará central-monopolizado em algumas instituições privadas e outras poucas federais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal).

A concorrência se tornará ainda mais elitista. Os juros exorbitantes e as numerosas tarifas terão de ser controladas e combatidas pelo órgão que regulamenta e fiscaliza o setor: o Banco Central.

E aí que não muda nada.

 

18/09/2007 18:24

Corte nos juros dos EUA e a turma da fanfarra

Conforme antecipado por este Blog o Federal Reserve Bank (Banco Central dos Estados Unidos) cortou a taxa de juros norte-americana. Disse que o corte poderia ser de 0,25% ou de 0,5%. Escolheram o corte maior.

Com isso está dado o segundo passo do novo presidente do Fed, Ben Bernanke. Se distanciou de seu antecessor ao resistir à pressão e ao lobby do mercado financeiro para cortar os juros tão logo a crise financeira começou. Alan Greenspan teria cortado rapidinho.

Bernanke aguentou até a reunião oficial do Fomc (órgão do Fed que decide a taxa de juros) para tomar sua decisão. Optou pelo corte mais firme, o primeiro corte nos juros desde junho de 2003, trazendo a taxa para 4,75% ao ano.

Bernanke marcou seu território em relação à Greenspan. Ou seja, diferente, pero no mucho.

Com esse corte grande os investidores, seus financistas, os grandes fundos de hedge internacional, enfim, todo o mercado se sentiu encorajado à buscar mais riscos. Sairam dos papéis seguros do Tesouro americano para operarem em juros, câmbio e ações nos mercados emergentes. Mais arriscado, mas mais lucrativo.

O resultado não tardou. Aqui no Brasil a Bovespa fechou em alta de 4,28%, alcançando mais de 56 mil pontos, seu maior patamar desde o último dia antes da deflagração da atual crise financeira (23 de julho).

A entrada dos dólares especulativos foi em turbilhão. Apenas hoje o real se valorizou 2,29%, caindo à R$ 1,87. Sem contar os dados preliminares de setembro, o Banco Central brasileiro contabilizou, até agosto, fluxo cambial de US$ 70,056 bilhões, sendo apenas US$ 24 bilhões referentes ao superávit comercial.

Quer dizer, o equivalente à 65,8% de todos os dólares que entraram no país até agosto, foram para lucrar em ativos financeiros. Apenas 34,2% referentes ao lucro comercial.

É essa dinheirama que vêm lucrar com nossos juros estratosféricos e câmbio baixo estável que será retomada com esse forte corte nos juros americanos. Se depender dos financistas e rentistas, tudo volta a ser como estava no primeiro semestre.

 

18/09/2007 20:57

O que dizer do Record News

A edição de hoje do telejornal noturno da TV Record acabou de terminar. Em seu último bloco foi veiculada generosa matéria sobre o lançamento de seu novo canal, "Record News", que seguirá linha semelhante aos concorrentes GloboNews e BandNews na televisão fechada.

Baseando-se na materia do repórter Rodrigo Vianna para o telejornal, alguns pontos devem ser levantados.

Diferentemente da concorrência o Record News não atuará exclusivamente em televisão a cabo. Isto é, estará a disposição também na televisão aberta, ocupando o espaço da Rede Mulher, que deixará de existir no dia de lançamento do Record News, 27 de setembro.

Com isso define-se o slogan inicial: o primeiro canal de notícias disponivel "de graça", na televisão aberta brasileira. Isso será explorado pela empresa de Edir Macedo, não se discute.

O investimento que o controlador da Igreja Universal do Reino de Deus fez para a criação do novo canal foi de US$ 7 milhões.

Serão três telejornais de peso, um pela manhã, outro no horário de almoço, e um maior, em horário nobre (as nove horas da noite). A programação também contará com programas diversos de variedades, sempre de teor jornalístico. Se tratará de esportes, documentários, entrevistas entre outros.

O ponto alto do Record News é a abertura da programação para telejornais regionais, que estarão distribuídos ao longo do dia na grade horária.

Se bem executada a idéia será um marco na televisão brasileira. Não é costume se privilegiar o regionalismo nacional, tão rico em um país com as dimensões e variedades culturais quanto o nosso. O fato de transmitir em cadeia nacional essas inserções regionais é fazer das diferenças um fenômeno aglutinador.

É praxe lembrar que o padrão convencional estabelecido é aquele do linguajar "global", rifando os sotaques e os maneirismos verbais. Aquilo que é diferente, os termos característicos de cada região é mal visto. Criou-se um "português universal" que é aquele das novelas e dos telejornais tradicionais.

Mesmo com todo esse enfoque ao regionalismo brasileiro o nome do canal apela ao inglês.

 

19/09/2007 07:00

México como paradigma

A revista Época desta semana traz matéria sobre as lições que o México tem para dar ao Brasil. O cerne do texto é a defesa das privatizações que o governo mexicano praticou a partir dos anos 1990 e que continuam fortes no expediente político daquele país. Segundo o repórter - e por extensão, a revisa - esse deveria ser também o caminho brasileiro.

A seguir alguns trechos da matéria (de duas páginas), com meus comentários sublinhados.

"Os resultados do programa mexicano de privatizações são formidáveis, até para os mais apaixonados defensores da presença do Estado na economia".

Desde 1981 o crescimento do Brasil têm sido no máximo medíocre, afora espamos em 1985/86, 93/94 e 2004. A partir de 1990, com a aceitação das teorias dos países centrais, instarou-se o neoliberalismo nos países da América Latina. A média do crescimento brasileiro foi fraquíssima: algo como 2,5% ao ano em 16 anos. Dentro todos os emergentes, apenas um teve crescimento pior que o nosso. Justamente o México.

