10/02/2008 00:28

Leve recesso

Este Blog entrou em recesso para o carnaval. Abrandou a tradicional rigidez e esticou o descanso em uma semana. Para tornar o descanso verdadeiro, a distancia de internet deve ser respeitada - como, com dificuldades, venho respeitando.

As atividades normais retomam dia 18.

 

18/02/2008 07:00

A internet e a democratização da informação


Capítulo 1: A Internet e a mídia tradicional

A internet é o veículo de comunicação com maior potencial de democracia já inventado pelo homem. Em tese, é possível colocar a disposição de todos todo o tipo de informação e opinião. Além de sofisticado sistema de comunicação e softwares cada vez mais desenvolvidos para facilitar essa relação, os custos de disponibilização e acesso são enormemente menores.

O modelo tradicional de disponibilização de informação é da tríplice rádio-televisão-imprensa escrita. Nestes, é preciso um dono (ou uma família, ou sócios) com elevado capital inicial, para dar o pontapé no negócio. Cada um desses sistemas têm seus custos fixos, não necessariamente financeiros: equipamentos próprios, matéria prima, concessão pública (no caso das rádios e tevês), jornalistas, equipes de marketing, entre outros.

Como qualquer negócio capitalista, espera-se um retorno financeiro. Há um limite para trabalhar no vermelho, seja ele os juros do dinheiro emprestado (no caso de empréstimos), ou a falência.

E há claro, o desejo político, de interferir no sistema social posto. Existem dois casos de exemplos claros do poder exercido pela imprensa (fenômeno largamente estudado por este Blog): A imprensa nos Estados Unidos e na antiga URSS.

A imprensa estadunidense foi das primeiras à se profissionalizar, em processo iniciado no inicío do século XX, intensificado após o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Queria-se regularizar a imprensa marrom, altamente pulverizada, que defendia os interesses de setores distintos. Havia pouca informação verídica publicada. Tudo tinha interesse político ou econômico.

A profissionalização veio para regularizar e tornar a imprensa e a disseminação da informnação algo democrático e público. Ainda assim, a imprensa profissional nasceu privada. Com critérios cada vez mais rígidos de trabalho, o jogo ficou restrito à quem mais dinheiro tinha.

Nascia o "quarto poder", a imprensa como Poder tão necessária à República como o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O mesmo ocorreu com o rádio e a televisão.

Na URSS a imprensa (jornal, rádio e tv) funcionava como órgão de informações oficiais, isto é, só se falava do que o governo permitia. A censura era regra, e não havia separação entre Estado e imprensa.

O surgimento da internet é a derrubada da antiga barreira de poder político e econômico. Com custos infinitamente mais baixos é possível, através de um computador com acesso à internet, ter acesso à todo o tipo de opiniões. A disseminação é instantânea.

O modelo de disponibilização de informação/opinião mais recente são os blogs. Criados no final dos anos 1990, esses softwares permitem à qualquer pessoa criar sua página (seu blog), e nela escrever livremente sobre o que pensa. Não há barreira.

O primeiro grande sinal de poder dos blogs na cultura mundial foi nas eleições presidenciais norte-americanas de 2004. Mesmo antes, em 2002 e 2003, muitos blogueiros se tornaram conhecidos por expressarem suas opiniões políticas com clareza e eficiência, conquistando audiências enormes para seus blogs, roubando leitores e telespectadores da imprensa tradicional.

Mas nas eleições de 2004 a coisa tomou proporções gigantescas. O pré-candidato democrata, Howard Dean, através de seu chefe de comitê eleitoral Joe Trippi. Trippi montou um blog para a campanha e começou à aglutinar pessoas nas discussões. Depois passou à arrecadar fundos. Foi o primeiro candidato democrata à arrecadar mais de US$ 40 milhões. Tudo com dinheiro de pessoa física, através de seu blog.

