02/04/2007 22:20
Impostos verdes
O presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário(IBPT), Gilberto Luiz do Amaral repercutiu hoje trabalho publicado por sua instituição. Segundo o estudo, a tributação do futuro é a sócioambiental, quer dizer, privilegiar através de política industrial fiscal de desonerações tributárias.
Segundo Amaral o Brasil de 2015 contará com o mais moderno sistema tributário do mundo. Infelizmente é irrealidade pensar em algo do tipo quando se trata de um Estado pesado, que arrecada 35% do PIB em impostos sem contar com um projeto de gestão na outra ponta. Reforma Tributária se faz crucial à muitos anos, principalmente a partir dos anos FHC. Um sistema tributário moderno em 8 anos só ocorrerá após reforma tributária.
Sobre os impostos socioambientais, é de fato uma boa idéia, atualmente em uso no Canadá e na Austrália, além de constar em estudos na União Européia e nos Estados Unidos. É bom que discutimos também, mas é importante andar direito. Necessitamos de um plano de vôo para dar o passo certo depois do outro, de maneira mais acelerada.
03/04/2007 07:00
Irracional consciência geral
Não é mistério a crise de identidade que a mídia em geral atravessa. Desde as eleições de 2002, a maioria dos jornalões passou a tratar das mesmas pautas, e quase sempre da mesma maneira. A partir de 2004 a crise do modelo de negócios atingiu a imprensa escrita de maneira feroz.
O desenrolar das crises políticas iniciadas com o mensalão de junho de 2005 fez com que o diretor de redação do maior jornal do país, Folha de S.Paulo, Octávio Frias Filho, diagnosticasse o nivelamento opinativo como jurisprudência jornalística. Quer dizer, finalmente todos os órgãos da imprensa (escrita, televisiva ou de rádio) dividiam a mesma opinião.
Não é a toa as conseqüentes quedas de circulação dos jornais, acusados como anti-Lula, o homem reeleito por mais de 70 milhões (em 120 milhões de eleitores) de brasileiros.
Era de se esperar uma mudança de rumo, por pior que seja. Com a Reforma Ministerial completa, o novo salário mínimo estabelecido, e o PAC nas costas, o segundo governo Lula começa mas a mídia não mudou. Muito pelo contrário.
A atual crise dos controladores de vôo talvez seja o fato mais claro de "jurisprudência jornalística". Pegue as edições dos últimos 5 dias dos principais jornais ( Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S.Paulo e Correio Braziliense) e veja se há alguma diferença de opinião. Não trato apenas dos editoriais. Me refiro à cobertura em si.
São as mesmas fontes, os mesmos documentos, as mesmas conclusões: "Não se pode denegrir o direito do brasileiros de ir e vir", seguido de medidas como: "Que se demita todos os controladores de vôo", "tirar Waldir Pires do cargo de Ministro da Defesa" ou ainda "deve-se passar tudo para as mãos privadas, tudo no governo dá errado".
Convido o leitor deste Blog à ler, ouvir ou assistir qualquer órgão pertencente ao conglomerado Organizações Globo. Seja ele o jornal O Globo, as Rádio Globo e CBN, o televisivo Jornal Nacional, o canal Globonews ou a revista Época. É o mesmo modo liberal de tratar da questão.
Privilegia-se o individual através de frases como "O sujeito que pagou têm o direito (com ênfase na palavra) de viajar". Através dessa teoria arranjam-se argumentos para validá-la: "O governo é o culpado, fossem os aeroportos privatizados e os controladores desmilitarizados o problema não aconteceria". Chega-se à uma conclusão simples: a desmilitarização da categoria, mas através de fatos desvirtuados. Perde-se o foco.
A confusão dos meios de comunicação é tão grande que atinge até as fontes. O brigadeiro Mauro Gandra, ex-Ministro da Aeronáutica do governo FHC, clamou pela demissão de Waldir Pires. Mas sem perceber que seu substituto seria (ou será) Aldo Rebelo, filiado ao Partido Comunista do Brasil. Já pensou? As implicações de uma escolha dessas paradoxalmente a fidelidade marxista de Rebelo são temas para outra coluna.
Na sexta feira, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, foi desautorizado a dar voz de prisão aos sargentos rebeldes (que por legislação militar são proibidos de se amotinarem) por ordem do presidente Lula. A decisão do presidente seria criticada de qualquer maneira pela mídia. Deixasse os controladores serem presos seria acusado de largar o país à própria sorte por não contar com controladores reservas. Como fez foi acusado de ir contra a legislação militar.
Atente-se caro leitor, que pela mesma legislação militar -que prevê que soldado raso deve reclamar com seu superior imediato, o sargento, e assim sucessivamente -a força maior é o presidente da nação. Um colunista carioca chegou a lembrar crise parecida nos Estados Unidos dos anos 1980, quando o então presidente Reagan secretamente preparou um grupo reserva de controladores, e quando estes completaram "o curso", assumiram os cargos, após demissão sumária dos controladores grevistas.
Este artigo não é uma banalização da ideologia liberal de Adam Smith, David Ricardo, e dos Iluministas. Também não é para se cobrir de louros a teoria de Karl Marx, Lênin e dos Socialistas. A intenção não é discutir qual ideologia é melhor. O macro foco da vez está na ridícula "jurisprudência jornalística".
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enviado por: Joao Almeida |
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Pela primeira vez alguém da um pau bem dado no jornalismo |
04/04/2007 07:00
O pensamento hegemônico
Como na coluna de ontem não é intenção do signatário deste Blog dizer qual ideologia política,econômica ou social, seguir. Quero apenas explicitar o pensamento amplamente difundido na imprensa brasileira: o (neo)liberalismo.
Separei trechos de textos da página do jornalista Carlos Alberto Sardenberg no portal de notícias G1, das Organizações Globo. Meus comentários estão sublinhados.
"No primeiro bimestre deste ano, as receitas do governo federal, mantendo a tendência dos últimos anos, subiram 13,2% em relação ao mesmo período de 2006.
Ou seja, o ganho de receita pode ser gasto ou pode ser poupado para engordar o superávit primário e matar a dívida mais depressa. O governo Lula escolheu gastar".
A discussão: é melhor diminuir os juros e por consequência a dívida e o superávit para pagá-la ou manter os juros onde estão e aumentar o superávit? A resposta parece clara, mas infelizmente nossos especialistas gostam de complicar
Ou ainda sobre a monopolização do mercado aéreo brasileiro e a perda da identidade nacional (Varig):
"Em termos gerais, o mercado fica com duas grandes companhias - Gol e Tam - mais ou menos empatadas e fortes concorrentes. Com algumas empresas regionais nas franjas do mercado, podendo crescer e morder os calcanhares das grandes.
Mas quero aqui chamar a atenção para uma outra opinião, de Sérgio Lazzarini, do Ibmec-S.Paulo. Está em O Globo de hoje (29/03), editoria de economia. Diz que a melhor solução, para o consumidor, teria sido a entrada de uma terceira empresa no setor, como a chilena Lan.
Esta empresa tinha planos de entrar no Brasil, mas não pode por causa das restrições ao capital estrangeiro. O que sugere uma discussão sobre essas restrições".
Novamente a visão distorcida: não se deve dar ao Estado o controle de uma área crucial de estratégia nacional. Não, deve-se abrir o mercado o máximo possível. Nada contra a empresa chinesa em questão. Também não defendo a monopolização do mercado, ou de qualquer mercado. Mas daí para fazer do Estado o entrave para tudo são outros 500.
E o ápice:
"Repare o seguinte: o mundo dos negócios está aquecido. Em diversos setores estratégicos só se fala em investimentos: agronegócio bombando (saiu da crise) e não apenas com o etanol; há um boom no setor imobiliário; a exportação segue forte; o comércio varejista continua crescendo mês a mês; o crédito em geral está em expansão, o que movimenta vendas de bens de valor mais alto (automóveos, eletrônicos, computadores).
Repare agora o que funciona mal. É tudo que depende do governo, aeroportos, tráfego aéreo, estradas não privatizadas, portos, hidrelétircas que não saem do papel".
Por hoje é só, não quero cansar os 13 leitores deste espaço com discussões ideológicas.
05/04/2007 16:03
17 anos depois
Para os leitores que viveram o período vale a (triste) memória. Aos que não viveram (ou não se lembram) cabe a lição do que não se fazer politica econômica e socialmente falando quando se assume a presidência da República de um país.
Especial muito bem feito pela TV Câmara do Plano Collor.
http://www.youtube.com/watch?v=g75QMESZE0k&mode=related&search=
06/04/2007 07:00
Fazenda e BC sem farpas
A saída de Júlio Gomes de Almeida do cargo de secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é uma perda discursiva enorme no plano público. Isso porque Gomes de Almeida sempre deixou bem clara sua posição contra a política monetária do Banco Central.
A esdrúxula combinação de juro alto e câmbio baixo praticada por Henrique Meirelles e a cúpula dos RR (Representantes Rentistas) foi alvo de duras críticas do agora ex-secretário. Na última sexta ele afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que com o real sobrevalorizado, a indústria iria "virar pó". No mesmo dia levou pito do chefe, Guido Mantega, que afirmou que o cÂmbio atual é resultado da força da economia.
É evidente que o atual ministro da Fazenda Guido Mantega pertence à outra ala de pensamento que Meirelles e que portanto, discorda das idéias de seu antecessor, Antonio Palocci, que era mais afinado com o presidente do Banco Central. Mas mesmo Mantega tem sofrido metamorfose desde que deixou a presidência do BNDES, ficando "mais governista".
A política do Ministério está "mais a cara" de Mantega que Palocci, mas alguns nomes da era palocciana permanecem. São os casos de Jorge Rachid, Secretário da Receita Federal, e Bernand Appy que saiu da Secretaria Executiva para ocupar a vaga do demissionário Gomes de Almeida.
Para o posto de Appy foi escolhido Nelson Machado, que se mostrou excelente Ministro da Previdência Social e que acabou perdendo o cargo na dança partidária que Lula promoveu para agradar os partidos da "coalizão" que o elegeu. Seu novo cargo, a Secretaria-Executiva é a que supervisiona e coordena as atividades das demais secretarias do ministério além de auxiliar o Ministro o cargo também permite a elaboração de projetos de lei, medidas provisórias e outros normativos.
Bernand Appy por sua vez passa a assessorar o Ministro na elaboração da política econômica do país, inclusive setorial e regional. Como a permanência de Rachid à frente da Secretaria da Receita Federal (responsável pela administração tributária federal) não é certa, Appy se torna o único verdadeiro elo entre as políticas de Palocci e as atuais diretrizes.
O outro cargo de importância no Ministério é a Secretaria do Tesouro Nacional, ocupada interinamente por Tarcísio Godoy, desde que Carlos Kawall anunciou sua saída em dezembro último. No entanto o desempenho de Godoy à frente da Secretaria, que faz a programação financeira do governo e é o responsável pelo equilíbrio fiscal, agradou o mercado que uma possível substituição é mal avaliada pelo ministro Mantega.