Os resultados do programa mexicano de privatizações não foi tão formidável assim, conclui-se
.

"As crises econômicas que atingiram o país contribuíram para levar algumas concessionárias à falência. Para evitar uma crise maior, o governo teve de reestatizar temporariamente estradas e assumiu as dívidas contraídas pelas empresas privadas".

Em um parágrafo o repórter explicita praticamente todas as críticas ao programa. Ao colocar os serviços públicos em mãos privadas, muda-se a razão do serviço: de bem-estar social para algo que dê lucro. Daí que em crises econômicas os investimentos se retraem, os lucros diminuem e as empresas ou quebram ou desistem. Resta ao governo retomar o serviço, agora, herdando também as dívidas das empresas.

"Agora, com base em modelos mais sofisticados, as mesmas estradas voltaram a ser leiloadas para a iniciativa privada, aproveitando a abundância de capital no mercado global".

É chover no molhado. É fato que há enorme liquidez internacional, dinheiro esperando um bom negócio. Mas ao sinal de crise ocorre o de sempre: lucros caem, investimentos idem. As empresas então têm de recorrer aos governos, que herdam ou refinanciam as dívidas, até podendo voltar o serviço à mão pública.

"Na primeira experiência, um pacote para construir rodovias e administrar algumas já existentes atraiu candidatos americanos, europeus, japoneses e até a brasileira CCR, operadora da Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. O leilão foi vencido pelo banco JP Morgan, dos Estados Unidos".

O capitalismo mexicano é tão estadunidense que quem venceu o leilão de rodovias foi um banco, não uma empresa do setor rodoviário.

"O modelo da licitação de que a CCR participou no México foi preparado pelo Citibank, a pedido do governo".

As teses do novo liberalismo estão enraizadas no México. Até a produção do modelo de licitação foi terceirizado para mãos privadas. Quem desenhou o programa foi outro gigante do sistema financeiro dos Estados Unidos, o Citibank.

 

19/09/2007 15:20

Sem rumo, TVJB acaba depois de meses

Saiu o comunicado oficial da Companhia Brasileira de Multimídia (CBM), do empresário Nelson Tanure, sobre a situação de seu canal de televisão, a TVJB.

Dono dos jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil (JB), Tanure iniciou no primeiro semestre do ano passado seu projeto mais ambicioso: iniciar um canal de televisão.

Fechou contrato de um ano com a família Martinez, detentora do canal CNT, em setembro de 2006. Foi ao ar em abril, com destaque para o Jornal apresentado por Boris Casoy, ex-Folha, SBT e Record.

Tanure investiu cerca de R$ 50 milhões para colocar no ar o projeto. Mas não honrou os pagamentos mensais com a detentora da concessão pública para canal de televisão, criando uma dívida que acabou por matar a TVJB.

Foram dispensadas as equipes de jornalismo, técnica e administrativa. Além disso, seu diretor comercial, Afonso Silva, também assumiu que vai deixar o cargo. Com passagens pela TV Globo e SBT, Silva ainda não tem rumo profissional definido.

 

20/09/2007 07:00

Debate sobre Declaração Universal dos Direitos Humanos

O período final da Segunda Guerra Mundial proporcionou o amplo debate entre os países centrais, que combatiam o eixo. O debate alcançava diferentes variáveis, como a econômica – com a criação do Fundo Monetário Internacional – a política – com a criação da Organização das Nações Unidas – e a social, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948.

Depois dos excessos das ideologias nazistas e fascistas a Declaração unificava os homens sobre os mesmos direitos, sem distinção religiosa ou racial. Direitos iguais, inalienáveis, como liberdade, justiça e paz mundial.

A data foi coincidentemente oportuna. A Guerra Fria entre os Estados Unidos (capitalismo liberal) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se deflagrava, no mesmo ano em que a China realizava sua revolução social.

A rápida análise do documento da ONU mostra que um estudo de caráter sociológico ou antropológico poderia revelar o que na prática ocorre, elegendo um país (ou dois) entre os de maiores índices de desenvolvimento humano e um integrante dos emergentes. A comparação entre os dois, tendo a Declaração de 1948 como linha mestra, pode resultar em base de planejamento para os Estados Nacionais reverem suas políticas públicas.

Alguns artigos se sobressaem, com simples análise empírica, do que se vê na prática.

O artigo XXI, parágrafo 2, prevê que “todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país”. Pois bem.

Com o surgimento da ideologia neoliberal na Inglaterra de Margaret Thatcher e dos Estados Unidos de Ronald Reagan para aplacar a crise econômica do início dos anos 1980, muitas empresas estatais foram repassadas a mãos privadas, como forma de enxugamento do Estado.

O processo de privatização de serviços públicos implodiu com os concursos públicos, maneira tradicional de tornar igualitário o processo de entrada para o funcionalismo público, ao deixar em mãos privadas o recrutamento de funcionários. E o desenho do modelo de contratação fica a cargo da empresa.

As diferentes formas desenvolvidas pela teoria, organizadas pelo Consenso de Washington (1990), de “dinamização dos serviços públicos” preconiza, além da privatização de serviços antes atribuídos ao poder público ou estatal, a concessão através de licitação (em que muitas vezes as instituições estatais, ou mesmo os fundos de pensão de estatais são privados de participar) ou as parcerias público-privadas.

Não é objetivo deste artigo discutir as mudanças econômicas inerentes ao processo de troca entre os operadores dos serviços. A discussão entre a privatização (mercadistas) ou Estado interventor (keynesiano) não é o ponto, neste caso.

