01/06/2007 07:00

Mês de decisão

O mês que se inicia é dos mais importantes. Algumas das medidas que serão tomadas podem mostrar o rumo que trilharemos pelo resto do governo Lula. Não que se tratem de medidas históricas agora. Nossa situação atual é resultado de escolhas feitas num passado recente sobre uma situação também posta por escolhas.

Junho será o mês de dois órgãos de política econômica: o Copom e o CMN. O Comitê de Política Monetária (Copom) é formado pelos diretores do Banco Central (incluindo seu presidente), que se reune mensalmente para decidir a taxa de juros básica de nossa economia. A reunião desse mês será realizada nos próximos dias 6 e 7.

Como vem se especializando, desde que foi criado, em tomar as decisões que o mercado aguarda, o resultado das reuniões normalmente é conhecido. É aquele que as principais empresas de conultoria, operadores de mercado e investidores precificam. Dessa vez o mercado aguarda corte de 0,5% na taxa Selic. É o que provavelmente acontecerá.

Feito dessa forma não serão destituídas as operações de carry-trade - tomar dólares em países de juros baixos (como o Japão) e trazer para cá, transformando esses dólares em reais e aplicando em títulos do governo, que rendem muito e não são taxados de Imposto de Renda.

O investidor estrangeiro ganha fácil em nosso mercado. Desde no mercado à vista e mais ainda operando no mercado futuro. Lá são quase US$ 17 bilhões de "vendidos" em câmbio. Nessas operações vence com a valorização da moeda, recebendo a Selic.

Enquanto a enorme diferença entre os nossos juros (hoje em 12,5%) e os juros internacionais (atualmente em 6,25%) se mantiver, nossa conta financeira será inundada de dólares. É mais vantajoso, e seguro, ganhar na renda-fixa brasileira do que em investimentos no país.

A reunião do Copom desse mês pode, no entanto, destituir parte dessas operações com um "choque simbólico". Isto é, cortar a taxa numa valor maior que o mercado concede, dando sinais de que novos, e fortes, cortes virão. Se o corte for de 1%, por exemplo, o baque gerado no mercado será suficiente para diminuirem as especulações.

Mas, mesmo que hipoteticamente, se o Copom cortar os juros em 1%, tudo será jogado fora pela reunião do CMN que acontece no final de junho.

O Conselho Monetário Nacional (CMN) é constituído pelo Ministro da Fazenda (Guido Mantega), pelo Ministro do Planejamento (Paulo Bernardo), e pelo presidente do Banco Central (Henrique Meirelles). O Conselho estabelece as diretrizes das políticas monetária, cambial e creditícia, além de regular e fiscalizar as instituições financeiras.

Nessa reunião será escolhida a meta de inflação que o BC (e por extensão o Copom) terá que alcançar no biênio 2009-2010. A meta de 2007 e de 2008 é a mesma dos últimos dois anos (2005 e 2006): 4,5%, com intervalo de tolerância de 2% para cima ou para baixo (6,5% máximo; 2,5% mínimo).

Foram as decisões anteriores do CMN, quando se rebaixou a meta anualmente até o valor atual, que fizeram essa política absolutamente excessiva de juros estratosféricos. Mata-se o crescimento mas cumpre-se a meta.

Discute-se diminuir a meta para 4% ao ano, diminuindo o intervalo de tolerância para apenas 1,5% acima ou abaixo. (5,5% máximo; 2,5% mínimo).

Se houver novo rebaixamento na meta à ser alcançada o resultado será o mesmo. O BC ficará tentado à não descumprir a meta e usará essa premissa como bode expiatório para manter os juros altos. É a política de errar para mais, mesmo que o crescimento seja novamente sacrificado. Como diz Paulo Nogueira Batista Jr., só a turma da bufunfa vai gostar.

 

02/06/2007 14:34

"Entretenimento" de sábado

Em sábado de frio não adianta reclamar: ficar em casa é regra. Dentre os bastiões da regra está o de assistir televisão. No mundo da Web 2.0, televisão é sinônimo de YouTube, com todos os programas absolutamente fúteis e inúteis que a televisão normal dispõe.

Mas o YouTube também conta com vídeos - especialmente documentários - incríveis e facinantes. Sejam eles nacionais ou estrangeiros, de baixa ou de alta qualidade. Navegar pelos diferentes vídeos, de diferentes temas, de diferentes nacionalidades é uma forma perfeita de agregar conhecimento através do "tubo", da televisão.

A sociedade pós-moderna reclama não dispor de tempo para os livros. Mas em um sábado como este, passa todo o tempo em frente à televisão. Com duas variáveis: o canal e a posição em que se assiste. Com essas duas variáveis combinam diferentes modelos. Uma coisa não se altera: o conteúdo "assistido", que permanece constantemente inútil.

Para não alongar uma discussão que se avista secular (os problemas da pós-modernidade), uma sugestão para esse sábado gélido e chuvoso: Documentário americano do golpe de Estado na Venezuela de abril de 2002. Sensacional.

http://www.youtube.com/view_play_list?p=DB51597A34FF6E89

 

03/06/2007 17:21

Senado brasileiro e os venezuelanos

O colunista da Folha, Jânio de Freitas, foi preciso no seu artigo de hoje no jornal. Jânio vem tratando das questões acerca do Senado Federal desde o início da Operação Navalha da Polícia Federal. Em grande parte das vezes é uma das poucas vozes que escapam do "efeito manada" que a mídia toma em eventos desse tipo.

A única "notícia" capaz de dividir as atenções da imprensa nos últimos dias é a não-renovação do contrato de concessão pública para o canal Radio Caracas de Televisão (RCTV) pelo governo Hugo Chávez na Venezuela.

Pois os senadores brasileiros não aceitaram tal afronta. E enviaram um documento ao governo da Venezuela, pedindo explicações acerca do não-renovação de um canal de televisão na Venezuela.

Afora todos os acontecimentos consequentes do envio do documento, Jânio tratou do assunto.

"O ato administrativo praticado na Venezuela está de acordo, portanto, com o fixado pela própria Constituição brasileira. As razões de Hugo Chávez contra uma TV documentadamente comprometida com um golpe de estado compõem outra ordem de discussão, política e ideológica, mas não a de agressão ou violação da democracia.

O funcionamento de tevês não atesta, por si, a existência de democracia, assim como a liberdade de expressão não lhes dá o direito de fazerem do canal, concedido em nome do público, o uso que quiserem. O uso político/ideológico de um canal de propriedade da nação, embora de exploração particular, não será legítimo quando se volte contra as aspirações de uma parte significativa dos proprietários públicos do canal".

Sei que este Blog não está sozinho, mas não custa perguntar. Será que não há mais nada para se preocupar no nosso próprio país?

 

03/06/2007 17:42

Joio do trigo

Virou mania citar que o Brasil não cresce há muitos anos - e de fato é verdade - ou dizer que quem nasceu a partir de tal ano nunca viu o Brasil crescer. Nisso entram nomes importantes, de economistas e jornalistas, cada um com sua conta, com seus números.

Para esclarecer: em 1978 (último ano do governo Geisel), o Brasil cresceu 5% - número mínimo para ser considerado como crescimento vigoroso - com inflação (sempre medida pelo IGP-M) de 40,8%.