Fechando a organização do Ministério aparecem outras três secretarias: de Acompanhamento Econômico, de Assuntos Internacionais e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. Destes, o secretário de Acompanhamento Econômico, Nelson Barbosa Filho é o nome da vez na pasta. Foi o responsável pela elaboração do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e colaborador no programa de campanha à reeleição, Barbosa chefia as políticas de regulação dos mercados e da concorrência. Mantega já manifestou afinidade com o economista.
06/04/2007 21:42
Deslize de Páscoa
O trecho final da coluna de Roberto Pompeu de Toledo na Veja desta semana está ridículo. Com todo respeito ao autor, discuto idéias, não sua pessoa.
Intitulada "Um país, dois presidentes" a nota mostra a "comédia que é a cerimônia tupiniquim de passagem do cargo quando o presidente viaja". Para isso Toledo questiona a validade da ordem de Lula de negociar com os controladores de võo, quando este estava no avião presidencial rumando os EUA e o presidente em exercício passara a ser José Alencar.
Continua Pompeu de Toledo: "Aliás, se passara a Presidência ao vice, com que autoridade se apresentou ao presidente Bush, em Washington?". Mais à frente conclui: "Aquele que chegava aos EUA, uma vez destituído da faixa presidencial, era um cidadão comum (...) ao arvorar-se em presidente, não passava (...) de um impostor"
No final assume que isso tem "consequência prática zero". Quer dizer, não bastasse o argumento absolutamente inútil, Toledo nega tudo ao notar que o argumento tem "consequência prática zero".
08/04/2007 17:17
CPI já começou em alguns lugares
O jornal O Globo de hoje apresenta notícia com o seguinte título: "Ex-presidente da Infraero, Carlos Wilson, é alvo da CPI do Apagão".
E no finalzinho do lide (primeiro parágrafo) a informação que faltava "(Carlos Wilson) juntamente com o advogado Roberto Teixeira, virou alvo da CPI do apagão aéreo, que está para ser instalada na Câmara". Veja bem, no final do lide, é que o jornal explica que a CPI pode ser instalada.
O título não diz nada, a linha-fina (frase sob o título da matéria) não diz nada, e o próprio lide quase não diz nada.
Imagine agora a não instalação por parte da Câmara, da CPI do Apagão Aéreo. Ruim para a imagem d' O Globo? Não, porque o interesse está em instigar o leitor. Desatento ou não (afinal a real informação passa quase desarpecebida) o leitor do jornal acredita que a CPI está aí, firme e forte, funcionando e já colocando nomes no paredão.
A Infraero (órgão presidido anteriormente por Wilson) está sendo investigada no Ministério Público pelo superfaturamento de R$ 16 milhões nas obras de reformas em Congonhas. Se a CPI vier de fato à existir seu foco será o chamado caos aéreo, envolvendo a Infraero sim, mas não esse episódio em particular.
09/04/2007 07:00
Anestesia cambial
O dólar encerrou a curta semana valendo R$ 2,03, é a menor cotação do real desde o início de 2001, ou seja, antes do início das várias crises seguidas enfrentadas por FHC e depois Lula.
Não bastasse o juro estratosférico que "clama" por arbitragem externa, o câmbio sofre um forte ataque especulativo, que deve levar o dólar à valer menos de R$ 2,00 no mais tardar em 10 dias. O real vem sofrendo ataques especulativos desde pelo menos a primeira reunião do Copom no ano, quando em 24 de janeiro cortou a Selic em apenas 0,25% quando a esmagadora maioria acreditava no corte de 0,5%. Isso não só gerou uma alavancagem maior nas arbitragens como proporcionou o aparecimento dessa especulação, afinal, com o real mais valorizado, mais o investidor lucra.
Com a saida de Júlio Gomes de Almeida da Secretaria de Política Econômica e com o pedido de Lula para que o Ministro Guido maneirasse nas críticas à política monetária do BC, o governo não têm hoje nenhuma crítica interna. Nenhuma discussão. Como se tudo estivesse uma maravilha. O recém empossado novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, foi capa dos cadernos de economia afirmando não ter solução para o real baixo.
O nível de anestesia é tal que até propostas despropositadas como a de diminuir ou zerar a taxação sobre importações foi abordada pelo ministro Mantega e amplamente discutida na mídia. Idéia típica de Gustavo Franco (que agora escreve para a revista Época) foi abraçada sem reflexão por jornalistas como Carlos Alberto Sardenberg da CBN.
A idéia de zerar o imposto das importações seria de que assim o aumento dos valores importados cresceria ainda mais (atualmente na faixa dos 10% mais que as exportações) e como consequência diminuiria a balança comercial, diminuindo a entrada de dólares na economia! Isso é assassínio industrial além de total despreparo analítico e de planejamento.
A discussão no governo dessa "proposta" mostra o quão perdido estamos. São mais de 12 anos sem plano de võo. Um minuto de análise e reflexão, é tudo que peço: o BC compra diariamente mais dólares (como forma de segurar a cotação do real) do que entram como resultado das exportações. Como explicitei em coluna anterior("É o juro, estúpido" de 20 de março) a causa maior de valorização de nossa moeda não são os dólares das exportações, mas sim os sugados pelos juros altos.
09/04/2007 18:14
Record Notícias X Globonews
O Ministério das Comunicações (do ex-Global Hélio Costa) acaba de autorizar a Rede Mulher à alterar sua denominação "fantasia" para "Record Notícias". Com isso está dado o esperado passo da Rede Record de contar com um canal de notícias em televisão aberta.
Segundo Daniel Castro, excelente colunista do jornal Folha de S.Paulo, a Rede Globo iniciou a transmissão de seu canal de notícias (24 horas no ar) "Globonews" no canal 19 (UHF) de São Paulo.
Se bem gerido o novo canal da Record tende à acirrar a disputa com a Globo e até quem sabe com a Bandeirantes e seu canal (exclusivo para a TVA) Bandnews. Se isso se configurar em agregação de conteúdo, a base de ganhos para a sociedade será ainda maior por se tratar de disputas na TV aberta e não mais na TV fechada.
10/04/2007 07:00
A hora e a vez dos IPO's
Se a atual valorização cambial tem um vencedor (interno, pelo menos) são as grandes empresas que têm suas dívidas atreladas ao dólar, que já perdeu o equivalente à R$ 2,00 sua cotação (grosso modo um dólar caiu de R$ 4,00 para R$ 2,00).
Ou seja, com o mesmo dinheiro em caixa, a empresa paga uma maior parte de sua dívida. Daí o forte lobby empresarial (e vamos lembrar que dentre as grandes empresas endividadas, estão muitas do setor de comunicações) para que o governo mantenha o câmbio flutuante e não tome providências.
Com a explosão dessas dívidas no segundo semestre de 2002, quando o dólar alcançou alta cotação graças a desvalorização do real, rareou o acesso ao crédito também. O crédito de longo prazo diminuiu e as financeiras que se dispunham cobravam altíssimas taxas de juros (a taxa média de 45% de hoje é "fichinha" perto do que foi).
Após o conturbado primeiro ano de Lula e a consequente estabilização econômica, o ano de 2004 foi o início do processo, hoje amplamente difundido, de recorrer à Bolsa de Valores para não só quitação de dívidas (debêntures) como para aumentos de capital (ações primárias). Era o início de um processo, que ainda não se exauriu, de farta liquidez mundial.
Pesquisa do jornal Valor Econômico revela que a corrida à Bolsa de Valores, tendo como marco de largada a abertura de capital da Natura em maio de 2004, gerou R$ 32 bilhões aos caixas das 61 empresas que fizeram oferta primária de ações no período.
Dessas 61 empresas, 46 usaram ou pretendem usar o dinheiro prioritariamente na expansão dos negócios. Uma das pioneiras no ciclo de utilização do capital para aumento orgânico foi a operadora logística ALL, que utilizou os R$ 267 milhões captados em junho de 2004 na compra de locomotivas, vagões e trilhos. Um exemplo recente é a empresa de shopping center Iguatemi que captou R$ 548,7 milhões em fevereiro e anunciou a construção de um novo centro de compras.
Afora a alta liquidez mundial, as regras do Novo Mercado, que estabelece metas de transparência em governança corporativa, permitiram inclusive um salto operacional e novas oportunidades de captação -um exemplo: dinheiro para aquisições. A operadora de planos de saúde Medial comprou a Amesp e a E-Nova com o dinheiro.
Se a política cambial do BC agrada é, no entanto, a outra ponta da
política monetária -os juros- que atrapalha. Com juros de 26% a.a. como em 2003, ou ainda a média de 15% a.a. do ano passado, os títulos de renda fixa foram largamente os campeões mundiais de investimentos pessoa física dos brasileiros.
A farta liquidez mundial provocam situações cômicas (no sentido triste, economicamente falando) como o fato de serem de estrangeiros a maior parte do dinheiro que circula na Bolsa e na BM&F. São deles também boa parte dos recursos em renda fixa e títulos do governo -a famosa arbitragem, tão exemplificada neste Blog.
10/04/2007 14:39
Respondendo à espasmos
Assim que assumiu, o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) anunciou a intenção de pedir a presença das Forças Armadas no Rio para tentar inibir a violência. Ontem, apurado o assassinato do PM Guaracy Oliveira da Costa, integrante do grupo responsável pela segurança dos palácios Guanabara e Laranjeiras, Cabral voltou à carga.
Percebe-se aí um certo acomodamento do Poder Público frente à demanda. Cobra-se algo como a entrada das Forças Armadas no Estado como forma de sufocar os "lampejos" de criminalidade "fora do comum", quer dizer, crimes são normais, quando são "intoleráveis" (como definiu o governador) dve-se então tomar uma decisão. Que aliás, não foi para frente em janeiro. E muito provavelmente não irá para frente agora.
10/04/2007 17:36
Mercado de combustíveis
Com a compra da Ipiranga, a Petrobrás (atarvés da bandeira de postos BR) terá uma participação nos mercados enorme. Segundo o edital de compra, que dividiu o Ipiranga entre três empresas -Braskem, Ultra e Petrobras - a estatal ficou com as regiões Note, Nordeste e Centro-Oeste.
A concorrente Chevron, internacional que no Brasil utiliza a marca Texaco, após a fusão das duas empresas em 2000, já anunciou estar preocupada com a concentração. Segundo consta, a Petrobras contará com 62% do segmento total de combustíveis, caso da região Norte.
No Nordeste, a estatal terá uma fatia de 50%. Já no Centro-Oeste cresce para quase 59%. Segundo dados de 2006 do Sindicom, sindicato que reúne os distribuidores de combustíveis, a BR tinha a maior participação no mercado brasileiro de combustíveis, seguida pela Ipiranga, Shell, Texaco e Esso.
Para se dar uma idéia da compra da Ipiranga, o grupo Ultra, que segundo o acordo ficou com as regiões Sul e Sudeste, estréia como comercializador de combustíveis líquidos e já aparece na segunda posição.
10/04/2007 18:54
Falar resolve?