Mas sim chamar a atenção para o desvirtuamento de um artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tão logo mudaram-se as platitudes ideológicas.

 

21/09/2007 18:37

PAC técnico ou político?

Fiquei sem acesso à internet desde ontem pela manhã, daí a falta de textos - o último sendo a coluna de ontem.
Por isso comento hoje dados dos jornais de ontem.

Enquanto a Folha dava que as verbas do PAC são direcionadas por critérios políticos, ao invés de regras apenas técnicas, o Valor trazia artigo de Murilo Celso de Campos Pinheiro, presidente da Federação Nacional dos Engenheiros, afirmando que "chama a atenção a distribuição equilibrada dos investimentos do PAC pelas regiões, garantindo-se a continuidade do crescimento econômico no Sul e Sudeste e proporcionando ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste grandes avanços na constituição de uma infra-estrutura que os melhor integre entre si e ao restante do país".

Há de se relevar o fato de um texto ser jornalístico factual expositivo, e o outro de teor opinativo. Ainda assim é curiosa essa total disparidade entre um fato, melhor explorado nas edições de hoje dos jornalões: os investimentos públicos em infra-estrutura canalizados pelo PAC.

 

21/09/2007 18:50

Debate político na sociedade

Ainda na edição de ontem do Valor Econômico, coluna primorosa de Maria Inês Nassif, colocando lado-a-lado o "mensalão" de 2005 e o episódio de compra de posições políticas das eleições mineiras de 1998. Uma variável permanece constante nisso tudo: Marcos Valério, que irrigava as operações, sem vínculo partidário, apenas pensando no lucro através da lavagem de dinheiro.

Além disso, Maria Inês propõe que uma discussão sobre refundação política - isto é, sobre os modos e maneiras pelos quais nossa política existe - que extrapole o campo político-partidário.

Tem toda a razão. Sem um debate amplo, em que a sociedade se coloque como debatedora mestra e soberana, os episódios citados serão praxe no futuro, como são mais do mesmo agora.

"A repercussão dos escândalos do mensalão e do valerioduto mineiro, ou melhor, a simples existência de Marcos Valérios, devem deixar a arena da disputa político-partidária. É sobre essas razões pelas quais esses esquemas existem historicamente no Brasil e se mantém ativos que a sociedade em geral, e os partidos em particular, devem se debruçar".

"E, para que se inicie um debate sério, sem hipocrisias, é necessário reconhecer que: o sistema político funciona e se financia com dinheiro ilegal; os partidos não se diferenciam fundamentalmente quando se trata de captação ilegal de dinheiro (talvez o P-SOL, que é novo e ainda não tem grande representatividade; o PT era exceção, mas esse é um verbo no passado); a lavagem de dinheiro de origem duvidosa é uma atividade comum no meio político e os donos de lavanderias ganham dinheiro com isso. No limite, não existe grande diferença entre as finaças partidárias e de qualquer organização ilegal".

"Se partir desses princípios, o debate de como trazer a superfície a vida das agremiações partidárias pode se feito com alguma seriedade. Fora isso, é jogar para o eleitor e para a platéia".

 

22/09/2007 19:00

30 anos da invasão da PUC

Hoje se completam 30 anos da invasão da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, pelos militares, comandados por Erasmo Dias.

O jornal laboratorial do curso de Jornalismo na PUC, o Contraponto - do qual este blogueiro participa como repórter - produziu uma edição especial, para lembrar o episódio. Foi distribuído ontem, em ato organizado pelo Centro Acadêmico Benevides Paixão (de Jornalismo), em frente à reitoria da Universidade.

Foram impressos 4 mil exemplares, que serão distribuídos em universidades, redações de jornais e órgãos sociais diversos, de maneira semelhante à distribuição normal do jornal, que é mensal.

Junto à esse trabalho histórico, em outubro/novembro o Contraponto alcançará 50 edições, feito igualmente histórico para um jornal laboratorial. Essa edição contará com 44 páginas (o usual são 24), apenas com entrevistas.

Certamente dará o que falar quando do lançamento, dado o perfil dos entrevistados.

 

23/09/2007 17:08

Simulacro sobre real

Estava assistindo hoje pela manhã o "Late Edition" da CNN norte-americana. Principal candidata à presidência dos EUA, a senadora democrata Hillary Clinton era entrevistada sobre seu novo projeto, que torna a saúde universal no país.

Essa discussão não é nova. Mas veio à tona na mídia e no Congresso estadunidense após Michael Moore lançar "Sicko", filme-documentário que mostra as enormes deficiências do sistema de saúde complementar dos EUA.

Ele não é universal, apenas os idosos têm atendimento público razoável. Mas apenas isso, razoável. O sistema inteiro se baseia nos planos de saúde privados, gigantesco mercado, com mega-empresas e muito dinheiro envolvido. Ou seja, muito lobby também.

Com o bafafa suscitado pelo filme de Moore, mudanças no atual sistema foram colocadas na agenda dos principais candidatos. A imprensa começou a cobrar, e a população à fiscalizar. Claro, tudo à maneira americana, isto é, a qualquer momento o assunto pode esfriar e nada sair disso tudo.

Em todo caso, o programa da CNN trazia Hillary Clinton, entrevistada pelo âncora Wolf Blitzer (muito bom, aliás). Tirando uma ou outra frase, típica de bravata eleitoral, a conversa se baseava nas aparências, nas intriguinhas políticas entre os democratas e os republicanos. Mostraram inclusive imagens de Rudolph Giuliani - principal candidato republicano - afirmando que o plano de Hillary era socialista.

