01/05/2007 15:04
Frase do dia
"Meus principais rivais não são a C&A ou a Riachuelo, mas sim as empresas informais".
José Galló, presidente das Lojas Renner
01/05/2007 15:28
1º de maio
Dentre todas as ocupações possíveis do feriado de 1º de maio, nenhuma toma mais importância para este que vos escreve, do que aproveitar para lembrar do ídolo Ayrton Senna da Silva, morto neste dia em 1994.
Aproveito para folhear as dezenas de revistas que guardo com suas imagens. Algumas "chapinhadas" em sebos espalhados por São Paulo, outras adquiridas quando de seu lançamento.
Leio trechos especiais das várias obras biográficas que tenho. Uma delas "Ayrton Senna do Brasil" de Francisco Santos é provavelmente o marco zero de minha vida no campo da literatura. Lembro do exato momento que pedi ao meu pai que me comprasse o livro. Até então todos os meus livros eram de colorir ou didáticos da pré-escola. Lembremos, era 1994, e eu, estava na primeira série do primário, com 7 anos.
Gasto meu tempo também manuseando as centenas de recortes que tenho do Ayrton. Se hoje seu nome anda ausente das matérias, houve uma época que qualquer coisa em seu nome era notícia publicada (mesmo depois de sua morte). Até onde minha mesada permitiu, comprei tudo.
E termino meu feriado tendo em mãos os vários (não é força de expressão) "carrinhos", ou réplicas, dos carros guiados por Senna na Fórmula 1. Minha fascinação por ele gerou fascinação por quase todos seus contemporâneos no automobilismo. E a regra era fácil: quanto mais próximo fosse o outro do Senna, mais eu gostava dele. Daí minha escolha por Gerhard Berger como segundo maior piloto da história da Fórmula 1. E isso não se discute.
Senna foi um dos meus primeiros heróis. Descobri Senna ao mesmo tempo em que descobri Batman e Homem Aranha. Os heróis são parte de você. São pequenas partes do seu eu. Concluo esse feriado ainda mais feliz comigo mesmo. Afinal, os heróis não morrem.
02/05/2007 07:00
Combustível para os sofistas
Para os sofistas de plantão, ávidos por defender uma maior retenção de investimentos por parte do governo para pagar os juros da dívida a matéria do caderno Dinheiro da Folha de ontem foi um prato cheio. Seu título: "Arrocho fiscal cai e eleva dívida pública".
De acordo com o texto, o superávit primário (economia que o governo faz para pagar os juros da dívida) obtido por União, Estados, municípios e estatais em março, ficou em R$ 7,138 bilhões. O valor equivale a pouco mais da metade do valor apurado em março de 2006, que havia sido R$ 13,17 bilhões.
Não estou aqui defendendo as políticas fiscais do governo. Se o superávit primário deveria ser maior ou em valor equilibrado mensalmente. A questão não é essa. Quero mostrar como algumas matérias se sustentam por dados que não necessariamente são os mais importantes, dando corda àqueles que defendem uma tese, e não os fatos.
A própria matéria em determinado ponto afirma que "entre janeiro e março, o resultado acumulado foi de R$ 27,3 milhões. Nessa comparação, o resultado deste ano supera os R$ 21 bilhões registrados nos três primeiros meses do ano passado".
Ou seja, em 2007, o governo reteve mais gastos e investimentos nos dois primeiros meses, liberando mais em março. Mas o resultado do trimestre é maior do que no mesmo período do ano passado.
Com a mudança do IBGE no cálculo do PIB, que passou a ser maior do que o imaginávamos, a antiga conta de que o superávit primário deveria equivaler a 4,25% do PIB foi revista. A idéia é lógica. Com o PIB maior, os mesmos 4,25% equivaleriam a uma contenção de gastos (em sua maioria investimentos cruciais) ainda maior e insuportável para o país.
O que se decidiu foi manter o superávit no mesmo valor nominal (e não percentual) alcançado no ano passado. Ou seja, R$ 95,9 bilhões. Assim, se precisamos alcançar o mesmo valor de 2006, o primário do primeiro trimestre de 2007, por ser R$ 6,3 bilhões maior que no ano passado, é melhor.
Mas repito: o superávit é melhor naquilo que o governo se propõe a fazer. Isto é, contingenciar dinheiro para pagar os encargos de sua dívida pública, que equivale a 45% do PIB, ou R$ 1,088 trilhão.
De fato o arrocho fiscal caiu e por conseqüência a relação endividamento/PIB aumentou. Mas isso apenas no mês de março. No geral, no trimestre, o arrocho fiscal é ainda mais rigoroso que no ano passado.
02/05/2007 14:25
O outro lado
Na coluna da última segunda-feira "Octávio Frías de Oliveira" contei um pouco sobre a atuação de seu jornal Folha de S.Paulo no período da repressão militar. Escrevi que o jornal passou a apoiar os movimentos populares pelas Diretas no ano de 1983, muito antes de todos os outros meios de comunicação.
Recebi por e-mail, ontem, mensagem do jornalista e professor universitário, Hamilton Octávio de Souza, ex-jornalista da Folha, justamente do período 1983 à 1986. Em seu texto, Hamilton apresenta uma outra visão para as posições do jornal naquele período. Transcrevo à seguir trechos de sua mensagem:
"A Folha de S. Paulo foi tão fiel à ditadura que jamais teve censores em suas redações e gráficas, como em outros jornais e revistas. A autocensura do jornal atendia perfeitamente os interesses da ditadura. O apoio da Ditadura ao grupo Folha fazia sentido porque o Estadão, da família Mesquita, desde o AI-5 (1968), tinha decidido fazer oposição ao regime, e a Ditadura queria fortalecer em São Paulo um jornal concorrente e submisso."
"A campanha das diretas foi uma iniciativa do PT, em 1983. Tanto é que o partido organizou um grande comício no Pacaembu, em outubro de 1983, para o qual foram convidados inúmeros movimentos sociais e organizações políticas. Vários partidos existentes na época (PMDB, PTB e PDT) mandaram representantes para esse comício. Logo depois, os jornalistas da Folha de S. Paulo escreveram um documento (abaixo-assinado) apoiando a luta pelas diretas e praticamente toda a redação do jornal havia assinado o documento. Esse abaixo-assinado foi levado ao dono do jornal, Otávio Frias, que concordou em abrir as páginas do jornal para a campanha, publicou editorial apoiando a defesa da emenda Dante de Oliveira, que seria votada no Congresso Nacional. Na verdade, quando a Folha entrou na campanha, ela já estava nas ruas, e foi por pressão da redação. O jornal transformou a campanha das diretas no seu próprio marketing para aumentar vendas e se tornar o porta-voz da "sociedade civil" empenhada na democratização do País."
"É muito estranho que o atual presidente da República, que conhece bem essa história toda, tenha declarado no velório do empresário Otávio Frias que a campanha das diretas não teria existido sem ele. Ou o presidente da República está sofrendo de amnésia ou está querendo atribuir aos poderosos (empresários, elites etc) a glória de uma luta que pertence ao povo brasileiro."
02/05/2007 16:47
Sofistas x Monotemáticos
Os sofistas cederam no argumento de que o câmbio como está é bom. Ainda associam o câmbio supervalorizado ao "sucesso de nossa balança comercial", quer dizer, "o real forte é reflexo do sucesso comercial" ou "da melhora dos fundamentos da economia".
Enfim, derrotada a primeira idéia fixa, - de que o câmbio baixo é bom - agora os ortodoxo-rentistas adotam outro sofisma: que o Banco Central está fazendo o que pode para estabilizar a cotação do real frente ao dólar.
Argumentam que ao comprar o excesso de moeda no mercado à vista, e atuar no mercado de derivativos futuros, é a forma adequada limite que nossa autoridade monetária tem para atuar em política cambial.
Errado. Frente ao fluxo de moeda que entra, o processo de adquirir dólares através da emissão de títulos públicos - processo de esterelização - apenas enxuga gelo. Tanto é que o real está apenas se segurando na cotação de R$ 2,02.
A forma mais simples de rever o problema são os cortes nos juros. Mas não nessa parcimônia intríseca do BC, mas sim cortes vigorosos. Para enfrentar os sofistas, só os monotemáticos.
03/05/2007 20:49
Problemas técnicos
Peço perdão aos 13 leitores deste espaço por não contarem com a coluna de hoje, ou qualquer comentário durante o dia. Não é costume deste blogueiro passar a batata quente, mas não tive pleno acesso à pagina do iG, que dá acesso ao meu Blog.
Consegui agora, com a quinta 3 de maio encaminhando para seu fim. Antes tarde do que nunca voltamos a carga normal desde já. E espero que esteja tudo totalmente restabelecido a partir de amanhã.
03/05/2007 21:54
Os industriais paranaenses
A sempre muito atuante Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) encontrou na figura de Rodrigo Rocha Loures, atual presidente, a figura ideal para se posicionar frente ao governo federal e seus órgãos, especialmente o BNDES, para formar a melhor política industrial possível para seu Estado.
Além de pleitear uma política industrial e de desenvolvimento tecnológico especial ao Paraná, Rodrido Rocha lançou a terceira edição da Agenda Legislativa do Paraná. Essa agenda consiste em mostrar aos parlamentares da Assembléia Legislativa do Estado, as opiniões do empresariado do setor, sobre as leis que estão tramitando.
04/05/2007 07:00
Endividamento dos Estados
As discussões acerca da meta fiscal da União e dos Estados estão longe de terminar, mesmo arrefecendo nos últimos dias. Por um lado os Estados pleiteiam um aumento do teto de endividamento, por sua vez o governo federal - que já tem o Orçamento praticamente todo amarrado, principalmente com o superávit primário - não devem perder receita.
O início dessas discussões data ainda do ano final do governo Itamar Franco, 1994, quando os tucanos e economistas da Casa das Garças implantavam o Plano Real. Naquele ano, o governo Itamar (já totalmente respondendo apenas ao Ministro da Fazenda e futuro presidente Fernando Henrique Cardoso) renegociou a dívida externa.
Entra as várias medidas adotadas, dentre elas, a emissão dos títulos bradies, houve também, por parte dos Estados, um depósito que funcionaria como garantia aos credores da dívida.
Depois, a lei nº9.496, de 1997, orientou a reestruturação das dívidas dos Estados, estabelecendo que a relação dívida/receita seria de um para um. Ou seja, o Estado só poderia contrair dívidas que equivalessem aos valores de receita de um ano.
Mais tarde, em 2001, foi fixada a Lei de Responsabilidade Fiscal, que foi amplamente focada em fixar parâmetros para o governo federal, como forma de tornar o aumento do gasto público factível, quer dizer, que não fosse desenfreado.
Essa mesma Lei também tocou nos Estados, ampliando o teto de endividamento em 100%. Quer dizer, os Estados poderiam se endividar em valores equivalentes à dois anos de receita. Mas isso só seria aplicado após o término dos contratos de reestruturação das dívidas (a lei de 1997), ao qual 25 Estados assinaram. Dentre os pontos positivos dessa Lei está o que manda constituir um conselho de gestão fiscal para definir o que gasto com pessoal.
O ministro Guido Mantega foi sincero: "O impacto (desse aumento do teto de endividamento permitido) nas contas do governo seria grande porque, se aumenta o gasto estadual, diminui o superávit primário deles, que é de 1,1% e vai cair para algo como 0,9%. Se eles gastam mais, temos de gastar menos".
Segundo cálculos da equipe econômica do governo, se aprovada a proposta dos governadores, São Paulo teria espaço para aumento adicional da dívida de R$ 6,5 bilhões, o Rio de Janeiro, de R$ 7 bilhões e a Bahia, de R$ 14 milhões. No total a conta seria de algo como R$ 140 bilhões.
A idéia do governo federal é particularizar as discussões com cada governador e ceder no que for possível. Mas o aumento do endividamento é algo que está fora de questão. Daí a proposta de Aécio Neves (PSDB-MG) da concessão, por parte do governo federal, de aval em operações de empréstimo externo - em tese, de quitação no longo prazo e juros menores. Outra proposta do governador é a liberação das garantias que os Estados depositaram quando da renegociação de 1994.
Mas o Rio Grande do Sul é o Estado que apresenta a situação mais fragilizada. Com dívidas de R$ 33 bilhões e previsão de receitas de R$ 12 bilhões, gasta 18% da receita com o pagamento de juros. Sua relação dívida/receita é de 2,5. A governadora Yeda Crusius (PSDB-RS) pede autorização para negociar uma operação financeira com o Banco Mundial para reestruturar suas dívidas, com o objetivo de reduzir os encargos, com juros menores, o que é permitido pela LRF. Ainda assim, Yeda é contra o aumento do teto de endividamento dos Estados.
04/05/2007 15:05
Suspiros das grandes
A frase do dia 1º de maio foi do presidente das Lojas Renner, José Galló. Galló afirmou que seus principais rivais não são a C&A ou a Riachuelo, mas sim as empresas informais.
Mesmo se nossa fiscalização não tenha melhorado, com certeza a empresa, soube usufruir melhor do aumento da demanda nos primeiros três meses desse ano. No período janeiro-março de 2007, a Lojas Renner registrou um lucro líquido de R$ 16,7 milhões, um aumento de 24,6% sobre igual período de 2006. A receita líquida cresceu em 23,6%, atingindo R$ 310,2 milhões.
Não necessariamente um aumento na quantidade vendida, mas sim no processo de agregação de valor, daí o aumento na receita. Mas diferente do que os ortodoxo-rentistas afirmam, que contra esse câmbio baixo as empresas devem inovar, isso não é viável no médio prazo. As grandes empresas podem arcar, as médias e pequenas sofrem e com o tempo desaparecem. A frase do ex-presidente do Ipea, Glauco Arbix, de que só as empresas inovadoras sobrevivem é um sofisma equivocado. Não há inovação para quem não pode pagar, assim como não há inovação que resista aos importados baratos - e/ou subfaturados.
05/05/2007 12:15
Jornalistas no futebol
A entrevista do técnico do São Paulo F.C., Muricy Ramalho, ao repórter Luciano Borges do Terra Magazine, está sensacional. Não é de hoje que Muricy chama a atenção como profissional. Sua aplicação à profissão é fora do comum, e não é exagero compara-lo à Telê Santana nesses aspectos.
No ano passado, após perder a decisão da Copa Libertadores para o Internacional de Porto Alegre, o técnico não perdeu seu carisma com a torcida - e mais importante, com os comentaristas esportivos. Ditos formadores de opinião, começaram a atcar o técnico após os resultados negativos. Foram três seguidos: Boca 2 x 1 São Paulo, São Paulo 0 x 0 Corinthians e São Paulo 2 x 2 Boca Juniors. Após esse segundo confronto com os argentinos, todos os comentaristas clamavam pela degola do treinador.
A diretoria do São Paulo acertou em segurar a pressão, e Muricy foi mestre em não se abalar. Sabia que era passageira. No domingo seguinte o São Paulo venceu o mesmo Internacional por dois a zero, pelo Campeonato Brasileiro. Dois meses depois se sagraria campeão.