O dólar fechou em leve (e rara) alta hoje, após o fechamento da Bovespa, que bateu seu quarto recorde de pontuação seguida. A cotação do dólar subiu apenas 0,15% -para 2,028. Além das costumeiras compras de divisas por parte do BC, que basicamente "enxuga gelo", as declarações de ontem do presidente da instituição, Henrique Meirelles, serviram para dar um aviso. Ou não.
Ontem, em evento para posse do novo presidente da Febraban (Fábio Barbosa), Meirelles afirmou estar preocupado com a cotação do real. Pode ser de fato uma leve preocupação com a queda na cotação abaixo dos R$ 2,00 -pura barreira psicológica. Mas a declaração pode ser de duas uma.
Ou uma real intenção de mudar (mesmo que de leve) a política monetária, levando o assunto para a próxima reunião do Copom ou simplesmente assustar o mercado, para que pensem que há de fato mudanças à caminho. Pode ser balela. A tendência continua de queda na cotação do câmbio.
11/04/2007 07:00
Conversa com Delfim
O ex-ministro Delfim Netto percebeu os sintomas mas não deu a cura para o atual esfarelamento industrial brasileiro. Deixou, ironicamente, à cargos dos economistas ortodoxos e/ou filhotes do mercado financeiro - aí inclusos os nossos Representantes Rentistas (RR) ou popular Banco Central (BC) - a responsabilidade para aprender.
Tratando da atual mazela que vive nosso setor secundário, basicamente o industrial, Delfim afirma que a enorme diferença entre os juros internos e os externos promove um processo de arbitragem. Além disso, soma-se o fato de nossa economia não exigir nenhuma contrapartida ("risco" em suas palavras) desse capital especulativo que entra, tornando o real "a mercadoria mais desejada do Brasil".
Segundo ele a valorização das moedas dos emergentes (analisando de 2004 para cá) foi de, em média, 16%. No caso do real, foi de 36%. Isso ultrapassa até o movimento natural, que ele explicou como sendo espelho da desvalorização do dólar no mundo.
A forte valorização ultrapassa também a tese de que o real se valorizou pura e simplesmente pelos dólares que entraram graças ao "sucesso das exportações", que cresceram muito no período 2004-2007. Segundo a tese ortodoxa (o outro nome para os seguidores da teoria liberal atualizada, quer dizer, os neoliberais) o real não poderia se valorizar por conta dos juros altos, afinal eles caíram 7 pontos percentuais desde o final de 2005 e a moeda continuou caindo.
"Eu dou risada quando dizem que o juro caiu e o dólar não subiu, porque não estão entendendo o que está ocorrendo" disse o economista. O processo de arbitragem vale seja com juros de 12,75% ou de 7,5% - ganha-se do mesmo modo. Estamos falando de grandes quantias, se o ganho for de apenas 0,25% já é algo satisfatório. Atualmente é de 6%.
Não é questão de torcer contra o país, mas mesmo em hipótese de com saldo comercial igual à zero, mantidos esses patamares de juros e não havendo risco para quem especula com a moeda brasileira, a supervalorização continuaria. Haja visto os saudosos anos FHC quando o saldo da balança comercial era negativo, quando muito, pouco positivo, e a moeda (mesmo nos anos pós 1999 com a flutuação cambial) era super valorizada. Cabe lembrar que a atual cotação de R$ 2,02 por dólar é a menor desde março de 2001, governo de Fernando Henrique.
Sobre a idéia propagada entre os ortodoxos de que a "festa dos especuladores" vai acabar, o atual peemedebista se sai com essa: "Com esse Brasil que está aí a festa não vai acabar nunca. Quem vai acabar são os produtores, e aí o país terá o regime dos sonhos do neoliberal: uma sociedade formada apenas por consumidores".
12/04/2007 07:00
Grande milharal à vista
A alta na demanda de etanol nos EUA no atual exercício e no próximo (biênio 2007/2008) funcionará como uma alavanca à impulsionar o milho brasileiro para os mercados mundiais, inclusive o americano.
Isso porque o etanol estadunidense é produzido através da transformação do milho em combustível, forma menos energética que a transformação da cana (método brasileiro) em combustível. O aumento na demanda do mercado interno americano por etanol impulsionará o aumento das terras com cultura do milho.
Mas o mercado de milho americano já se encontra próximo da saturação. A discussão da vez na imprensa daquele país são justamente as propostas por Fidel Castro em artigo para o jornal cubano Granma, publicado há duas semanas. Castro afirmou que o recente boom por etanol seria danoso por retirar alimento e transforma-lo em comida.
Não é intenção desta coluna discutir as implicações ou intenções políticas para esse aviso cubano. A questão que se coloca na realidade é puramente prática: o milho deixa de aparecer no prato na mesa da cozinha para aparecer no tanque do carro das famílias americanas. Logo, o preço do milho "alimento" inflacionará pelo simples fato de se criar uma demanda maior do que a produção.
Daí que o milho brasileiro cairá como uma luva. Os produtores de milho nacionais já estão respondendo aos avisos, aumentando a área plantada, assim como novos investimentos estão sendo feitos. Com a produção tradicionalmente voltada para o mercado interno, os produtores chegavam a receber preços inferiores aos de custo de produção nos anos de boa safra, como em 2000.
O aumento na produção da safra 2007/2008 não promoverá no entanto, episódios de deflação nos preços no mercado interno. Isso porque todo o aumento deverá ser repassado aos EUA e ao resto dos países. Afinal, analogamente ao fato de os americanos aumentarem suas importações de milho por demanda maior que produção, é evidente que seu quantum de exportação (quantidade exportada) diminuirá.
Novamente deve-se levar em conta o mercado interno brasileiro. Suprida essa demanda, deve-se escoar a produção (excedente) através de exportações, pois a demanda internacional será maior, graças à menor participação dos EUA - simples teoria e prática econômica. Mas não se pode fazer com o milho o que já está se fazendo com a cana, isto é, expandir a produção da cultura passando por cima de tudo e de todos. Para um país já fadado à exportação de produtos primários com morte industrial, transformar nosso Estado em um canavial ou milharal será a pá de cal que resta.
12/04/2007 16:29
Dólar, milho e os frangos
No período março 2006 à março de 2007, o milho se valorizou 46,9% na bolsa de Chicago, tradicional bolsa de commodities mundial. Além disso a cotação do real (que teve leve desvalorização no período maio-junho do ano passado) caiu mais de vinte centavos, valendo hoje R$ 2,02 por dólar.
A soma desses fatores vêm prejudicando os exportadores de frango. Se o dólar barato por si só nivela para baixo os lucros e a competividade dos produtos nacionais lá fora, no mercado de frango, o aumento na cotação da ração (milho) tem atrapalhado ainda mais.
No primeiro trimestre deste ano, os preços do frango na exportação tiveram alta de 5,17% sobre igual período do ano passado. Isso porque as perdas foram embutidas nos preços. Mas como bem avisou o presidente-executivo da Sadia, Gilberto Tomazoni, há um limite para aumentar os preços.
13/04/2007 07:00
Agora... vai?
A última mudança na composição da diretoria do Banco Central (ou Representantes Rentistas) veio como espécie de cartada final de Meirelles de manter, ao menos na instituição, o mesmo caráter ultra-ortodoxo que marcou a política econômica do primeiro governo Lula.
O (agora ex) diretor de Política Monetária, Rodrigo Azevedo, já havia demonstrado vontade de sair dos R$ 8 mil mensais do poder público, para algo como três ou quatro vezes isso no poder privado. Nada contra, faz parte. Queria ter saído na primeira leva de diretores dissidentes de março de 2006 (os também ultra-ortodoxo/liberais Alexandre Schwartsman e Sérgio Darcy) mas foi levado à ficar graças as crescentes pressões de ano eleitoral.
Depois queria sair junto de Afonso Bevilácqua, ex-diretor de Política Econômica - substituído por Mário Mesquita - também não conseguiu. Sai agora, e ainda poderá participar da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária, órgão que decide o valor da taxa de juros) à ser realizada na semana que vem.
Tido como o último real mantenedor do conservadorismo rentista - aquele que mantém os juros altíssimos, tornando a renda fixa mais tentadora do que os investimentos produtivos - Rodrigo Azevedo será substituído por Mário Gomes Torós, vice-presidente do Banco Santander até meados do ano passado.
Torós ocupará cargo dos mais importantes da diretoria. O pensamento é simples: em se tratando de um órgão que trabalha a política monetária, a diretoria de mesmo nome só pode ser importante.
Diferentemente dos dois últimos representantes da pasta, Torós é um operador de mercado, não um teórico, como é por exemplo, o dissidente Rodrigo Azevedo. Quer dizer, trata com política monetária na prática do dia-a-dia. Pavimentou seu espaço - afora o fato de ser colega de turma na UFRJ do diretor Mário Mesquita - o fato de que, como vice-presidente do Santander, manteve contato freqüente com o BC.
A comparação com o último diretor de Política Monetária "operador" e não teórico, é muito oportuna. Durante a presidência de Armínio Fraga no Banco Central (1999-2002) o diretor Luiz Fernando Figueiredo caracterizou bem a diferença: capaz de agir, dentro do modelo conservador, com maior eficácia técnica e, ao mesmo tempo, com maior flexibilidade pois não se prenderá a amarras ideológicas.
Mas fique atento caro leitor. Note que, todos eles, citados nominalmente ou não na matéria, saíram do mercado financeiro. Tem por definição, sejam teóricos ou operadores, as artimanhas do mercado no sangue. Não é questão de julgar, peço apenas reflexão. O espírito de público fala mais alto que o privado nesses homens? Não é questão de duvidar de seus méritos. Mas perceba que seja antes, seja depois, todos são economistas-chefe de grandes bancos, consultores de grandes financeiras, gestores de grandes fundos.
15/04/2007 11:49
Agora vai!
Depois de exatos dez anos o Botafogo Futebol e Regatas (RJ) entrou, disputou e tem tudo para sair do Campeonato Carioca como um dos dois melhores do campeonato - por competência.
Digo isso, porque a disputa do ano passado, conquistada pelo Botafogo, foi esvaziada no sentido triste do termo. Os outros três clubes grandes (Flamego, Fluminense e Vasco) apresentaram seus piores elencos possivelmente na história do centenário campeonato.
Tanto que os principais rivais do alvinegro foram o América (ressuscitado por Jorginho, hoje na Seleção) e o Madureira, que acabou conquistando a Taça Rio e fez a final do Estadual com o clube de Bebeto de Freitas.
A última vez que o Botafogo entrou em um campeonato carioca com reais chances de levantar a taça foi em 1999, time que decepcionou no Estadual e quase foi rebaixado no Brasileiro (episódio tapetão Sandro Hiroshi), mas que também quase venceu a Copa do Brasil, perdida ao Juventude (RS).
A última vez que o clube entrou, disputou e saiu do campeonato do Rio como sério candidato, foi em 1997, quando conquistou o título em cima do Vasco de Edmundo - que seria Campeão Brasileiro daquele ano.
Este Blog aposta em título Botafoguense na Taça Rio e também na final do Carioca, contra o Flamengo, que aparenta ser o melhor do Estado graças ao apelo de mídia da Copa Libertadores. Mas não é. Os comandados de Cuca saem na frente na disputa pelo bicampeonato estadual.