Não se discutiu idéias. Ficou apenas nas aparências. Do disse-me-disse. Retrato muito representativo da sociedade norte-americana.

Em tempo
Este Blog esteve na "Seleção BLiG" na semana passada (de 14 à 20 de setembro).

 

24/09/2007 07:00

O negócio dos fundos de private equity

O negócio dos fundos de private equity (PE) e venture capital (VC) começa a pegar velocidade no Brasil. Invenções americanas da década de 1980, esses fundos concentram riqueza de grandes investidores somados à empréstimos bancários para serem aplicados em empresas de todos os setores.

O modelo de negócios desses fundos é simples. Os gestores de fundos de private equity e venture capital saem em busca de investidores "qualificados" (isto é, milionários), bancos de investimentos ou mesmo de fundos institucionais, como os fundos de pensão no Brasil.

Com o dinheiro comprometido, esses gestores saem a campo a procura de projetos, de companhias pequenas ou em estruturação. Como entrarão como sócios, comprando parte (por vezes expressiva) da empresa, esses gestores esmiuçam todo o plano de negócios da companhia almejada. O cálculo costuma ser feito com base em projeções do fluxo de caixa para um período de cinco à dez anos, estimando o valor presente da empresa, ajustado ao risco da operação.

Checa-se também se há esqueletos na companhia, qual seja, passivos trabalhistas, ambientais, licenças e operações não contabilizadas. As empresas são de capital fechado, portanto não contam com as auditorias e fiscalizações internas que uma empresa S.A. conta.

Feito isso o passo seguinte, a negociação, dependerá do tipo de fundo que está lidando.

Os fundos de venture capital buscam empresas pequenas, em seu nascedouro, que precisam de capital para crescer rapidamente. Dentro desse segmento há ainda o capital semente (SC), que atende empresas em fase embrionárias.

Já os fundos de private equity investem em empresas maduras, que necessitam de uma reestruturação para ganhar competitividade.

O círculo virtuoso, o modelo de negócios formado é: injetam capital, profissionalizam, apóiam o crescimento e, no momento certo, vendem sua participação com lucro. O momento da venda é normalmente quando essas empresas abrem seu capital, emitindo ações em bolsas de valores.

Embora existam fundos de private equity e venture capital especializados em determinados setores - especialmente nos Estados Unidos, onde o negócio é muito desenvolvido -, a grande maioria deles investe em empresas e empreendimentos de todo o tipo de setor, de qualquer país.

O capital não tem nacionalidade, por ser transnacionalizado pelo fundo, em sua maioria com sede nos EUA. Não importa o ramo, o setor. Investe-se em um negócio esperando lucrar no futuro.

Uma das maiores empresas de private equity é a Advent, gestora global de fundos, líder do setor na América Latina. A Advent acaba de montar seu quarto fundo, Latin America Private Equity Fund IV, com US$ 1,3 bilhão esperando por oportunidades. A grande maioria desse dinheiro será alocada em empresas brasileiras.

A participação do setor público brasileiro nessa onda é pequena ainda, mas deve crescer rapidamente nos próximos anos. Além do BNDESPar, há também a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência de inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Nos próximos dez anos a Finep pretende elevar para R$ 1 bilhão o volume de recursos destinados a operações de capital de risco, dez vezes mais do que já liberou até hoje para os 11 fundos de venture capital que investem em 30 empresas.

 

24/09/2007 14:13

Merecimento e justiça

Para não passar batido: a gestão do futebol continua louca. Como se não bastassem a escalada de acusações que as escutas da Polícia Federal revelam, o (agora ex) presidente do Corinthians confirmou que o título Brasileiro de 2005 - único conquistado com a investigada parceria MSI e último do clube - deveria ter sido do Internacional.

Encaminho reportagem do "Terra", com as escutas sobre o que disse
Alberto Dualib

E uma atualização das 16:36
Novamente do "Terra", o outro lado, trazendo depoimento do presidente do Internacional,
Vitório Píffero

 

24/09/2007 17:25

Debate da saúde nos EUA

A coluna de amanhã aborda as recentes disussões acerca do sistema de saúde dos Estados Unidos. Como está posto, o sistema estrangula a economia americana, tanto quanto a moeda valorizada (que está se desvalorizando, bem verdade), os importados e os déficits gêmeos.

Não há sistema de saúde universal e pública nos EUA. Ele é todo privado, ficando à cargo da pessoa física ou da empresa contratar um plano para seus funcionários.

Como houve enorme aumento nos custos do atendimento médico, muito superior à inflação anual, a conta começou a ficar pesada demais. Com o novo filme-documentário de Michael Moore à frente, começa a se formar no imaginário coletivo um ambiente para mudanças. No campo empresarial, político pré-eleições, e principalmente nos trabalhadores e na sociedade em geral.

As maiores dificuldades estão em duas frentes:

a) Vencer o lobby das companhias de plano de saúde e prestadoras de serviço para esse ramo. O lobby desse setor é fortíssimo no Congresso.

b) Instituir um debate sério sobre diferentes modelos para formar um novo, mais includente. Mais preocupada com as aparências, será dificil debater idéias, e não bravatas e suposições, na sociedade americana.

 

25/09/2007 07:00

O sistema de saúde norte-americano

Neste final de semana assisti à um programa na CNN, em que era "debatido" o plano da senadora norte-americana Hillary Clinton - principal candidata democrata para a sucessão presidencial do ano que vem - para mudar o sistema de saúde de seu país.

