03/03/2008 18:23

Para os "especialistas"

Depois que a Receita Federal divulgou o balanço da arrecadação federal de tributos e contribuições referentes à janeiro deste 2008, na última quinta-feira, muito se discutiu a não necessidade da CPMF.

A CPMF foi extinta em dezembro do ano passado. Estima-se que geraria uma receita de R$ 40 bilhões aos cofres do governo. Com a cobrança cancelada, previa-se diminuição no total arrecadado e corte de gastos do governo para se adequar à um novo Orçamento, com menos dinheiro disponível.

Os dados de janeiro provaram o contrário. A arrecadação foi enorme, impressionou à todos, dentro e fora do governo. E os gastos federais subiram em toada semelhante.

A velha discussão sobre o corte de gastos do governo voltou com tudo, com os mesmos analistas de sempre, aproveitando seu tradicional espaço na mídia, defendendo corte nos gastos com salários, benefícios do INSS e até investimentos. Melhor que isso seria corte de impostos.

Já tinha atentado para um eixo crucial, deixado fora do debate em texto publicado na sexta-feira. Apontei para o fato de todos atirarem no mesmo alvo, sem se debruçar sobre para onde iam os gastos do governo. O texto ("Prioridades e minorias") está localizado logo abaixo deste, e pode ser acessado
clicando aqui.

Os dias avançaram, o assunto em tese ganharia corpo mas o foco continua o mesmo, um corte unilateral nas despesas de custeio e investimentos do governo. Mas é só analisar nossas contas. Antes fosse investimento o problema. O dinheiro está indo todo para o pagamento de juros.

A coluna de amanhã persiste nessa briga doida, em atentar o óbvio aos "especialistas".

 

04/03/2008 07:00

Com ou sem CPMF, superávit primário engorda

A não prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) pelo Congresso em dezembro do ano passado fez com que o Executivo e parte dos analistas econômicos clamassem pelo corte de R$ 40 bilhões (o total que seria arrecadado pela contribuição em 2008) do Orçamento da União. Ao mesmo tempo, iniciou-se campanha entre os partidos de oposição, e setores da ortodoxia (amplamente difundidos pelos meios de comunicação tradicionais) pelo corte de gastos do governo federal.

Não durou um mês o mis en scene. A Receita Federal divulgou os dados referentes à arrecadação de impostos e contribuições do mês de janeiro deste 2008 e verificou crescimento impressionante de 26% no total arrecadado. Descontando-se a inflação, o ganho real, em relação a janeiro de 2007, foi de 20,49%.

O que isso demonstra?

Primeiro que a extinção da CPMF não ameaça o equilíbrio das contas públicas. O governo declarou irresponsabilidade do Congresso em cortar os R$ 40 bilhões previstos de uma hora para a outra. Logo no início do ano (no dia 3 de janeiro) aumentou as alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e da CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido) e declarou corte nas emendas dos parlamentares. Tudo isso para poder manter o Orçamento de 2008 em equilíbrio, sem déficit.

Apenas em janeiro, o ganho adicional de arrecadação obtido pela Receita Federal – de R$ 10,1 bilhões – igualou o que o governo esperava recolher a mais em todo o ano de 2008. Sem a CPMF, o governo recolheu, em termos reais, 25% desse valor em apenas um mês.

Segundo ponto. Evidencia que a arrecadação de impostos no Brasil é pró-cíclica, isto é, a arrecadação de tributos cresce numa velocidade superior à do PIB quando a economia está em crescimento. É o caso deste início de 2008. Mais trabalhadores ingressam no mercado formal – recolhendo impostos que antes não pagavam quando na informalidade – assim como o consumo anda em alta – como se sabe, boa parte dos impostos nacionais incidem sobre o consumo e não sobre a renda.

Os gastos do governo aproveitaram a arrecadação “gorda” para continuarem no ritmo ascendente de sempre. As despesas primárias do governo central cresceram 20,35% em janeiro. Os setores de sempre ganham seu espaço na mídia para criticar a elevação dos gastos. Defendem gastos menores com salários do funcionalismo, benefícios da Previdência e outros, preferindo um corte de impostos que impulsionariam o setor privado.