Geisel deu lugar ao novo presidente militar, Figueiredo, em 15 de março de 1979. Naquele ano o país cresceu 6,4% com inflação de 77,2%. No ano seguinte, o crescimento foi de 7,2% mas inflação de 110,3% ao ano.

Foi em apenas a partir dos números de 1981 que o Brasil passou ao binômio recessão-crescimento pífio. Nesse ano o crescimento foi negativo em 1,6% e inflação de 95,1%. No ano seguinte (de eleições para governador), o crescimento foi de 0,9% com inflação mais ou menos estabilizada: 99,7%.

E em 1983 o maior recessão brasileira. O PIB caiu 3,2% e a inflação alcançou 211% ao ano.

Não é intenção deste texto discutir as razões da inversão nas taxas de crescimento entre 1980 e 1981. Apenas chamo a atenção para o esclarecimento: crescimento por crescimento, o período de crescimento pífio se iniciou em 1981, portanto há 26 anos.

 

04/06/2007 18:27

Metas de inflação

A coluna de sexta-feira passada ("Mês de decisão") tratou das reuniões do Copom e do CMN (Conselho Monetário Nacional) que acontecerão em junho. Desde então algumas informações e opiniões pipocaram sobre o tema.

Na Folha de S.Paulo de sábado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou a idéia do CMN alterar a meta de inflação e o intervalo de tolerância para 2009.

A edição do Valor Econômico de hoje traz no editorial uma defesa de parte da medida. O jornal defende a diminuição da meta (dos atuais 4,5% anuais para 4%) mas é contrário à mudança no atual intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Como discutido na coluna mencionada, este Blog não vê razões de se alterar a meta de 4,5%, nem o intervalo permitido, de inflação para 2009 ou até 2010. Nova diminuição acarretaria movimento semelhante ao vivenciado em 2004, quando da última alteração.

Naquele ano a meta caiu de 5,5% para os atuais 4,5%, causando frisson no Banco Central. O país via crescimento vigoroso nas exportações e certa elevação no consumo interno, e com uma meta mais rigorosa à perseguir o BC se viu tentado à aumentar os juros. Não deu outra. O aumento foi desmedido (chegou à 19,75% em julho de 2005), matando o crescimento dos dois anos seguintes.

 

05/06/2007 15:35

O ocupante

Já tinham passado das cinco e meia e nada do entrevistado. Era ainda tarde, mas o vento frio e a aparência nublada transformavam aquele dia numa noite. Ainda não tinha visitado a reitoria da USP desde que ela foi ocupada por seus estudantes no dia 3 de maio. E estava ali em plena quarta-feira para uma entrevista, com um professor daquela instituição, para cumprir meta de um trabalho de disciplina na minha Universidade.

Cheguei mais cedo, mas, por não ser aluno, só poderia entrar no espaço ocupado com autorização de alguém. E o professor ainda atrasaria.

Por desconhecimento parei o carro longe e fiz o percurso à pé. Daí que estava plantado em frente ao prédio, sentado na guia da calçada, do outro lado da entrada. Poderia ver com clareza quando o professor chegasse. De fato, precisaria apenas criar coragem e me desvencilhar do casaco, bem ajeitado que estava, prensado entre meu corpo e o chão.

Tinha então a companhia de dois estranhos. Um rapaz ignorava o frio dormindo ao lado de uma fogueira improvisada em frente à reitoria. O outro não aparentava ser aluno. Se quer aliado dos ideais da ocupação. Trajava um paletó que um dia já fora preto – agora apenas “escuro” – sob uma camisa branca. A calça era jeans e o sapato vestia pés sem meias.

Ele andava de um lado ao outro, balbuciando algo repetidamente, como quem repete em voz alta o plano que a mente já traçou. Andava com a cabeça erguida, com os olhos fixos numa imagem só dele. Às vezes apressava-se ao circular a fogueira, apenas tendo o cuidado de desviar alguns passos do rapaz dormindo. Fazia isso de maneira quase inconsciente - não baixava a cabeça para olhar o chão.

Ajeitando a mala nas costas me levantei e fui sentar na guia da calçada em frente. Mais perto da reitoria. E mais perto do inquieto pensador.

Com cabelos desgrenhados, mas resistentes, vencidos apenas pelas rajadas de vento mais firmes, o homem parou. Estava de costas para mim, com o rapaz dormindo à sua esquerda. Ficou assim por algum tempo. Parecia ter combinado com o tempo. O vento calou e uma fina garoa surda surgiu.

Podia finalmente ouvir sua voz. Falava com pesar, em tom profundo e esforçado. Tinha problema nas cordas vocais, dificilmente forçaria aquela voz gutural que fez alguns ocupantes saírem de suas posições para virem se sentar do lado de fora. Do lado do frio, da lareira e do homem da voz gutural.

Foram uns cinco ou seis, com uma representante feminina à mais. Vieram, se sentaram e ouviram. Por um instante até o rapaz que dormia abriu um dos olhos, para fechar logo em seguida. O grupo de estudantes logo começou a debater com o homem, cada um com seus trejeitos, suas manias. Uns levantavam os braços para falar, outros ficavam de pé para se expressar. O homem, no meio tempo, voltou à carga de andar ao redor da fogueira.

A conversa era amistosa e o tema era certamente as reivindicações dos estudantes ao governo estadual. Alguns davam lugar a outros, se revezando nos argumentos. Outros apenas ouviam. O ritual parecia rotineiro. O homem parecia entender.

 

05/06/2007 18:35

O que realmente importa

O episódio que mais chamou atenção no noticiário do final de semana, não foram Chávez, Calheiros ou a USP. Foi o caso do ex-ferroviário polonês Jan Grzebski.

Jan entrou em coma após sofrer um acidente em 1988. Repito: 1988. Acordou na semana passada, 19 anos depois, impressionado com as profundas mudanças que ocorreram no período. De fato, analisando a história mundial, poucas vezes se encontram momentos tão díspares quanto o encontrado no período 1988-2007.

O ex-ferroviário ressaltou isso em frases tão lembradas pela mídia desde então. Seu país fazia parte da União Soviética, o mundo vivia a fase do neoliberalismo thatcheriano se expandindo na Europa ocidental e as políticas de Reagan nas Américas. A simples vivência de nosso tempo deixa claro o quanto a situação mudou.

Ainda assim, o que mais chama a atenção deste Blog é o sentimento exemplificado por Mariezá Ortega Roma, de São Carlos (SP), em e-mail publicado Painel do Leitor da Folha de S.Paulo de hoje:

"É gratificante saber que ainda restam pessoas como a mulher do ferroviário polonês que acordou após um longo coma de 19 anos. O carinho e a dedicação só vêm provar à humanidade que uniões duradouras são o sustentáculo da família".

 

06/06/2007 20:14

Como permitido pelo mercado

Ontem foi divulgado mais um dado alarmante que começa a revelar os equívocos da política cambial. O real vem se valorizando desde sempre, portanto não é de se esperar resultados ruins na indústria apenas a partir de agora, quando a cotação baixou dos R$ 2,00 por US$ 1,00.