A discussão sobre o sistema de saúde como está, se tornou a prioridade número dois para os eleitores, logo atrás dos encaminhamentos da guerra no Iraque. Embora não seja recente, essa discussão só ganhou corpo após o lançamento do filme-documentário mais recente de Michael Moore, "Sicko".

Moore, cineasta de esquerda, têm se especializado em pautar grandes questões nacionais. Seus últimos três filmes suscitaram debates na sociedade, pela ordem: posse de armas, promiscuidade Bush-árabes e o oportunismo da geurra com o Iraque, e agora a enorme calamidade do sistema de saúde.

Na entrevista à CNN, Hillary deixou clara sua ligação com o tema, tentando se esquivar ao máximo das comparações com o oportunismo de propor uma mudança no sistema agora que o assunto é febre e ela é candidata à presidência.

De fato Hillary têm vínculos com o assunto. Seu plano atual é bem menos intervencionista que a proposta que ela patrocinou quando seu marido, Bill Clinton, era presidente, iniciativa desastrada que naufragou no Congresso e impôs ao casal uma de suas maiores derrotas políticas.

É apenas uma ponderação, porque o que interessa mesmo é que o debate ocorra, com ou sem oportunismos. Como mostra matéria de Ricardo Balthazar, correspondente do Valor em Washington, há problemas sérios nas empresas, em decorrência dos aumentos de custos com saúde.

Primeiro. Ao contrário do que ocorre em outros países, como os Estados de Bem-Estar Social europeus, ou mesmo o Brasil com o SUS, não existe nos EUA um sistema universal de assistência a saúde. As empresas oferecem planos de saúde aos funcionários e recebem benefícios tributários como compensação.

O governo entra apenas como financiador em programas setorais na população: crianças e idosos pobres. De acordo com as estimativas governamentais, 47 milhões de americanos não têm nenhum tipo de assitência, ou seja, 16% da população. Essas pessoas só têm direito a atendimento médico em casos de emergência, quando os pronto-socorros dos hospitais não podem se recusar a atendê-las.

Essa forte dependência estabelecida entre o trabalhador e sua empresa, para que o primeiro conte com assistência médica degringolou nos últimos anos, com os explosivos aumentos nos custos dos serviços de saúde. Esse aumento nos custos tornou as deficiências do modelo americano à vista de todos.

Hoje cerca de 60% das empresas americanas oferecem planos de saúde aos funcionários. Entre as que têm menos de dez funcionários apenas 45% pagam benefícios, segundo a pesquisa.

O exemplo da General Motors (GM) é exemplar, por se tratar de uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo, a maior dos EUA. Apenas no ano passado a empresa gastou US$ 3 bilhões com os benefícios de milhares de aposentados e pensionistas que continuam em sua folha de pagamento.

GM, Ford e Chrysler têm juntas uma dívida superior a US$ 90 bilhões por causa de compromissos assumidos com os empregados no passado. É um fardo pesado para uma indústria que tem acumulado prejuízos e enfrenta competidores que não têm o mesmo problema. Os japoneses da Toyota e da Honda se estabeleceram nos EUA há poucos anos e por isso têm custos bem menores.

É nessa questão que entra o plano de Hillary, caracterizado como "socialista" pelo rival republicano Rudolph Giuliani. Ela propõe que todos os americanos sejam obrigados a ter plano de saúde e promete ajudar quem não puder pagar.

Este programa do governo seria financiado por um novo imposto, que seria cobrado das empresas que não custeassem os benefícios de seus empregados. Segundo Hillary, o plano custaria US$ 110 bilhões por ano, dinheiro que ela promete providenciar cobrando impostos dos ricos.

Os mesmos que tiveram impostos cortados pela administração Bush.

 

25/09/2007 15:10

As organizações políticas e a agenda dos EUA

Na edição da semana passada da revista CartaCapital, Antônio Luiz M.C. Costa escreve sobre o papel das organizações políticas nos desenhos da política externa norte-americana.

Cita a PNAC (Project for the New American Century - Projeto para o Novo Século Americano), da qual saíram ministros, assessores e outras figuras-chave dos governos Bush, que formulava seu programa, apresentado em janeiro de 1998 ao então presidente Bill Clinton e detalhado no documento Rebuilding America's Defenses (Reconstruindo as Defesas Americanas), de setembro de 2000.

A organização bola da vez de agora é a CNAS (Center for a New American Security - Centro para uma Nova Segurança Americana), lançada em junho deste ano por Hillary Clinton. Inclui entre seus diretores várias figuras-chave do governo de seu marido, como a ex-secretária de Estado, Madeleine Albright; o ex-secretário de Defesa, William Perry; o ex-subsecretário da Marinha, Richard Danzig; e o ex-chefe de gabinete, John Podesta.

"O CNAS parece defender uma versão amenizada do 'centrimso radical' pregado pelo historiador e jornalista Michale Lind, ex-republicano, que declara desacreditado o projeto neoconservador de impor o livre-mercado ao mundo por meio de uma hegemonia global unilateral baseada na força bruta, mas também a utopia de diluição dos Estados nacionais em uma globalização neoliberal conduzida pacificamente pelas forças de mercado e por organizações multilaterais, como se sonhava nos anos 90".

 

26/09/2007 13:50

O engodo 21 anos depois

Pesquisando pela Biblioteca Nadir Gouvêa Kfouri, da PUC de São Paulo, encontro uma coletânia de textos de economistas da USP de 1986, tratando do Plano Cruzado.