Hoje parece heresia criticar Telê. A própria torcida do São Paulo pensa assim. Como sempre, a falta de memória jornalística - não é por má-fé, é ignorância jornalística, de privilegirar o presente apenas - esquece o período de 19 de fevereiro/11 de março de 1992.
"Ah, aquele Sâo Paulo do Telê de 92 era fora de série" diria o comentarista. Era. Mas naquele período, o São Paulo acumulou 5 derrotas: Para o Flamengo por 3 a 2, para o Guarani por um a zero, para o Criciúma (pela Libertadores) por 3 a zero, para o rival Palmeiras por 4 a zero e para o Internacional por um a zero.
Nesse perído, todos os "jornalistas esportivos", ditos especializados, eram a favor da demissão de Telê Santana. A torcida ia na onda, e vaiava o treinador. Apenas 3 meses antes o mesmo São Paulo treinado pelo Telê havia conquistado o Campeonato Paulista numa final contra o Corinthians, diante de 106.142 torcedores, maioria absoluta de corinthianos. Alguns meses antes, tinha sido Campeão Brasileiro em final contra o Bragantino de Carlos Alberto Parreira.
Novamente a diretoria tricolor (que naquela época era formada pela atual oposição), acertou em resistir a pressão, e Telê foi mestre em não se abalar. O São Paulo conquistou a Libertadores (nos pênaltis contra o Newell's Old Boys), os torneio Tereza Herrera (4 x 1 no Barcelona, campeão europeu) e Ramon de Carranza (4 x 0 no Real Madrid), o bicampeonato paulista (contra o Palmeiras da Parmalat) e o Mundial (contra o dream team do Barcelona). Isso, só em 1992.
Na entrevista Muricy diz que "não pode dar opinião sem pelo menos checar uma informação antes. Hoje, o cara que do microfone tem solução pra tudo". A entrevista pode ser acessada no link: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1593944-EI6615,00.html
06/05/2007 07:00
Das redações ao Congresso: a CPI
Quase um mês depois do deslize (proposital) do jornal O Globo, a CPI do Apagão Aéreo foi instalada na Câmara de Deputados. Comentei a respectiva matéria em comentário no mesmo dia, sob o título "CPI já começou em alguns lugares". O link para o texto é http://z001.ig.com.br/ig/37/02/969026/blig/joaovillaverde/2007_04.html#post_18819096.
Imagine, caro leitor, se essa CPI não fosse instalada. Como reagiria o jornal? Pior: como reagiria o leitor d'O Globo? Para ele a CPI já estava plenamente instalada e funcionando desde, pelo menos, o dia 8 de abril. Se não fosse instalada, o leitor ficaria indignado com seu jornal, ou seu governo?
06/05/2007 21:27
Pensar antes não dói
A matéria de capa do caderno Dinheiro da Folha de hoje pode ser resumida da seguinte maneira:
A matéria tem como título "Apesar de câmbio, indústria gera emprego", ocupa três páginas e é baseada num levantamento de Octavio de Barros, diretor de pesquisas macroeconômicas do Bradesco, e eterna fonte do jornal. O mote do estudo de Barros é constatar se há tendência de destruição de empregos na indústria.
O resultado é que entre 2005 e o ano passado (portanto o estudo se baseia em um período de um ano apenas), "71 segmentos criaram vagas de trabalho formais, contra 14 que fecharam".
No desenvolver da matéria, além de apresentar o estudo, são entrevistados Octavio de Barros, Glauco Arbix (ambos com cadeira cativa) e Fábio Dória Scatolini (da Universidade Federal do Paraná) que serve como um "suave contraponto" aos argumentos dos outros dois (e da matéria como um todo).
Após todo o desenrolar, no finalzinho da última das três páginas, um trecho se sobressai: "Os dois lados, porém, destacam um lado positivo da indústria brasileira, fruto de um período de economia fechada: entre os emergentes, é o país que tem a indústria mais diversificada". Certo. Mas logo em seguida, o que mata: "O problema é que, numa fase de transição como hoje, a adaptação para alguns setores é mais dolorosa do que para outros".
A pergunta que fica é a mesma de sempre (podem me chamar de monotemático): pois se temos a indústria mais diversificada, e isto é visto como um lado positivo, então porque passar por uma transição que prejudique boa parte deles? Por que depender apenas de produtos básicos, se temos "a indústria mais diversifica entre os emergentes"? Será que alguém, antes de fazer um estudo desses, ou de publicar uma matéria dessas, ou que seja, não se pergunta antes o que é de fato mais importante?
07/05/2007 07:00
Mar de idéias
O primeiro presidente do Banco Central no período da Nova República, Antônio Carlos Lemgruber, foi "ressuscitado" recentemente pelas editorias de economia de alguns jornais, como fonte para tratar de política monetária.
Passou a "vez ou outra" contribuir para a Folha de S.Paulo. No último sábado, o jornal publicou em seu caderno Dinheiro, um artigo seu, reproduzido no Jornal do Brasil: "Bom demais para ser verdade". Nele, Lemgruber produz uma coletânea dos temas mais falados, sobre uma ótica diferente.
Uma constatação do economista é inteligente até certo ponto: a melhor taxa de juros para a inflação é a pior para o crescimento e a taxa de câmbio real. Não necessariamente. Os juros como estão (12,5% a.a.) estão pelo menos 3% acima do necessário. Em momento mais oportuno mostrarei que, na realidade, nossos juros poderiam estar em 6,5%.
Lemgruber comenta sobre a atual (iniciada no Plano Real, seguida à risca até hoje) política de emissão de títulos públicos sem lastro - para cobrir o déficit nominal governamental. "A compra de dólares sem emitir reais requer a venda simultânea de títulos públicos". É a chamada esterelização, processo explicado em coluna na semana passada. Com essa política macroeconômica de taxa de juros fixa e câmbio flutuante, não acontece nada: dólares continuam a entrar atrás dos juros altos e a esterelização apenas aumenta o déficit do governo.
"Chegou a hora de anunciar uma banda cambial de 50%, entre R$ 2 e R$ 3, além de emitir moeda, se necessário, para comprar moeda no piso (...) e deve-se corrigir a taxa de juros de dois dígitos" anuncia o ex-presidente do BC.
A emissão de moeda deve ficar limitada à compra de dólares (como no padrão-ouro), concomitante à um ajuste fiscal com redução de despesas e déficit zero. "O simples anúncio do piso tornará desnecessária a emissão monetária e destruirá o ataque especulativo, ao definir que - a partir de R$ 2 - só poderá haver desvalorização da moeda”.
Ainda na maré das idéias sensatas, o colunista do Valor Econômico, Luiz Sérgio Guimarães, apresenta uma proposta de operação do BC para corrigir a atual taxa supervalorizada do real. Para ele, deveria deixar o dólar cair ao seu ponto de equilíbrio - para os analistas, sem as intervenções do BC, o dólar estaria entre R$ 1,60 e R$ 1,80 -, para logo em seguida cortar a Selic em 2,5%.
A taxa de juros de 10% seria suficiente para elevar o dólar para R$ 2,30. Segundo Guimarães "a alta - de R$ 1,80 para R$ 2,30 -, de 27,8%, equivalente a uma maxidesvalorização cambial, anularia todo o ganho proporcionado pela Selic e ainda imporia uma perda nominal de 16,2% aos especuladores".
O economista da PUC-Rio, Márcio Garcia, foi citado como fonte nas duas colunas, de Luiz Sérgio Guimarães e de Antônio Carlos Lemgruber, e desponta como contraponto ao pensamento hegemônico da Casa das Garças. Escrevi sobre Garcia comentando sobre outra matéria (de Cláudia Safatle no caso) em que o economista era fonte. O texto, de 27 de abril, pode ser acessado clicando aqui:
http://z001.ig.com.br/ig/37/02/969026/blig/joaovillaverde/2007_04.html#post_18836351
07/05/2007 13:53
Idoso chefe de família
Notícia vinculada agora, na página principal do Terra: Segundo pesquisa (da Fundação Perseu Abramo) 71% dos idosos (com 60 anos ou mais) se consideram chefes de família.
"Entre os homens, a taxa de chefes de família cai com a idade: de 90% dos 60 aos 69 anos, a 77% com 80 anos ou mais. Entre as mulheres, a taxa cresce com a idade: de 52% dos 60 aos 69 anos a 72% entre as que passaram dos 80 anos".
"As fontes de renda predominantes entre os homens idosos são a aposentadoria por tempo de serviço (39%) ou por idade (28%); entre as idosas a aposentadoria por idade (28%) e pensão por morte (26%)".
Agora vem esses economistas cabeças de planilha (royalties para Luis Nassif) de órgãos, inclusive do governo - como o Ipea - dizer que o Brasil deve, antes de cortar os juros, cortar os gastos públicos, a começar pelos previdenciarios. Cospem regras como aumento da idade mínima, fim dos benefícios sociais aos que nunca contribuíram para o Serviço de Seguridade Social, desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, entre outras.
A maioria dos "velhinhos que teimam em atrapalhar o país" são arrimo de família. O pior de tudo é saber que existe o outro lado nas discussões. Tanto é que o Forum Nacional de debate sobre o déficit da Previdência acocle palestrantes de diversas teorias. Mas a mídia só dá atenção aos mesmos.
07/05/2007 16:34
"5 anos de imobilismo na França"
A eleição de Nicolas Sarkozy, ex-Ministro do Interior do atual governo Chirac, para a presidência francesa, gerou alguns depoimentos contundentes. Jacques Le Goff, famoso historiador medievalista, é um dos donos desses depoimentos.
Em entrevista ao jornal La Repubblica, Le Goff afirmou que, ao eleger o direitista Sarkozy, "a França perdeu uma grande ocasião de se renovar, de mudar de registro político, de colocar-se à esquerda. Mas uma esquerda moderna, já que Ségolène Royal nunca foi a candidata do Partido Socialista mas de um movimento político mais amplo, que queria construir uma sociedade melhor”.
Segundo ele, “a França é um país com o coração e a cabeça de direita. Somente personagens excepcionais como, por exemplo, François Mitterand, conseguiram levar a esquerda ao poder. Há também um outro fator. Os franceses são profundamente machistas. E principalmente as mulheres francesas são machistas. Para elas somente os homens são capazes de administrar a coisa pública e de assumir o poder”.
No que completa: “A França continuará sendo um país sem generosidade, fechado no seu egoísmo. Os nossos valores tradicionais serão novamente pisados. Haverá uma longa estagnação da qual sairemos mais fracos do que somos hoje. O prestígio do nosso país continuará a diminuir, seja na Europa seja no resto do mundo. Quanto a mim, que tenho 83 anos, acho que morrerei sarkozista”
07/05/2007 18:41
Pessimismo imortal renovado
Peço licença à Ricardo Noblat, para fazer da "frase do dia" de hoje, a mesma utilizada por ele em seu blog. Mas, esse antigo trecho é especial no momento.
"Ponham uma barba postiça num jogador do Botafogo, dêem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível. Por quê? Porque há, no alvinegro, a emanação específica de um pessimismo imortal".
Nelson Rodrigues, escritor
Ontem, a partida final do Campeonato Carioca estava empatada (2 x 2) e a decisão iria para os pênaltis. Aos 45 minutos, o atacante do Botafogo, Dodô, marcou um gol legítimo, que, além de mal anulado, provocou a expulsão do jogador. O juiz alegou que o camisa 7 alvinegro teria concluído a jogada mesmo sabendo que não valia mais nada. O Maracanã estava lotado, quase 64 mil torcedores, no último minuto do último jogo, final do Campeonato Carioca. Dodô poderia não ter ouvido.
Pois bem, a partida foi para os pênaltis, e o Botafogo já saiu atrás. Primeiro: não contava com seu batedor oficial. Segundo: não contava com seu goleiro titular (que agarrara dois pênaltis em partida contra o Vasco).
Isso não explica a derrota nos pênaltis, claro. Dodô poderia cobrar e perder e Júlio César poderia repetir Max. Mas pelo gol injustamente anulado, o torcedor do Botafogo não tem como dissimular seu pessimismo renovado.
08/05/2007 07:00
Gestão pública
A diferença entre "gestão" e "operacionalização" só recentemente se tornaram claras para o Estado brasileiro. Os ideais do neoliberalismo, largamente utilizados nos anos 1980 pela dupla Ronald Reagan (EUA) e Margaret Thatcher (Inglaterra), e convencionalmente estipulados pelo que ficou conhecido pelo Consenso de Washington, tomaram o país por assalto em 1990.
Eleito em dezembro de 1989, pelo PRN, Fernando Collor de Mello, logo que assumiu, há 15 de março do ano seguinte, instituiu o confisco da poupança nacional, como forma de diminuir o dinheiro na economia, cortando o poder de compra e dessa forma, contendo a inflação inercial - na casa das centenas de pontos percentuais ao ano.
Como se sabe, o Plano Collor foi um fracasso retumbante. O uso do termo retumbante não é sem propósito. O próprio presidente teve de voltar atrás em setembro do mesmo ano, demitindo no início de 1991 a arquiteta da idéia Zélia Cardoso de Mello do Ministério da Fazenda, e tirando Ibrahim Eris do BC. O Plano Collor encolheu o Brasil, que em 1991, pela primeira vez, diminuiu em relação ao ano anterior. E olha que a base de comparação (1990) tinha sido fraquíssima.
Mas uma das platitudes do Consenso de Washington, bem adotada pelo Plano Collor, foi a abertura da economia às importações. As primeiras privatizações de órgãos públicos ocorreram no final de seu curto governo (sofreu impeachment em outubro de 1992) que, como diziam os órgãos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, serviram para dar maior dinamização às empresas estatais.
Na época nossos credores, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, serviam também como principais norteadores de nossa economia, além de ditarem nossas agendas políticas. Parecia simples: se seguirmos o que as grandes potências tinham feito, seríamos também grandes potências.
O então sucessor de Collor, Itamar Franco, nomeou, após várias tentativas, Fernando Henrique Cardozo (que era senador pelo PSDB) para a Fazenda, e Pedro Malan (que era do Ipea) para o Banco Central. Com eles, a idéia de Pérsio Arida e André Lara Rezende de estabilização econômica (que foi formulada em 1983 e completava dez anos) se tornou realidade. Era o Plano Real - que contou ainda com a mão (zona) de Gustavo Franco.
A partir de 1995, até um período que se estendeu até o apagão elétrico de 2001, que colocou o governo FHC em modo de espera até a eleição de Lula, o Estado brasileiro foi "enxugado". Seguindo à risca os ideais do liberalismo (do "Estado mínimo"), esperava-se que passando as obrigações do Estado para a iniciativa privada, pudesse tornar a "operacionalização" - no sentido de ação, de agir - mais dinâmica.
Em muitos casos, o sucesso não se discute. Discute-se o que ficou nas mãos do Estado (que, felizmente, está longe de ser "mínimo"). São esses órgãos que começam a perceber que, apenas com "gestão", quer dizer, criando e traçando metas - para tudo - e acompanhando sua "operacionalização", e através do mérito gratificar.
Essa noção de "meritocracia" vem sendo adotada (mesmo que em fase de gestação) na Educação municipal, na Saúde nos postos do SUS, nas empresas estatais. Deve-se continuar e ampliar esse processo para todo o escopo público.