17/04/2007 07:00
A arte de se discutir picuinhas
A discussão da vez é de novo é a tal classificação de grau de investimento do Brasil. Como nos anos recentes, cria-se um oba-oba sobre o tema como se ele fosse de fato, a resolução de nossos problemas.
Agora a retomada das discussões é a ida do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, à sede européias de algumas agências de rating para pleitiar uma reclassificação do grau brasileiro. São três as mais importantes agências: Standard's & Poor's, Moody's e a Fitch Rating.
O trabalho delas é basicamente olhar os indicadores macroeconômicos dos países e atribuir à eles uma nota, que varia de AAA (para o melhor) à D (para o pior). O Brasil atualmente é classificado como BB-, dois graus abaixo da nota mínima para ser considerado investment grade, ou grau de investimento, equivalente à BBB-.
O que Mantega irá mostrar é que países com indicadores razoavelmente semelhantes já adquiriram a certificação enquanto o nosso não. O exemplo menina dos olhos do ministro é o México, que é investment grade à alguns anos tendo indicadores apenas levemente melhores que os nossos.
Uma coisa que o Ministro certamente não deve ter analisado é em relação ao crescimento mexicano, que não mudou em rigorasamente nada, este sim, sendo levemente melhor que o nosso. Enquanto nossa média nos últimos anos é de 2,5%, a deles é 3%.
Outro fator que reacendeu o debate foi o estudo dos economistas Edmar Bacha e Márcio Holland. Bacha foi um dos formuladores do Plano Real junto à Pérsio Arida, plano este que levou à uma explosão inconsequente da dívida pública - principal indicador de país investment grade.
No referido estudo, Bacha e Holland indicam que auferido o grau de investimento, os juros (Selic) poderiam cair 2% em um ano. Isso quer dizer, dos atuais 12,75% (ou antecipando a reunião de hoje do Copom, 12,5%) para 10,75% em um ano.
Daí outro grande sofisma dos economistas que custam em entender a idéia maior. Não é necessário o grau de investimento para que os juros caiam 2%. Eles podem tranquilamente cair os mesmos 2% sem nenhuma pressão inflacionária como consequência. Poderiam cair até 6% - alcançando 7,75% nominais ao ano - sem pressionar em nada o IPCA. Oportunamente tratarei desses temas.
É evidente que o investment grade é uma ótima pedida para nossa economia. Alguns fundos, inclusive de pensionistas, nos Estados Unidos e na União Européia só são autorizados à investir em países classificados com o grau de investimento, onde em tese, o risco de calote é bem menor. Um estudo do diretor de pesquisa Macroeconômica do Bradesco, Octavio de Barros, indica que o mercado potencial de investimentos em países com esse grau é de US$ 10 trilhões.
Mas o pensamento desvirtuado estraga tudo. Aliás é a mesma relação que se estabelece entre os defensores de um superávit primário maior (maior retenção de gastos para se pagar os juros da dívida) e os defensores de um juro menor, este Blog incluso no segundo grupo. Nisso, o economista do banco JP Morgan, Fábio Akira, foi na mosca: "O governo faz o seu papel no lobby. Mas o país não vai melhorar porque receberá o 'investment grade'. Ele receberá porque a economia melhorou".
18/04/2007 07:00
Mudando um pouco
A cotação do real frente ao dólar subiu oscilou um pouco nos dois últimos dias após o Banco Central (ou Representantes Rentistas, fica ao gosto do leitor) anunciar que deixaria de tornar tão fácil para o investidor (externo e interno, mas principalmente os donos da bufunfa externa) os ganhos na arbitragem nos juros e os ganhos na especulação pela queda do real. Ficou menos fácil.
A principal mudança foi na já alardeada facilidade com que o investidor especulava no mercado futuro (BM&F) contra o real, para auferir ganhos maiores. Ganhava na absurda diferença entre as taxas de juros internas e externas (processo chamado de carry trade) e ainda ganhava comprando contratos de dólar, apostando na queda da cotação.
O real cai pela inundação de divisas que entram pelo carry trade e ainda contava com os contratos "comprados" de derivativos - chamados de swap cambiais.
Mas não se alarme caro leitor. O real não vai deixar de cair, a tendência ainda é de queda. O que o BC fez foi enviar nota ao mercado na sexta-feira à noite dizendo que não mais anunciaria o leilão de contratos de swap cambial reverso com um dia de antecedência. Grosso modo esse tipo de contrato é a compra de dólares em algum momento no futuro - previsto no contrato - sem no entanto entrega física da mercadoria - por isso mercado de derivativos.
Mas o swap reverso não é um instrumento eficaz na contenção da queda do dólar à vista. Isso porque depois de adquiri-lo, o credor desenvolve estratégias destinadas a derrubar o dólar à vista porque a remuneração que o BC recebe no contrato é a variação cambial. Interessa ao banco ganhar toda a Selic e impor ao BC uma perda sob a forma de uma variação cambial negativa. Prova de que o swap reverso não funciona é que há hoje na carteira das instituições um estoque de US$ 12,9 bilhões, nem por isso o dólar parou de perseguir seu objetivo mais imediato de R$ 2,00.
O que houve para essa tênue mudança de postura foi uma conjuntura de fatores. Já alardeado em coluna neste Blog ("Conversa com Delfim" de 11 de abril), estava na hora do BC (ou RR) colocar algum risco no caminho dos investidores. Estava (está ainda, convenhamos) muito fácil. Mais tarde, com a nomeação do novo Diretor de Política Monetária do Banco Central, Mario Torós, expliquei (coluna "Agora... vai?" de 13 de abril) que por se tratar de um operador de mercado, conhece as nuances do negócio.
O novo diretor, seguindo os passos do último diretor "operador", Luiz Fernando Figueiredo na gestão Armínio Fraga (1999-2002), teria mais conhecimentos práticos para mudar um pouco as regras do jogo, sendo assim menos amarrado à teoria. O colunista do jornal Valor Econômico, Luiz Sérgio Guimarães e depois o ex-presidente do BC, Ibrahim Eris (1990-1991) também indicaram que novas medidas poderiam ser tomadas, sem escapar da ideologia "liberal ortodoxo-parcimônica".
Dentre esses medidas, uma que pode ser facilmente levada à cabo é a de não mais marcar hora para se adquirir dólares dos bancos. Atualmente o BC compra, todo santo dia, às 15 horas, os excedentes de divisas dos bancos. Um dia mais, ou dia menos, mas o horário não muda. A idéia seria realizar leilões de compra em horários aleatórios, quiçá dois por dia. Isso colocaria ao menos, uma pontinha de risco no jogo.
18/04/2007 16:27
Kawall agora no setor privado
A gestora de fundos Rio Bravo Investimentos anunciou a contratação de Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional (de abril à dezembro de 2006). Kawall foi também diretor financeiro e de mercado de capitais do BNDES (entre o fim de 2004 e abril do ano passado), Banco de fomento que também é investidor em alguns fundos da gestora.
A Rio Bravo tem como sócios Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central (1997-1999), e Winston Fristch, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. Kawall terá a missão de iniciar e desenvolver a área de fundos multimercados da asset (palavra que denomina empresa gestora de fundos).
Famosa não só pelos nomes de Franco e Fristch, a Rio Bravo atua em fundos imobiliários, carteiras de ações de empresas com boa governança, fundos de participações (private equity) e de recebíveis (FIDCs).
As carteiras multimercados, que serão criadas e geridas por Kawall, atuarão nos mercados brasileiros de bolsa, juros, câmbio e dívida externa. A medida (burra) da CVM de permitir que os fundos multimercados apliquem até 20% de seu patrimônio no exterior é recebida com bons olhos pela gestora. "São mais elementos para diversificar o portfólio e até para reduzir o risco", afirma Pedro Horowitz, diretor e gestor da empresa.
18/04/2007 22:00
Quando do acerto de contas
Em coluna do dia 9 de abril ("Anestesia Cambial") este que vos escreve, anunciou: "Não bastasse o juro estratosférico que "clama" por arbitragem externa, o câmbio sofre um forte ataque especulativo, que deve levar o dólar à valer menos de R$ 2,00 no mais tardar em 10 dias".
Com o fechamento da Bovespa de hoje com o dólar valendo R$ 2,03, resta à este blogueiro retirar de seu quadro de chutes, o desferido na semana passada.
Poderia aqui dizer que foi devido às leves incertezas geradas no mercado de derivativos quando do anúncio da demissão do então Secretário de Política Monetária do BC, Rodrigo Azevedo. Ou que o nome de seu substituto, Mário Gomes Torós, "operador" no mercado de capitais, tenha gerado movimentos menos afobados de inundação de dólares futuros.
Mas não. Errei, admito. Deveria ter contado com o inesperado. Resta, no entanto o aviso: com estes (recém cortados) juros de 12,5%, não há câmbio com suas barreiras psicológicas e tudo o mais, que resista. Mais dez dias?
19/04/2007 07:00
Ansiosa Dicotomia
A dose dupla de anúncios do governo federal forma uma perfeita dicotomia. A definição do economista Luciano Coutinho para a presidência do BNDES e o corte de 0,25% na taxa de juros mostram o quão perdido estamos. Explico.
Coutinho é da famigerada ala dos "desenvolvimentistas", quer dizer, com idéias ao menos contrárias as ultraliberais ortodoxas vigentes há décadas no Banco Central e recentemente expurgada do Ministério da Fazenda. Especialista em política industrial, o novo presidente do BNDES assume o banco num momento chave.
Após um período negro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, comandado por operadores ou teóricos do mercado financeiro, a instituição começou a mudar (ou melhor, à voltar) para características mais inerentes à sua idéia original. Isto é, banco de fomento.
Como banco de fomento o BNDES voltou à atuar nos últimos anos, criando linhas de financiamentos para diferentes setores, contando com um rebaixamento da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) para níveis "civilizados" para 6,5%.
A gestão do agora ex-presidente, Demian Fiocca, foi muito elogiada pela imprensa especializada, e até dentro do governo, mesmo Fiocca sendo um apadrinhado de Guido Mantega, e outro pertencente à ala desenvolvimentista. Fatalmente arranjará algum espaço no governo, senão no próprio ministério da Fazenda, do amigo Guido.
A saída de Fiocca, no entanto, fora amplamente antecipada quando da entrada do novo Ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, que logo na cerimônia de posse do cargo anunciou seu desejo de colocar alguém mais sintonizado com suas idéias. O BNDES é vinculado ao Ministério do Desenvolvimento.
Num primeiro momento Jorge tinha apenas manifestado seu interesse pela saída de Fiocca. Mais tarde anunciou o desejo de colocar o colega de seus tempos no Banco Santander, Gustavo Adolfo Fungia Gurgel. O nome de Gurgel, ligado ao mercado financeiro, não foi bem visto por Lula, que lançou o nome de Luciano Coutinho. Miguel Jorge não foi contra e o anúncio de ontem sela a sorte dos empresários brasileiros.