A discussão é das mais importantes. Os críticos dos blogs afirmam que a "democratização" da net vai contra a "profissionalização" da imprensa tradicional, e temos então um quadro de retrocesso à imprensa marrom de séculos passados.

 

19/02/2008 07:00

A internet e a democratização da informação


Capítulo 2: O fenômeno dos blogs e a imprensa marrom

"O que a democracia realmente precisa é de debate público, não de informação. À não ser que a informação seja acompanhada por debate público sustentado, a maior parte é irrelevante na melhor das hipóteses, e passível de manipulação na pior das hipóteses”.

A frase acima é do crítico de mídia Christopher Lasch, recentemente se especializando em blogs e novas tecnologias da informação. Para David Kline, veterano jornalista do The New York Times e entusiasta dos blogs, o que os blogs políticos fazem melhor é combinar informação com debate. Isso vai, inevitavelmente, levar para um estreitamento da consciência civil da sociedade.

Kline vê um retorno para os níveis extraordinários de participação política presentes na mídia partidária do século XIX.

Para os críticos dos blogs como forma substitutiva da imprensa tradicional, são justamente essas características que devem ser combatidas, e que servem de foco de ataque. Os defensores da “profissionalização” não vêm como evolução um retorno à imprensa marrom (à que Kline denominou mídia partidária) de séculos passados.

Os blogs surgiram no final dos anos 1990, com nome oficial de “weblog”. A inovação desse software era de tornar a criação de páginas pessoais de internet algo simples e acessível à base crescente de usuários. A idéia era simples, e se baseava no sucesso dos sites de “chat”, em que as pessoas gastavam horas e horas conversando. Os blogs instituíam páginas para quem se interessasse, e havia ainda um sistema de comentários, permitindo a interação entre o autor do blog (o blogueiro) e seu público leitor.

De início, os blogueiros eram adolescentes escrevendo para adolescentes. Apenas depois de alguns anos a coisa começou a tomar proporções maiores, quando pessoas de diferentes atividades e setores passaram à manter seus blogs, dando opinião sobre aspectos gerais, que implicam com a vida de todos – como a política. O olhar desses blogueiros era o mesmo de seu público leitor, qual seja, distante do mundo dos políticos e da imprensa profissional.

Cada vez mais blogs começavam à receber acessos e comentários. Estes comentaristas por sua vez criavam seus próprios blogs, puxando outros leitores, que depois se tornavam comentaristas e blogueiros. O ciclo foi se estendendo, e alguns blogueiros começavam à acumular audiências enormes, “roubando” o público consumidor dos meios de comunicação tradicionais.

A primeira vez que os blogs políticos chamaram à atenção da grande imprensa foi no final de 2002. No dia 5 de dezembro daquele ano o senador Trent Lott deu um discurso com fortes visões segregacionistas, na festa de aniversário do colega senador Strom Thurmond. A mídia tradicional ignorou o discurso. Os blogs não. Josh Marshall (dono do blog Talking Points Memo) e Glenn Reynolds (do blog Instapundit, até hoje dos mais acessados dos Estados Unidos) divulgaram incessantemente as opiniões de Lott. A história foi crescendo no mundo virtual, alcançando um público maior, fazendo a imprensa ceder, com o televisivo Meet the Press finalmente dando conta do discurso.

Lott, que caminhava isolado para assumir a liderança da maioria do Senado em 2003 teve de desistir de suas pretensões.

Mas o divisor de águas ocorreu durante as eleições presidenciais dos EUA em 2004. Coordenador da campanha do pré-candidato democrata Howard Dean (que disputava com John Kerry a nomeação do partido), Joe Trippi lançou a idéia pioneira de produzir um blog da campanha. O blog de Howard Dean surgiu no final de 2003, alcançando público galopante, discutindo não apenas as idéias do candidato como também os rumos do país.