Tenho muito interesse pelos encaminhamentos do plano, que já foi alvo de trabalho meu em disciplina de Jornalismo no primeiro semestre deste ano.

Um dos textos compilados é um artigo de Carlos Antônio Rocca, escrito para o boletim "Informações FIPE", de setembro daquele ano. Há exatos 21 anos. O Plano estava no fim de seu auge, caminhando para o fim trágico, três meses depois.

"Podemos observar que o Plano Cruzado, tecnicamente, foi bem elaborado e adotado num período em que a economia se expandia de modo acelerado, a taxa de câmbio estava ajustada e a situação internacional extremamente favorável".

(...)
"Em meados de agosto, um importante jornal de São Paulo anunciou que cerca de 60% dos produtos tabelados pela SUNAB não eram localizados nos supermercados. Isso não significa que existe uma escassez correspondente a 60% dos produtos tabelados, mas simplesmente que há mudanças de marcas e embalagens".

(...)
"Embora o investimento produtivo (Formação Bruta de Capital Fixo) estivesse fraco, era um dos problemas evidenciados desde abril, os ajustes da política econômica se deram somente em julho e podem sere caracterizados por alguns pontos:

Primeiro, a aplicação de restrições adicionais ao consumo mediante o congelamento do saldo de operações de crédito ao consumidor existente em maio nas instituições financeiras, associado a um programa de redução desse saldo até setembro. A elevação das taxas de juros, de certo modo, antecedeu mesmo aquele anúncio".

(...)
"Deve-se registra ainda que o anúncio do novo pacote de medidas coincidiu com a reiteração da permanência do congelamento de preços".

"Embora não incorporado no pacote de julho, um outro componente tem caracterizado a atração recente do governo na condução da política econômica, consubstanciado na utilização cada vez mais frequente de uma série de mecanismos para resolver problemas de abastecimento, tais como a redução de impostos indiretos, a liberalização de importações, não só de alimentos mas agora também na área de vários insumos industriais, e o contingenciamento ou proibição de exportações".

O governo esperaria o fim das eleições para descongelar os preços. Aí seria o caos.

 

26/09/2007 16:27

Última Hora digitalizado

O jornal Última Hora é histórico, comumente reconhecido como um dos maiores da imprensa brasileira. Fundado pelo jornalista Samuel Wainer no Rio de Janeiro em 1951, concentrava a coqueluche do jornalismo e dos cronistas de então.

O golpe militar de 1964 e seus encaminhamentos autoritários começaram a minar a independência do diário carioca. Com o acirramento da ditadura, após a instituição do ato institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, a própria sobrevivência do veículo de Samuel Wainer estava sensibilizada. Acabaria três anos depois.

A Última Hora circulou entre 1951 e 1971 nas cidades do Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife.

Todas as edições passaram a funcionar como ativos dos descendentes de Wainer, até o Arquivo Público de São Paulo - órgão subordinado à Casa Civil - adquirir o material de Pink Wainer em 1990.

Nesta terça-feira a A Advanced Micro Devices (AMD), empresa especializada em tecnologia, anunciou parceria com o Arquivo Público do Estado de São Paulo para digitalizar o conteúdo do jornal Última Hora.

Segundo informações da revista Meio & Mensagem, o acervo reúne 264 volumes encadernados do jornal, totalizando 108 mil páginas. A meta é que na primeira fase do projeto 36 mil páginas (equivalente a 60 meses de circulação do jornal) sejam digitalizadas. De acordo com Bacellar, a previsão é de que o material esteja disponível no site em março de 2008, ano em que a imprensa brasileira comemora 200 anos.

O trabalho completo, que está sendo realizado em ordem cronológica, também deverá ficar pronto no próximo ano, embora não haja data definida até o momento. Cerca de 500 páginas já estão no ar e outras 1500 devem ser incluídas rapidamente.

 

26/09/2007 17:29

Software "on demand" nacional

A Datasul entrará no mercado de desenvolvimento de soluções usando plataformas on demand. Nesse sistema os softwares são oferecidos como serviços, usados via internt e pagos de acordo com o tempo de uso. Semelhante à conta de luz.

A empresa catarinense é especializada em desenvolvimento de softwares para gestão empresarial, e selou uma parceria com a Force.com, sediada no Vale do Silício.

O conceito de software on demand não é recente. Companhias gigantes de Tecnologia da Informação (TI), como IBM, Oracle e HP já oferecem esse tipo de serviço. A própria Force.com atua no segmento desde 1999.

Mas não existe na América Latina empresa - estatal ou privada - que atue nesse filão.

Conforme relato de reportagem da revista Amanhã, o primeiro aplicativo oferecido pela Datasul nesses moldes será destinado à gestão de frotas – usado para o monitoramento de entrega dos produtos das companhias. Os mercados-alvo desses produtos serão de pequenas a grandes empresas do Brasil, Estados Unidos e Europa.

A empresa poderá comercializar diretamente o software de gestão de frotas no Brasil e nos outros mercados em que atua. Nas demais regiões, o site da Force.com passará a ser um canal de distribuição. O cliente pagará à Force.com, que repassará parte do valor à companhia catarinense.

 

27/09/2007 07:00

A hora de resolver a encruzilhada

O ponto mais importante do discurso do presidente Lula na abertura da 62ª Assembléia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) foi o que tocou as atitudes e políticas que serão tomadas pelo governo brasileiro para a produção de biocombustível.

Segundo Lula o Brasil vai definir um zoneamento onde as lavouras destinadas produção de biocombustíveis poderão ser cultivadas. Essa medida tem como razão principal a proteção do meio ambiente, que vêm sofrendo ataques desmedidos por empresas nacionais e internacionais, que aportam no ramo (mesmo sem nenhuma experiência no setor) apenas para lucrar no "boom do futuro".