*Em tempo, este Blog está no Google. Digite "João Villaverde" e verá este sítio como primeiro endereço de retorno da busca.
09/05/2007 07:00
Gestão Pública II
Outra diferenciação muito importante é acerca da questão: mais recursos ou gestão eficiente? Ou seja, sufocar problemas através do envio de mais dinheiro ou ganhos de produtividade?
O anúncio de segunda-feira por parte do governo, representado pela Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseaf, e pelo Ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre o andamento do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) é muito oportuno para o debate.
O próprio PAC é um dos primeiros planos econômicos lançados por um governo que não se propõe à estabilizar a economia. Afinal, se compararmos o período atual com os dos anteriores - 1994, 1990, 1989, 1987 e 1986, etc - certamente a situação que se encontra é melhor. Não cabe à este artigo discutir as razões.
O balanço dos primeiros quatro meses do programa é fortuito, no sentido de dar mais transparência ao debate, como forma de tornar a gerência pública mais difundida - e por extensão, mais passível de críticas (no sentido literal, isto é, do ato de analisar algo).
E esse balanço mostra que ambos os critérios, de "gestão eficiente", como de "mais recursos necessários" não foram plenamente empregados. O segundo se torna menos relevante, afinal, em tese, todas as obras, estudos e projetos do PAC, que totalizam R$ 504 bilhões até 2010, foram analisadas previamente quanto à necessidade de dinheiro. Ou seja, em tese, o dinheiro selecionado, ou separado, é suficiente.
Essa afirmação é feita por cima, visto que faltam estudos que comprovem a real necessidade de certos pontos do PAC.
A questão da "gestão eficiente" é que se torna prioritária neste caso. A apresentação do balanço já é, por si só, um grande passo, pois demonstra que o governo está preocupado em agilizar o Plano. O caráter impresso à maioria dos projetos - mais conservador - é neutro, pois, se escapa do ufanismo, escapa igualmente da real situação de cada projeto. E isso define um alicerce de gestão.
Outro ponto é a maior atenção dada, nesse segundo governo Lula, ao desenvolvimento sustentável e, por extensão, ao Ministério do Meio Ambiente e ao Ibama. Os critérios sérios de gestão se fazem muito necessários nesse caso, pois, não se pode querer crescer passando por cima de discussões. Que são lentas, diga-se de passagem.
09/05/2007 19:33
Os cabeções hegemônicos
A matéria "Juro é polêmica em debate sobre taxa de câmbio" no Valor Ecônomico de hoje é elucidativa para mostrar as várias tendências de pensamento econômico atual. Trata-se de um resumo das apresentações dos 4 palestrantes de um debate no Hotel Renaissance, em São Paulo. Três deles seguem, com pequenas diferenças, o pensamento hegemônico dos últimos anos. O outro, o pensamento dividido por este Blog.
Os convidados: Octavio de Barros, diretro de pesquisas econômicas do Bradesco, fonte de 10 em 10 editorias de economia; Paulo Leme, diretor da Goldman Sachs; Gustavo Loyola, que presidiu o BC de meados de 1995 à meados de 1997; e Delfim Netto, ex-"preencha com qualquer alto cargo público" nos últimos 30 anos.
O convite de Delfim foi talvez o único ponto positivo do debate, de outra maneira, seria apenas uma conversa entre seguidores do pensamento dominante dos últimos anos.
"Octavio de Barros defendeu o atual nível de taxas de juros e câmbio, assim como a política monetária do Banco Central", afirmou a matéria. O economista disse crer numa taxa de R$ 1,95 no final do ano, e vê a entrada de investimento direto e de fundos de participações como uma crescente.
Loyola, atualmente na Tendências Consultoria - fonte máxima de todas as matérias macroeconômicas vinculadas - até considera que os juros poderiam estar "um ou dois pontos mais baixa", embora não considere um fator determinante na apreciação cambial.
Paulo Leme é um ótimo economista, adepto das estatísticas (como a grande maioria, aí incluso o já mencionado Octavio de Barros) e das apresentações em powerpoint. Sua visão acerca da supervalorização cambial é a de que não se trata de um movimento exclusivo da economia brasileira. "O real tem se apreciado em relação ao dólar não por causa de investimentos especulativos, mas principalmente por conta dos superávits na conta corrente e na balança comercial".
Por sua vez, Delfim Netto serviu como o contraponto ideológico frente às "suaves" diferenciações nos pensamentos dos cabeções. Delfim defendeu que a apreciação cambial é resultado, pura e simplesmente, da absissal diferença entre as taxas de juros internacionais "baixíssimas", com as nossas "gigantes".
Sua frase, reproduzida na matéria, é sensacionalmente esclarecedora: "O real é a commodity brasileira que mais atrai o interesse, pois não precisa de transporte e de logística e, com o nosso sistema financeiro avançado, os ganhos são certos e os riscos baixos".
Delfim ainda explicaria que os investidores (especuladores ou rentistas) buscam as taxas prefixadas, ainda muito altas, ou as pós-fixadas, mais altas ainda, e, mesmo que sofram diminuição (devido à uma queda dos juros Selic), eles ganham com a valorização do real. Os rentistas aumentam sua posição de "vendidos" no mercado de futuros (de derivativos cambiais) - até porque há ânsia do BC em vender contratos de swap reverso, como forma de segurar a cotação no curto prazo - e relativizam eventuais quedas nos juros.
09/05/2007 21:05
Homem Aranha
O enorme sucesso do filme "Spider Man 3", passando por cima de todos os recordes anteriores, fez com que sua editora, Marvel Comics, triplicasse o número suas receitas no primeiro trimestre de 2007.
O lucro líquido dos primeiros três meses do ano passado foi de US$ 17,5 milhões. Já em 2007, o esse número foi de US$ 46,8 milhões. As vendas aumentaram 68%, para US$ 151,4 milhões.
Isso, note-se, com maior apelo graças à publicidade oficial e não-oficial. O longa só foi estrear na semana passada, com lançamento mundial simultâneo.
O que houve foram os vários lançamentos de pré-estréias para críticos, por todo o mundo, além da ansiedade provocada pela sequência de outros dois "blockbusters": "Spider Man 1 e 2".
A tendência é que esses números aumentam (ou no mínimo se mantenham) por pelo menos dois trimestres, agora alavancados pelo filme em cartaz de fato. A Marvel tem pela frente um ano como há muito não vê: com muito dinheiro em caixa, mesmo que isso não seja repassado no conteúdo de seus clássicos personagens.
Afinal, não é de hoje que os "comics" da DC Comics são de longe os melhores.
09/05/2007 22:53
Frase do dia
"A diferença entre o catolicismo e o protestantismo é que, no catolicismo, tudo acaba em missa".
Luiz Felipe Pondé, professor do Departamento de Teologia da PUC-SP
10/05/2007 00:51
De futebol e futuro
Não poderia ser jornalista esportivo. Desde o primeiro semestre de 2004, quando da eliminação da Libertadores daquele ano, na semi-final, diante do Once Caldas (que mais tarde seria campeão), não sentia um certo medo. Medo de passar um ano em branco.
Não é falta de humildade. Em 2004, além de semifinalista da Libertadores, o São Paulo lutou até a penúltima rodada do Brasileiro pelo título, terminando em terceiro, com melhor defesa. E classificado para a Libertadores de 2005.
O ano de 2005 foi a retomada do ciclo iniciado por Telê Santana, precocemente terminado na traumática decisão perdida para o Velez Sarsfield em 1994. O time de 2005 é lembrado até hoje, inclusive com os principais reservas, por este que vos escreve: Rogério Ceni, Cicinho (Souza), Fabão, Lugano, Edcarlos (Alex), Júnior, Mineiro (Denílson), Josué (Renan), Danilo, Amoroso (Grafite), Aloísio (Luisão).
Time campeão paulista com uma margem enorme para o vice. Campeão da Libertadores, passando por Palmeiras, Tigres, River Plate e goleada sobre o Atlético PR no jogo final, diante de 71.986 pessoas. Sim, este Blog se recorda do número exato do público.
Abriu mão da disputa do Campeonato Brasileiro, e ainda assim, se deu ao luxo de golear o Corinthians (que seria campeão) por 5 x 1 e o Flamengo por 6 x 1.
Japão, Campeonato Mundial de Clubes, primeiro com a chancela da FIFA. Lá estava o São Paulo. E o Liverpool, que batera o Milan, nos pênaltis. Aquela partida e o retorno do time (dia 20 de dezembro) é até hoje um dos três maiores momentos da vida do signatário deste Blog. Parece que foi ontem. Campeão do Mundo, de novo, com deveria ter sido em 1994. Em póstuma homenagem à Telê, nos tornávamos Tri Campeões Mundiais.
Veio 2006, o ano que, por inércia, ganhamos o Brasileiro. Quer dizer, mesmo com modificações no elenco, a grande base do melhor time do mundo de 2005 estava mantida. O resultado foi quase tão bom: Finalista novamente da Libertadores, passando por Palmeiras, Estudiantes, Chivas e Internacional na final. Os gaúchos conseguiram o título vencendo o primeiro jogo - que foi no Morumbi - e mais tarde seriam campeões mundiais.
O time manteve o ritmo e conquistou o Campeonato Brasileiro pela quarta vez em sua história, e a primeira desta década (1977, 1986, 1991 e 2006). Rogério Ceni bateu o recorde de goleiro com maior número de gols, ao fazer dois no empate contra o Cruzeiro.
O título veio com 8 pontos de diferença para o segundo colocado, o mesmo Internacional.
Esse ano o Paulista caiu num desastre contra o São Caetano, na semi-final. E a Libertadores nas oitavas-de-final, contra o Grêmio. As mudanças no elenco foram mais firmes nesse ano. Do time de 2005 pemaneceram Rogério Ceni, Souza, Edcarlos, Júnior, Josué e Aloísio.
Agora veja caro leitor. Propus-me a escrever sobre como não poderia ser jornalista esportivo e, antes de desenvolver a idéia, me perdi, falando do São Paulo e seu desempenho nos últimos anos.
Não daria um bom jornalista esportivo.
10/05/2007 14:41
Dez anos de Tony Blair
O que fica de legado dos 10 anos do trabalhista Tony Blair à frente do cargo de primeiro-ministro inglês é um misto de pioneirismo econômico fiscal e sua sensibilidade incomum.
Sensibilidade incomum, porque foram dois episódios, nesses dez anos, que exigiram e marcaram o governo Blair sob o ponto de vista sentimental moral. A morte da princesa Diana - principalmente da maneira como ocorreu - e a entrada na Guerra contra o Iraque, na esteira dos ataques terroristas aos EUA.
Blair assumiu em maio de 1997, e logo em agosto daquele ano a princesa Diana se acidentou fatalmente nas ruas londrinas. Ele tomou a frente na retomada do prestígio nacional, bastante sensibilizado frente à desgraça de um ícone público. Conduziu as homenagens e reconstruiu a confiança, mais ainda do que a própria família real foi capaz de fazer.
Mas quando do sentimento geral de "guerra ao terror" instalado mundialmente pelos companheiros americanos (no único momento bem visto pelos eleitores americanos do governo Bush) e Blair apoiou firmemente a invasão do Iraque com o alegado objetivo de prevenir o emprego, pelo Iraque, de armas de destruição em massa.
"Como todos sabemos agora, tais armas nunca foram encontradas e, o mais grave, evidências vieram à luz revelando que Blair tinha ciência de que o governo Bush estava comprometido com uma mudança de regime, idependentemente da falsidade da denúncia das armas", escreveu Ian Davidson, ex-colunista do Financial Times e atualmente articulista do European Policy Centre, em Bruxelas.
Oito meses antes do início da guerra, o memorando de Downing Street, sede do primeiro ministro na Inglaterra, de 23 de julho de 2002, era explícito: "as informações de serviços de inteligência e os fatos estão sendo moldados em torno da política".
Como contrapeso se apresenta seu pioneirismo entre os trabalhistas, de política econômica fiscal, feita em dobradinha com seu ministro das Finanças, e sucessor no cargo de primeiro-ministro, Gordon Brown.
Ambos proporcionaram ao Reino Unido uma ruptura fundamental com a estrutura de "tributar e gastar" do Partido Trabalhista. Seu compromisso mais conservador permitiu estabilidade nos gastos, que, combinados com crescimento econômico, permitiu ao governo gastar mais em educação e no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Até os anos da guerra, que botaram tudo a perder, principalmente pela incapacidade de Blair de reconhecer seu erro (afirmando apenas que a guerra era "the right thing to do", ou "a coisa certa a fazer"), seu mandato tinha tudo para ser, não só longevo, mas positivamente reconhecido. Hoje, com a balança equilibrada, mas pendendo para os erros da política externa, sua saída (27 de junho) é triste, balizada com o sentimento de "já foi tarde".
10/05/2007 22:55
Aumento de nota
A agência Fitch Ratings elevou a classificação do Brasil. Passou de BB para BB+, à apenas um novo aumento do grau investment grade. Com as reservas já ultrapassando os US$ 130 bilhões - o que dá maior segurança externa ao país, portanto passando melhor imagem de segurança ao investidor externo - proporcionará um ataque ainda maior à barreira dos R$ 2,00.
A Fitch é a agência de caráter mais agressivo, antecipando a nota das outras duas, Standard's & Poor's e Moody's Rating. Essas notas servem para fundos de investimentos e investidores externos tenham uma noção do grau de solvência e confiabilidade de um país de honrar suas dívidas.
Combinados com o maior juro do mundo, o especulador vem com uma montanha de dólares - inclusive se endividando mais lá fora, afinal o retorno é gigante - para aplicar em títulos de renda fixa. Além dos movimentos no mercado futuro, que não envolvem operações com entrega de moeda física, mas, que podem ser remuneradas pela Selic.
Portanto, preparem-se: O real vai cair abaixo dos R$ 2,00, mesmo com as intervenções (cada vez maiores) do BC, antes da próxima reunião do Copom.
11/05/2007 17:23
Gula
O que está por trás dessas emissões externas do Tesouro Nacional? Ontem foram captados R$ 787,5 milhões em títulos Global 2028, que vencem no ano de 2028, à uma taxa anual de 8,938%. Hoje foram captados mais R$ 37,5 milhões em emissões do mesmo bônus Global 2028, dessa vez no mercado asiático.
Para que mais dólares? O mercado à vista já está inundado da divisa, e os investidores (bancos ou pessoa física) também se posicionam fortemente como "vendidos" no mercado externo. O BC compra diariamente mais de US$ 700 milhões. Na última quinta feira chegou a comprar US$ 3,1 bilhões em um só dia.
Deve ser para aproveitar a exposição positiva midiática. Afinal títulos de longo prazo (21 anos), remunerados por taxas abaixo dos 10% ao ano, de fato é algo inédito. Mas em tempos de fartura, querer mais é pecado.
12/05/2007 01:55
Frase do dia
"Nós vamos fazer a TV pública sem trololó".
Presidente Lula sobre a implantação da TV pública, prevista para o final de 2007.