Conquistando o eleitorado, Trippi teve outra idéia inovadora. Decidiu arrecadar dinheiro, através de doações (algo comum nas eleições estadunidenses) pelo blog. A campanha de Dean arrecadou mais US$ 45 milhões apenas em doações online, com média de menos de cem dólares por doador – mais do que qualquer candidato democrata em toda a história.

O eventual escolhido pelos democratas, John Kerry, adotaria estratégia semelhante, após a desistência de Dean. Através do blog da campanha de Kerry, o candidato arrecadou mais de US$ 60 milhões online, estabelecendo novo recorde.

Para Roger L. Simon, escritor com indicação ao Oscar por roteiro adaptado, e autor de blog com mais vinte mil acessos/mês, o ponto mais importante sobre a ascensão dos blogs é a crítica que estes fazem às instituições de imprensa tradicionais. “O The New York Times em alguns pontos tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos, e não é alvo de impeachment, ou de eleições. É muito saudável que a grande mídia seja criticada pelos blogs”.

 

20/02/2008 17:10

Discutir Cuba de Fidel

O terceiro capítulo da série "A internet e a democratização da informação" estava marcado para entrar no ar hoje pela manhã, como sempre.

A renúncia do comandante-chefe de Cuba, Fidel Castro, à presidência do Conselho de Estado e à chefia das Forças Armadas pegou todo mundo de surpresa. Não foi diferente com este Blog.

Passei a acompanhar o noticiário (televisivo e também os jornalões) e preparar uma coluna especial para tratar do futuro da ilha, agora, sob o comnando do irmão de Fidel, Raul Castro.

Espero colocar o texto até o final de semana, mas pode não ocorrer. A volta das atividades curriculares na PUC, além das questões políticas na Universidade e o dia-a-dia do Blog estão deixando este blogueiro ocupado.

A cobertura até agora, foi dos jornalísticos televisivos noturnos de ontem, e dos jornais de hoje. Já é possível fazer uma análise, mas o principal ainda está por vir. As maiores matérias, mais profundas, com mais fontes, informações e mais tempo também do assunto maturar serão publicadas e divulgadas no final de semana.

Alguns pontos devem ser levados antes de qualquer análise um pouco mais prática do que ocorrerá em Cuba.

Primeiro de que Fidel (com 81 anos) abriu mão do cargo de chefe do Conselho e das Forças Armadas formalmente. Desde que deixou a presidência nas mãos do irmão Raul (cinco anos mais novo), apó sofrer delicada cirurgia em julho de 2006, Fidel ocupava o cargo mais como mão pesada, para não deixar a ideologia da revolução da noite para o dia.

Muitos cientistas sociais e estudiosos políticos dizem - e dirão - que a transição política no período (de julho de 2006 até agora) foi lenta, se houve alguma. De fato, praticamente não ocorreram mudanças.

Mas a idéia é essa. É engano pensar que o processo está lento demais ou errado. Em momento algum se falou em transição, de um regime comunista (instalado pelos revolucionários liderados por Fidel em 1959) para um regime de capitalismo liberal. Ou mesmo para algo híbrido, como vem ocorrendo na China pós-Mao (processo acelerado nos últimos anos pela forte industrialização).

Em sua carta de renúncia, publicado em forma de coluna no jornal "Granma" - para onde Fidel têm escrito regularmente desde que se ausentou na presidência - ele escreve que passará a exercer a função de "soldado das idéias", por não mais ter a capacidade física de exercer funções executivas.

Outro ponto é saber levar a discussão sem os traços ideológicos. Para entender ou discutir Cuba, o maior perigo é esbarrar no partidarismo ou no ranço ideológico. É muito dificil discutir a Cuba revolucionária de Fidel sem passar por defesa incondicional do comunismo ou por total intolerância à essas idéias.