Deve-se, no entanto, atentar para um dado ignorado (por razões que não cabe a este texto discutir) neste debate. É fato que os gastos do governo aumentaram passo-a-passo com o crescimento na receita. Mas não se notou para onde este dinheiro foi e é direcionado: o pagamento de juros da dívida pública (a que o governo chama de “superávit primário”).

Os gastos “extras” do governo em janeiro não se referiram à salários de funcionários públicos ou à benefícios dos aposentados pelo INSS. Muito menos aos investimentos federais, sejam estes do PAC ou não. Os gastos foram todos revertidos em pagamento para as 20 mil famílias detentoras de títulos públicos (seja o papel em si, ou os fundos de renda-fixa). Em janeiro foram mais de quinze bilhões de reais em pagamentos de juros, contra apenas R$ 1,6 bilhão em investimentos na melhoria dos serviços públicos (saúde, educação, etc.). A prioridade está posta. Com ou sem CPMF, uma coisa não muda.

 

05/03/2008 17:34

Eleições nos EUA; democratas x McCain

As primárias do partido democrata realizadas ontem nos estados de Ohio, Texas, Rhode Island e Vermont deram nova vida à senadora Hillary Clinton e tiraram o "momentum" de Barack Obama, que conquistara 11 vitórias consecutivas em votações.

Hillary venceu nos dois maiores, Ohio e Texas, além de Rhode Island. Obama saiu na frente no pequeno estado de Vermont.

Com isso, fica claro que dois eixos serão usados pelas campanhas até as próximas primárias, de 22 de abril (quase dois meses portanto).

A campanha Clinton tem martelado em duas vertentes: uma eleitoral, outra programática. A primeira se refere às vitórias da candidata, sempre em grandes estados, como Nova York, Califórnia, Texas, etc. A programática por defender que Obama só apresenta mudanças nas palavras, enquanto Hillary conta com um programa claro de políticas à serem implementadas.

Hillary continuará apelando para debates (quando normalmente se sai melhor) e seu staff de campanha baixará um pouco mais o nível nas provocações à Obama.

Do lado do senador Barack Obama, o discurso é de que enquanto Hillary carrega vitórias em grandes estados, ele conta com mais estados, portanto com uma representatividade maior do que o povo americano deseja. Apela para o "quantidade contra qualidade".

Embora não apresente a densidade que o programa de Hillary, especialmente no que se refere à universalização do sistema de saúde norte-americano, Obama ampliará seu slogan de "mudança", contra os mesmos, isto é, contra os republicanos de um lado e os Clinton do outro.

A tendência é de acirramento nos ânimos de ambos.

Para os republicanos o jogo se definiu ontem à noite. Com a vitória de John McCain nas primárias do partido, o candidato conquistou o número de delegados necessário para obter a indicação. Com isso, os outros dois candidatos, Mike Huckabee (a maior surpresa dessas eleições) e Ron Paul anunciaram a desistência de suas candidaturas.

Huckabee inclusive declarou apoio à John McCain, o que deixa McCain ainda mais fortalecido, porque herda não apenas os delegados de Huckabee, mas também a preferência daqueles que planejavam votar nele. Aconteceu o mesmo com o ex-pré candidato Mitt Romney.

Espera-se um apoio formal do presidente George W. Bush à candidatura de John McCain pelo partido republicano.

Será o estopim para a guerra entre McCain e a dupla democrata.

 

06/03/2008 13:52

Frase da semana

Professor de economia: "Os países tem de ter segurança política e estabilidade econômica, porque se não, vêm um Chávez da vida, e invade o território".

Estudante: "Quem faz isso é a Colômbia".

 

Passei o dia (quinta-feira) montando o novo blog, em parceria com o colega Vitor Sion. Ele foi colocado no ar no mesmo dia, com um texto meu na página de Mídia. A estréia oficial se deu na sexta, dia seguinte, quando foi publicada a coluna abaixo.

 

07/03/2008 07:00

Ebulição no setor das livrarias

Com a consolidação no setor de livrarias apertando, uma negociação envolvendo as livrarias Siciliano e Saraiva era esperada pelo mercado já há algum tempo. E não deu outra.