A produção industrial de abril caiu 0,1% em abril em comparação à março. Bens de capital e duráveis caíram, respectivamente, 1,2% e 1,4%.

Ainda assim o que vale é o pensamento hegemônico e convencional, como explica Miriam Leitão: "Apesar do dado geral ruim da indústria, o mercado acredita que ele é pontual; e não indica que a curva está virando para baixo".

Ou seja, o mercado diz que não é ruim, o BC engole que não é ruim. Daí a manutenção dos cortes parcimoniosos na taxa Selic, mesmo que o corte de hoje tenha sido maior que os últimos de 0,25%.

O erro de ter diminuído a velocidade dos cortes na reunião de 24 de janeiro - dois dias após o anúncio do PAC - não será consertado por essa repentina (embora com o aval do mercado) aceleração.

Quer dizer, o corte de 0,5% já estava previsto, a fanfarra de ganhar dinheiro fácil em aplicações seguras e especulações no mercado futuro se mantém por mais tempo. O câmbio fica como está. A morte industrial se prolonga, levando cada vez mais empresas, seguidas de seus setores inteiros.

Até que a próxima crise venha para colocar toda essa "vitoriosa estabilidade com previsibilidade" por água abaixo.

 

07/06/2007 10:00

Blog em descanso momentâneo

O signatário deste Blog aproveitará o feriado prolongado iniciado hoje para tirar algumas férias. Frente à isso, este Blog estará, pela primeira vez desde seu início, lento na atualização.

Espero que os 13 fiéis leitores entendam. E aproveitem também esse período para descanso.

Tudo estará normalizado a partir de segunda-feira.

 

10/06/2007 18:06

Volta à ativa

Amanhã este Blog volta a carga normal, com a publicação da coluna diária. O texto de amanhã se trata de resenha do novo livro do jornalista Luis Nassif.

A coluna foi originalmente publicada na edição mais recente (número 47) do jornal Contraponto, laboratorial do curso de Jornalismo da PUC-SP.

 

11/06/2007 07:00

Os desmandos reincidentes

A vida de um país é formada por janelas de oportunidades. Elas permitem saltos, avanços, que, depois, vão sendo consolidados ano a ano, até o próximo salto, a próxima janela de oportunidades. O novo livro do jornalista Luis Nassif, "Os Cabeças de Planilha – Como o pensamento econômico da era FHC repetiu os equívocos de Rui Barbosa", mostra as semelhanças entre as duas maiores janelas de oportunidade que o Brasil já experimentou: a reforma monetária de Rui Barbosa, no alvorecer da República, e o plano Real, no final do século XX.

Para Nassif o processo chave da coincidência entre os períodos é o da “remonetização”, isto é, o maciço processo de injeção de moeda na economia, processo de reforma monetária que se repete poucas vezes na história e que confere a seus formuladores poderes discricionários. Segundo o autor “se utilizados com sabedoria e patriotismo, mudam a face dos países; se deixarem prevalecer os interesses individuais, eliminam por gerações as chances de desenvolvimento”.

O jornalista propõe quatro personagens que se repetem nos dois períodos mudando-se apenas os atores: o rentista é o detentor do grande capital nacional, que vai atrás de rentabilidade própria. No século XIX eram os ex-traficantes de escravos, comerciantes que enriqueceram com exportação de café; o financista é o operador e dono de banco de investimento que atua para o grande capital rentista; o político tem papel fundamental para definir o ambiente regulatório adequado ao financista e ao rentista; e o economista é o peão que faz o meio campo entre os interesses dos financistas e dos políticos.

A política de aumento das emissões monetárias, dirigido por Rui Barbosa, se deu para atender as novas demandas econômicas, devido à mudança nas relações do campo, com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado. Já a remonetização do Plano Real foi a substituição de uma moeda corroída pela inflação (cruzeiro real) por uma nova, o real. Nassif explica que se decidisse por uma não-rolagem da dívida pública (quando se emite títulos na moeda corrente, endividando-se ainda mais), por exemplo, “haveria uma esplêndida redução do endividamento”. Para ele é nesse ambiente de dívida pública que se processa a maior transferência de renda da história.

Luis Nassif lança mão de um texto puramente jornalístico, dispensando tanto o estilo de literatura como os jargões dos economistas, para explicar e relacionar as semelhanças percebidas por ele entre o Encilhamento e o Plano Real, quando o interesse pessoal da elite privilegiada se sobrepôs ao interesse nacional. Serve como grande apanhado histórico dos primórdios da República, além de fazer um contraponto à mitificação de Rui Barbosa, bem como uma balizada leitura crítica dos imaculados anos de implantação do Real, quando a opinião pública foi domada a glorificar seus formuladores pela vitória contra a inflação.

 

11/06/2007 22:44

Relacionando nada e coisa nenhuma

Depois do feriado prolongado, estou tomando esses primeiros dias da semana para colocar a leitura dos jornais em dia. Guardei todas as edições dos últimos quatro dias para não perder o ritmo. Não li tudo, mas algumas "notícias" chamam a atenção.

O Estadão publicou uma matéria na sua edição de quinta-feira passada em que dizia que os juros básicos (Selic) de 12% obedecem à Constituição brasileira. E é a primeira vez que isso ocorre.

Mas na própria matéria consta que no artigo que prevê essa taxa - artigo 192, parágrafo terceiro, proposto pelo falecido jornalista e deputado Fernando Gasparian (PMDB) - os juros de 12% se referem às taxas "reais", isto é, a taxa nominal (essa sim a Selic) descontadas da inflação prevista para os 12 meses seguintes.

Segundo essa conta, nossa atual taxa básica "real" é de 8%. Isso porque os juros são de 12% e a inflação prevista para os próximos 12 meses é de 4%.

Nesse caso nossa taxa "real" igualou 12% algumas vezes no período recente, e desde que a Selic estava na casa dos 17% com inflação prevista de 5% (período final de 2005), já estavamos de acordo com a Constituição.

Como se essa simples análise, publicada na matéria, já não fosse suficiente para inviabilizar o texto como notícia ou sequer como curiosidade, a própria matéria diz que "a limitação dos juros em 12% nem mais existe. Foi retirada da Constituição por meio da emenda constitucional 40/2004".

O fato alardeado na matéria, de que a atual taxa de juros "finalmente obedece a Constituição" foi jogado por terra depois de explicado que a Constituição trata das taxas de juros "reais" enquanto a matéria relaciona com as taxas nominais (Selic). Além do que a limitação nem existe mais. E mais: todos esses dados que inviabilizam a publicação do texto, foram explicados na matéria.

Então pergunto: se nada tem a ver com nada, qual é o sentido do texto?

 

12/06/2007 18:05

Nova rodada de medidas paliativas

A equipe econômica anunciou hoje novo pacote de medidas paliativas como forma de aliviar os setores mais afetados pelo câmbio. Anunciou também que novas medidas para os setores de eletroeletrônicos e automotivo estão à caminho.

São os primeiros passos da nova política industrial implementada por Guido Mantega (Fazenda), Miguel Jorge (Desenvolvimento) e Luciano Coutinho (BNDES).