 

22/02/2008 07:00

A pressa da BrOi e o modelo implodido

Em texto publicado ontem na seção Tendências & Debates do jornal Folha de S.Paulo, o jornalista Rubens Glasberg apontou para pressa por parte do governo em promover a compra da BrasilTelecom por parte da Oi (ex-Telemar), chamando a atenção para que a compra, além de não necessariamente atentar para o interesse público, também insiste em um modelo do setor das telecomunicações que precisa ser atualizado.

Essa história precisa de maior debate, como o próprio Glasberg pede ao final de seu texto. Através de uma mudança (que ainda está por vir) no Plano Geral de Outorgas, o governo pretende liberar o caminho jurídico para a fusão entre BrT e Oi.

O governo ainda liberará outra importante amarra: as condições financeiras. O BNDES e os fundos de pensão por trás dos conselhos societários das empresas envolvidas entrarão com boa parte do financiamento necessário.

O álibi utilizado pelo governo é a proteção do setor das telecomunicações do monopólio de capital estrangeiro (representado por Telefônica e Telmex/América Móvil) através da criação de um gigante de capital nacional (BrOi).

Rubens Glasberg escreve que o negócio só será bom para o BNDES - que entra como sócio majoritário - se a megatele der certo. "E quem garante?", diz.

A discussão importante, trazida por Glasberg é sobre o modelo das telecomunicações. Passados dez anos, o modelo do Ministro Sérgio Motta (falecido Ministro das Comunicações do primeiro mandato de FHC) começa à implodir.

"Baseado no binômio competição/universalização da telefonia convencional, o projeto não é mais adequado ao mundo da tecnologia IP e da convergência. O modelo de negócios da telefonia baseado na tarifação diretamente proporcional ao tempo de uso e à distância da ligação está morrendo."

O que se vende hoje é banda. A disputa é pelo acesso em banda larga tanto por fio quanto sem fio (wireless). E mais: há uma crescente interpenetração dos serviços fixos e móveis. Deixaram de existir áreas estanques como fixo, móvel ou longa distância, sobre as quais se fundamenta toda a regulamentação atual."

"É preciso rediscutir o modelo, como já o fizeram vários países. Não será a mera fusão ou incorporação BrOi que resolverá questões básicas. A discussão tem que ser pública e no interesse público."

 

25/02/2008 07:00

Gestão e dinheiro na Saúde pública

Figura tarimbada no meio da Saúde e da Educação, o deputado federal pelo ex-PFL, José Aristodemo Pinotti, escreveu texto publicado recentemente na Folha sobre o que chamou de "crise" no setor da saúde pública.

Basicamente trata de dois pontos preponderantes no debate do setor: a questão dos baixos salários para os profissionais da área e de melhoramentos na gestão do setor.

Os dois são consequenciais. Isto é, melhoras na gestão, com eficiência nos gastos e investimentos em profissionais na administração municipal, estadual e federal trazem ganhos para os médicos à serviço do setor público. Com gestão descentralizada nos três setores públicos porém interligada com políticas claras e críveis.

Pinotti chama a atenção para os poucos recursos destinados à Saúde, através de comparação da relação de dados de gastos totais/por pessoa atendida com os EUA. A comparação serve como simbologia, pois existem pouquíssimas semelhanças entre os dois sistemas.

Lá os maiores gastos são com a indústria farmacêutica, que crescem exponencialmente ano-a-ano - por diversos motivos, os mais relevantes como custos com patentes, mercado monopolizado em grandes laboratórios que arbitram os preços e costuram lobbys com o Congresso.

Aqui a questão é corrupção e gestão deficitária. Mas é evidente que apenas gestão não seria possível para equalizar a situação de deficiência de atendimento do SUS em determinadas comunidades e regiões. É preciso ingremento financeiro.

E claramente a necessidade de se estabelecer políticas setoriais desprendidas de verbas federais, daí a descentralização das decisões nas três esferas de governo. O município tem muito mais facilidade de saber quais são suas necessidades, limitações e pontos altos que o governo federal. Cada esfera deve ter funções claramente delegadas.