Isso porque o atual momento industrial nacional, é dos piores. Lembra muito o "quebra-quebra" de empresas no primeiro mandato FHC (1995-1998) quando dos tempos do câmbio fixo em "um para um". A cotação atual de R$ 2,03 é desastrosa e os efeitos de desindustrialização no Brasil são largamente anunciados pela mídia. Não estou sozinho.
A atuação do BNDES nesse segundo mandato Lula será das mais sensíveis, pois deverá ser capaz de aliar o bom senso econômico de instituição pública, com o bom senso nacional de financiar o maior número de setores afetados pelo câmbio além de fomentar tantos outros, como o etanol à base de celulose e os setores de software e tecnologia da informação.
A dicotomia se revelou no anúncio de corte de apenas 0,25% na taxa Selic, agora avaliada em 12,5%. Mesmo que a decisão fosse apontada na totalidade dos meios de comunicação, e os Representantes Rentistas (RR ou o popular Banco Central) são devidamente conhecidos pelos argumentos largamente fora de contexto, o anúncio sempre causa alvoroço. Não é demais lembrar, a permanência da situação como está, câmbio baixo e juro alto, o futuro é dos piores para o Brasil. Nesse sentido resta torcer para que o real alcance logo seu piso (estimado à R$ 1,80) para que haja a eminente desvalorização. Quando mais demorar, mais lenta será a restituição de nossas cadeias produtivas. Se voltarem.
19/04/2007 12:19
Para não perder de vista
A BBC Brasil lançou nota interessante. Ontem, 32 pessoas morreram numa siderúrgica no nordeste da China. O motivo não poderia ser mais trágico. Um recipiente com capacidade de levar mais de 30 toneladas de metal líquido, lotado de aço derretido, se separou da fornalha e partiu ao meio.
Enquanto isso, 32 trabalhadores da fábrica estavam em reunião. O aço derretido percorreu o chão da fábrica abaixo, e atingiu a sala adjacente. A sala da reunião.
No ano passado o governo chinês anunciou gastos de US$ 60 bilhões pelos próximos cinco anos a fim de diminuir as mortes em minas de carvão e locais de trabalho perigosos. Desde 2005 mais de 127 mil pessoas morreram em decorrência de acidentes industriais.
19/04/2007 16:58
O poder dos poderosos
O artigo reproduzido à seguir é do jornalista e professor universitário Hamilton Octavio de Souza:
"A grande imprensa empresarial neoliberal costuma pegar no pé do Poder Legislativo e do Poder Executivo, em especial quando o “governo” não faz exatamente o que manda o receituário do latifúndio, do agronegócio, do empresariado preguiçoso (aquele que quer lucrar muito rapidamente sem risco, sem trabalho e de preferência mamando nas tetas do Estado), do capital estrangeiro e dos interesses gerais das elites e do imperialismo.
Costuma desmoralizar sistematicamente o Legislativo – a Câmara dos Deputados e o Senado Federal –, onde mais de “300 picaretas” mercantilizam os bens públicos e onde estão concentrados os políticos profissionais, os representantes dos ruralistas atrasados, as bancadas das empresas privadas nacionais e multinacionais, os parlamentares eleitos com o dinheiro sujo do narcotráfico e de outras quadrilhas organizadas – e até mesmo alguns representantes honestos do povão.
Mas essa mesma imprensa elitista e conservadora tem procurado preservar e proteger ao máximo a estrutura e o papel desempenhado pelo Poder Judiciário, que é integrado pelos juizes das comarcas, pelos juízes dos tribunais estaduais e regionais e pelos juízes dos tribunais superiores, que concentram o poder de julgar, punir, condenar, mandar prender e mandar soltar, permitir e proibir – tudo aquilo que precisa ser feito em defesa da sociedade brasileira.
Diferentemente dos outros poderes, os integrantes do Judiciário não são eleitos pelo povo, não têm mandato por tempo determinado, não são avaliados pelo mérito e nem submetidos a qualquer controle democrático. Diferentemente dos outros poderes, os integrantes do Judiciário precisam do diploma de curso superior, o que tem sido mais uma garantia para preservar a própria elitização. Os cursos de Direito formam os quadros que o Judiciário dispõe para a aplicação das leis conforme os seus interesses de classe.
O que chama a atenção é que grande parte do Poder Judiciário não demonstra vontade e disposição para combater os crimes típicos das elites, dos ricos, dos poderosos e das grandes quadrilhas integradas por agentes públicos e privados. Nesses casos, o Judiciário tem sido omisso, covarde, conivente e até mesmo comparsa nos crimes praticados. Nos últimos anos, a Polícia Federal desbaratou dezenas de operações criminosas envolvendo empresários em contrabando, remessa ilegal de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha, receptação de carga roubada, corrupção de autoridades etc, mas o Poder Judiciário raramente levou os culpados à condenação e à prisão.
Não é de hoje que pistoleiros e fazendeiros mandantes de assassinatos no campo não são levados a julgamento e condenados, mesmo depois de identificados. Não é de hoje que inúmeros políticos, doleiros e empresários envolvidos em crimes financeiros, como o do Banestado, continuam livres e impunes, mesmo depois de identificados. Não é de hoje que muitos crimes escandalosos envolvendo personalidades são colocados sob segredo de Justiça para proteger os criminosos.
Tudo tem indicado que o Poder Judiciário é o mais comprometido com o modelo econômico excludente e com o sistema político dominante; é o poder que mais pratica a discriminação de classe; é o poder que mais dá proteção aos grandes crimes praticados pelas empresas, bancos e quadrilhas organizadas; é o poder mais omisso em relação aos crimes que corrompem a sociedade, como os jogos de azar, as máquinas caça-níqueis, as casas de bingo, o contrabando e o tráfico de drogas.
Basta lembrar que em todos os crimes praticados pelos ricos e poderosos, nos últimos tempos, foi o Poder Judiciário que colocou os criminosos em liberdade. Muitas vezes o Poder Judiciário emperra os caminhos da Justiça. Os casos da Daslu (contrabando e sonegação fiscal), de Paulo Maluf (desvio de dinheiro público e remessa ilegal para o exterior) e de Edemar Cid Ferreira (golpe de dois bilhões de reais no Banco Santos e roubo de obras de arte), comprovam que a impunidade só tem sido possível graças ao empenho do Poder Judiciário.
Se quiser realmente pegar, punir e acabar com os principais crimes existentes no Brasil, a sociedade brasileira precisa construir um Novo Poder Judiciário, independente, democrático, transparente, soberano e que esteja realmente a serviço do povo e da Justiça."
20/04/2007 07:00
E a Política rareia
O cenário político se encontra estagnado como a muitos anos não se encontrava. Não acontece simplesmente nada. Discutem-se pequenas discussões de um lado e do outro, declarações contra declarações e só. Basicamente não há Política.
Os assuntos políticos do ano (que pode se estender por alguns meses anteriores a janeiro) foram raros, daí terem sido ampla e exaustivamente explorados pela mídia. A reforma ministerial, a reforma política e o chamado "caos" aéreo.
A reforma ministerial se enrolou até o final de março, quando finalmente foram anunciadas as últimas vagas. Na realidade, não acabou ainda, afinal ontem mesmo o presidente Lula anunciou a criação de uma nova Secretaria (com status de ministério) para abrigar o outrora rival Roberto Mangabeira Unger (PRB, partido criado em 2005 ao qual o vice José Alencar é filiado).
São já 36 ministérios, e a nova Secretaria de Ações Especiais de Longo Prazo reunirá o Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) - abandonado desde que o ex-ministro Luiz Gushiken, que cuidava do órgão, foi defenestrado - e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Ipea, como toda e qualquer instituição apresenta ótimos quadros, mas o acúmulo de cabeças de planilha (do grão mestre Fábio Giambiagi) é evidente.
Embora com idéias por vezes extremistas, o filósofo Unger tende à fazer do Ipea um órgão mais alinhado à sua proposta: pesquisa econômica de longo prazo, e não estudos massacrando os gastos públicos e fazendo dos aposentados e pensionistas do INSS e dos trabalhadores que recebem o mínimo, como os grandes culpados.
Mas isso é reforma ministerial. O outro tema, que ao menos por enquanto perdeu participação nos noticiários, é o "caos aéreo". A cobertura maciça cansou e, embora muitos articulistas e algumas reportagens foram muito felizes, a grande maioria da imprensa fez um serviço qualquer. Não é crítica oportuna por parte do blogueiro contra a grande imprensa, de modo algum. Peço aos fiéis 13 leitores que retomem colunas anteriores, em que tratei da crise e da cobertura midiática do caso, para perceber minha opinião.
Por fim o tema final que tomou as editorias políticas é a reforma política. De início parecia que ia. A idéia foi desvanecendo, mudando no “boca-a-boca” entre os parlamentares e hoje, discute-se o fim da reeleição presidencial do pleito de 2010.
Em todos esses parcos três casos a tônica da cobertura foi semelhante. Mas na reforma política ficou mais evidente. Lendo os jornais durante a semana percebe-se a falta de substância que a discussão trouxe. Esta tudo no "disse um, replicou outro, afirmou aquele, treplicou o outro e de acordo com o primeiro". Não é a toa o diagnóstico do Diretor de Redação da Folha de S.Paulo, Octávio Frias Filho, quando disse no início do ano passado sobre a vigente "jurisprudência jornalística".
Claro, os jornais refletem o que acontece em Brasília (outro erro, mas isso é história para outra coluna) e, se não acontece nada em Brasília, não é culpa dos jornais. O momento é propício para uma cobertura técnica no sentido de ampliar a discussão do tema da semana, no caso fim da reeleição. Não se deve nem abdicar do espaço, muito menos inventar fatos (ver comentário "CPI já começou em alguns lugares" de 8 de abril).
21/04/2007 11:50
Resenha de filme
O artigo reproduzido à seguir é a resenha do filme "O massacre da serra elétrica: o início". O texto é do irmão do signatário deste Blog, Luis Felipe Villaverde:
"Embora tenha recebido críticas razoáveis tanto de fãs quanto de críticos (nesse caso os fãs eram os mais difíceis de agradar), o remake do clássico de terror ‘O Massacre da Serra Elétrica’ (lançado em 2003 nos EUA e 2005 por aqui) conseguiu faturar mais de US$ 100 milhões no mundo todo (considerando que o filme foi produzido por estimados US$ 20 milhões). Obviamente, segundo as leis que regem Hollywood somadas as pretensões do produtor espertalhão Michael Bay, não deu outra: uma seqüência deveria ser lançada. Ou melhor, uma ‘prequel’, como neste caso.
Comandada por Jonathan Liebesman, o filme segue uma estrutura semelhante à refilmagem (ou seja, a criatividade estava passando por maus momentos). O filme se passa em 1969, durante a Guerra do Vietnã, quando quatro jovens, dois irmãos e suas respectivas namoradas, atravessam o interior do Texas para irem se alistar para a Guerra. Se existe alguma tentativa de aprofundar esses personagens, ela é em vão. Tábuas de madeira apresentam mais personalidade do que os “heróis”do filme.