12/05/2007 04:15
Vagando na madruga
Como esse Blog não dorme, aqui estou eu, na madrugada do sábado. Vasculhando textos e arquivos em diferentes sites, eis que me deparo com algo que seguramente não esperava.
Não é do meu feitio produzir buscas em meu nome, seja qual for a áerea de procura. Mas no site em questão, e mais ainda, o resultado encontrado, realmente me espantaram. Mas não deixa de ser engraçado.
http://www.youtube.com/watch?v=noVRZBAcGWc
Aos 13 leitores ainda acordados essa hora, boa noite.
12/05/2007 21:01
Doença certa, mas diagnóstico errado
Engraçada a revista Veja. Na semana passada, com todo o rebuliço causado pela iminência da chegada do papa ao Brasil, colocou Darwin e sua Teoria da Evolução (maior negação da religião) na capa.
Essa semana, entre outros, conta com uma entrevista com o presidente da Merck, a fábrica do remédio Efavirenz, que teve sua patente quebrada pelo governo na semana passada. O medicamento é o principal do coquetel antiaids, distribuído gratuitamente pelo governo brasileiro a 75 mil portadores da doença no país.
Após mais de um ano de negociações, quando a Merck demonstrou desleixo frente ao pedido do governo de baixar o preço do medicamento (comprado maciçamente), o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão anunciou o licenciamento compulsório (que na prática vale como quebra de patente) do Efavirenz.
Assim o governo poderá importar um genérico indiano, economizando cerca de US$ 30 milhões por ano. Mais legítimo para o interesse nacional impossível.
Pois bem, a revista não só toma partido do laboratório farmacêutico americano - afinal entrevista seu presidente sem apresentar o outro lado da história - como resume com um título irônico, que se refere à uma frase do entrevistado: "O Brasil criou empregos na Índia".
Na realidade, o Brasil criou sim empregos na Índia. Mas em outra frente, muito mais perversa. Com o câmbio baixo da maneira que está, o processo de internacionalização de variadas empresas, de variados ramos e setores, está altamente avançado. A desindustrialização é tanto recorrência como causa desse processo.
13/05/2007 18:22
Dilma X Marina...ou Meirelles
O Estadão de hoje traz uma matéria baseada numa comparação interessante: com o lançamento do PAC, a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, passou a dividir com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a culpa pelo baixo crescimento.
Na realidade o presidente do BC é "hors concours" na questão. Mas, a comparação, puramente partindo das discussões (internas ou tornadas públicas) entre Dilma e Marina, não é descabida. Afinal, desde o final de janeiro, nunca se pressionou tanto o ministério do meio ambiente, que recentemente, teve o Ibama reestruturado.
Com o anúncio do andamento do plano, na última segunda-feira (tema de duas colunas no Blog, "Gestão Pública I e II") se viu que, ao menos aos olhos de Dilma Rousseaf, o principal entrave do PAC é a demora para liberação ambiental de usinas e outras obras.
Amplamente discutida nas colunas mencionadas, a gestão pública foi alvo de Paulo Rabello de Castro, sócio consultor da RC consultores (e colunista da Folha), citado na matéria. Segundo ele "antes de ser a questão do meio ambiente, o PAC enfrenta a questão da gestão pública. Eleger um bode expiatório é fácil".
A matéria pode ser lida clicando neste link:
http://www.unisinos.br:80/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=7121
13/05/2007 22:24
Idéias para o fim de festa
É difícil prever quando essa farra de ganhar dinheiro fácil no Brasil irá terminar. Hoje (e ontem, antes de ontem e etc.) se aplica em títulos do governo ou em renda fixa, e os juros pagos são de 12,5%. A inflação, cada vez mais corroída, mantém o juro real ainda muito alto.
Pode-se aplicar também no mercado futuro, onde não se necessita da entrega do dinheiro físico. Se posicionar como "vendido" em dólar na BM&F proporciona ganhos que equivalem à Selic.
Ou seja, pode-se lucrar nos títulos (12,5%, trazendo o real para baixo) ou no mercado de derivativos (12,5% torcendo e forçando o real para baixo). Ou nos dois (25%, supervalorizando a moeda e torcendo por mais valorização).
Mas começam a pipocar idéias de conter (ou terminar) com a farra. Que claro, vão além do imobilismo do nosso BC. Explico melhor na coluna de amanhã.
14/05/2007 07:00
Anúncios do fim da fanfarra?
Na quinta-feira passada, a agência de rating, Fitch, elevou a nota brasileira, ficando à apenas um ponto do grau de investimento.
No mesmo dia foram anunciadas as decisões de quatro Bancos Centrais importantíssimos: o Federal Reserve Bank (EUA), o Banco Central Europeu (BCE), o Banco da Inglaterra (BoE), e o Banco do Japão (BoJ). E todos eles, por motivos distintos ou não, decidiram ou acenaram com um maior aperto monetário. Ou seja, juros maiores.
O Fed manteve sua taxa ainda em patamares elevados (para padrões internacionais) em 5,25% e, embora a desaceleração da economia americana esteja evidente, sua inflação persiste em se manter em patamares altos para o Fed. Daí que a possibilidade dos juros americanos caírem no segundo semestre não é mais tão certa.
O BCE, que pratica a política monetária da Zona do Euro da União Européia, manteve os juros em 3,75%, mas, deixou como quase certa um aumento de 0,25% em sua próxima reunião. O Banco da Inglaterra, por motivos similares (inflação), aumentou seus juros para 5,5%. É sua maior taxa em seis anos, e também, a maior taxa de juros praticada por um dos países do G7 (o grupo das 7 maiores economias do mundo).
Já o Banco do Japão, que pratica o menor juro do G7, 0,5%, sinalizou a forte vontade de acabar com o carry-trade, que tem valorizado sua moeda, o yen, além do que os economistas japoneses consideram razoável.
O carry-trade é o nome do processo que virou moda entre os grandes investidores, hedge funds, e bancos de investimentos pelo mundo. Como o juro japonês é muito pequeno (0,5% ao ano), o investidor toma yen lá, troca por dólares, e aplica em títulos de renda-fixa (ou por papéis do governo) de países que praticam juros mais altos. O Brasil, com seus 12,5% de Selic, é o campeão mundial de remuneração para esses dólares. Daí toda essa inundação de dólares em nossos mercados.
E o que isso quer dizer?
O sempre pertinente Luiz Sérgio Guimarães, colunista do jornal Valor Econômico, levantou uma tese firme. Para ele a razão do baqueamento dos mercados na quinta-feira, foi um sinal do que realmente importa. Afinal, como dizem todos os cabeções (economistas ortodoxo-rentistas, que são fontes dos principais jornais) a melhora da nota do rating brasileiro seria capaz de trazer ainda mais divisas para cá.
E não foi o que aconteceu. Tanto que o risco-Brasil variou dois pontos para cima. Na realidade, diante de um maior aperto nos juros internacionais (inclusive no japonês), muitos especuladores pararam para rever suas estratégias.
Sim, o pregão de sexta trouxe quase tudo de volta nos trilhos. E a tendência continua de uma montanha de dólares entrando tanto nos mercados a vista, quanto no de futuros. Mas já se sabe como podem diminuir. Se não o próprio Brasil cortando os seus juros, mas com os outros aumentando.
14/05/2007 18:16
É proibido discordar
Desprivilegiar o contraditório, anulando a discussão de saída, é trabalhar focado apenas ao seu nicho consumidor. Essa traiçoeira característica é intrínseca ao ser humano no plano ético. Mas está na moral a diferença.
Principalmente quando se trata de tornar pública uma opinião sem nenhuma precisão objetiva, sem estudo empírico. Diz-se por que se acredita. Quando se trabalha na principal forma de debate público, a imprensa, o pensamento único não deve extrapolar.
Já mencionei sobre uma matéria da revista Veja dessa semana. Agora reproduzo um trecho de outra matéria.
Escrevendo sobre o recém eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy, a revista deixa clara sua preferência pelo candidato. Mas uma frase em especial me chamou a atenção:
"É uma temeridade se dizer de direita, em público, na França - ainda que, desde a queda do Muro de Berlim, esteja claro que representa o mais positivo pensamento ocidental e a via econômica eficiente para a produção de riqueza".
Dê chance ao contraditório. Privilegie a discussão e o debate. Indiferente do sistema político-econômico-social "adequado" ou "escolhido". O leitor ganha, e aprende, vendo os dois lados.
14/05/2007 18:47
Mais sobre a "quebra de patente"
O repórter Sérgio Leo em sua coluna de hoje no Valor Econômico analisou a questão da "quebra da patente" do medicamento Efavirenz, da norte-americana Merck, por parte do governo brasileiro - e o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, à frente.
"Criada por liberais, para facilitar a disseminação do conhecimento e aprodutividade econômica, a lógica da patente é garantir remuneração e monopólio na invenção, suficiente para recompensar devidamente os esforços do inventor. Mas sob condições e por tempo limitado para que não se transforme em fator de atraso e ineficiência".
"O argumento de que só o setor privado é capaz de promover pesquisas inovadoras nesse campo ignora convenientemente exemplos como o das inovadoras terapias médicas na ex-União Soviética e o da produção da vacina de meningite por Cuba".
"Nas negociações internacionais, países com fortes interesses em propriedade intelectual, como os Estados Unidos, têm tentado, legitimamente, ampliar prazos e a área de cobertura do monopólio garantido por patentes. O Brasil e outros países, também de forma legítima, têm se recusado a isso, e argumentado que o Trips já é suficiente. Os chamados acordos Trips-plus dificultam a disseminação do conhecimento. Universidades americanas debatem a crescente falta de comunicação entre grupos de pesquisas, provocada pelo temor de divulgação de informações patenteáveis".
14/05/2007 21:41
Ativismo dissimulado
Na coluna de hoje ("Anúncios do fim da fanfarra?) afirmei que o jeito mais fácil de cessar a política de se ganhar (muito) dinheiro (de maneira muito) fácil no Brasil é torcer e rezar por uma escalada nos juros internacionais. O que tornaria os nossos 12,5% civilizados.
É claro que isso é ironia, visto que juros internacionais muito altos acarretariam mais problemas para nós que a situação atual, por incrível que pareça.
Mas essa torcida se dá graças ao imobilismo do Banco Central (BC), nossos Representantes Rentistas (RR), que não fazem nada: esperam acontecer. A coluna de amanhã explicará melhor essa não-ação.
É o ativismo dissimulado através de medidas paliativas.
15/05/2007 07:00
A República das medidas paliativas
Partindo do pressuposto que os juros internacionais - 5,25% nos EUA, 5,5% na Inglaterra, tendência de 4% na Zona do Euro e 1% no Japão - só mudarão radicalmente no médio prazo, resta a nós fazermos nossa parte para acabar com a supervalorização do real.
O Banco Central brasileiro têm mais uma vez uma chance de, ao menos ligeiramente, mudar um pouco o rumo atual de juro alto, câmbio baixo e crescimento pífio.
Oportunidades perdidas não costumam se repetir. E quando se repetem, nunca se dá na mesma intensidade. O BC teve, na reunião de 24 de janeiro (a primeira do ano) a chance de mostrar que o segundo governo Lula seria marcado pelo crescimento.
Dois dias antes o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) tinha sido anunciado, e impulsionado pela vitória de Lula nas eleições, vivíamos um momento de euforia, racional e irracional. Pois o BC, como que para reafirmar sua "independência informal" e seu poder, diminuiu a velocidade dos cortes. Até então cortes de 0,5% por reunião do Copom. Naquela oportunidade cortaram apenas 0,25%.
Seis meses depois com um real ainda mais valorizado - abriu o ano à R$ 2,13 e hoje está à R$ 2,009 - e os sintomas de desindustrialização de setores inteiros cada vez mais latentes, há novamente um "acordo inconsciente" de que cresceremos 4,5% esse ano.
Daí que o mercado já admite o corte de 0,5% na próxima reunião do Copom, órgão que decide a taxa Selic e que é majoritariamente pautado pelo mercado.
O que fica claro com esse movimento e a especulação de corte de 0,5% são duas coisas. Primeiro que a farra de se ganhar dinheiro fácil no Brasil não cessará mesmo com juros de 12%, como se imagina. Os juros Selic estão 7% acima dos juros internacionais.
O processo de carry-trade, de tomar dinheiro barato em países de juro baixo (como o Japão) e aplicar em países de juro alto (como o Brasil) não se destituirá mesmo com os japoneses aumentando sua taxa de meio ponto para 1% e nós baixarmos de 12,5% para 12%. A diferença ainda é abissal.
A segunda noção que se torna clara é que o real como está não é bom. E mais: as medidas adotadas pelo BC não são eficazes, principalmente olhando no longo prazo. Os bilhões em contratos de swap cambial reverso vendidos no mercado de futuro só se tornarão lucrativos ao governo se a moeda se desvalorizar. Do contrário o governo paga Selic aos donos dos contratos. Que, óbvio, forçarão a moeda para baixo.
E as compras no mercado à vista financiadas por emissão de títulos públicos em reais (esterelização aumenta a dívida pública e é antieconômica no médio-longo prazo).
A medida correta, repito, é trazer os juros para patamares civilizados (como 7% ou 7,5%). Qualquer outra medida é paliativa, como a grande maioria das medidas adotadas pelos governos em 13 anos.
15/05/2007 13:58
Os bolivianos
O artigo de Fernando Bonassi na Folha de hoje está um primor. Entitulado de "Os bolivianos", Bonassi mostra todas as particularidades inerentes ao povo da Bolívia, para no final, fazer uma comparação sensacional.
Um dos trechos é passível de se tornar a "frase do dia":
"Problema é que os bolivianos estão cercados de latino-americanos por todos os lados. São peruanos sindicalistas com projetos socialistas de venezuelanos stalinistas, são chilenos globalizados com dólares iraquianos dos norte-americanos, traficantes brasileiros armados por paramilitares colombianos que os atiçam para os lados pantanosos dos exportadores brasiguaios, quase tão bolivianos quanto os paraguaios...".
15/05/2007 14:31
Golpismo midiático globalizado
Deu no Estadão de hoje: a entidade venezuelana Jornalistas pela Verdade, que reúne 3 mil jornalistas, acusou órgãos da imprensa latino-americana de tentarem derrubar o governo de Hugo Chavez.
Na lista dos órgãos "derrubistas" elaborada pela entidade, figuram os jornais brasileiros O Estado de S.Paulo e O Globo, além dos diários venezuelanos El Nacional e El Universal. O próprio Chavez, quando em visita ao Brasil no início do ano, acusou o jornal O Globo de golpismo.
O editor-chefe do Estado, Roberto Gazzi, disse que "não é intenção do jornal derrubar governos, mas mostrar os movimentos (que atentam) contra a democracia (na região)". "Nós fazemos reportagens", afirmou.
Segundo a matéria do Estadão, diversos meios de comunicação brasileiros fizeram críticas à decisão do governo Hugo Chávez de não renovar a licença da RCTV, acusada pelo presidente venezuelano de golpismo.
16/05/2007 07:00
Diminuição do juro bancário
O governo acenou algumas semanas atrás, que como medida para diminuir o spread bancário, estaria disposto à reduzir o compulsório dos bancos.