Além do desenvolvimento de metas (um primeiro passo tão importante quanto o segundo) é preciso atentar para seu cumprimento. Entra nisso a gestão transparente, com discussão com a sociedade assistida e os profissionais do meio.

Uma política de prevenção, isto é, de educação de saúde é peremptória. Elimina-se uma enorme parcela de casos com prevenção e educação do que posterior trabalho. Os gastos nessa área também são muito inferiores: se gasta com publicidade e educadores muito menos do que com consultas, remédios, etc.

 

25/02/2008 23:16

Jornalistas, mídia tradicional e interesses

Amanhã à tarde entrevistarei o jornalista Luis Nassif, no escritório de sua empresa, a Dinheiro Vivo. Estarei com outros três colegas do Contraponto, jornal laboratorial do curso de Jornalismo da PUC-SP.

Nassif iniciou a publicação de uma espécie de
"Dossiê Veja" em seu blog. Venho acompanhando a publicação dos capítulos (são 14 até agora) desde o início, em fins de janeiro, quando lançou uma nota em seu blog com uma curta autobiografia e um aviso sobre o que estava por vir.

Os leitores interessados em contribuir para a entrevista, estão convidados a participar, enviando suas perguntas em forma de comentários.

 

27/02/2008 07:00

Caindo

Vamos estabelecer uma discussão sobre o câmbio entre o nosso real e o dólar, a moeda que baliza os contratos da economia mundial. O dólar fechou ontem valendo R$ 1,68, a menor cotação desde maio de 1999.

Razão: O câmbio (real) se aprecia (cai) sempre que entram dólares em nossas contas. A conta é fácil: quanto mais dólares, menos reais. O real se torna "mais valioso". E vice-versa. Quando entram poucos dólares, mais reais temos. Quando não entram divisas, o câmbio explode.

Como entram dólares: Através da conta comercial, da conta financeira e da conta de serviços (que agrega serviços, turismo, envio de lucros para o exterior, etc.). Essas contas formam o balanço de pagamentos.

A conta comercial cresceu exponencialmente em ritmo históricos a partir de 2002, com câmbio alto (por volta de R$ 4 por dólar) e preços de commodities em alta. Os altos preços das commodities (que o Brasil é especialista) proporcionaram elevação recorde do saldo, especialmente a partir de 2005, quando o câmbio começou a supervalorizar e desestimular a exportação de produtos mais sofisticados.

A valorização do real (vindo de R$ 4 para menos de R$ 1,70) começou a afetar o saldo comercial ao estimular fortemente as importações. O saldo de 2007 foi menor que 2006 e o deste ano será menor que o de 2007. A tendência é aumento na quantidade importada e diminuição nos valores exportados, conforme os preços das commodities caiam.

A conta financeira agrega os investimentos em ativos brasileiros oriundos do exterior. Desde investimentos produtivos, até investimentos em ações, títulos do governo, e opções do mercado futuro.

O déficit nessa conta não para de aumentar. Isso porque o diferencial de juros entre os países desenvolvidos (aonde está o dinheiro) e os nossos juros internos só aumenta. São as chamadas operações de carry-trade: o rentista (aquele que vive de renda) toma dinheiro emprestado em países de juro baixo (nos Estados Unidos os juros estão em 3%, no Japão em 0,5%) e aplica em países com juros mais altos (o Brasil é campeão mundial, com seus 11,25%).

O rentista embolsa a diferença, e com esse dinheiro honra o empréstimo e ainda fica com boa porcentagem. Essa conta financeira é a principal linha de condução dos dólares que entram no país, valorizando nosso real.

O câmbio baixo torna as importações mais baratas (com a mesma quantidade de reais se compram mais produtos). Em tempos de uma China se industrializando rapidamente, vivemos uma explosão de oferta de produtos industriais chineses de todo o tipo, e todos baratíssimos. Num país de renda pouco distribuída como o nosso, os produtos chineses matam toda a produção nacional.