Por sua vez os vilões são muito mais carismáticos e divertidos, principalmente graças a fantástica atuação e cativante de R. Lee Ermey, reprisando seu papel de tio de Leatherface. Inclusive este teve seu tempo de tela reduzido para dar mais espaço a Ermey e suas brilhantes improvisações.
O novo filme é inferior ao anterior, que por sua vez é inferior ao original de 1973. O Massacre da Serra Elétrica: O Início está mais nos moldes dos filmes de terror atuais, ou seja, mais violência explícita e desnecessária. O canibalismo desta vez não está implícito, mas sim é atirado no rosto do público. É extremamente recomendável que as pessoas mais fracas de estômago não assistam a esse filme, principalmente devido ao canibalismo e a uma explícita cena que detalha o nascimento do infame Leatherface.
O filme tem alguns pontos técnicos ao seu favor, como por exemplo, a fotografia, que embora continue sendo “estilosa” demais para este tipo de filme, não é, no entanto, ruim. Tons de sépia e terra são acentuados, retratando muito bem o calor penoso do Texas. A direção de arte, por sua vez, está inferior ao original.
Aqueles que realmente se divertem em assistir terror brutal e extremamente explícito estarão à vontade com o novo filme. No entanto, justamente ao fazer isso, o filme escapa da idéia do original de três décadas atrás: assustar o espectador. Recomendável somente aqueles que forem fãs assíduos da série ou que apresentem as qualidades citadas no início do parágrafo."
21/04/2007 17:58
Do it like I tell you
Perturbadora a nota "Sem flash" da coluna Painel, da jornalista Renata Lo Prete, na Folha de hoje:
"Gustavo Fruet (PSDB-PR) apresentará projeto proibindo o porte de celulares em cabines de votação secreta. O deputado diz que isso evitará o que ocorreu na eleição da Mesa da Câmara, quando vários colegas registraram o voto com as câmeras dos aparelhos para provar que não haviam traído acordos"
Sou só eu ou lembra aqueles casos de máfia? Os gangsters (deputados) querem se certificar de que fazem tudo de acordo com o ordenado por seus respectivos chefes (líderes partidários), temendo represálias (diminuição de prestígio ou corte de verbas).
23/04/2007 07:00
Luz no fim do túnel
A parceria entre o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior é uma idéia muito pertinente e, se bem gerida, pode alavancar um ótimo desenvolvimento das variadas cadeias produtivas nacionais no governo Lula 2.
A rigor, a idéia é produzir uma política industrial capaz de contornar os efeitos criminosos do câmbio supervalorizado, que vem promovendo a desindustrualização precoce. O dólar barato não só tornam os produtos exportados mais caros como torna os importados mais baratos. Soma-se a isso a explosão dos importados chineses a partir de 2003 e chega-se à uma clara situação de esmagamento do setor secundário, o que mais gera empregos.
A situação brasileira de "doença holandesa" é evidente e a tendência é morte lenta. Tão lento for a queda do real ao seu piso (estimado em R$ 1,80, para daí desvalorizar-se) tão letal será a morte industrial brasileira.
A "doença holandesa" se caracteriza quando um país se torna forte produtor e exportador de matérias primas (commodities), esquecendo dos outros setores e por conseqüência vivendo as custas dos solavancos de preços internacionais desses produtos. Hoje em alta, por isso situação boa nas contas externas. Amanhã com demanda reduzida por commodities (agrícolas, metálicas ou energéticas), cai superávit da balança comercial, por conseqüência da balança de pagamentos e pronto, sem setores de produtos de alto valor agregado, estamos quebrados.
Daí que essa aproximação entre o recém empossado Luciano Coutinho como novo presidente do BNDES e o novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, ser, ao menos na teoria, absolutamente benéfica.
A idéia é basicamente tornar o BNDES um agente formulador e não só um dos fios de condução. Quer dizer, fazer com que o BNDES tenha uma participação mais forte na definição da política industrial em vez de ser apenas seu agente financeiro. Não que o Banco vá deixar de exercer suas funções financeiras para outros setores que não os industriais como bem vem fazendo nos últimos anos, principalmente a partir das gestões Lessa (2003-04), Mantega (2004-06) e Fiocca (2006-07).
A escolha de Coutinho para o cargo se deu justamente por sua experiência na área industrial, onde atua com sua empresa LCA Consultoria. Outro ponto positivo é a manutenção do atual diretor na área de planejamento do BNDES, Antônio Barros de Castro, principal fiador da mudança de rumo do Banco, que nos últimos anos voltou a atuar como um Banco de fomento.
Na semana passada o Ministro Miguel Jorge esteve com representantes do setor têxtil, um dos principais perdedores dessa política monetária suicida de juro alto e câmbio baixo. Depois de amanhã haverá mais uma rodada de conversas em conjunto com os ministérios do Trabalho e da Fazenda, dessa vez, Jorge estará acompanhado não só dos empresários do setor como também de representantes dos trabalhadores.
A decisão é fazer um trabalho coordenado dentro do governo, tratando dos diferentes setores alijados pelo câmbio (os principais são o setor têxtil, calçadista e moveleiro) e criando políticas de incentivos a outros setores de forma à evitar críticas de que o governo protege apenas um ou outro setor. Novamente, se bem gerida, a idéia tem tudo para dar certo.
23/04/2007 15:13
Bolsas chinesas
A queda no mercado acionário asiático na quinta-feira se deu novamente devido à boatos no governo chinês. Com o anúncio de crescimento de 11,1% no primeiro trimestre do ano, quando se esperava um crescimento menor, gerou "bafafá" de que o governo aumentaria os juros - atualmente em recordes 6,4%.
O movimento mostra que, a parte dos motivos, a Bolsa da China parece demonstrar maior poder no continente. Ainda é pequena, minúscula mesmo, mas cresce (com trocadilho) à taxas chinesas. Nos doze últimos meses o índice CSI 300 da Bolsa de Xangai avançou 177% e quase 50% só no primeiro trimestre desse ano.
Isso porque o dinheiro depositado nos bancos rendem algo como 3%. Como a inflação chinesa ronda valor semelhante (3,3% em março), o saldo da poupança é zero. Logo o investimentos em renda variável se tornam mais atraentes. Mesmo que lá, são poucas empresas listadas em Bolsa e dessas, a maior parte é do governo.
24/04/2007 07:00
A China não consegue parar
O governo chinês anunciou na semana passada que o crescimento econômico nos primeiros três meses do ano foi de 11,1%, contra 10,4% no trimestre final de 2006. Os representantes do Banco Central do país e membros do governo já haviam anunciado a intenção de diminuir o crescimento econômico, como forma de segurar o super aquecimento. Deu o inverso, cresceu mais.
Os movimentos recentes na política monetária parecem não surtir o efeito necessário, pois quando há de fato retração em algum índice, ele é marginal. Por exemplo: o investimento "urbano" em fábricas e na construção civil cresceu 30% no primeiro trimestre do ano passado. Esse ano cresceu 25%.
A idéia é de diminuir o consumo e induzir a poupança. Para isso, apertou-se a política monetária, aumentando os juros para 6,4% ao ano (recorde em oito anos) e o recolhimento compulsório junto aos bancos. Em tese e respectivamente, empréstimo mais caro e menos dinheiro ofertado para crédito. Em tese.
A média mensal de concessão de empréstimos bancários dobrou no primeiro trimestre deste ano em relação a 2006. Lá se exporta muito e se importa muito, com leve vitória para as exportações. O saldo comercial chinês no primeiro trimestre de 2007 foi de US$ 46,4 bilhões. Apenas para comparação, o maior saldo comercial (exportações menos importações) da história do Brasil foi no ano passado: US$ 46,1 bilhões.
A importância dos chineses para o crescimento mundial é cada vez maior. As reservas aumentaram US$ 136 bilhões neste primeiro trimestre, totalizando US$ 1,2 trilhão em reservas - as maiores do mundo. Tudo isso aplicado nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Os chineses são os grandes financiadores do déficit corrente americano. E mais, com suas exportações inundando os mercados mundiais (inclusive o americano), os chineses também são os principais mantenedores do déficit da balança comercial americana.
A explicação de tudo isso passa claro, por uma série de fatores, que não cabe à este artigo discutir. Mas o principal deles é a permanência do câmbio desvalorizado. A moeda local, o yuan, permanece há anos na cotação de um dólar por sete yuans. Por isso a enorme produção escoada mundialmente sob forma de exportação é das mais competitivas. Os mais desavisados, que deixam seu câmbio valorizar-se são pegos de maneira letal pelos chineses. Sim, o nosso caso.
E mesmo com essa relação entre o yuan e o dólar importa-se muito graças à falta de competitividade dos chineses na larga produção de commodities. Aí entra o Brasil, que nos últimos anos se especializou em vender commodities (produtos básicos) para os industriais chineses produzirem produtos. A escalada de preços das commodities acompanhou (e acompanha) a enorme demanda chinesa. Daí os constantes saldos positivos na balança comercial brasileira.
24/04/2007 18:45
Frase da semana
“Parem de ajudar a África.”
Economista queniano James Shikwati, defensor da tese de que a ajuda internacional impede a África de reagir e se desenvolver por meios próprios.
25/04/2007 07:00
E nós não entendemos
O câmbio supervalorizado no Brasil retoma no atual governo, os mesmos sofismas do governo FHC. A coluna de Gustavo Franco na revista Época dessa semana aponta as quatro hipóteses para explicar o câmbio valorizado.
Segundo Franco, os oposicionistas do governo de FHC, classificavam a política de paridade cambial (um para um) de populismo devido a atos e omissões do Banco Central (do qual Gustavo fazia parte). Agora no governo, os petistas (ou os críticos em geral naquela época) adotam a explicação de que trata-se de circunstâncias excepcionalmente favoráveis na economia global.
As outras duas hipóteses são a que alia o real forte ao excessivo conservadorismo na fixação de juros, decorrente de condições fiscais precárias; e uma que vem ganhando adeptos, a de que trata-se de decorrência natural de melhores fundamentos na economia. Entre os adeptos, Gustavo Franco, que deu ao seu texto o título de "O real forte veio para ficar".
Utilizar os juros altos como explicação para as "condições fiscais precárias" é altamente questionável. Pode-se argumentar que os juros altos atraem toda forma de capital, tornando o país mais liquido para manter seus gastos. Mas é ainda mais claro notar que o dinheiro investido para se ganhar com os juros altos é basicamente especulativo e não investimento.
Seja aplicando em títulos de renda fixa, seja pelo Tesouro Direto, o especulador aufere ganhos exorbitantes. A disseminação do carry trade, quando o investidor toma dólares em economias de juros bem baixos (como a japonesa e seus 0,5% de juros ao ano) para aplicar em outras onde a diferença é maior, está aí para exemplificar.
E mais, os juros altos tornam a dívida pública ainda mais corrosiva. Temos a vívida experiência do governo FHC, quando a relação de endividamento sobre o PIB pulou de algo em torno de 30% para mais de 55%. Hoje, está perto dos 45%.