Nada disso substitui um câmbio razoavelmente desvalorizado. Aliás, tivessemos uma política monetária ligada apenas ao desenvolvimento aliada à uma politica industrial bem traçada e implementada (o PAC e as medidas de hoje são ótimos esboços) não veríamos à repetição dos erros dos anos FHC.

 

12/06/2007 18:28

Coincidência entre BC e mercado

Após o fechamento do pregão da última sexta-feira o BC baixou novas regras para o mercado de câmbio. São três medidas: cortou-se pela metade o valor máximo de dinheiro de patrimônio líquido dos bancos que pode estar em operações no mercado futuro de câmbio; passa-se a contabilizar as transações - antes desconsideradas - de filiais de bancos estrangeiros nos limites de exposição cambial e exigência de capital; os bancos não podem ter mais que 11% de seu patrimônio em aplicações de risco.

Apenas a primeira medida passou a valer desde já. As outras duas entrarão em vigor a partir de 2 de julho.

A explicação oficial é tornar as operações de risco, em mercados futuros de câmbio, mais seguras para a saúde dos bancos. Isto é, diminuir o grau de alavancagem nessas operações.

A explicação prática é conter a supervalorização do real, colocando algum (mesmo que mínimo) risco nas operações de câmbio futuro para investidores estrageiros. É o primeiro passo real da nova diretoria do BC, especialmente de Mário Torós, que substituiu o diretor de política monetária Rodrigo Azevedo. Como já explicado no Blog, Torós tem vocação mais ativa e menos conservadora frente aos movimentos do mercado - justamente por ser por muitos anos operador de mercado do Santander.

Mas os primeiros dois dias de operações após a medida não mudaram em nada a trajetória do real, que permaneceu estável frente ao dólar.

Isso porque houve uma enorme coincidência com os traquejos da economia americana que balançaram o mercado (este o principal diretor do Banco Central) na semana passada. Os hedge funds desmontaram boa parte de suas mega operações no país graças à um aumento nos juros do tesouro norte-americano.

São esses fundos (maioria internacional) que puxam a cotação de nossa moeda para baixo. Trazem uma montanha de dólares alavancados para o país para aplicações em títulos do governo e operações no mercado futuro de câmbio e juros. Ganham os juros dos papéis, pressionam a moeda para baixo, e assim, lucram na saída.

As medidas do BC são um claro movimento de que o câmbio é sim um pilar importante de política monetária. Não poderia ficar abandonado como esteve na gestão Afonso Belivacqua (diretor de política econômica) e Rodrigo Azevedo. Não que seus substitutos sejam muito diferentes. São apenas "menos liberais", mas igualmente ortodoxo-conservadores.

 

13/06/2007 07:00

Ajuste à vista

A revista Amanhã é das melhores do ramo economia-negócios. Costuma antecipar tendências em variados setores, sempre com enfoque sério sobre como o produtor e o empresário brasileiro deve proceder.

Nesses tempo de real supervalorizado destruindo empresas e mais empresas de diferentes ramos, a revista - através de seu newsletter diário - lançou olhar sobre um impasse que pode matar o agronegócio brasileiro: a queda nos preços das commodities.

São os preços elevados das commodities (muito acima da média histórica, já há alguns anos) que mantém crescente nosso superávit comercial, que esse ano deve diminuir em relação ao ano passado frente ao maior crescimento das importações.

Se houver uma correção nos preços, que force os valores para baixo, de volta aos patamares históricos, os produtores de commodities agrícolas não terão aonde se sustentar. Afinal, é apenas graças aos preços elevados que os efeitos perniciosos do câmbio baixo não tenham sido sentidos.

O Sindicato e Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar)a presentou estudo, analisado pela revista, em que se baseia na possibilidade dos preços sofrerem queda. O valor recebido em reais pelos produtores não será suficiente para cobrir os custos agrícolas. Atualmente, commodities como soja, milho e trigo estão com cotação até 40% acima da média histórica.

A explicação está na ampliação da demanda por esses produtos em mercados como os Estados Unidos, que vêm utilizando esses produtos para gerar combustíveis – como é o caso do milho para o etanol e os óleos vegetais para o biodiesel. “Esses preços tendem a voltar à média histórica nas próximas três ou quatro safras”, prevê Cassiano Bragagnolo, analista da gerência técnica e econômica da Ocepar.

De acordo com o levantamento, se os preços se nivelarem e o dólar continuar na faixa de R$ 1,95, os prejuízos chegarão a 14% para os produtores de soja, 44% para os de milho e 78% para os de trigo. Na tentativa de frear esse possível prejuízo, a Ocepar está organizando um plano de reivindicações que serão levadas ao governo federal para atenuar o baque de uma eventual queda nos preços agrícolas.

Entre as demandas estão a redução de juros no crédito rural, a aceleração da queda na taxa Selic, a liberação das importações de agrotóxicos não registrados no Brasil (mas legalizados no restante do Mercosul), a isenção de tributos como a CPMF e investimentos maciços em infra-estrutura e logística. “O governo terá que pensar desde agora em ações para beneficiar o setor, que sofre há cinco safras no Paraná, por exemplo. O produtor também deve ficar sempre atento às tendências do mercado”, aponta Gilda Bozza, economista da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep).

Embora as projeções de longo prazo sejam pessimistas, a renda do agronegócio tende a ser boa em 2007, segundo a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). A previsão é de novo recorde nas exportações do setor: R$ 55 bilhões, R$ 6 bilhões a mais que em 2006.

 

14/06/2007 17:06

Frase da semana

"O que a gente vê de bonito na imprensa brasileira? Quais são as mensagens que nos provocam a viajar no final de semana? Não tem. Se fala de Pernambuco, é morte; se fala do Ceará, é morte; se fala da Bahia, é morte. Aí a pessoa diz: 'Espera aí, não vou sair daqui não, vou ficar dentro de casa'. E ainda olha, vê se não tem uma fresta, para não vir bala perdida".

Presidente Lula, ontem após o lançamento do Plano Nacional de Turismo. Mesmo evento aliás, em que a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (agora ministra do Turismo) sugeriu que os passageiros "relaxem e gozem" para enfrentar as longas filas nos aeroportos.

 

16/06/2007 13:45

Retórica da estabilidade

O economista da Mauá Investimentos, Caio Megale, é dos mais requisitados pelas editorias de Economia, principalmente mercado financeiro, das principais empresas de meios de comunicação. A Folha de S.Paulo de hoje traz um artigo de Megale, formado na PUC-RJ, em que ele defende o rebaixamento da meta inflacionária de 2009.

Já tratei do assunto em coluna de 1° de junho. Ainda assim, seu texto é clássico para mostrar alguns argumentos equivocados do pensamento hegemônico. Meus comentários estão sublinhados.

"A meta de inflação de 2009"

No próximo dia 26 de junho, o Conselho Monetário Nacional decidirá a meta de inflação para o ano de 2009, bem como as bandas que definiram a sua zona de tolerância. Essa decisão tem gerado um intenso debate entre os economistas.
De um lado, os que defendem uma redução da meta, dado que os atuais 4,5% ainda são altos para os padrões mundiais -hoje em torno de 3%. De outro, os que entendem que a manutenção dos 4,5% seria mais desejável, pois abre espaço para o Banco Central cortar mais a taxa de juros, levando a um maior crescimento econômico.
Dessa forma, parece oportuno avaliar alguns princípios da teoria econômica que possam ajudar um pouco mais no debate.
Em primeiro lugar, a decisão passa por um dilema ("trade off") comum em política econômica: credibilidade versus flexibilidade. Manter a meta em 4,5% com bandas largas daria mais flexibilidade à atuação do BC. Entretanto objetivos pouco desafiadores podem comprometer a credibilidade do regime, que tem como um de seus principais pilares a ancoragem de expectativas de inflação dos agentes econômicos.