Se por um lado esse efeito é benéfico, por tornar produtos tecnológicos (não apenas chineses, como vemos com os preços dos computadores se tornando cada vez mais acessíveis) mais baratos, diminuindo a inflação, ele também destroe toda a cadeia produtiva nacional, incentivando apenas o que é lucrativo: a venda de produtos primários (commodities).

Tem um outro fator muito importante nisso. O câmbio baixo é mantido à custas da conta financeira (já que a conta comercial, como vimos, tende à cair). E a conta financeira é muito volátil. Sempre que há um repique nos juros lá fora, ou a situação escurece, os rentistas sacam seu dinheiro daqui para cobrirem o rombo em seu país de origem.

Foi o que aconteceu no final do ano passado, quando surgiram os primeiros sinais de recessão nos Estados Unidos. Os dólares que estavam em títulos públicos, ações e na BM&F sairam correndo, provocando um pequeno surto no câmbio (que chegava à R$ 1,71 e alcançou R$ 1,84 em poucos dias).

A conta corrente (união da conta comercial com a conta financeira) não pode ficar negativa. Depender do capital externo é andar com as pernas dos outros. E todos sabemos o que acontece quando o outro vai embora.

 

28/02/2008 07:00

O biodiesel pode secar

O programa de biodiesel do governo federal está em marcha ré. A razão é simples: o aumento nos preços do óleo de soja (principal matéria-prima para produção do combustível) tem aumentado os custos de produção para os usineiros instalados no Brasil.

Os usineiros não têm vínculo com nada além de seu lucro e param suas máquinas. Alguns optam por se tornarem exportadores do óleo de soja mesmo, sem a transformação industrial em combustível, pois o preço em alta estimula a venda para outros países.

E com isso, o programa de biodiesel do governo pode ir para o buraco, logo na largada.

A partir de 1ºde janeiro deste ano passou a avler a obrigatoriedade de se misturar 2% do biodiesel no diesel convencional. O governo tem comprometida, por meio dos leilões de compra da Petrobras, uma oferta de 380 milhões de litros. A demanda prevista para o ano é de 800 milhões de litros.

A história não é recente. Já tratei desta discussão no Blog, na coluna de 4 de janeiro, no início do programa. O leitor pode reler a coluna
clicando aqui.

O mercado de biodiesel não é bem organizado no Brasil. Na ânsia de tornar o programa como símbolo dos "combustíveis limpos", produzidos através de material biodegradável e que geram menos poluição. O Brasil é pioneiro na tecnologia (embora não seja o único há algum tempo) e têm muito espaço para conquistar mercados.

Mas a pressa atropelou o bom funcionamento. Os custos para produção de biodiesel são elevados, com investimentos em equipamentos, pesquisa, funcionários e conquista de mercado. A margem de lucro é obtida através de escala, o produto ainda não tem preços elevados e é negociado internamente (não é commoditie).

Sem dinheiro e apressado o governo abriu o mercado totalmente para a iniciativa privada. Mas o grande capital privado está nos países desenvolvidos. Sem regulação, o mercado foi dominado por usineiros e empresas criadas por fundos de investimentos de capital estrangeiro, se aliando à parceiros internos. O lucro é, em boa parte, enviado em remessas ao exterior.

A participação do governo no desenho do modelo de negócios do setor se resume ao monopólio da Petrobras na administração da distribuição da produção para os postos. A estatal realiza leilões de compra da produção com os usineiros, revendendo para os postos.

Até agora são 51 usinas de biodiesel autorizadas a operar no país. E pelo menos 30 estão paradas ou com produção esporádica.

Conforme colocou matéria no jornal Valor Econômico de ontem, o Brasil conta com uma capacidade instalada três vezes maior que a demanda, já que as 51 usinas instaladas podem produzir até 2,5 bilhões de litros por ano. Mas os produtores insistem que, sem mercado favorável, não vale a penas ligar as máquinas.