Em fato relevante enviado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ontem, a Saraiva anunciou a compra da concorrente Siciliano, por US$ 60,03 milhões. Algo como R$ 100,25 milhões pelo câmbio de ontem.

A Siciliano foi fundada em 1928, possuindo hoje 63 lojas, sendo 52 próprias e 11 franqueadas, em 13 estados brasileiros, além do Distrito Federal. Somadas às 36 lojas próprias Saraiva, a fusão passa a contar com 99 lojas em sua rede, que ficarão sob a bandeira Saraiva.

A Saraiva anunciou também assumir a dívida líquida da concorrente, no total de R$ 16,3 milhões. A Siciliano fechou o ano de 2007 com faturamento bruto (ainda não auditado) de R$ 156 milhões, dos quais R$ 151 milhões são oriundos das atividades de varejo, e R$ 5 milhões das atividades editoriais representadas pelos selos Arx, Futura, Caramelo e Arxjovem.

O movimento de consolidação no mercado de livrarias iniciou acirramento a partir de 2004, com crescimento de receitas e renegociações de dívidas. Grandes empresas, como a Livraria Cultura se expandiram fortemente no filão de "grandes lojas" (mega store), com todo um arsenal de produtos de mídia e comunicação agregados.

Com isso muitas livrarias menores começaram a perder espaço, fechando as portas ou sendo incorporadas. Outras empresas, como Laselva, Siciliano e Saraiva se mexeram para manter seu espaço no mercado, mas não obtendo o êxito necessário. Foi então que nasceram os boatos de venda da Siciliano, mais prejudicada por dívidas e apostas mal-sucedidas de negócios.

A crise das livrarias começou após o choque cambial de janeiro de 1999, logo após o auge do setor, iniciado no início dos anos 1990. O barateamento dos custos de produção (máquinas, papel, royalties para o exterior, licenças, etc.), como consequência da política cambial do Real, permitiu às livrarias políticas de expansão e investimentos em marketing.

A reviravolta de 1999 colocou muitas estratégias no precipício, ao mesmo tempo em que o poder de compra do consumidor sofria encolhimento. Os preços dos livros tiveram aumento, além da elevação nos produtos importados, um filão muito utilizado pelas empresas para alavancar o varejo.

A idéia da Saraiva é ganhar muscultatura para continuar na briga, agora que o mercado começa a apontar para um leve crescimento. Apenas ontem, as ações da empresa, negociadas na Bovespa, tiveram alta de 3,07%.

 

Neste mesmo dia, entrou no ar o Sobretudo.

 

11/03/2008 07:00

A Toyota e a desaceleração do Japão

No início de fevereiro, a montadora de automóveis Toyota, anunciou lucro recorde no terceiro trimestre fiscal, beneficiada pelo desempenho nos países em desenvolvimento, que ofuscaram a desaceleração nos EUA.

Em unidades, as vendas na China aumentaram 62% no terceiro trimestre fiscal. Mesmo nos EUA, onde as vendas caíram no terceiro trimestre, a Toyota conseguiu vendas recorde no período acumulado de 12 meses, pelo 12º ano consecutivo.

Na ocasião, seus executivos apontavam que acirrariam ainda mais a disputa pela liderança no setor de montadoras de automóveis, com a General Motors. A empresa japonesa apontava que compensaria o declínio da economia americana com vendas para países em desenvolvimento.

As previsões já não parecem tão felizes.

Em texto publicado pelo “Financial Times” neste final de semana, traduzido e publicado pelo Valor Econômico de ontem, o executivo-chefe da Toyota afirma que a constante valorização do iene (moeda do Japão) frente ao dólar vem corroendo o lucro e as expectativas de lucros para 2008.

A cotação do dólar recuou fortemente na sexta-feira, caindo de 105 para 102 ienes, o menor patamar da divisa dos EUA em três anos. Foi logo após o fechamento das operações de câmbio que Katsuaki Watanabe, o executivo-chefe da Toyota, afirmou que a situação cambial trará impactos sobre o lucro da transnacional.