Primeiro equívoco: credibilidade se conquista ao se alcançar as metas durante um período sustentado e longo. Sejam 4,5% ou 200% de inflação ao ano, se o BC atingir a meta proposta, adquirirá credibilidade.

Nesse caso, parece aconselhável reduzir a meta de inflação e as bandas de tolerância, dado que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) hoje acumula 3,3% nos últimos 12 meses e, portanto, 4,5% parece pouco desafiador. Mas fazê-lo de forma gradual, pois metas muito audaciosas também acabam sendo pouco críveis e, portanto, igualmente ineficazes para coordenar as expectativas.

Através de um mote falso o economista acredita ser "aconselhável reduzir as metas de inflação", afinal, assim como estão postas, as metas parecem "pouco desafiadoras".

Outro ponto relevante é o impacto dessa decisão sobre o crescimento. No curto prazo, a busca de um patamar mais baixo de inflação pode custar alguns trimestres de crescimento baixo. Por outro lado, o estudo econômico empírico mostra que níveis mais baixos de inflação tendem a levar a um maior crescimento no longo prazo, dado que a estabilidade permite o planejamento, incentivando o investimento e o consumo.
Como parece razoável apertar um pouco os cintos no curto prazo, em nome de maior crescimento por muitos anos à frente, esse aspecto também aponta no sentido de continuarmos a reduzir a nosso objetivo inflacionário, rumo a um patamar mais condizente com a prática internacional.

Agora se chega aonde se quer chegar: está criado o mais novo mote para privilegiar a estabilidade e assim postergar o crescimento para mais tarde. Esse é o macro ponto do pensamento ortodoxo convencional, vigente desde os fins dos anos 1980. Sempre há algo há fazer antes de fazer o país crescer. Passam-se os anos, mudam-se os motes, mas a aliança entre economistas e jornalistas em torno da estabilidade permanece firme. Já são 26 anos de crescimento pífio.

Finalmente, devemos observar o papel das expectativas. A teoria mostra que é possível reduzir a inflação com um menor custo de produto, se os agentes acreditarem que a aquela será efetivamente menor à frente e ajustarem seus preços e salários de acordo.
Ou seja, se a inflação esperada for mais baixa, provavelmente o custo de curto prazo da desinflação, mencionado no parágrafo anterior, tende a ser amenizado.
Estudos do BC mostram que a meta estipulada tem um forte poder de coordenar as expectativas. Se aproveitássemos o momento favorável por que passa a economia brasileira para reduzir a meta, a inflação esperada tenderia a ser menor, tornando assim a convergência menos penosa.

Este é o segundo ponto: temos de continuar aproveitando o momento favorável para produzirmos as condições necessárias. O pensamento maluco é de que podemos crescer 2% ou 3% quando todos crescem mais; estourada a próxima crise, quando todos passarão a crescer menos, nós cresceremos mais. Apenas porque tomamos os passos lentos da estabilidade.
É evidente que, deflagrada a próxima crise mundial, nós iremos juntos. E com isso, todas essas "maravilhosas vitórias" sumirão em pouco tempo.
Aliás foi assim em 1998, quando, então, tinhamos alcançado o recorde histórico de reservas (US$ 80 bilhões). Estourada a crise na Rússia e a manutenção daquele câmbio louco do primeiro governo FHC, as reservas sumiram em questão de meses.


Mantendo a meta em 4,5%, ancoramos a expectativa de longo prazo nesse patamar, o que demandará um custo maior de produto se desejarmos reduzir a inflação em algum momento do futuro.
Portanto, a melhor decisão a ser tomada parece ser a de reduzir a meta de 2009 de forma gradual, para algo como 4%, com bandas de tolerância um pouco mais estreitas, pois isso não apenas será decisivo para manter a credibilidade do regime monetário atual como contribuirá para o maior crescimento do país no futuro.

Porque defender tanto um crescimento futuro se nada garante? Podemos amortecer os riscos de uma crise, mas não dá para prever que esse "céu de brigadeiro" continuará por tanto tempo. Não dá para continuarmos atrasando um crescimento tão atrasado.

 

17/06/2007 21:30

Dois lados balanceados

Boa matéria na Folha de hoje sobre os indícios de desindustrialização ou, como denomina Márcio Pochmann, esclerose precoce industrial. A matéria está dividida em três páginas do caderno Dinheiro e são auto explicativas através de seus títulos. Veja só:

"Indústria de ponta perde espaço no país"

embora

"Recuperação da demanda interna pode mudar tendência da indústria"

mas

"Indústria sofisticada exporta menos e perde produtividade"

Os textos se baseiam nos dados recentes do IBGE, que mostram que a indústria de alto valor agregado (portanto de maior intensidade tecnológica e sofisticada) encolheu 16% nos últimos 10 anos. Enquanto isso a indústria de perfil mais básico aumentou sua participação em 9%.

Cerca de 70% da indústria está concentrada em produção de "baixa" ou "média-baixa" tecnologia, que são os setores de metalurgia básica, papel e celulose, petróleo etc. É no campo das commodities que a indústria extrativa mineral dobrou sua participação em dez anos.

O recente aumento da demanda interna pode compensar em parte o fim do canal exportador, fechado pela constante supervalorização do real, que se valorizou mais de 40% em 4 anos. Mas é o mesmo câmbio baixo que torna as importações mais baratas. Junta-se à isso a China e sua forte pauta exportadora e temos o cenário atual: não se exporta e, mesmo com aquecimento da demanda interna, não se compete aqui.

Daí que a diminuição nas exportações diminui a produtividade - menos dinheiro entrando como reinvestimentos - e consequentemente, qualquer base de disputa com as importações, especialmente com as vindas da China.

O melhor dessa matéria da Folha é constatar um contraponto(mesmo que baseado em números divulgados essa semana pelo IBGE, portanto "notícia"), na grande imprensa, à atual situação de louros midiaticos à condução da política econômica.

 

18/06/2007 13:35

Tanto faz a lista

A discussão da vez, no campo político, é sobre a reforma eleitoral. Páginas e mais páginas são gastas, opiniões ouvidas, trabalhos publicados, pesquisas realizadas. Discutir se a votação deve ser em lista aberta (como é) ou em lista fechada (vota-se no partido e é a agremiação que escolhe os candidatos) tomou conta do debate. E como todo debate na área, entram diversos pontos como corrupção, democracia, justiça partidária, enfim, bodes expiatórios mil para justificar este ou aquele ponto de vista.

Na coluna Painel, na Folha de S.Paulo de ontem, Renata Lo Prete contou sobre uma conversa de anos atrás, entre Aldo Rebelo (PC do B) e o falecido político, então governador de Pernambuco, Miguel Arraes (1916-2005). O relato é o melhor resumo das conseqüências práticas da atual discussão política.