Primeiro os cavalos. O spread é a diferença entre a taxa de captação de recursos que os bancos pagam no mercado (que se baseiam na Selic, hoje em 12,5%), e a taxa que cobram nos empréstimos (que para pessoa física estão em média a 39% ao ano). Dessa conta, de empréstimos menos captação, se resulta o spread de 26,5% ao ano. Não precisa nem dizer que um absurdo.
Essa diferença, o spread, que os bancos consomem, servem para cobrir gastos com pessoal e também formam uma parte do lucro das instituições. A coincidência entra a queda da taxa de juros Selic e o maior lucro (que bate recordes ano-a-ano) dos bancos não é infundada: enquanto a taxa de empréstimos permanece constante, a taxa de captação diminui.
Como o governo não sabe mais como agir para diminuir a taxa de juros que os bancos cobram ao tomador de empréstimo, chegou-se à idéia de diminuir os compulsórios bancários.
O compulsório é basicamente o dinheiro que os bancos devem deixar no Banco Central (daí o nome, afinal o processo é compulsório). O recolhimento compulsório é um instrumento de política econômica, mais precisamente, de política monetária. Portanto envolve o Ministério da Fazenda e mais especialmente o BC.
Por meio dele, o BC recolhe nos seus cofres uma parte do dinheiro depositado em contas correntes, cadernetas de poupança e CDBs (certificados de Depósito Bancário). O ato de medir o volume de dinheiro que circula na economia é estratégico como forma de não deixar alimentar a inflação.
O compulsório brasileiro é, como nossos juros, o maior do mundo. De cada R$ 100 depositados numa caderneta de poupança, por exemplo, R$ 30 são recolhidos pelo compulsório e R$ 65 devem obrigatoriamente ser direcionados para crédito habitacional. Assim, restam R$ 5 livres aos bancos.
Sobre os depósitos em CDBs, 23% deve ser recolhido no compulsório, e o resto pode ser usado pelo banco como desejar. Há ainda o compulsório sobre o depósito à vista, atualmente de 53%. Atualmente o depósito compulsório equivale à 45% sobre os saldos em contas correntes mantidas pelos bancos. Entre fevereiro e agosto de 2003 chegou à ser de 60%.
O primeiro alvo dos cortes são as aliquotas adicionais criadas no fim do governo FHC, no auge da crise de 2002, pelo então presidente do BC, Armínio Fraga. Naquele período o BC começou a ter problemas em captar recursos do sistema financeiro com a venda de títulos públicos. Fraga então criou alíquotas adicionais de recolhimento, para enxugar a liquidez do mercado.
Essas alíquotas adicionais são de 8% sobre os depósitos à vista e à prazo, e de 10% sobre a poupança. Desde 2002 apenas esse recolhimento equivale à R$ 47 bilhões, quase 30% do total do compulsório.
Embora medida importante para aquecer mais a economia, colocando mais reais à disposição - o que inclusive, diminuiria um pouco a supervalorização do real - não passa de mais uma medida paliativa que os focalistas apresentam. Ao invés de enxergar a situação de maneira mais global, foca-se em pequenos instrumentos.
16/05/2007 13:52
E o Real rompeu a barreira
O diretor do Departamento de Economia da Fiesp, Paulo Francini, resumiu o pensamento do setor industrial sobre o câmbio supervalorizado:
"Quando o governo fala que o câmbio é flutuante - deveria dizer mergulhante -, se isenta de responsabilidades. Mas isso não é verdade. As autoridades assistiram com prazer a valorização do real, porque isso funcionou como um instrumento importante de combate à inflação. Parte dos agentes econômicos também aplaudiu. São aqueles que só importam, os viajantes para Miami, os rentistas. Todos têm ganho com esse pileque, mas o fígado é o da indústria de transformação".
O real fechou ontem no menor valor frente ao dólar desde fevereiro de 2001, cotado à R$ 1,982. No pregão de hoje já abriu à 1,96, chegando agora à 1,95.
Se até a semana passada o BC estava super concentrado em segurar a cotação pouco acima dos R$ 2,00, chegando à comprar até US$ 3,1 bilhão em um dia no mercado à vista, a partir da atual semana, desistiu. Não fez mais leilões de swap cambial reverso - que atua como comprar dólares no mercado futuro e se presta no curto prazo, no longo prazo a tendência é de perda de dinheiro - e diminuiu as compras no mercado à vista.
Desde então a moeda só caiu. As reservas já ultrapassam os US$ 130 bilhões e o custo fiscal para mante-las e aumenta-las se tornou insustentável. O BC pode estar se fazendo da estratégia, já discutida neste Blog, de deixar o real atingir seu piso (entre R$ 1,60 e R$ 1,80) para depois promover uma maxi desvalorização, até uns R$ 2,30. À conferir.
16/05/2007 21:45
Blog liberal por um dia
A coluna de amanhã conversará com um dos mais brilhantes economistas de pensamento liberal. Atualmente professor de economia da Casa das Garças (PUC-RJ) e presidente da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco explicará um ponto pouco analisado pela mídia especializada: a revolução do sistema bancário que urge com os recentes cortes da taxa Selic.
17/05/2007 07:00
Conversa com Gustavo
Estive essa semana em um evento apresentado por Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central (1997-1999) e um dos formuladores do Plano Real (1994). A apresentação foi sobre os juros, mas o melhor estava na conversa informal após sua fala.
Com os recentes cortes na taxa de juros Selic, hoje em 12,5%, a possibilidade, inédita, de praticarmos uma taxa de juros de um dígito se tornou visível e plenamente possível. Mas, segundo Gustavo, com esse patamar, uma revolução está por vir na economia.
"O sistema bancário não está preparado para juros de um dígito. O sistema foi criado nos tempos de inflação alta" diz o economista. Com juros de 7%, ficará mais barato captar depósitos à prazo que os depósitos à vista, que seriam de 15%.
Gustavo cita os balanços dos bancos publicados nos jornais. Nesses balanços aparecem as despesas e as receitas. As despesas de custeio (aluguel de agências, conta de luz, manutenção, etc.) e salários dos vários funcionários por agência. As receitas são os obtidos através dos pagamentos de recebíveis, juros e liquidação de contrato de crédito.
Com juros de um dígito, como 7%, os bancos terão de cortar despesas. Ou seja, diminuir pessoal, número de agências, etc. De acordo com Gustavo Franco, esse processo seria letal para os bancos públicos, onde os cortes em pessoal são complicados constitucionalmente, afinal, se trata de cortar funcionário público.
Ele cita o "caos instalado depois que o Plano Real acabou com a inflação". Segundo Franco, "todos os bancos estaduais, sem exceção, quebraram. Banco do Nordeste, Nossa Caixa, o Banco do Brasil quebrou duas vezes". Gustavo dá uma estocada no governo, ao dizer que enquanto no governo Lula, apenas o Banco Santos sofreu interferência do BC, "no Plano Real tivemos, além do Proer, mais 120 bancos com dificuldades crônicas".
Outro dado apontado pelo economista, hoje presidente da administradora de investimentos Rio Bravo, que vai causar problema são os investimentos. Afinal os fundos de DI, com rendimentos de 70% do CDI (os mais comuns, com taxa de administração de 3%) renderão bem menos que os depósitos na Caderneta de Poupança. Até porque, na Poupança, não se recolhe imposto de renda.
E, uma vez alocados na poupança, 60% de cada depósito efetuado deve ser direcionado para os compulsórios bancários e para crédito habitacional. A poupança rende uma taxa referencial (TR) - calculada pelo CMN - mais 6% ao ano. Com juros Selic, abaixo de 10%, a poupança passará a render mais que os fundos de renda fixa. "E o governo não têm mais o que fazer para diminuir a TR" diz Gustavo.
Para ele uma adequação do atual sistema está por vir.
17/05/2007 14:40
O fim dos sebos
A Gráfica Bandeirantes desenvolveu um projeto de impressão sensacional. Após investir R$ 9 milhões em cinco anos, a empresa começou a utilizar uma tecnologia de impressão digital que trabalha com tiragens de poucos exemplares ou até uma única impressão.
O processo se desenvolve da seguinte maneira: a Gráfica se associa à determinada editora, e passa a constar com as obras fora de catálogo dela.
A primeira editora à fechar contrato com a Bandeirantes é a Ediouro. Estão em negociação mais 18 editoras. A tecnologia desenvolvida é semelhante à offset (tradicional) embora estima-se que seja em média 60% mais caro que a unidade produzida pelo meio tradicional.
17/05/2007 22:21
Real supervalorizado chegou. E ficou.
Ontem o dia foi cheio no mercado financeiro. Enquanto o BC voltou à atuar, comprando quase US$ 2 bilhões no mercado a vista e na venda de um contrato de swap cambial reverso, a Standard's & Poor's, agência de avaliação de risco de investimentos em territórios soberanos, aumentou a sua nota para a economia brasileira.
Resultado: se a farra de ganhar dinheiro fácil no Brasil continuava forte até então, inclusive contando com o "sumiço" do BC nas compras de dólares, ontem, mesmo com atuação agressiva por parte dos operadores do BC (ou Representantes Rentistas), o aumento da S&P fez com que o fluxo de divisas que ingressaram para ganhar a maior taxa de juros do mundo foi gigantesco.
As compras do BC foram, na realidade, para enxugar o excedente. O real caiu de 1,98 para 1,95, na maior queda em um dia desde junho do ano passado (11 meses).
Da maneira como estamos, com câmbio bem estabilizado abaixo dos R$ 2,00, apenas um grande corte nos juros diminuirá a fanfarra dos rentistas e especuladores e a desgraça industrial, que levará a economia nacional junto.
http://z001.ig.com.br/ig/04/39/946471/blig/luisnassif/2007_05.html#post_18852646
18/05/2007 07:00
Barreira Psicológica
Quando você caro leitor, ouve que a barreira de R$ 2,00 por US$ 1,00 é na verdade uma barreira psicológica, não discuta. De fato é.
E o melhor exemplo, por mais infeliz que seja nossa situação, é o atual, iniciado após o fechamento do mercado de câmbio da terça feira 15 de maio.
Até então o BC através de compras de dólares no mercado à vista, e venda de contratos de swap cambial reverso no mercado de futuros, mantinha a moeda estável pouco acima dos R$ 2,00. Na segunda-feira então o BC praticamente não atuou: comprou apenas US$ 616 milhões no mercado a vista e ò dólar fechou cotado à R$ 2,009.
Foi apenas o fechamento de terça, quando o BC após novo dia sem movimentos fortes - não estou defendendo o BC e sua política de aquisição de dólares para as reservas, apenas estou constatando o movimento - o dólar fechou cotado à R$ 1,98. Aí começou.
Enquanto a mídia tradicional (claro, com exceções) trabalhou o câmbio de maneira festiva, no sentido mais defendido entre os liberais-ortodoxo-rentistas, de que o fortalecimento do real é, na realidade um sinal de fortalecimento da economia brasileira como um todo; na "nova mídia", como os blogs (claro, com exceções), iniciou-se um processo contrário: o de mostrar os efeitos dramáticos para a economia e autonomia nacional que o câmbio baixo proporciona.
Claro, essa tomada de decisão, nas duas frentes de guerra, já estavam postas há muito tempo. Mas a guerra entre tradicional e nova mídia só se deflagrou com a queda da cotação do real frente ao dólar, atravessando a barreira de R$ 2,00 por US$ 1,00.
18/05/2007 19:48
A Web somos nós
Veja o quão disseminado estão os alicerces da Web 2.0 - denominação dada à geração mais recente da internet desenvolvida, quando a informação deixou de ser estática e passou a ser dividida literalmente com os leitores, que passaram a fazer parte.
Os blogs são o carro-chefe da Web 2.0, afinal permitem que o interlocutor tenha acesso direto à opinião dos leitores, que podem ser lidos através de seus comentários. A revolução é tamanha que, o envolvimento entre o produtor de conteúdo (o blogueiro), e seu consumidor (o leitor), é cada vez mais intrínseco ao processo. Os comentários dos leitores são tão importantes quanto os textos do blogueiro.
A disseminação alcança patamares elevadíssimos nos EUA, onde o surgimento dos blogs revelou um novo paradigma na sociedade pós-moderna, principalmente na mídia tradicional estabelecida. A partir de dado momento os bastiões midiáticos tradicionais, dados como indiscutíveis, passaram a repensar sua existência como tal.
Não necessariamente a Web 2.0 causará a extinção das relações de comunicação na imprensa tradicional. Mas é sintomática a maior inter-relação entre as duas frentes. No mundo inteiro essa mudança ocorre com diferentes níveis de intensidade.
Mas nos EUA não há jornal que não mantenha em seu site na internet (um paradigma revolucionário dos anos 1990 que hoje soa tradicional) um canal com os blogs de seus jornalistas - sejam eles repórteres ou colunistas.
Com os blogs, e a conseqüente atenção recebida, todos são tão jornalistas quanto os que têm o nome publicado no The New York Times, Chicago Tribune ou na revista The Economist. Com isso surge a crise na mídia, a derrocada no lucro e o enxugamento nas redações. Surgem os blogs de "pessoas normais" (a expressão não transmite a informação requerida), que se tornam fontes de informação em diferentes setores.
O blog Engadget, especializado em produtos de alta tecnologia, postou em sua página um e-mail, recebido pelos funcionários da empresa Apple, afirmando que seu principal produto, o iPhone, não seria lançado em julho, como esperado, mas sim em agosto.
O blog é dos mais acessados da área, e tal post - que ficou na página por apenas 6 minutos - provocou uma venda maciça das ações da Apple, que caíram US$ 4 bilhões, o que numa comparação puramente explicativa, equivale ao valor de mercado do Pão de Açucar.
O teor do e-mail foi desmentido - o iPhone sairá conforme o estipulado - e o blog retirou a informação do ar. As ações se recuperaram, embora muitos acionistas, que no pânico venderam seus papéis, não ficaram contentes.
De fato e-mail foi repassado aos funcionários da Apple, e o blog conseguiu a informação com exclusividade. Mas antes de checar a informação com a própria empresa, resolveram publicar. Esse intervalo, de 6 minutos, entre a publicação e a constatação da mentira, foi o suficiente para detonar as ações e a credibilidade do blog Engadget.
O ocorrido serve para mostrar o poder da Web 2.0, e dos blogs na sociedade norte-americana, que por se tratar de principal economia, sente seus efeitos antes. O novo paradigma está na iminência de tomar uma importante parcela da sociedade, estabelecendo novas relações na mídia. O Brasil viu isso mais intensamente no ano passado, que no futuro será lembrado como o início das novas relações.
19/05/2007 14:03
Real de um e de outro
O dólar fechou a semana valendo R$ 1,96, o valor mais baixo desde janeiro de 2001, penúltimo ano do governo FHC, com Armínio Fraga à frente do BC. A atual supervalorização do real não pode, no entanto, ser literalmente comparada com a proporcionada pelo Plano Real de 1994.