 

29/02/2008 07:00

Os 200 anos da publicidade no Brasil

A propaganda brasileira chega aos 200 anos este ano. O desembarque da corte portuguesa no Brasil de 1808 trouxe uma série de novos fatores e costumes para o povo local. Entre eles, uma noção de capitalismo, a ascensão pelo lucro através dos negócios.

Com isso, a noção de publicidade e propaganda, como instrumento clássico de disseminação de informação para consumo e fixação de marca ou mercadoria veio à tona no país.

Formalmente a primeira propaganda de que se tem relato no país foi publicada no impresso "Gazeta do Rio de Janeiro", em 1808. Sob a assinatura de "Annuncio", divulgava a venda de um imóvel.

Não existai outra fonte para publicação de anúncios publicitários. Antes de 1808 não havia imprensa. O mercado de mídia e de informação impressa só começou a engatinhar a partir de 1808 com a "Gazeta do Rio de Janeiro" e o "Correio Braziliense". Este último, considerado oficialmente o primeiro jornal brasileiro não aceitava publicidade.

Em entrevista ao portal da revista Exame, José Roberto Whitaker Penteado - autor do livro "Propaganda no Brasil, evolução histórica" - disse que antes da "Gazeta", a única forma de publicidade que existia no Brasil eram cartazes rudimentares escritos a mão e os pregões dos comerciantes nas ruas.

Segundo informações do site Adnews, o cenário publicitário mundial pré-1808 era extenso e ramificado. A Inglaterra, por exemplo, iniciou a publicação de anúncios em jornais em 1650. Cem anos depois, a prática já era utilizada em larga escala entre os ingleses, com mais de 50 campanhas por edição. Nos EUA, o primeiro registro oficial data de 1704, publicado no jornal Boston Newsletter. Com o desenvolvimento do comércio, grandes cidades européias experimentaram logo cedo o fenômeno da sociedade de consumo.

Duas centenas de anos depois, o Brasil já tem consolidado pólo como um dos principais centros publicitários do mundo.

 

29/02/2008 11:45

Prioridades e minorias

Muito têm se falado da arrecadação recorde que o setor público almejou em janeiro deste ano. Dois pontos foram lembrados. No campo político, mostrou que mesmo sem a CPMF o governo caminha para uma arrecadação recorde este ano. No campo econômico, mostrou que há espaços para diminuição da carga tributária.

Isso, é que o foi falado pelos economistas, o empresariado, os políticos e pela repercutido pela imprensa tradicional.

Agora, o ponto fora do eixo, deixado totalmente de lado na discussão.

A arrecadação recorde registrada em janeiro turbinou o dinheiro que o governo separa para o pagamento de juros (definidos pelo mesmo governo, bom que se diga) para aqueles detentores de títulos públicos. O superávit primário (o nome inventado para o pagamento de juros) do governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) somou R$ 15,4 bilhões.

Repito. Apenas em janeiro, mais de quinze bilhões de reais pagos em impostos foram para o bolso dos detentores de nossa dívida pública.

O valor é 33% acima do resultado fiscal de janeiro de 2007 e é o melhor número mensal da série disponível no Tesouro, iniciada em 1995. O equivalente à 6,89% do PIB nacional.

Isso foi lembrado sim.

O que não perceberam foi outro dado, divulgado no mesmo dia. Com investimentos o governo gastou R$ 1,262 bilhão.

Os investimentos do governo em janeiro foram de apenas 7,79% da parcela direcionada ao pagamento de juros da dívida.

Apenas um último ponto, e deixo o atento leitor descansar: Por volta de 30 mil famílias engordam sua renda com o pagamento de juros. Todo o resto se beneficia dos investimentos do governo, seja ele em educação, saúde, infra-estrutura, energia, etc.

A prioridade do governo e da "opinião pública" já está posta como vimos. Na sua opinião, caro leitor, qual deve ser nossa prioridade?