Dificil escrever para leitor esperto, antes da explicação ele já sabe a resposta. Mas insisto. A conta é a seguinte: o governo decide a taxa Selic, que é a taxa de juros que entre outras obrigações, balisa as taxas que o governo se propõe a pagar àqueles que compram seus títulos. Seja um título pós-fixado, atrelado à taxa Selic e suas oscilações, seja um título pré-fixado, com juros determinados no ato da compra.
O Tesouro fechou, na semana passada, a venda de títulos públicos aos investidores internacionais com taxas de 5,88% ao ano, por mais de vinte anos. É isso mesmo, títulos de longo prazo, com taxas civilizadas. A procura foi enorme. Lançaram o equivalente à R$ 500 milhões, mas a procura extrapolou os R$ 2 bilhões. Porque então manter os juros tão altos?
O outro sofisma para explicar a dupla juro alto e câmbio baixo, segundo Gustavo Franco, é "decorrência de melhores fundamentos na economia". Os efeitos deletérios que o câmbio baixo proporciona já foram largamente explorados por este colunista. "Doença holandesa", destruição de cadeias produtivas nacionais, entre outros.
Não é necessária uma maxi desvalorização do real. Quando do câmbio de R$ 2,70, por exemplo, nossas exportações de produtos de alto valor agregado eram imbatíveis nos mercados internacionais. Hoje com o maior desenvolvimento dos chineses - que como apontado na coluna de ontem, mantém a sua moeda superdesvalorizada frente ao dólar - talvez esse patamar nos proporcionasse uma boa briga.
Mas isso é tudo que nos falta. A mínima chance de competir.
25/04/2007 15:37
Todo mundo está falando
O economista Paulo Rabello de Castro, colunista do jornal Folha de S.Paulo acertou na mosca sobre a questão juros-câmbio, em sua coluna publicada hoje pelo jornal:
"A política monetária conduzida pelo BC atrai as divisas estrangeiras ao manter um diferencial permanente na remuneração, favorecendo as aplicações na moeda brasileira".
"Tal diferença de juros acumulou, desde 2003, um ganho de 48% sobre cada real aplicado. mas foi o câmbio, afinal, que mais deu alegria aos aplicadores no paraíso, ao propiciar-lhes um ganho extra de 57% sobre a já descomunal taxa de juros aqui praticada".
"Na soma dos dois ganhos, do diferencial de juros e do câmbio, cada dólar de aplicação aportado no início de 2003 acumulou, até o último mês de março, 2,3 vezes mais do que a remuneração que seria ditada pelo custo alternativo do dinheiro no exterior adicionado ao risco Brasil".
25/04/2007 20:37
Reservas cambiais
Nossas reservas já acumulam quase US$ 120 bilhões, dinheiro que é aplicado, em grande parte, em títulos públicos emitidos por países desenvolvidos, principalmente pelos Estados Unidos.
Em março as aplicações das reservas renderam US$ 402 bilhões ao governo - em 2006, com reservas menores, tiveram média mensal de US$ 200 milhões. Essa rentabilidade entra como receita nas transações correntes, o que ajuda a manter esse indicador no azul.
26/04/2007 07:00
Vote na imprensa
O manual elaborado em 1988 pelo falecido jornalista e professor Perseu Abramo, lançado em livro em 2003, foi relançado em nova edição no final do ano passado como forma de comemoração dos dez anos da criação da Fundação Perseu Abramo. Estabelecida alguns meses após sua morte à 6 de março de 2006, a Fundação formou editora que entre outros já publicou obras de Bernardo Kucinski e Marilena Chauí.
A obra, intitulada "Padrões de manipulação da grande imprensa", se propõe um manual de redação onde o jornalista Abramo aponta as diferentes maneiras de manipulação da notícia por parte dos meios de comunicação. Nada escapa do escopo do autor que analisa as nuances da imprensa escrita, das rádios e da televisão.
Como mencionado, o texto foi escrito durante o governo Sarney, no ano da constituinte, vivendo o fracasso do Plano Bresser (de outubro de 1987), com inflação galopante e crise da moratória internacional. O palco estava posto para que as tensões e diferenças ideológicas ou a simples disputa pelo poder inflamassem a grande mídia.
Segundo Abramo, o reino da objetividade é a informação, a notícia, a cobertura, a reportagem, a análise, assim como o reino da tomada de posição era a opinião, o comentário, o artigo, o editorial. “É fundamental separar e distinguir informação de opinião” reflete Abramo sobre idéia pétrea do jornalismo.
Após a apresentação dos padrões de manipulação da grande imprensa, que não cabe à este artigo reproduzir, Perseu Abramo aponta que os erros da mídia não são involuntários. Sua hipótese de trabalho para o texto é a de que a distorção da realidade pela manipulação da informação é deliberada, tem um significado e um propósito. Para ele a discussão que deve ser feita é a que tenta compreender a razão dos empresários da comunicação manipularem e distorcerem a realidade.
De acordo com o autor, é na lógica política, a lógica do poder que se encontra a explicação da manipulação jornalística. A relação que Abramo estabelece entre os órgãos de comunicação e os partidos políticos é bastante oportuna. “Os órgãos de comunicação deixam de ser instituições da sociedade civil para se tornar instituições da sociedade política” escreveu. Como curiosidade vale lembrar que 1988 é o ano da fundação do maior dos partidos dissidentes do PMDB, o PSDB que se tornaria rival político do PT, que Abramo ajudara a fundar.
O texto de Perseu Abramo permanece tristemente atual, após 19 anos em que o jornalismo decaiu no privilégio da denúncia pela investigação, do simulacro pelo real, processo esse que se aprofundou nos anos 1990 e que ainda parece estar longe de acabar. “A assunção do Estado de toda a comunicação de massa e de toda informação (...) é tão indesejável quanto a propriedade privada dos meios de comunicação. As classes dominadas, portanto, tenderão a lutar pela transformação dos órgãos privados e estatais em órgãos públicos” conclui Abramo
26/04/2007 15:24
Frase do dia
"No Brasil não existe cultura econômica favorável a inovações [...} É uma pena que este país se mantenha tão conservador quando, claramente, poderia inovar".
Edmund Phelps, economista que recebeu o prêmio Nobel de Economia do ano passado.
26/04/2007 16:18
Dupla afiada
Os jornalistas Clóvis Rossi e Janio de Freitas formaram uma grande dupla no jornalismo dos anos de 1970 e 1980 na Folha de S.Paulo. E ambos estão afiados na edição de hoje do jornal.
Correspondente da Folha em Paris, Rossi atualmente cobre as eleições presidenciais na França. Mas o assunto de sua coluna diária no jornal foi sobre o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado anteontem pelo governo.
Sobre a reação dos dois antecessores do atual Ministro da Educação, Paulo Haddad, sobre o PDE, Clóvis Rossi escreveu: "O tucano Paulo Renato elogia a parte relativa ao ensino básico e diz que é 'um verdadeiro plano'. Já Cristovam Buarque (PDT) critica o pedaço que Paulo Renato elogiou"
"Se os especialistas conseguem ver azul onde outro enxerga amarelo, ou vice-versa, fica muito difícil para o resto do público, na grande maioria leigo, entender o que é e para que serve o PDE".
Janio por sua vez faz uma critica sobre a própria Folha. Escreve ele: "Manchete distraidamente ultradireitista, no caderno Dinheiro da Folha de domingo, declarava: 'Benefício social é bomba-relógio fiscal'. Referia-se ao que é gasto com portadores de deficiência e com idosos".
"Um dia talvez o estoque de informação da tecnocrata (citada na coluna como fonte de asneiras contra os gastos sociais) inclua as notícias de que a população brasileira cresce e envelhece, adoece mais porque são mais pessoas com menos assistência, e o crescimento econômico é insuficiente para gerar os empregos que aumentem a arrecadação da Previdência".
Sua conclusão é magistral: "Bomba-relógio é o neo-liberalismo que pratica as receitas neoliberais e recheia uma bomba-relógio que não é a da manchete".
26/04/2007 17:42
Idéia sobre imposto de importados
A elevação da alíquota de importação de produtos dos setores calçadista e têxtil, de 20% para 35%, é um ótimo passo para tentar ao menos suavizar o processo de desindustrialização que ocorre atualmente.
Uma idéia seria usar esse dinheiro extra, proporcionado pelo ganho na arrecadação (de 15% sobre cada produto importado) e repassar esses recursos (que não estavam previstos) para o BNDES como forma de criar linhas de financiamento especiais para esses setores.
Dessa forma além dos produtos importados entrarem um pouco mais caros, as empresas de produção de bens de consumo teriam crédito para financiamento de novas unidades ou ganhos operacionais. Não se deve no entanto confundir financiamento, ou mesmo essa elevação na barreira de entrada dos importados, com subsídios ou proteção à setores desatualizados.
27/04/2007 07:00
Tarifa de importação
A decisão do governo federal de elevar as alíquotas de importação das indústrias de calçados e de vestuários é inclinação acertada de boa política industrial. A elevação foi acertada entre os sete ministros que formam a Camex (Câmara de Comércio Exterior) e já foi aceita pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e provavelmente será pelo Mercosul.
O aumento afeta as importações de calçados e confecções, cerca de 315 itens, cuja tarifa média atualmente é de 20%. É o primeiro aumento na Tarifa Externa Comum (TEC) desde 2000, e o único setor privilegiado com maior proteção tarifária são os automóveis, também de 35%, tarifa máxima do acordo do Mercosul.
Essa primeira inclinação de boa política industrial se dá pelos estragos causados pelo câmbio. Com a crescente valorização do real, desde 2003 (e de maneira mais rápida, a partir de 2004) o setor secundário nacional - maior empregador - sofre processo de desindustrialização. A economia brasileira sofre da "doença holandesa", isto é, produtora e exportadora de matérias primas (commodities) gerando crescentes saldos comerciais, mas destruindo os setores que empregam mais mão-de-obra e produzem com maior valor agregado.
O câmbio baixo torna as exportações mais caras no mercado externo num momento de explosão de produtos chineses, produzidos em larga escala e super competitivos graças ao seu câmbio superdesvalorizado. Como se não bastasse, o câmbio valorizado também torna as importações mais competitivas. Ou seja, não se vende para fora e nem para dentro. Resultado: morte industrial.
Claro, existem outros entraves graves como a elevadíssima carga tributária e a precária infra estrutura, mas mesmo com esses nós, com um câmbio competitivo nossos produtos já são fortes.
Dentre os setores mais atacados pela valorização cambial estão o calçadista e o têxtil. E é para eles essa elevação de 15% no Imposto de Importação. Em 2004 entraram no Brasil 6.319 toneladas de sapatos e 10.929 toneladas de confecções. No ano passado as importações de calçadoschegaram a 45.644 toneladas e as de confecções, a 60.063 toneladas. O Ministério do Desenvolvimento não especificou quanto desse volume veio da China, mas afirma que se trata da grande maioria.
Assim como ninguém do governo citará a China como a grande causa dessa inundação de produtos de ambos setores, que provocaram a elevação da alíquota. Mas é óbvio que são os responsáveis por grande parte.