O setor é um dos que mais abusa do meio ambiente brasileiro.

E não é só isso. Se implementada, a medida também tornará o trabalho - até agora leniente - de fiscalização por parte dos fiscais do Ministério do Trabalho muito mais simples. Como só se poderá produzir biocombustível nas zonas que o governo determinar, será possível checar sempre se há trabalho escravo nas fazendas.

O setor é recordista de focos de trabalho escravo no Brasil.

O presidente também se comprometeu a criar e efetivar um selo de garantia para o biocombustível brasileiro (álcool ou biodiesel) exportado para o mercado internacional. O selo seguirá os padrões acordados internacionalmente de qualidade social e ambiental.

Novamente, estabelecido marco regulatório claro para a produção de biocombustível no Brasil, com regras punitivas rigorosas para quebra de contrato, e governo atento e ativo para fiscalização, a instituição de um selo de garantia é simples.

“É plenamente possível combinar combustíveis, preservação ambiental e produção de alimentos. Daremos à produção de biocombustíveis todas as garantias sociais e ambientais”, disse Lula em seu discurso.

Resta esperar para sua volta ao Brasil para iniciar os trabalhos de cumprimento prático das políticas propostas pelo presidente em seu discurso.

Os principais entraves são:

a) A comodidade que é para o governo Lula ver o Brasil ser inundado pelo grande capital internacional e nacional, que não param de chegar criando empresas, instalando usinas e criando empregos - mesmo que estes de baixíssima qualidade e muitas vezes (mais do que pode parecer) escravo.

b) O lobby do empresariado do setor. Os usineiros e donos de fazendas produtoras de biocombustíveis, ou fundos de investimentos (nacionais e internacionais) com projetos no setor ainda não têm uma representação firme no Congresso. Falta-lhes uma coesão maior para pressionar o poder público. Esse poder de lobby está hoje disperso na bancada ruralista.

Por isso o poder de fogo do governo é mais forte agora, podendo trabalhar mais livremente pelos interesses do povo brasileiro. Não é demagogia. É justamente disso que se trata, uma disputa em que o povo brasileiro pode sair perdendo, tendo de pagar a conta por muito tempo no futuro.

 

28/09/2007 20:37

Mendonça de Barros analista

O artigo semanal de Luiz Carlos Mendonça de Barros na Folha de hoje traz de volta, após longo inverno, o competente analista de mercado. Luiz Carlos é raposa velha, experimentado no mercado e no governo, tendo sido Ministro das Comunicações em 1997 e 1998, quando da privatização da Telebrás.

Se até hoje a forma da privatização é bastante discutível, fato é que o economista ocupava o cargo mais importante naquele momento, no setor público.

Foi também presidente do BNDES, além de formar o banco Matrix no início dos anos 1990, quando da remonetização do Plano Real. Hoje comanda a Quest Investimentos.

O "longo inverno" a que me referi se deu pela quantidade de artigos voltados à sustentação ideológica da realidade. Isto é, tendo em mãos um dado, um fato, acha-se (ou inventa-se) uma teoria para negar a realidade e provar o contrário. São os comumente chamados "cabeças de planilha".

Mendonça de Barros acaba entrando nesse termo por seguir a cartilha. Mas é um profundo conhecedor de mercado. Quando escreve sobre mercado, sem se deixar levar por ideologismos ou politicagem burra, se revela dos melhores analistas.

Vou analisar suas idéias em texto à seguir.

 

28/09/2007 20:55

Fim da crise financeira internacional...?

A Bolsa de Valores de São Paulo fechou setembro com índices recordes. Após alcançar os 61 mil pontos ontem, hoje os investidores e especuladores realizaram lucros, esperando retomar a carga tão logo outubro se inicia.

Depois de dois meses de turbulência, graças a deflagração da crise financeira dos derivativos de empreendimentos imobiliários de alto risco norte-americanos (nome longo, porém auto-explicativo), o grande capital (fortemente alavancado) internacional passou a se destituir de suas operações mais "arriscadas", vendenod títulos dos emergentes.

Com a queda nos juros americanos em 18 de setembro, apenas uma quinzena de mês foi suficiente para fazer retornar boa parte desse dinheiro.

Segundo Luiz Carlos Mendonça de Barros a crise financeira praticamente acabou. "Quem nos mostra isso, de maneira clara, são as taxas de juros de curto prazo nos mercados monetários americano, europeu e inglês. Essas taxas de financiamento privado de curto prazo subiram fortemente nos momentos mais agudos da crise".

Para ele esse "fosso" entre as taxas nas operações envolvendo títulos públicos e papéis privados assustou a todos que vivem as questões financeiras.

O analista chama a atenção, com razão, para uma parcela perdedora de toda essa crise financeira. O mercado de "commercial papers" - títulos de curto prazo emitidos por empresas privadas, financeiras ou não, com ou sem garantia real - sofreu com aumento nas taxas.

Esses "commercial papers" são um dos bastiões da desintermediação financeira que tomou (e toma) os países globalizados, com mercados financeiros bem desenvolvidos. Várias novas formas de financiamento são criadas, aumento a concorrência e o custo do dinheiro, tirando o papel de protagonista que historicamente coube aos bancos.