Anos atrás, o deputado Aldo Rebelo foi incubido de tentar convencer o governador de Pernambuco Miguel Arraes das vantagens desse modelo.
-A lista vai coibir a força do poder econômico nas votações. Vai acabar com as campanhas milionárias-, argumentava Aldo, enquanto Arraes ouvia atentamente.

Encerrada a longa pregação do “comunista”, Arraes deu uma longa baforada em seu charuto e perguntou:
-Está muito bem. Agora me explique quanto é que vai custar para conseguir um lugar nessa tal lista.

 

19/06/2007 07:00

França e o século XXI

O atual período na França pode ser comparado com o de maio de 1981. Nesse mês a esquerda assumiu o poder com a eleição de François Miterrand, após ser oposição por 23 anos da Quinta República. A analogia se faz pela escala da vitória, afinal, o conteúdo real programático ideológico e a relevância dos dois períodos é distinta.

O ano 1981 foi o último de revolução no século XX, pois, além de contar com a esquerda no poder pela primeira vez na Quinta República, assistiu à uma mescla entre as velhas elites socialistas e os jovens formados na École Nationale ‘Administration, a escola de políticos francesa, criada no pós-Segunda Guerra.

A realidade que elegeu Nicolas Sarkosy é, no entanto, mais pragmática, com sentidos claros de tornar Paris uma Londres. Uma metáfora que sugere uma comparação superior de igualar a França à Inglaterra, em sentidos gerais, mais especificamente, os trabalhistas.

Há inclusive a tentação de promover uma escalada tributária, afim de tornar o território francês mais inóspito aos ingleses ricos (e até os nem tão ricos assim) que alocam sua riqueza em contas francesas – muitos deles assumindo cidadania francesa.

Nessa eterna comparação com os britânicos o maio de 2007 evoca o maio de 1997 inglês, quando o trabalhista Tony Blair foi eleito primeiro-ministro. A derrota dos conservadores ingleses encontra voz nos socialistas franceses, deixados de mão abanando, especialmente após a larga vitória do bloco político de Sarkosy, UMP (União por um Movimento Popular), nas eleições parlamentares. Mesmo que a bancada socialista seja maior que a formada em 2002.

Assim como Blair, o novo presidente francês acena com a formação de um bloco supra-partidário e social na formação de seu ministério – como a inclusão de mulheres norte-africanas negras. Essa ação é conciliada com a abertura de uma situação sem precedentes: ao menos no curto prazo Nicolas Sarkosy não conta com uma oposição firme.

A extrema direita está finalmente derrotada, após o fracasso do já idoso Jean-Marie Le Pen, único capaz de tornar as idéias desse escopo político aceitáveis para parte significativa do eleitorado francês; o centro se desarticulou depois que seu candidato, que quase chegou ao segundo turno nas eleições presidenciais, François Bayrou, se aliou sem medo à Sególene Royal, candidata do Partido Socialista derrotada por Sarkosy. A derrota de Sególene deixou Bayrou, e por extensão, o centro político francês, numa situação delicada.

Segundo o assessor sênior no Instituto de Relações Internacionais da França, Dominique Moïsi, são quatro os principais desafios de Sarkosy. A reforma do sistema educacional, para recobrar competitividade e criatividade; reforma da legislação trabalhista e social, para fazer a França voltar a trabalhar; integração bem-sucedida de minorias (esse ponto nefrálgico pelo passado recente de Sarkosy, que não soube lidar com os levantes de 2005, quando era Ministro do Interior); e uma contribuição qualquer que ele faça no sentido de remodelar uma oposição tão necessária para a democracia.

Dominique é otimista: "Diante desses obstáculos, Sarkosy tem boas cartas em suas mãos. Um 'novo Reino Unido', com um toque latino muito forte, pode estar prestes à surgir na França de Sarkosy".

 

19/06/2007 21:42

Como aqui, câmbio é foco no mundo

A coluna de amanhã tratará das novas resoluções de regime cambial que o FMI lançou, na última sexta-feira. Depois dos últimos três anos de abandono, visto que boa parte dos países que mantinham dívidas com a instituição, quitaram; o Fundo volta à ativa, tentando retomar prestígio, e, mais importante ainda, fazer valer a vontade dos Estados Unidos, sócio maior.

O Brasil quitou sua dívida com o FMI em dezembro de 2005. Os US$ 15,5 bilhões quitados se referiam à um empréstimo que só venceria este ano, 2007.

 

20/06/2007 07:00

FMI de volta à praça

Após meses de análises entre os países membros, e três dias de discussões internas intensas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) lançou, na última sexta-feira, novas resoluções programáticas. São as primeiras grandes mudanças nos princípios que regem a maneira como o Fundo monitora seus integrantes. A primeira desde 1977.

E ainda assim, não mudou nada.

O período iniciado no biênio 2002-2003, e ainda não terminado, de bonança econômico fez com que o FMI fechasse suas contas nos vermelho pela primeira vez em sua história em 2005. No ano passado o déficit aumentou.

Como forma de organizar seus balanços, rever seus conceitos nesse novo organograma político econômico e, atender às pressões feitas por seu principal sócio, os Estados Unidos, a organização apressou-se em anunciar novas medidas.

Uma dessas resoluções aprovada pela maioria dos países na última sexta é a de ampliar o monitoramento, por parte da instituição, dos regimes cambiais de seus membros. Ou seja, poder influenciar mais em políticas internas de países em desenvolvimento. Mais especificamente, a China.

Isso porque, a manutenção de uma cotação desvalorizada do câmbio chinês (yuan) em relação ao dólar - a relação é de mais ou menos 7 yuans para cada dólar - torna as exportações chinesas super competitivas, em tempos de super produção de quase tudo naquele país. O resultado é o crescente déficit comercial americano - que, apenas com os chineses, foi de US$ 232 bilhões no ano passado.

Voilá. As pressões americanas tem surtido pouco efeito nas autoridades chinesas, restando ao FMI fazer sua parte. Daí a sugestão do Fundo para que países "evitem políticas cambiais que resultem em instabilidade externa". Nas palavras do Valor ninguém é obrigado a seguir, mas os países que ignorarem podem se tornar alvos de atenção redobrada do FMI a partir de agora. E "atenção redobrada" seria...?

De resto as resoluções antigas, na área cambial, permaneceram as mesmas. Não se deve manipular as taxas de câmbio para evitar ajustes no balanço de pagamentos ou para tornar suas exportações competitivas.

Quer dizer, o Brasil continua sendo o melhor aluno em praticamente todos os critérios internacionais de "boa política econômica". A taxa de câmbio deve ser totalmente livre (já se valorizou 35% em menos de 4 anos); a inflação deve ser baixíssima. Para isso vale tudo, juros altíssimos, mas superávit primário igualmente alto para mante-los; dívida pública cadente (embora enorme).

Na decisão de sexta-feira, alguns países votaram contra, entre eles China, Egito e Irã. O Brasil, aliás, votou a favor.