A Camex elevou a tarifa apenas de confecções e de vestuário, não de tecidos, cuja tarifa média continua em 20%. De acordo com George Tomic, sócio-diretor da Stenville, empresa de beneficiamento de tecidos "a importação da roupa confeccionada é lesiva para toda a cadeia, porque também incorpora as atividades de fiação, tecelagem e beneficiamento".
Matéria de capa do jornal Valor Econômico de ontem ("Capital brasileiro domina indústria têxtil argentina") é elucidativa sobre outra consequência para a indústria nacional. Para as grandes empresas do setor em questão (têxtil) torna-se mais vantajoso partir para outro país, no caso o vizinho, para produção lá. Isso já acontece em outros países, como a China.
Em troca de um câmbio mortal, opta-se por local menos inópto para produção. Isso as empresas que podem. Para as pequenas a morte. A elevação da tarifa veio atrasada e não resolve tudo, mas é um ótimo aceno de atenção.
27/04/2007 14:31
Frase do Dia
"Não há como fugir do fato que política é determinante. Fugir da política equivale a fugir da vida, equivale a bancar a avestruz, enfiando a cabeça na terra para não ver a cavalgada de trambiques que passa por política no Brasil. Equivale a entregar a política a esse pessoal que fez dela caso de polícia"
Clóvis Rossi, jornalista, em sua coluna de hoje do jornal Folha de S.Paulo
27/04/2007 15:13
Reservas ou seguro de queda?
A coluna de Claudia Safatle no Valor Econômico de hoje trata de um tema que começa a receber a importância devida: a compra de dólares por parte do BC para formar reservas cambiais e evitar a valorização do real.
Claudia conta sobre a tese de dissertação de mestrado na PUC/RJ, do economista Felipe César Dias Diógenes - sob orientação do professor Márcio Garcia - apresentada à duas semanas aos ex-diretores do BC, Alexandre Schwartsman e Ilan Goldfajn.
Segundo a coluna, que entrevistou Felipe, a idéia da tese´não é discutir os custos ou os benefícios das compras mas se a intervenção modifica a taxa de câmbio. E a resposta é positiva, quer dizer, para qualquer nível de reservas, a compra de divisas afeta sim a taxa de câmbio.
As estimativas sobre os efeitos de uma intervenção de compra de US$ 1 bilhão oscilam entre uma depreciação de 0,25% a 0,65%. Já os efeitos das intervenções de venda variam entre uma apreciação de 2,1% e 0,48% por US$ 1 bilhão.
De acordo com a coluna de Claudia Safatle, "Diógenes usou como base de dados do trabalho as intervenções cambiais no mercado de dólar à vista e emissões de swaps cambiais no período de 5 de março de 2003 a 31 de outubro de 2006, com o registro de 942 observações; os leilões de dólares à vista; e as emissões de swaps cambiais. No mesmo período a taxa de câmbio nominal se apreciou em 40%, passando de R$ 3,56 para R$ 2,14". Segundo o defensor da tese, se não houvesse nenhuma intervenção do BC no primeiro governo Lula, o dólar estaria valendo R$ 1,80.
Esterelização
A desvalorização do dólar e consequente valorização do real é basicamente a inundação de dólar na economia brasileira, que tornam a moeda americana mais "fácil de ser encontrada", portanto mais barata. Por sua vez o real se torna "mais difícil de ser encontrado", portanto mais caro. Por isso são necessários cada vez menos reais para se comprar um dólar.
Quando o BC intervém, ele retira dólares e coloca reais. A compra resultaria em expansão da base monetária (mais reais na economia), mas o BC estereliza a expansão com venda de títulos públicos. Portanto a taxa de juros básica não se altera.
Daí que ao invés de lastrear sua compra de dólares emitindo reais, o BC esterelizando através da emissão de títulos públicos, está na realidade se endividando mais. Até porque, com esse diferencial enorma nas taxas de juros, o endividamento é ainda maior.
28/04/2007 23:12
Frase do dia
Com Lula na Argentina, que respira a sucessão presidencial; Chávez e seu projeto do Banco do Sul; Evo Morales à volta com a Petrobras; o governo do Equador mandando o Banco Mundial às favas; entre tantas outras questões discutidas internamente ou entre países da América Latina, não é a toa que a frase do dia seja sobre o tema.
“O populismo é a grande contribuição que a América Latina deu à ciência política. A outra é a tequila.”
Cientista político, economista e ex-ministro das Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda.
29/04/2007 12:59
Transações correntes março -06/07
Uma análise das contas externas brasileiras com os dados consolidados do mês de março de 2007 dá vazão ao boom das importações graças ao real supervalorizado. A idéia é comparar as contas externas de março desse ano com o mesmo mês do ano passado (2006):
A conta de juros diminui muito. Em 2006 foram gastos US$ 882 milhões no mês de março. Em 2007 ano foram US$ 589 milhões. Ainda irracional, sem dúvida. O envio de lucros e dividendos aumentou de US$ 1,238 bilhões para US$ 1,469 bilhões. A rúbrica de viagens internacionais sofreu alteração de 100%, de US$ 39 milhões para US$ 87 milhões - outra consequÊncia do real mais valorizado.
Com isso o Balanço de serviços e rendas (que inclui, além de juros, viagens internacionais, lucros e dividendos, os gastos com transportes, seguros, despesas governamentais e outros) aumentou de US$ 2,759 bilhões para US$ 2,851 bilhões. A Balança de serviços e rendas vale com o sinal de menos na somatória de Balança comercial e transferências unilateriais.
A Balança comercial é a diferença entre exportações e importações. As exportações em março de 2006 foram de US$ 11,366 bilhões. No mesmo mês de 2007 foram de US$ 12,855 bilhões. Pequeno aumento, condicionado pela forte diminuição nas vendas de manufaturados e persistentes aumentos de commodities (produtos básicos).
Já as importações aumentaram muito. Saíram de US$ 7,706 bilhões para US$ 9,532 bilhões. Com isso, a Balança comercial do mês de março caiu de US$ 3,660 bilhões do ano passado para US$ 3,324 bilhões neste ano.
As transferências unilateriais tiveram pequena diminuição. De US$ 379 milhões para US$ 345 milhões.
Somando os valores da Balança comercial com as Transferências unilateriais, subtraindo o Balanço de serviços e rendas o Saldo em transações correntes de março de 2007 foi de apenas US$ 817 milhões. No ano passado foi de US$ 1,281 bilhões.
Claro esses números equivalem apenas ao mês de março, e são contestados pelos números preliminares do mês de abril de 2007, em que a demanda pelos produtos primários e semi-manufaturados brasileiros foi maior que em abril do ano passado. Daí que nossas exportações em abril foram vistosas.
30/04/2007 00:00
Imagem da Semana
São Paulo 4 x 2 Universidad do Chile - Libertadores 2005 - Foto: João Villaverde
Fugindo da habitual imparcialidade que tento imprimir à este Blog, lanço mão de torcida virtual para vitória são-paulina no confronto contra o Grêmio, pelas oitavas-de-final da Copa Libertadores da América. O primeiro jogo será na quarta dia 02 de maio no Morumbi e o segundo jogo na quarta seguinte, no Olímpico (RS).
Vez ou outra entro no campo esportivo (basicamente futebol ou Fórmula 1), tentando sempre não elogiar demais o time para o qual torço. Mas não se alarme caro leitor.
Peço licença. Será só dessa vez.
30/04/2007 07:00
Octávio Frías de Oliveira
O "Jornal das Dez", da Globonews, canal de televisão à cabo das Organizações Globo, terminou em silêncio após a última notícia de sua edição de hoje. Em respeito à morte de Octávio Frías de Oliveira, dono do Grupo Folha. As edições dos jornalões de hoje (e durante a semana) serão cobertas de imagens e retrospectivas sobre o empreendedor falecido.
O empresário aquiriu a Folha da Manhã no final de 1962, e a partir de então tratou de dar ao jornal quase falido, uma nova cara. Desde cedo o veículo se caracterizou por mudanças firmes, fosse no campo visual, fosse no campo do conteúdo, com frequência.
O jornal mudou de nome, e a partir de meados dos anos 1970, principalmente a partir de 1977, a Folha de S.Paulo, passou a ser a vanguarda do jornalismo impresso no Brasil. Claro, diria o mais atento, coincidiu com a maior flexibilização da ditadura militar, comandada pelo presidente Ernesto Geisel.
O grande ponto chave do jornal de Frías foi a cobertura dos anos finais de Figueiredo, último presidente militar. A partir de 1983 (antes de todos os outros) a Folha de S.Paulo passou a dar vazão ao misto de sentimento de mudança da população. A anistia e a ascensão dos sindicatos de trabalhadores em 1979, a liberalização partidária de 1980, a ampla vitória oposicionista nas eleições para governadores em 1982, fez com que a ditadura (já sensibilizada pelos próprios militares e pela crise econômica) saisse da moda.
Parece claro que, os meios de comunicação, como se espera, espelhacem essa virada. Não foi bem assim. Alguns viraram só com a emenda Dante de Oliveira. Outros só com o drama de Tancredo de 1985. Nenhum em 1983.
Essa tomada de decisão editorial fez com que a Folha saísse do retorno civil à presidência da República como o jornal mais vendido do país. O slogan "o maior jornal do Brasil" foi largamente utilizado - e é até hoje.
Desde então tudo que ocorresse no Brasil, era a opinião da Folha que as pessoas viam primeiro. O pioneirismo de estabelecer a figura do ombudsman, no final de 1989 (Caio Túlio Costa) não foi seguido por nenhum outro. Ponto para Frías.
Infelizmente os anos 1990 e principalmente os últimos anos têm sido muito cruéis ao jornal. Por culpa do próprio jornal. Hoje não se percebe diferença entre os principais "jornalões". O "escândalo do mensalão" de 2005 e as eleições do ano passado fizeram essa situação mais evidente.
Deve-se discutir sim o presente, apontando os erros e relembrar o passado. Deve-se lembrar também que o homem em questão, já não exercia muitas funções (do alto de seus 94 anos) diretivas. Seus filhos que cuidam do jornal, e já não é de hoje.
30/04/2007 14:30
Rompe os R$ 2,00?
Trecho de coluna para o site Diarionet, do antigo diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Emilio Garofalo Filho:
"O impacto na taxa de câmbio tem sido diluído, visto que grande parte das compras no exterior se faz com amparo em financiamentos de médio e longo prazos, o que adia a demanda de moeda estrangeira, em movimento inverso ao dos exportadores que, sistematicamente vendem mais câmbio do que os valores efetivamente exportados, em um movimento claro que antecipação de oferta de moeda estrangeira. Assim, como se não bastasse a abissal distância entre o valor exportado e o valor importado, no que diz respeito a ingresso efetivo de moeda e sua demanda, o efeito é potencializado por esse fato: exportadores antecipam vendas e importadores postecipam compras de moeda. Assim, a taxa de câmbio caminha para romper para baixo a marca de 2 reais por dólar, caminho inverso do que fizera no longínquo 1999, quando pela primeira vez rompeu a marca de 2 reais (para cima) e depois recuou".