A tendência de queda no valor do dólar é mundial. As maiores quedas tem ocorrido em países de juros altos, como o Brasil e Nova Zelândia. Ou em países de forte potencial agrícola, como Colômbia e o próprio Brasil. O declínio da moeda americana no Japão é decorrência das operações de carry-trade (já mencionadas por este Blog) e da desaceleração econômica dos EUA.

A barreira de um dólar por 100 ienes será provavelmente quebrada. E o custo sobre a indústria japonesa será dramático. Especialmente porque o Japão vive um período de estagnação econômica desde o início dos anos 1990, quando estourou a bolha imobiliária local. É a explosão da bolha imobiliária norte-americana que está levando o Japão de volta ao baixo crescimento, após leves espasmos de crescimento do PIB em 2007.

Analisando o câmbio iene-dólar, o diretor-gerente da corretora RBS Securities de Tóquio, afirmou que “se for a 95 ienes (por dólar) e ficar nesse ponto, isso provavelmente cortaria mais dois décimos do crescimento real”.

Segundo a reportagem reproduzida no Valor, o executivo-chefe da Toyota diz que seria difícil compensar o efeito da alta do iene, apesar da lendária habilidade da Toyota para cortar custos e da demanda crescente em países emergentes.

Cada queda de 1 iene na cotação do dólar reduz o lucro operacional anual da Toyota em 35 bilhões de ienes (R$ 562 milhões ou US$ 330,58 milhões)

 

15/03/2008 15:59

Jornalismo em pauta

"Em sua maioria, os jornalistas são incansáveis voyeurs que vêem os defeitos do mundo, as imperfeições das pessoas e dos lugares. Uma cena sadia, que compõe boa parte da vida, ou a parte do planeta sem marcas de loucura não os atraem da mesma forma que tumultos e invasões, países em ruínas e navios a pique, banqueiros banidos para o Rio de Janeiro e monjas budistas em chamas - a tristeza é seu jogo, o espetáculo, sua paixão, a normalidade, sua nêmese."


A frase acima é do jornalista norte-americano Gay Talese, introdução de sua obra sobre o jornal "The New York Times". O livro é de 1971, início da década que deflagraria o escândalo de Watergate naquele país, publicado em uma série de reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein para o "The Washington Post".

As reportagens derrubaram o presidente Richard Nixon em 1974. A história virou filme ("Todos os homens do presidente", de 1976) e elevou a imprensa de então (rádio, jornais e televisões) ao "quarto poder", isto é, funcionando segundo a teoria de Poder regulador dos outros três, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

O desenvolvimento tecnológico, que possibilitou a criação de softwares de comunicação e hardwares compactos, aprimorou a interligação mundial através dos microcomputadores. Hoje, o período inaugurado nos anos 70 e 80 do século XX é comumentemente conhecido como terceira revolução industrial: a da computação.

Veio a internet no final dos anos 1980, catapultada pela empresa de Bill Gates (a Microsoft) e por eventos como a Eco92 no Rio de Janeiro. O desenvolvimento gerou animação extremada e durante a segunda metade da década de 90 (dividida entre pré e pós Windows 95) quase todo o mercado da imprensa substituía suas redações tradicionais por pessoal de internet.

Empresas foram criadas, servidores, serviços, uma série de produtos começou a nascer. Desde investimentos de novos jogadores até, e principalmente, dos meios de comunicação tradicionais. Os jornais viram suas redações "do papel" serem enxugadas; as "informatizadas" eram infladas.

Todo esse boom passou com a explosão da "bolha ponto.com" entre 2000 e 2001. Demissões em massa, fechamento de empresas, desistências em operar determinados serviços.

Mas, então, os "Blogs" já haviam sido criados. Essas ferramentas permitiam à qualquer um criar e manter sua página na rede, alimentando com toda a forma de conteúdo. Inclusive jornalístico.

A imprensa tradicional demorou a perceber. O fenômeno dos blogs foi se multiplicando exponencialmente, alcançando todos os países. A distinção de renda apenas serve como parâmetro para o acesso maior ou menor à esses softwares.

Os blogs demonstraram força nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2004. Ao mesmo tempo a imprensa tradicional não se posicionava, errando a mão, por exemplo, nas eleições brasileiras de 2006.