Nos meses da URV, que fixou o valor de cruzados reais necessários para comprar um dólar, os economistas do Real - Pedro Malan, Pérsio Arida, Edmar Bacha, André Lara Rezende, Wiston Friscth e Gustavo Franco -, com Malan e Franco à frente, lançaram a nova moeda com valor de total paridade com a moeda americana. Isto é, R$ 1,00 comprando US$ 1,00.
Com um valor superficialmente forte e taxas de juros de mais de 85% ao ano (!!), houve uma maciça entrada de capital estrangeiro para aplicar em renda fixa, além de comprar papéis diretamente do Tesouro Nacional. Com essa inundação de dólares, o real passou a se valorizar e, em poucos dias chegou à valer R$ 0,82.
Foi então estabelecida uma banda cambial, fixando o R$ 0,82 como piso e tendo um valor pouco maior que um real, como teto. Basicamente a moeda ficaria estabelecida como valendo 1 por 1.
Mas, principalmente nos primeiros anos do Real, a inflação era de gigantesca. Só em julho de 1995 seu valor anualizado ficou abaixo dos três dígitos, e apenas entre o final de 1996 e o início de 1997 que passou a tomar valores similares ao de hoje - até a desvalorização do real de 1999.
Nesses primeiros anos do Plano a cotação da moeda não refletia a inflação, seu poder de compra era muito reduzido quando comparado à hoje. Mesmo os juros altos de hoje são fichinha perto da média de 40% ao ano do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. Com os juros mantidos em patamares estratosféricos o BC conseguia concentrar toda a demanda interna e externa de poupança que passou a viver dos pagamentos do governo, sem os riscos e a especialização que os juros do overnight exigiam.
Hoje o real é supervalorizado também pela enorme diferença entre as nossas taxa de juros e as taxas internacionais. A maior parte dos dólares que entram, valorizando o real, estão em títulos do governo, em fundos de renda-fixa, ou em posições vendidas em câmbio e juros do mercado de futuros.
Ainda assim o superávit comercial e a inflação cadente (menos de 3% em valores anualizados) fazem com que os atuais R$ 1,96 tenham maior poder de compra que os valores de janeiro de 2001. Ambas as políticas monetárias, dos tucanos e dos petistas, contaram (e contam) com o câmbio artificialmente valorizado. Mas em medidas diferentes.
20/05/2007 08:30
Frase do domingo
"Lula assistiu, pela primeira e última vez, como presidente, ao show do Chico (Buarque). Nem se voltar em 2014. É que o cantor só se apresenta de 15 em 15 anos. O único ministro que poderia ver o Chico de novo ainda no cargo é o do Longo Prazo, Mangabeira Unger. Mas este só gosta do Caetano Veloso".
Jorge Bastos Moreno, colunista do jornal O Globo, em sua coluna de ontem.
20/05/2007 16:20
Opiniões convergentes
Em nota do dia 14 ("É proibido discordar") chamei atenção para uma matéria da revista Veja da semana passada. O texto se referia ao recém-eleito Nicolas Sarkozy como presidente da França. Dizia: "É uma temeridade se dizer de direita, em público, na França - ainda que, desde a queda do Muro de Berlim, esteja claro que representa o mais positivo pensamento político ocidental e a via econômica eficiente para a criação de riquezas ".
O editorial da revista Época desta semana, contém um trecho de perfil muito parecido: "...e abraçou o capitalismo exatamente como aquilo que ele é: o melhor de todos os sistemas econômicos que a humanidade já inventou, o único capaz de gerar riqueza e crescimento na escala necessária para combater males como miséria ou pobreza".
De teor semelhante, Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria, em entrevista publicada pela Folha hoje, afirma que "Finalmente o espírito de David Ricardo [economista inglês que criou a teoria das vantagens comparativas entre países] pousou no Brasil".
20/05/2007 21:44
Planejamento e Gestão
A coluna de amanhã volta a tratar de um tema da maior importância: a Gestão Pública. É a terceira de uma série que começou no dia 8 de maio, quando mostrei um pouco do que havia sido feito até agora no Brasil, separando as noções de "gestão" e "operacionalização".
No dia seguinte, 9 de maio, tratei do principal instrumento recente de reformulação e análise da gestão pública pelo governo federal: o PAC, Plano de Aceleração do Crescimento.
Amanhã mostrarei as idéias de um economista da FGV-SP, Nélson Marconi, que hoje está na Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado, em Minas Gerais.
21/05/2007 07:00
Gestão Pública III
O processo de aprimoramento da gestão pública deve ter claro algumas medidas para ajudar na implementação de regras claras, com ganhos de eficiência previstos, com rígido acompanhamento e gratificação conforme o cumprimento e realização.
Esse pensamento deve ser estendido para todo o funcionalismo público, não apenas federal, mas estadual e municipal também.
O primeiro passo é checar o volume de trabalho, o tempo de execução da tarefa, da jornada de trabalho, da meta de desempenho. Estabelecer e prever todos esses parâmetros permite calcular o número de servidores em função dessas variáveis. Com metas claras pode-se saber o número de pessoas necessário para alcançá-las.
A seguir deve-se criar métodos eficientes de incentivos. Esse ponto é quase tão importante quanto o anterior, afinal, diante da atual situação, fica-se refém do funcionário não motivado. Como não há incentivo para se cumprir o esperado, trabalha-se sobre a regra do "tanto faz".
As melhorias na gestão pública costumam ser muito lentas, respondendo apenas à espasmos. Mas existe. De acordo com o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), o número de servidores na esfera federal diminuiu. Nos municípios, eram 1,3 milhão em 1999, e 4,5 milhões em 2005.
Nos Estados, onde as mudanças têm acontecido com maior rapidez, houve um pequeno aumento, de 68 mil, de 1999 a 2005. E isso se deu muito em parte das mudanças contratuais entre os Estados e os funcionários.
O que fazem os Estados mais avançados? Estão transformando parte da estrutura administrativa em organizações sociais - instituições privadas que recebem verba e equipamentos dos governos para desempenhar ações específicas. Esses funcionários são contratados pela CLT, sem benefícios como a estabilidade no emprego.
Mas nem tudo pode passar às organizações sociais. Os cargos que fazem o Estado funcionar devem ter estabilidade no emprego, para que não fiquem suscetíveis à mudanças de caráter político. Carreiras como diplomacia, polícia, Justiça, o pessoal que elabora as políticas públicas, o Orçamento, entre outros. O que também não quer dizer que não se possa flexibilizar um pouco o regime. Principalmente por terem importância maior para funcionamento estadual, não podem ocorrer acomodações.
Em ambas formas de contrato as regras de gestão devem estar muito claras. A criação de conselhos independentes do governo, que avaliam os resultados de quem presta serviço público torna sua implementação ainda mais dinâmica, além de fugir da inconveniência de tratar com órgãos de dentro do próprio governo.
A parte final é tornar pública a avaliação feita por esses órgãos independentes. Assim, a sociedade passa a ter acesso à esses dados, e passa ela também a exercer parte dessa fiscalização. A idéia de controle social sobre tudo isso é chave, como são medidas para tornar o processo mais ágil e transparente.
O economista Nélson Marconi, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), desenvolveu esse organograma de idéias, algumas já implementadas em países como Austrália, Nova Zelândia e Inglaterra, e que começa a ser posta em prática em alguns Estados. Marconi já foi diretor de Carreiras e remuneração do Ministério da Administração no primeiro governo FHC (1995-1998), e hoje é contratado do governo de Minas Gerais. Trabalha junto aos técnicos da Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado.
21/05/2007 19:21
Pérola da inconsistência
A dupla de economistas Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti, saíram com uma pérola em seu artigo mensal no Valor de hoje.
"O cãmbio depreciado, que eleva o superávit nas contas correntes, é também o que eleva o custo das importações, desestimulando a formação bruta de capital fixo, que depende das importações de bens de capital e de matérias-primas".
Partem de um efeito benéfico que o câmbio depreciado proporciona, que é a elevação do superávit nas contas correntes e de um efeito real consequente, que é a elevação do custo das importações, para dizerem uma meia-verdade. Segundo a dupla os preços altos para importação desestimulam a formação bruta de capital fixo (fbcf), que é o nome dado aos investimentos em máquinas, equipamentos e construção civil.
Realmente esses bens de capital se tornarão mais caro com o real depreciado, como aliás, qualquer item importado tornará. Mas esquecem que, com o câmbio depreciado as perspectivas de lucro no médio-longo prazo tornarão as importações desses bens inerentes. Mais ainda, haveria inclusive produção desses bens em território nacional, seja através de empresas de capital brasileiro, seja de empresas estrangeiras que resolverem alocar sua produção aqui.
"Mas, ao lado deste custo, o superávit nas contas correntes traz o benefício da redução da dívida externa, que é a força predominante na explicação da queda dos prÊmios de risco, com reflexos no custo do capital".
Logo após criticar a depreciação cambial como fator desestimulante das importações de bens de capital, os economistas afirmam que graças aos efeitos benéficos na conta corrente, a depreciação cambial é melhor.
Agora fiquei confuso. Afinal, o que de fato eles querem dizer no artigo?
22/05/2007 07:00
Precisa-se de reflexão
É impressionante o poder do pensamento em parte importante dos economistas e jornalistas de economia. Importante porque, vias de regra, ocupam posição relevante em seus setores e, principalmente, porque a circulação de idéias entre as duas partes é intensa. Um pauta o outro. E vice-versa.
O mais recente exemplo se refere ao debate criado acerca da quebra - para baixo - da barreira psicológica de câmbio de R$ 2,00 por US$ 1,00. Com o dólar cada vez valendo menos, fechou ontem cotado à R$ 1,94, discutia-se antes a razão da supervalorização do real. Agora se discutem as saídas para reversão do processo.
Dentre as muitas idéias, uma em especial, foi lançada na semana passada, em entrevista do ex-presidente do Banco Central (1997-1999), Gustavo Franco, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo.
Na entrevista Gustavo disse que, se o problema é o excesso de dólares, devemos então achar uma maneira de "gastar esses dólares" (expressão que virou moda da vez na rádio CBN).
Daí Gustavo propôs então que se deve abrir a economia brasileira à sorte dos importados. Ou seja, cortar todos as tarifas de importação, de todos os setores e produtos, por três meses. Sem tarifa de importação e com os produtos chineses à frente, grande parte desses dólares seria usada para comprar esses produtos. A isso foi dado o nome de "choque de importação".
Desde então, a idéia de "choque de importação" pautou parte importante dos jornalistas de economia e outros economistas. Os jornalistas passam a repetir a idéia em seus meios (impressos, televisivos, através do rádio ou da internet). E outros economistas passam a desenvolver estudos, e a escrever artigos que comprovem a idéia.
Essa propagação do poder de pensamento entre as partes toma proporções incríveis. Em seu artigo mensal ao jornal Valor Econômico, a dupla de economistas liberal-ortodoxos, Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti, levaram essas idéias para campos estratosféricos.
Para defenderem a tese de que o câmbio baixíssimo como está é algo bom para a economia nacional, a dupla resolveu adotar o discurso da moda, do "choque de importação". Defendem que máquinas e equipamentos só podem ser adquiridos externamente, não podem ser produzidos no Brasil. Segundo eles o câmbio depreciado desestimularia os investimentos em bens de capital.
Sim, de fato o câmbio depreciado desestimula a importação, que se torna mais cara. E as poucas conseqüências positivas que o câmbio supervalorizado traz, é o de tornar os bens de capital (máquinas e equipamentos) importados, mais baratos.
Mas a partir do momento que há expectativa de lucro, investe-se da mesma maneira em máquinas e equipamentos. Com o câmbio depreciado e perspectivas de permanência dessa situação, há inclusive o inicio da produção desses bens aqui em território nacional.
Da maneira como está, com real supervalorizado frente ao real, setores estão penando para sobreviver. Já diminuíram ou cortaram as exportações. A luta maior está no mercado interno, que vive o boom dos produtos chineses, que chegam com preço menor. Sem poder vender nem para fora, nem para dentro, muitas dessas empresas passam a importar o produto acabado. Tornam-se empresas maquiladoras.
O tal "choque de importação", seja por 3 meses ou não, seria a pá de cal em setores inteiros da indústria nacional. Esse tipo de idéia e de pensamento impressiona pela ausência de reflexão decorrente.
22/05/2007 14:52
Quando a prática fura a teoria
A coluna de hoje analisou essa idéia de aplicar um "choque de importação" como forma de diminuir a apreciação cambial. Provavelmente diminuiria um pouco, mas levaria consigo setores produtivos inteiros. Não parece algo muito sensato.
O artigo de ontem da dupla Pastore-Pinotti, discutido em nota ontem no Blog e na coluna de hoje apresentou um argumento de que um câmbio depreciado desestimularia a compra de bens de capital importados. Certo.
Mas a única forma de aquisição de máquinas e equipamentos são os importados? Pois bem, vejam agora matéria publicada na Folha de hoje:
"Depois da queda de 2,1% no ano passado, o setor de máquinas e equipamentos aumentou o faturamento em 8,6 no primeiro quadrimestre de 2007. Segundo André Romi, presidente da Câmara Setorial de Máquinas, Ferramentas e Sistemas Integrados de Manufatura da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), a maior parte desse aumento se refere ao mercado interno.
(...)
'O Brasil não segue o movimento mundial em que os investimentos vêm antes do aumento do consumo: aqui eles ocorrem simultâneamente' diz Romi.
(...)
Com o dólar abaixo de R$ 2,00, ele afirma que o aumento de 25,5% nas exportações só ocorreu porque a indústria manteve os contratos externos mesmo com prejuízo ou redução das margens de lucro. Ainda assim o saldo comercial ficou negativo em mais de US$ 1 bilhão".
22/05/2007 17:07
Sai ou não sai?
Até o presente momento a capa e o editorial da Folha de S.Paulo de hoje formam uma contradição perigosa. A manchete de primeira página do jornal é "Ministro de Lula decide pedir afastamento" e a linha-fina, logo abaixo, diz: "Suspeito de envolvimento em fraudes apontadas pela PF, Silas Rondeau diz que desconhece denúncias".
No entanto, o editorial diz: "Ficou seriamente comprometida a sustentação política do ministro (...) cuja situação no governo permanecia indefinida até o fechamento desta edição".
O Valor foi mais comedido. O título da matéria (que não está na capa) é: "Silas Rondeau deve pedir afastamento do ministério".
De fato é o que o ministro deveria fazer. Com as acusações de que teria recebido R$ 100 mil da construtora Gautama, centro da "Operação Navalha", promovida pela Polícia Federal, o ministro deveria se recolher.
Em 1993, o então chefe do gabinete civil da Presidência - cargo hoje chamado de Ministério da Casa Civil -, Henrique Hargreaves, acabou citado nas denúncias da CPI dos Anões do Orçamento. Hargreaves então, pediu afastamento de seu cargo ao presidente Itamar. Passado o período de turbulências, Hargreaves voltou ao cargo.
Rondeau deveria proceder da mesma maneira. Se nada constar em seu nome, volta ao cargo. Do contrário, seu julgamento não sangraria o governo e o cargo, que tomou proporções enormes diante das negociações com a Bolívia.