"Essa fatia de mercado sofreu de forma brutal a fuga de investidores por conta da crise e teve, além do aumento de taxas, seu tamanho reduzido em poucos dias em mais de US$ 300 bilhões.
Nos últimos dias, principalmente depois da corajosa ação do Fed, esses mercados começam a voltar à racionalidade, separando o joio do trigo, com os investidores voltando a comprar os títulos não vinculados à aventura do segmento chamado "subprime" residencial".

O que mostra que a crise financeira pode estar acabando é o retorno quase imediato da "exuberância irracional" que tomava os mercados pré-crise. Quase todas as Bolsas de emergentes, e boa parte dos desenvolvidos já retomou seus índices anteriores à crise.

E a tendência é o aumento da fanfarra.

A previsão de Mendonça de Barros é que "se a economia norte-americana não entrar em recessão -minha hipótese central-, nesses próximos três trimestres a festa dos mercados emergentes parece já estar contratada. Para alguns, é a próxima bolha especulativa que vai ser criada..."

De fato. O corte de 50 pontos-base (0,5%) nas taxas de juros básica (indo à 4,75%) e na de redesconto (indo à 5,25%) dos Estados Unidos pode resultar em maquinário semelhante aos anos em que Alan Greenspan estava a frente da instituição. O mercado está avalizado e liberado para toda a sorte de fanfarra que o banco central americano emprestará em última instância, além de diminuir o custo desse dinheiro.

 

29/09/2007 11:19

Denúncia, escravagismo, leniência, crime

A reportagem principal da edição deste sábado da Folha toca em um ponto triste, por que histórico, do Brasil. A servidão, o trabalho escravo, nas grandes fazendas do país. O estado do Pará é simbólico.

Uma imensidão de terra, maior que a soma de Espanha, Itália e Alemanha, em que o descaso político é contrastada pela esperteza dos fazendeiros.

Estes multiplicam suas terras com títulos falsos - alguns municípios do Pará têm registrada, nos cartórios, uma extensão muito maior do que a que cabe dentro de seus limites geográficos oficiais.

Ao reclamar a devolução dessas terras os governos do Pará pagam aos fraudadores indenizações que multiplicam o valor verdadeiro de áreas que, na realidade, já eram públicas.

Como bem demonstrou a reportagem da Folha, os trabalhadores recebem por produtividade. Como se não bastasse a excrescência, seus gastos com alimentação e medicamentos são descontados. Daí os contracheques de R$ 0,00.

Aos trabalhadores escravos resta o resgate dos fiscais do Ministério do Trabalho. A opção pela rebelia é trágica. Conforme dados da excelente obra "O Massacre", de Eric Nepomuceno, 45% dos trabalhadores rurais assassinados no Brasil a cada ano foram mortos no Pará.

A reportagem da Folha traz entrevista com o senador, pelo PSDB do Pará, Flexa Ribeiro, que criticou a decisão de Ruth Vilela, secretária de Inspeção do Trabalho, que paralisou a fiscalização do grupo do Ministério do Trabalho alegando interferência de parlamentares do estado.

A fazenda acusou "excesso" por parte dos fiscais. Os proprietários da Pagrisa foram então procurar os parlamentares de seu estado. Contactaram o senador Flexa Ribeiro.

Dito isso, Flexa Ribeiro viajou à famigerada fazenda Pagrisa, foco da fiscalização do Ministério e da reportagem do jornal, que praticava trabalho escravo. Pequeno detalhe: Flexa Ribeiro viajou em avião da Pagrisa.

***

Os trabalhadores recebiam por produtividade. Mais: pagavam eles mesmos seus gastos com comida e remédio - conforme relatou a reportagem, os alimentos estavam podres e os remédios eram 100% mais caros que os encontrados em farmácia em município próximo.

Flexa Ribeiro é senador da República. Pode e deve se utilizar de meios públicos, custeados pelo Senado Federal, para missões deste tipo. Pois preferiu viajar em avião cedido pela empresa que deveria denunciar.

Não será possível cobrar do senador imparcialidade para formar juízo de valor. Deve-se ao menos cobrar-lhe os custos pela viagem, como fazem dos trabalhadores.

Toma lá dá cá.

 

30/09/2007 19:55

Futebol, Nações, e globalização do século XXI

A edição deste domingo da Folha traz entrevista com o historiador Eric Hobsbawn, o mais famoso e dos mais hábeis historiadores mundiais vivos.

Hobsbawn é interprete da história mundial, com conhecimentos incríveis de nuances sociais e políticas de grande parte dos continentes. Acaba de lançar novo livro, que trata do imperialismo norte-americano dos dias de hoje. Para ele, esse período histórico está na eminência do ocaso.

Na entrevista retoma sua teoria sobre o futebol espelhar boa parte de suas idéias sobre o fenômeno da globalização e os Estados-Nação. Reproduzo sua resposta, pela viabilidade da idéia.

"O futebol sintetiza muito bem a dialética entre identidade nacional, globalização e xenofobia dos dias de hoje. Os clubes viraram entidades transnacionais, empreendimentos globais. Mas, paradoxalmente, o que faz o futebol popular continua sendo, antes de tudo, a fidelidade local de um grupo de torcedores para com uma equipe. E, ainda, o que faz dos campeonatos mundiais algo interessante é o fato de que podemos ver países em competição. Por isso acho que o futebol carrega o conflito essencial da globalização".

"Os clubes querem ter os jogadores em tempo integral, mas também precisam que eles joguem por suas seleções para legitimá-los como heróis nacionais. Enquanto isso, clubes de países da África ou da América Latina vão virando centros de recrutamento e perdendo o encanto local de seus encontros, como acontece com os times do Brasil e da Argentina. É um paradoxo interessante para pensar sobre a globalização".