 

21/06/2007 17:59

Cinema e a estratégia nacional

Luiz Zanin é critico de cinema, escreve para o Estado de S.Paulo e mantém blog com suas colunas e resenhas. Em post recente Zanin tratou de uma questão pouco analisada, que também incide sobre a perda da identidade nacional: o império de filmes norte-americanos nas salas brasileiras.

Essa questão é pouco discutida no âmbito das ciências sociais, talvez pela forte incidência, pela longetividade histórica da questão, pelo grau de aceitação popular, ou ainda, graças à forte pulverização da invasão americana em praticamente todos os cinemas mundiais.

Zanin aponta três dados: 705 salas de cinema exibem Shrek 3; 582 salas exibem Piratas 3; 325 salas exibem Homem Aranha 3.
Em seguida pergunta: "Este país aqui, que ainda atende pelo nome de Brasil, tem um total de 2.050 salas de cinema. Sobram, portanto, para todos os demais filmes, brasileiros e estrangeiros (inclusive norte-americanos de menor porte), 438 salas. Será que dá para pensar numa política de diversidade cinematográfica com uma invasão desse tipo, livre de qualquer regulamentação? É só uma pergunta. Se quiserem, ou puderem, respondam."

Feito isso foi atordoado pelo enorme número de comentários de leitores que defendem a livre competição entre filmes nacionais e internacionais. Como a competição comercial que divide os analistas econômicos entre os defensores de uma política liberal de livre concorrência e os defensores de uma política nacional de proteção e incentivo à produção e criação nacional.

O crítico responde os comentários aprofundando-se mais na discussão. "Discordo da maioria dos comentários postados, que defendem o princípio da livre concorrência como dogma de fé, sem atentar para o fato de que o mercado cinematográfico é muito cartelizado. As pessoas parecem ter medo de mais regulamentações, se esquecendo de que, sem um mínimo de regulamentação, a vida social, que inclui o comércio, simplesmente não funciona. Os próprios templos do liberalismo são muito seletivos em relação a importações e os Estados Unidos impõem sobretaxas sobre alguns produtos brasileiros – justamente para proteger o mercado deles. Então, uma coisa é pregar o liberalismo fundamentalista. Outra bem diferente é praticá-lo".

Ele acrescenta que o "problema" não é exclusividade nacional, "tirando algumas exceções, como Índia, China, Irã e poucos outros, o cinemão americano impera, deita e rola. Na Espanha, por exemplo, os filmes nacionais ocupam apenas de 10% a 15% do mercado, embora produzam 100 longas-metragens ao ano".

Daí, talvez, decorra a ausência de um cientista social se debruçar sobre a questão. Mais que isso, o tema pode resultar discussões de bom nível sobre o grau de aceitação das políticas "que vem de fora", isto é, dos países desenvolvidos.

Estes partem de bases muito mais sólidas e firmes para a disputa internacional. Por isso é mais vantajoso para empresas (de qualquer ramo, no caso o de entretenimento) desses países que a competição se dê em ringue da livre-concorrência.

É como se fossem dois maratonistas: um sai com sapatilhas de corrida; o outro com cimento nos pés.

 

22/06/2007 21:37

Noruegueses e o tempo de sobra

Esse estudo de uma dupla de pesquisadores noruegueses, que afirma que os primogênitos (irmãos mais velhos) são mais inteligentes, foi a primeira notícia boa, em semanas, que Vavá - irmão mais velho do presidente Lula - recebeu, após a carnificina pública que lhe foi reservada pela imprensa, que o classificou como o "superlobista".

O estudo recebeu a atenção dos jornalões, dos jornais gratuitos (que estão em voga em São Paulo) e até da escalada do Jornal Nacional, poucos minutos atrás.

Este Blog é fascinado por viagens. Mas acaba de descartar uma ida à Noruega. Não deve ter muito o que fazer por lá.

 

23/06/2007 07:00

A boa novela de Potsdam por Doha

A farta cobertura mundial das reuniões do G4 (Estados Unidos, União Européia, Brasil e Índia) em Potsdam (Alemanha) está gerando uma boa discussão aqui no Brasil. Claro, há excessos, como em toda discussão política. Mas em menor proporção. A grande maioria está em bom nível.

Vamos tentar entender o que aconteceu nos últimos três dias de discussões que acabaram por travar a Rodada Doha, lançada em 2001 com o intuito de consertar, ou equilibrar, as bases do comércio entre países.

O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, foi acusado pela representante americana Susan Schwab, e o representante europeu Peter Mandelson, de abandonar as discussões antes delas começarem. A acusação mais firme da dupla foi que o representante brasileiro e o representante indiano, Kamal Nath, marcaram suas viagens de volta para dois dias antes (sexta-feira) do fim oficial das negociações (domingo).

Celso Amorim e Kamal Nath representam o G20, grupo de países em desenvolvimento, que por sua vez respondem por quase a totalidade dos países em desenvolvimento. Foi neles depositada a confiança e as condições para um acordo com os países desenvolvidos.

Segundo o chanceler brasileiro, em entrevista à Assis Moreira no Valor, "Eles [EUA e UE] combinaram antes, tinham uma zona de conforto mutuamente aceita que envolvia cortes muito pequenos em subsídios, como querem os EUA, e muito pequenos em acesso ao mercado, como quer a UE. Eu vim aqui para ficar até domingo. Mas eles não. Eles vieram com o acordo deles".

A questão principal da Rodada Doha é em relação aos enormes subsídios pagos pelo governo americano aos seus agricultores e as enormes barreiras tarifárias impostas pelos europeus aos produtos agrícolas. Esses são os principais, embora os EUA também apliquem barreiras tarifárias e a UE estabelece transferência de subsidio.

Em troca de uma diminuição dessas distorções, os países em desenvolvimento teriam de cortar suas barreiras tarifárias aos produtos industrializados dos países desenvolvidos.

Como em qualquer negociação, a regra é: ceda um pouco para ganhar um pouco. Libere muito para conquistar muito. Não há espaço para desavisados ou bons camaradas. É o interesse nacional que está em jogo.

Amorim é claro: "Não teve nenhum aceno de que poderiam eliminar essa salvaguarda, nem no final do período de implementação do acordo. Não houve nenhum aceno de que as cotas de carne pudessem chegar a um nível razoável, de corte de produtos sensíveis, de enorme interesse do Brasil. E da parte americana, não houve nenhum aceno de descida do total de subsídios que distorcem o comércio. Pelo contrário, houve enrijecimento em produtos do nosso interesse quando se tratava de tetos nas caixas amarela e azul (de subsídios). Eu não poderia aceitar um teto de subsídios para algodão que fosse maior do que os painéis da OMC consideraram que causaram prejuízo sério para o Brasil. (...) Eu achava que era difícil [um acordo], mas era possível".

Com a Rodada fragilizada, surgem os inevitáveis juízos de valor. Mas surgem também propostas de novas operações e acordos.

Em entrevista à Sônia Racy, no Estado de S.Paulo de ontem, o economista da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca, propõe o relançamento da Aladi. "Trata-se de um acordo antigo, consolidado, abrangente, exibe sistema de crédito recíproco e funciona bem", explica, sugerindo, ainda, um avanço maior: tornar a Aladi um centro de soluções de controvérsias. "Nós resolveríamos os nossos problemas por aqui mesmo e não na OMC", explica o economista.