23/05/2007 07:00
Investigando na planície
Com a deflagração do esquema dos "operadores de orçamento", voltam a estampar as capas de jornais o ativismo contra a corrupção. Os colunistas políticos passam a cunhar a expressão que nunca se torna velha no Brasil. O de que a corrupção é endêmica.
Num primeiro momento ao se tomar conhecimento do novo caso da Polícia Federal, a "operação navalha", surge o sentimento de continuísmos nos escândalos. Seja você um leitor novo, seja um veterano de carnavais, casos semelhantes surgem á memória. O mais curioso é que no caso da "operação navalha" até alguns personagens são "velhos de guerra" de denúncias e investigações.
Há exatos vinte anos o colunista da Folha de S.Paulo, Jânio de Freitas, escrevia na capa de seu jornal sobre a licitação fraudulenta da Rodovia Norte-Sul. Era o governo Sarney (1985-1990) e, alguns envolvidos, como o ex-governador do Maranhão, José Reinaldo Tavares (PSB), estão de novo na linha de frente entre os investigados.
Os mais novos recordarão da "máfia dos sanguessugas", quando parlamentares superfaturavam a compra de ambulâncias para seus Estados matriz, através de um esquema com o empresário Luiz Antônio Vedoin. O empresário dessa vez é Zuleido Veras, dono da Construtora Gautama, que conquistava a licitação de obras (previstas no Orçamento como gastos ministeriais ou dos parlamentares) mesmo antes da licitação pública.
Foi assim em 1987, repete-se o drama vinte anos depois. A verdadeira máfia que deve ser desbaratada é entre os prestadores de serviços, os partidos políticos e os "operadores de orçamento". Essa teia tem ramos muito mais profundos do que os até então analisados, por se tratarem de operações quase inerentes ao poder público. Os partidos entram com as verbas orçamentárias (com o dinheiro público que forra o Orçamento) e imediatamente stabelecem
contato com os "operadores". Esses sabem a quem procurar, como proceder, como fazer funcionar.
Essas operações são quase inerentes ao poder público por se tratarem de algo em que todos os partidos (existem exceções) se aliam e, por estar se tratando de gente experiente no ramo. O exemplo de 1987 é apenas um. O buraco é mais fundo.
23/05/2007 18:41
Melhor impossível?
As discussões partidárias para a vaga aberta pela demissão de Silas Rondeuau do cargo de Ministro de Minas e Energia, estão caminhando de maneira mais calma do que se poderia supor. A vaga vai permanecer na cota do PMDB, partido de Rondeau.
Rondeau assumiu o cargo após a antiga titular, Dilma Rousseaf, sair para assumir o posto de José Dirceu na Casa Civil, em outubro de 2005. O agora ex-ministro, é apadrinhado político de José Sarney (PMDB), atualmente no segundo mandato de senador pelo Amapá. Sarney, que foi presidente do Senado no primeiro biênio Lula, sai na frente como o homem que dará o nome do sucessor.
O que já tira da briga Nelson Hubner, que assumiu interinamente o ministério e é o secretário-executivo da pasta. Com ele, Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) também está fora - nome de confiança de Dilma.
A "disputa" pelo cargo de Ministro de Minas e Energia, está entre dois colegas de trabalho da Eletronorte. Ambos peemedebistas e "companheiros do Sarney": José Antônio Muniz, ex-presidente da empresa, e Astrogildo Quental, diretor executivo.
O presidente Lula já deixou à cargo de seus dois melhores amigos do PMDB, José Sarney e Renan Calheiros (AL), a decisão pela escolha.
A substituição de Rondeau está tão calma que nem dentro do próprio PMDB há controvérsias. O líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), já deu carta verde à líder do governo (que por coincidência é do PMDB também), Roseana Sarney (MA). Ou seja, a decisão do PMDB do Senado - aonde estão Sarney e Renan - será acatada sem problemas pelos deputados peemedebistas.
24/05/2007 07:00
O passado retoma de onde parou
A empresa ABB, fabricante de transformadores de energia, desistiu de investir US$ 50 milhões no Brasil graças ao real supervalorizado, que inibe as exportações. A idéia da ABB era de transferir duas linhas de produção que estão concentradas em uma das fábricas da empresa nos EUA.
O investimento seria de internacionalização da produção, produzindo aqui no Brasil - provavelmente em Blumenau (SC) - para em seguida exportar o transformador pronto para o mercado americano.
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A empresa Suggar, tradicional fabricante de exaustores, já chegou à exportar 14 mil secadoras de roupas por mês. Com a crescente valorização do real, passou a importar insumos, mas com a ação prolongada e intensificada (o real cada vez mais valorizado) não restou alternativa. Passou a importar produtos acabados.
Atualmente são 40 os produtos comercializados pela Suggar. Desses, 34 são importados, sendo 28 comprados da China. Com a nova estratégia teve de cortar 104 empregos.
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Esses dois casos foram temas de matéria nos jornais Valor Econômico e Folha de S.Paulo respectivamente. Servem para exemplificar a situação atual.
No caso de uma empresa de grande porte, pode-se contornar a situação, no curto prazo, segurando empreendimentos até que a maré mude. Se mudar investe. Se essa situação perdurar parte-se então para investir em outro país. Em ambas situações perdemos.
No caso de uma empresa de pequeno-médio porte, começa-se a importar insumos e peças. Com o agravamento da situação - seja por valorização excessiva da moeda, seja por valorização média, mas prolongada, ou seja, com os dois - passa-se então à importar produtos acabados. Demitem-se funcionários e a empresa torna-se maquiladora.
Nesse caso se a situação perdurar a empresa desaparece. Em seguida "os setores que estão importando bens não vão mais conseguir importar e terão fechado as unidades domésticas. Isso cria uma incógnita sobre o futuro da indústria", explica o professor do Grupo de Conjuntura da UFRJ, Antônio Licha.
Pena-se muito para retomar o padrão perdido, se um dia conseguir. Mas renascer um morto-vivo duas vezes pode ser letal. É a repetição ipsis litteris do Plano Real.
24/05/2007 11:15
BC não ajuda o Tesouro
O aumento dos títulos pós-fixados no perfil da dívida pública brasileira era evidente. A venda de contratos de swap cambial reverso no mercado futuro, está, no curto prazo, aumentando o número de títulos pós-fixados sobre os pré-fixados.
Esse movimento de "melhorar o perfil da dívida", ou seja, dar maior previsibilidade às contas do páis, se deflagrou mais fortemente no governo Lula. Resgatam-se mais papéis pós-fixados antecipadamente, além de emitir mais papéis pré-fixados e menos pós-fixados.
Em tese, uma dívida formada de papéis com juros pré-fixados dá maior previsibilidade ao deixar claro, de antemão, quanto o governo terá de pagar todo mês. Já os títulos pós-fixados, são atrelados à Selic, ou seja, são suscetíveis aos ânimos do Banco Central. Se subirem muito, nossa dívida atrelada à taxa explode. Mas o contrário também vale, isto é, se cair muito, nossa dívida fica mais barata e menor.
A venda de swaps cambiais reversos no mercado futuro surtem efeito no curto prazo. Afinal não se precisa entrar com o dinheiro imediatamente (por isso os contratos estão no mercado futuro), além de segurarem um pouco a moeda.
Mas esses contratos são de risco. Se a moeda se estabilizar no patamar que estava quando da venda do contrato, ou se valorizar, o governo paga a taxa Selic mais a variação cambial ao comprador do contrato. O Tesouro têm de torcer por uma desvalorização cambial.
Como isso não ocorre já há algum tempo, o Tesouro tem desembolsado a taxa básica de juros Selic (que hoje equivale à 12,5% ao ano), aos compradores dos contratos que o BC vende.
24/05/2007 20:05
A Disney que se prepare
Com o câmbio supervalorizado, alguns movimentos são sintomáticos. Um deles é a explosão das viagens internacionais entre os turistas brasileiros. Como o dólar já está barato há muito tempo, algumas viagens já puderam ser planejadas com alguma antecedência. A grande maioria, no entanto, de última hora.
A colunista Débora Thomé, interina de Miriam Leitão n'O Globo, apontou em sua coluna de hoje para esse movimento. A maior operadora de turismo do país, a CVC, aumentou a parcela de viagens internacionais do total vendido - de 20% para 30%.
"Os preços dos pacotes para o exterior caiu 15% em reais e foi ampliado o parcelamento de alguns trechos para 10 prestações. No ano as vendas já cresceram 30%".
Esse primeiro momento de euforia causado pelo câmbio é lembrado com saudosismo pelos viajantes, quando, não muito depois, a situação deflagra, e a estagnação econômica se mantém. Foi assim no biênio 1994-1995.
25/05/2007 07:00
Uma boa idéia
A edição de ontem do jornal Correio Braziliense foi a única a destacar o projeto do deputado João Leão (PP-BA), relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), de utilizar uma parte das reservas cambiais em prol dos exportadores.
O relator vai se reunir com representantes do Banco Central (BC) e do Ministério da Fazenda, para discutir sua idéia, francamente apoiada em algumas idéias lançadas recentemente.
A idéia é boa, embora entre no rol das famosas "medidas paliativas" que o governo pensa (e as vezes coloca em prática) para evitar de mexer naquilo que é a real natureza do problema.
Primeiro têm de se definir de que maneira o dinheiro será utilizado. As reservas do país já ultrapassam os US$ 135 bilhões, e mesmo uma pequena parte, já iria "dar samba" como escreveu o Correio.
Esse dinheiro pode constituir uma linha de crédito especial no BNDES, ou ainda capitalizar algumas já existentes. Pode também, formar um fundo internacional, que aplicaria em ativos de maior risco, mas com um retorno muito maior que os 5% que os títulos americanos (onde estão alocados todos os US$ 135 bilhões) pagam ao ano.
Depois deve-se estabelecer que setores receberão esse dinheiro. Os exportadores de commodities ficariam evidentemente de fora, afinal seus preços estão em recordes históricos de alta - sem nenhum indício no médio prazo de mudança. São esses dólares oriundos das vendas maciças de commodities que estão levando o Brasil à "doença holandesa".
Partindo desse pressuposto, o financiamento especial seria concedido aos setores mais prejudicados pela combinação real supervalorizado e "efeito China". Isto é, com moeda artificialmente supervalorizada, as vendas externas tornam-se menos lucrativas ou geram prejuízo e as importações se tornam mais baratas.
Contando com o "efeito China" de exportações maciças de tudo, em larga quantidade, com preços baixos e baixo valor agregado (embora isso esteja mudando com o desenvolvimento econômico), têm-se a situação de calamidade que se instala continuadamente no Brasil dos últimos anos e que tende à se acentuar: o fim de nosso setor produtivo.
A idéia é boa e surpreende o atual imobilismo político-econômico que passamos. Mas, além de ser bem explicada sobre seus objetivos e gerência, precisa passar pelo BC e pela Fazenda. "Á conferir".
25/05/2007 21:29
Os ganhos financeiros no Brasil
O artigo dos economistas Samuel Kinoshita e Patricia Stefani, no Valor Econômico de hoje, repercute um trabalho da dupla que busca compreender a valorização recente do real. À seguir reproduzo alguns trechos:
"A hipótese de que a valorização de que a taxa de juros é uma variável fundamental na valorização cambial se sustenta, já que a crítica à mesma peca ao omitir fatores essenciais: as 'expectativas' e os riscos envolvidos nas decisões dos investidores".
"Note-se também outro fato interessante: hoje se espera que o real tenha uma volatilidade inferior à do dólar neozelandês, chegando muito próximo à do franco suiço (...) a explicação para esse fenômeno está nas intervenções no mercado à vista feitas pelo BC: seu desejo latente em manter uma cotação menos apreciada torna-se garantia de que a trajetória do real será a mais suave possível. O problema é que, ao oferecer um retorno muito alto com baixa volatilidade, o BC acaba por criar 'um negócio da China'".
"Variações nas posições liquidas dos investidores estrangeiros antecipam as variações na taxa de câmbio. Segundo nosso modelo, um aumento de 50.000 contratos na posição vendida líquida dos investidores estrangeiros está relacionado, em média, a uma apreciação de 1,2% na taxa de câmbio".
"Se admitirmos a posição dos investidores estrangeiros em dólares futuros na BM&F como sendo representativa de suas posições globais em moeda brasileira, esse resultado pode ser tido como uma evidência favorável ao mecanismo exposto acima".
25/05/2007 21:49
Instabilidade instantânea na fanfarra
O colunista do Valor, Luiz Sérgio Guimarães, foi certeiro no alvo, em sua análise dos três dias de ajustes, vividos pelos mercados nessa semana.
Segundo Guimarães, a depreciação cambial, ocorrida entre terça (22) e ontem (24), se processou sem que o Banco Central se mostrasse ativo (comparado à algumas semanas atrás), evidencia que não é o superávit comercial o principal responsável pelo dólar. Mas sim o fluxo financeiro derivado das operações de carry-trade, "as primeiras que são desmontadas ao menor indício de nuvens negras no horizonte. Nesses momentos, a variável risco ganha maior relevância que a da rentabilidade", conclui.
Essa hipótese encontra reverberação acadêmica no artigo dos economistas Kinoshita e Stefani, publicados na mesma edição do jornal. No artigo ambos explicam que as posições vendidas em câmbio no mercado futuro, pelos estrangeiros, antecipam uma tendência no mercado à vista. Mesmo se quisesse o jornal não poderia ter sincronizado melhor
26/05/2007 15:10
Sábado de "eitas"
Eita... 1
http://www.unisinos.br:80/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=7415
Eita... 2
http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=7416
26/05/2007 19:16
A commoditização das Artes
Affonso Romano Sant'Anna é um jornalista preocupado com a falta de autonomia dos homens, e o que esse processo - que ele caracteriza como histórico porém recente - influi nas relações em sociedade e nas Artes. A seguir destaco o texto da Unisinos, que promoveu o Simpósio Internacional "O Futuro da autonomia: Uma sociedade de indivíduos?".
Sobre a autonomia do indivíduo, ele explicou que ela foi extinta. “Se os indivíduos voltassem apenas para seus instintos, voltariam para a barbárie”, afirma. Ao comentar a autonomia do sujeito na arte, o jornalista ressaltou que primeiro é necessário identificar quem é o autor da obra e depois o sujeito para compreender se há relação entre eles. Referindo-se ao pensamento de Graciliano Ramos, Sant'Anna reafirmou que “não há autonomia absoluta na arte”, já que todo artista está preso ao sistema simbólico de seu tempo, o que dificulta sua liberdade.
Segundo ele, tudo está sendo aceito como “arte”. Ao negar os padrões existentes, ele explica que o indivíduo passou a ser seu próprio autor, e a arte transformou-se em anti-arte.
Antigamente, compara, “os artistas eram admirados pelo seu trabalho”. O que se tem na atualidade, explica o jornalista, são obras resumidas ao mercado, e enfatiza “a arte se reduziu a uma commodity”, e o que está se formando é “uma sociedade estimulada pelo ibope”. E acrescenta: “Criou-se uma coisa espantosa: autonomia do receptor e não do sujeito”. Essa autonomia do receptor, afirma ele, é uma prática da alienação.