Essa disputa por leitores alcança novo patamar no Brasil. Desde janeiro o jornalista-blogueiro Luis Nassif publica em sua página capítulos desnudando o jornalismo da revista Veja, de maior circulação no país.

A discussão da vez é sobre o Jornalismo. Dentre todos os pormenores dessa história, o que me parece mais relevante é o macro: disputa entre uma revista de 1 milhão de exemplares e um blog.

E o que mais causa estranheza é o silêncio dos outros meios de comunicação.

 

26/03/2008 07:00

Retomada da campanha nos EUA

As milionárias campanhas de Barack Obama e Hillary Clinton deram trégua no feriado de Páscoa. Foi uma trégua costurada entre o comitê de ambos, visto que o dinheiro não é eterno, e a fonte (a sociedade) está em crise econômica.

Retomaram ontem, com discursos dos dois lados.

O assunto foi o mesmo: a crise financeira do país, iniciada pela irresponsabilidade dos bancos de investimentos e operados de mercado em operarem em derivativos de hipotecas de alto risco, apostando que os preços das casas não pararia de subir, aumentando o valor desses ativos, e a riqueza em geral.

Ambos democratas apostam em mais intervenção do Estado em questões gerais, inclusive nas monetárias e de mercado financeiro. Portanto, têm muito o que dizer e apresentar.

Hillary começou falando de montar um fundo de US$ 30 bilhões para ajudar famílias que perderam (ou perderão) suas casas frente ao aumento de juros nas suas hipotecas. Acenou também com a idéia de criar um comitê para assuntos econômicos, que formasse planos de combate à crise. Disse em trazer pessoas como Alan Greenspan de volta.

Inversamente, Obama se colocou contra o retorno de Greenspan. Ele está certo em pensar assim. Embora não duvide que não há nada de ideológico nisso. A questão em barrar Greenspan é puramente prática. Na base do "ir contra qualquer coisa que meu adversário defenda".

Mas o pensamento é certo. Essa crise que explodiu em julho do ano passado e que vem ganhando corpo desde então foi totalmente criada durante a gestão de Alan Greenspan como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central estadunidense).

Os EUA viram o estouro da bolha "ponto.com" em 2000 e 2001 se somar aos ataques terroristas de setembro de 2001. O país entrou em crise econômica, com retração no crédito para consumo e nos investimentos.

O que fez Greenspan? Baixou os juros para 1% ao ano (muito abaixo da inflação observada) tornando o custo do dinheiro no país muito barato. A crise acabou rapidinho, com os EUA retomando níveis de crescimento já em 2002.

Com dinheiro farto e barato, as famílias começaram a comprar casas. O primeiro alvo de qualquer família, em qualquer lugar do mundo. Começaram a se construir casas e mais casas, mas como o dinheiro era muito barato, a demanda explodiu. Pessoas compravam duas, três, quatro casas. Tudo por hipoteca, ou seja, utilizando a casa como ativo para contratar mais crédito no banco.

Os preços das casas não parou de subir, alcançando recordes em 2006. Nesse meio tempo (2002-2006) o mercado financeiro tratou de criar algumas ferramentas para diminuir os riscos de perder dinheiro. Essas hipotecas que as famílias tinham com os bancos eram empacotadas em títulos repassados para outros bancos, bancos de investimentos, hedge funds, etc.

Os juros desses empréstimos eram reajustáveis. Como a partir de 2004/2005 Greenspan começou a elevar a taxa, esses contratos começaram a refletir. De repente, as famílias não tinham mais condições de honrar esses empréstimos. Ao mesmo tempo, os preços das casas começou a cair.

Os bancos começaram a não receber os pagamentos e como consequência não repassar o dinheiro para aqueles que compraram os papéis lastreados nessas dívidas. A crise estava instalada, e muitos bancos, grandes bancos mesmo, perderam dinheiro.

Antes de isso tudo explodir, Greenspan deixou a presidência do Fed, em março de 2006 para o atual presidente, Ben Bernake, que ficou com a batata na mão.

Trazer o "assoprador de bolhas" para opinar de novo não parece coerente.