27/05/2007 22:41
Semana de Jornalismo
Esses próximos dias serão bastante atribulados para mim. Será realizada a Semana de Jornalismo na Universidade que estudo, e minha semana será repleta de palestras, oficinas, entrevistas e discussões.
Peço licença e perdão aos 13 leitores deste Blog se os textos demorarem à aparecer ou se as colunas diárias atrasarem. A mente não para, mas é o tempo, sempre ele, que se colocará como obstáculo.
Tivesse o dia pouco mais de 24 horas e este Blog ficaria normal até 1º de junho.
28/05/2007 23:45
Corte de custos em aérea
A TAM vai economizar R$ 100 milhões este ano contratando diretamente os funcionários de terra. Em grande maioria, são aqueles que trabalham em aeroportos regionais e até então eram contratados através de outras empresas.
O fim da terceirização desses empregos é mais uma medida da TAM como forma de corte de custos. A empresa aérea deixa de pagar À empresa que controla os funcionários terceirizados uma comissão que representava entre 1% e 3% do custo das operações nesses aeroportos.
Resta saber se essa medida não trará dano aos funcionários já contratados e se o padrão dos novos ("funcionários genuinos") será semelhante ou melhor. A TAM atravessa período crucial em sua história, por ter a chance de se tornar a maior companhia aérea brasileira.
Mas ela mesma se atrapalha com a constante valorização dos empresários vindos de fora, o chamados gestores com MBA, que nada são do que mentes focadas em planilhas, sem notar o quadro geral. Os episódios de overbooking do final do ano passado são apenas os mais lembrados.
29/05/2007 17:14
4.444
A revista The Economist dessa semana traz um ótimo lide (nome dado ao primeiro parágrafo de um texto jornalístico) para uma matéria que versa sobre a falta de expressão que o mercado de ações têm na economia chinesa. A tradução é de Sérgio Blum, para o Valor Econômico de ontem.
"Os chineses consideram o quatro um número muito azarado (pois, em mandarim, a palavra soa como morte). O número 4.444 é, portanto, muitíssimo azarado. Então, suponhamos que esta semana o índice da Bolsa de Xangai de ações classe A feche o pregão em 4.444 pontos (estava em 4.375 na sexta), o que é bem possível, em vista da alta de 258% desde o início de 2006. Será que isso amendrontaria suficientemente os investidores a ponto de causar um estouro na bolha dos preços das ações no país?".
30/05/2007 08:30
Os superendividados
Como disse estou participando da Semana de Jornalismo que acontece anualmente na Universidade que estudo, e por isso está dificíl atualizar o Blog com a frequência de antes. As colunas diárias são as mais sacrificadas.
É época também de entrega de trabalhos de fim de semestre, além de várias provas. E ainda, semana que vem tem feriado.
Um dos trabalhos que estou escrevendo trata de uma comparação entre uma letra de uma canção popular (dos anos 1980) e uma matéria jornalística veiculada recentemente. Antecipo que se trata da música Dívidas dos Titãs, lançada em 1986 no álbum "Cabeça Dinossauro", e de uma matéria da revista CartaCapital do último dia 20. Trato do Plano Cruzado (1986) e da manutenção do crescimento pífio de nossa economia. No meio de tudo isso estão os "superendividados" com os juros estratosféricos.
30/05/2007 15:59
Idéias de um
Os jornais de hoje apresentam colunas de dois economistas de opiniões contrastantes, que deixam transbordar também sua posição ideológica e circunstancialmente prática. Alexandre Schwartsman na Folha de S.Paulo e David Kupfer no Valor Econômico.
Vou expor a opinião dos dois com meus comentários sublinhados
Primeiro Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e hoje economista-chefe para a América Latina do Banco Real.
"Um espectro ronda o Brasil -o espectro das más idéias. A mais recente é a proposta de tributar as exportações de commodities para reduzir seu ímpeto e depreciar a moeda, supostamente justificada pelos casos do Chile e da Noruega, países que tributam as exportações de cobre e petróleo, respectivamente".
Seu mote está posto: tratar da idéia de Bresser-Pereira (já analisada neste Blog na semana passada) de tributar as commodities brasileiras como forma de manter os dólares em fundos internacionais. Sem a entrada desses dólares a moeda se depreciaria ajudando o resto da economia - inclusive os exportadores de commodities. Esses dólares estariam à disposição apenas dos tributados, que estariam livres para recebe-los sobre regras específicas.
No entanto, à parte o mérito de reconhecer que o desempenho das exportações (e não a taxa de juros) é o principal fator de pressão sobre a moeda, uma análise detalhada indica que, no ranking das más sugestões, esta ocupa lugar de destaque.
Essa idéia não anula a versão de que as taxas de juros excessivamente altas no Brasil atraem uma montanha de capital atrás de lucro na arbitragem. A tributação sobre exportação de commodities é medida conjunta à queda dos juros e, inclusive, posterior à tal processo.
"(...)Vale dizer, nesses países tanto o desempenho fiscal como as contas externas estão fortemente ligados a uma única commodity, de preço volátil e não-renovável. Não é necessário grande esforço para concluir que a simples prudência recomenda poupar ganhos extraordinários para dias menos felizes. Em tais períodos, os dividendos desses fundos, se bem aplicados, mantêm o balanço de pagamentos em boa forma e evitam cortes drásticos dos gastos públicos".
Schwartsman diz que tanto Chile quanto Noruega - que praticam a tributação sobre exportação de commodities - são totalmente dependentes de apenas uma commodity. Como nós (brasileiros) dependemos de mais de uma commodity, então pronto, a idéia está descartada.
"Por fim, nos dois países, as empresas produtoras são estatais, de modo que as decisões de produção e exportação de commodities são menos sensíveis à tributação que as tomadas por empresas privadas. (...) Trata-se, pois, de mera importação de uma idéia sem maior preocupação com o entorno em que foi gerada nem com o ambiente no qual seria aplicada. Curiosa ironia para quem sempre criticou a teoria econômica tradicional por supostamente refletir as condições de países desenvolvidos sem consideração pelas especificidades nacionais..."
O ex-diretor do BC conclui comparando o fracasso da idéia ao mesmo diagnostico dado ao fracasso de idéias anteriores (da turma do Real): a formação de consensos apenas por se tratarem de casos internacionais.
30/05/2007 16:23
Idéias de outro
Agora exponho as idéias de David Kupfer, economista professor do Instituto de Economia da UFRJ. Meus comentários estão sublinhados.
"Se a economia brasileira está se enchendo de divisas, é porque esse é o resultado final da contabilidade entre o que entra e sai pelas exportações e importações; pelas transações com serviços; pelo investimento direto no e do Brasil; ou, ainda, pelas aplicações financeiras no exterior por residentes e no país por não-residentes. O difícil, como sempre, é determinar como as mudanças nos diversos componentes de uma adição contribuem para as variações do resultado dessa mesma adição. Isso é ainda mais difícil quando componentes como o movimento comercial são registrados com razoável precisão, enquanto outros, como movimentações financeiras que sequer passam pelo Banco Central, nem tanto".
O mote de Kupfer é tentar desmistificar a tese de que a inundação de divisas (dólares) em nossa economia se dá pura e simplesmente devido à conta comercial.
"Diante disso, chama a atenção a desenvoltura com que alguns analistas insistem que o câmbio valoriza por causa do saldo comercial e não por causa da entrada de capitais atraídos pelo diferencial muito positivo entre os juros nos mercados interno e externo. O argumento básico é apoiado em dois pilares. O primeiro vem da análise da evolução recente do saldo (...) o segundo argumento é baseado em lógica e não em números: a taxa de juros não poderia ter relação com a apreciação do câmbio, pois a Selic vem caindo ininterruptamente ao longo dos últimos vinte meses e, portanto, a contribuição dos juros vem sendo na direção da desvalorização cambial".
O economista em seguida explica que o primeiro argumento deve ter em mente as transações correntes, isto é, "o saldo conjunto das transações comerciais e também das operações referentes a serviços como seguros, fretes e royalties". E esses números não se encontram em trajetória ascendente. Caíram 50% entre o primeiro trimestre de 2005 e o primeiro trimestre de 2007.
"Já o argumento contrafactual de que, se fosse culpa dos juros, o real estaria se depreciando, parece uma tentativa de acrescentar mais um passo à lógica irrefutável da velha anedota sobre alguém que cai do alto de um prédio de 30 andares e, ao passar pelo 20º andar, pensa: até aqui, tudo bem. O novo passo do raciocínio seria concluir: como do início da queda até aqui, a altura em que eu estava a cada momento diminuiu ininterruptamente, então não há razão para temer o futuro. Anedotas à parte, a questão não é, evidentemente, há quanto tempo a taxa de juros está caindo. O cerne do problema está no intervalo de tempo no qual a taxa de juros está - e estará! - em valor superior a um nível de referência, mantendo íntegros e cada vez mais difundidos os sinais favoráveis para que capitais forâneos busquem os ganhos de arbitragem".
"Adicione-se a isso o fato de que o fluxo "físico" de divisas que deveria estar sendo injetado pelo vai-e-vem das mercadorias está sendo cada vez mais alterado pela financeirização das operações de comércio externo. (...) A novidade está no fato de que o financiamento das importações para as empresas brasileiras está se tornando cada vez mais fácil - ou menos difícil - em vista da espetacular queda recente do risco-país, incorporando novas empresas ao jogo".
Quer dizer, não bastasse a antecipação dos dólares de exportações - através de ACCs e ACEs -, os importadores também deixaram de contratar os dólares no BC, para fechamento à vista do câmbio em reais, optando pelo financiamento externo.
"Enquanto o Banco Central não encontra uma linha firme de conduta e segue enxugando gelo por meio da compra de reservas que, em última instância, sancionam as estratégias de arbitragem, antes tipicamente financeiras e, agora, também, de financeirização da corrente de comércio exterior, é interessante a leitura do artigo de Paulo Gala, 'Dois padrões de política cambial: América Latina e Sudeste Asiático', publicado no último número da revista "Economia e Sociedade" (Campinas, v. 16, n. 1 (29), p. 65-91, abr. 2007), que ressalta a 'importância de câmbios competitivos como uma das explicações para o relativo sucesso dos países do Leste e Sudeste Asiático nos últimos 30 anos, notadamente quando comparado ao desempenho decepcionante dos latino-americanos e africanos'".
31/05/2007 14:58
De galinhas, CMN e Partidão
A Folha de hoje apresenta três ótimos artigos. Clóvis Rossi na página de opinião, de Paulo Nogueira Batista Jr. no caderno dinheiro e de Marcos Augusto Gonçalves no caderno Ilustrada.
Rossi está em Paris desde antes das eleições presidenciais que o direitista Nicolas Sarkozy conquistou. Seu texto compara algumas decisões e atitudes do presidente recém-eleito com nossos costumes e abusos.
"Como é possível que alguém em seu juízo perfeito seja capaz de contrariar o édito divino pelo qual se atribuiu aos Bancos Centrais e aos mercados que os condicionam o papel único de definir a taxa de juros ou de câmbio? Que terrível arcaísmo esquerdista não?"
"(...)No Brasil qualquer um que diga coisas parecidas com essas é condenado à fogueira como neobobo, atrasado, jurássico, 'cabeça de galinha' e por aí vai. Por aqui, ninguém acusou Sarkozy de nada disso. Vai ver que é por isso que a França é o que é, e o Brasil também".
Por sua vez, o diretor-executivo no FMI e ex-professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), Paulo Nogueira Batista Jr., escreve sobre a idéia do CMN de reduzir as metas de inflação para o biênio 2009-2010.
"Não nego que talvez seja possível alcançar resultados inferiores à meta atual, de 4,5%, até 2010. Os fatores internos e externos que não estão sob controle do governo podem continuar evoluindo favoravelmente. Mas porque se comprometer até 2010 com um arranjo mais rígido se não há nenhuma garantia de que os ventos favoráveis continuarão?".
Já Marcos Augusto Gonçalves trata de política na coluna de fim de página do caderno Ilustrada. Compara as greves e passeatas de 1977, que geraram na esquerda um pensamento distinto do antigo Partidão - que norteariam o surgimento do PT dois anos depois - com a greve iniciada pelos estudantes da USP. O título é eloqüente: "O PT virou Partidão".
"A atitude anti-Partidão era também uma atitude anti-União Soviética, a pátria do socialismo 'desvirtuada' pelo stalinismo e pela burocracia totalitária (...) e que os trotskistas, eram, no duro, no duro, a fração exilada da burocracia".
"É sempre bom lembrar que o PT surgiu justamente nesse contexto de declínio do Partidão. Era uma agremiação sindicalista, na qual a 'esquerdinha' viu a oportunidade de formar um partido revolucionário. Quando a fantasia rasgou e o lulismo mostrou sua cara dura, formalizaram-se as dissidências e as expulsões dos 'radicais'".
"Agora os remanescentes ou herdeiros da 'esquerda revolucionária' combatem o partido de Lula como combatia-se o 'reformismo'. O PT ficou careta. É o novo Partidão!".
31/05/2007 19:08
Fim ou manutenção do continuísmo
A coluna diária está de volta amanhã após ausência de uma semana, graças a cobertura - por parte deste blogueiro - das palestras e oficinas da Semana de Jornalismo na Universidade que estudo.
O texto de amanhã, trata do mês de junho, que tem agendadas duas reuniões que podem mudar o rumo do crescimento econômico do Brasil nos próximos anos: do Comitê de Política Monetária (Copom) e do Conselho Monetário Nacional (CMN).
Outra mudança desejável de junho seria o fim desse frio horrendo que maio nos trouxe.
31/05/2007 23:11
A turma da bufunfa ganha mais uma
O dólar caiu hoje 0,82%, fechando o mês de maio sendo cotado à R$ 1,926. É a menor cotação do real desde novembro de 2000. Essa queda final ditou a vitória dos "vendidos" em câmbio futuro - a maior parte dos quais fundos estrangeiros.
A queda de 5,4% na cotação do real, acumulada apenas no mês de maio, se acresce a variação da Selic no período, de 1,03%, proporcionando ganho de 6,5% em apenas um mês. Esse ganho supera a rentabilidade anual de um título do Tesouro americano, que é o papel mais seguro do mundo e rende quase 5% ao ano.
Sim, em um mês se ganhou mais operando no Brasil que a renda fixa americana paga em um ano.
A cotação baixa, por um período grande como o atual, e, pior, sem indicação de uma mudança radical, faz com que alguns governos estaduais se mexam através das medidas paliativas, para tentar atenuar o problema.
Segundo a ótima revista sulista Amanhã, o secretário do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais do Rio Grande do Sul, Nelson Proença, anunciou que a partir de amanhã (junho), o governo gaúcho vai lançar o Programa de Amparo aos Exportadores.
O projeto se baseará num conjunto de medidas para incentivar as pequenas e médias empresas exportadoras, por meio de promoção comercial e inovação tecnológica. "A interrupção das atividades da fabricante de calçados Reichert, de Campo Bom (RS) reforça a nossa convicção de que, com esta taxa de câmbio suicida para os exportadores, precisamos fazer o que estiver ao nosso alcance”, disse o secretário.