Para Giannetti o Mercosul deve ser repensado, por não se tratar de uma união aduaneira de fato. "Mas que união aduaneira é esta que exclui bens de informática, o setor automotivo, boa parte dos bens de capital, além do açúcar e álcool? Se o Uruguai, por exemplo, quiser fazer um acordo com os EUA, que seja feliz, não tem que ficar preso. Se nós quisermos fazer um acordo com a União Européia, sem que a Argentina sabote as negociações novamente, também poderíamos', receita, lembrando que hoje, no bloco, ninguém se entende e o que acaba sempre prevalecendo é a pior proposta", conclui.

A Rodada Doha não está oficialmente terminada. É hora de reflexão, debate de novas idéias e propostas, especialmente (para não dizer, apenas) dos Estados Unidos e União Européia. A pequena discussão entre os representantes do G4, diplomatas, serviu para colocar luz no debate. Que assim seja.

 

24/06/2007 22:29

Há 56 anos da legalidade

O Ministério Público Federal está bem encaminhado nas investigações de Maria Cristina Barongeno, juíza investigada na Operação Têmis da Polícia Federal. Não é questão de incriminar alguém sem motivo. Mas a investigação aparece com final claro.

Segundo consta, Maria Cristina teria avocado indevidamente para si um processo do frigorífico Friboi, empresa onde seu pai, Joaquim Barongeno, atua como advogado.

Usando títulos da dívida pública brasileira - emitidos no início do século passado (um dos papéis é um título em francos, emitido em abril de 1908, em Paris, pela Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande) - empresas como a Friboi puderam sustar a cobrança de impostos não pagos ao fisco e de contribuições não recolhidas ao INSS.

Foi a juíza Maria Cristina quem decidiu favoravelmente à utilização desse expediente.

Segundo Frederico Vasconcelos na Folha de hoje, em 2002, a juíza concedeu liminar para a Friboi usar títulos emitidos em 1932 pela "Cie. Du Chemin de Fer Victoria a Mina", suspendendo a exigibilidade de tributos ou de contribuições previdenciárias da filial do frigorífico em Andradina (SP). Essa liminar foi cassada em 2003 pela desembargadora Cecília Marcondes, do TRF-3. Em dezembro de 2006, Maria Cristina deu sentença confirmando aquela liminar.

O Tesouro Nacional informou que o prazo para resgate, nos bancos, de títulos emitidos em francos pelo governo brasileiro na França esgotou-se em 1951. Portanto há 56 anos esses papéis não podem ser dados como garantia em execução fiscal.

 

25/06/2007 14:21

Conservadorismo revolucionário

O fim da ocupação da reitoria da Universidade de Sâo Paulo (USP) por seus alunos, após 51 dias de resistência deflagrou excelente debate entre renomados professores acadêmicos, na última terça-feira, pouco antes da decisão final dos alunos.

Foram convidados pelo jornal Folha de S.Paulo, Laymert Garcia dos Santos, professor de Sociologia da Tecnologia na Unicamp; Francisco de Oliveira, economista e sociólogo, professor aposentado da USP; e Paulo Arantes, professor aposentado de filosofia da USP, e o mais próximo dos estudantes.

Foi unanimidade classificar esse movimento como novo ideologicamente. Os movimentos estudantis de 1968 - amplamente discutido e sempre tido como base de comparações - dessa vez, não é tema-base.

"O que já se sabe é que nasce com o mérito de romper um hiato de apatia e desmobilização, mas marcado por um paradoxo: o movimento que se pretende revolucionário e desafia a ordem legal é o mesmo que luta por pautas conservadoras e para restabelecer a ordem". A análise serve como guia das discussões de Arantes, Oliveira e Santos.

O sociólogo Francisco de Oliveira chama a atenção para um fato que ele considera crucial: a irrelevância crescente e histórica da política. Segundo ele "a ocupação da reitoria da USP mostra de forma escancarada que a política tradicional não tem mais capacidade de processar os conflitos sociais".

Paulo Arantes é mais categórico. Para ele o movimento serviu para escancarar os erros de um governo prepotente (se referindo ao governador José Serra), forçando este à revogar os decretos que serviram como estopim para a ocupação da reitoria. "Pode ser que o movimento não tenha futuro (...) estamos vivendo um momento inesperado, porque não entra nos parâmetros antigos. O período das grandes marchas acabou".

O filósofo prossegue nessa linha de raciocínio comparando o atual movimento à uma molécula, do ponto de vista político, se relacionado com o movimento de 2000, quando os alunos se associaram a outros setores em greve e conseguiram mobilizar 50 mil pessoal na avenida Paulista (15 mil, segundo a Polícia Militar).

De acordo com Arantes não é através da política tradicional que se deve analisar a ocupação da reitoria, mas sim, analisando a reação da sociedade, principalmente a da própria universidade.

Logo do início da ocupação, professores da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) - tradicional unidade de esquerda e origem dos principais líderes do movimento - escreveram textos condenando a violência da ocupação. Outros organizaram até passeata anti-invasão.

"São manifestações de extrema-direita que nem na ditadura nós tivemos", caracteriza Arantes. Esse primeiro ponto é resumido por Laymert dos Santos: "O grau de apatia, letargia e neutralização da política chegou a um ponto que reinvidar o que os alunos estão reivindicando e apontar os limites das ações do governo já é uma coisa escandalosa".

Governo e a ocupação
Os três debatedores concordaram que o primeiro ato desencadeador partiu do recém-eleito governador de São Paulo, José Serra, ao decidir governar por decreto, atacando a autonomia das universidades. A crítica se estendeu ao plano federal, em que, desde FHC (1995-2002), a prática é governar por medidas provisórias.

A vitória dos estudantes começou a ser percebida após o decreto declaratório de 31 de maio, que revogou quase todos os itens que estavam sob a mira do movimento. A partir de então começou a se desenhar a desocupação da reitoria.

O filósofo Paulo Arantes volta à carga: "Eu já disse isso aos alunos, e eles ficam meio aborrecidos: foi uma ação de subversão -que parece subversão mas não existe subversão numa sociedade permissiva- para o retorno do status quo. Zapatistas, ex-maoístas, trotskistas, independentes se juntaram, ocuparam a reitoria para que o reitor tivesse o direito do pleno exercício da execução orçamentária e financeira de uma universidade, que é puro establishment. É uma subversão pela ordem".

"O famoso Estado democrático de Direito sendo violado nas suas regras elementares -que é o funcionamento de uma autarquia- provocou um ato considerado de subversão revolucionária para colocar as coisas no seu lugar, que é um lugar conservador".

A conclusão de seu pensamento é sensacional: "No conteúdo, não há nenhuma alternativa política substantiva. Na forma, é uma ação política inédita, que tende a se multiplicar, como fórmula, independentemente do conteúdo. O contágio então vem da tecnologia política, do modo de fazer. O conteúdo está na forma".

Esse ponto encontra reverberação num comunicado interno, feito pela reitoria de outra universidade tradicional do Estado de São Paulo, a PUC, aos seus alunos. Nele a reitoria tentava dissimular um princípio ativista nos Centros Acadêmicos de simular a ocupação da USP na Pontifícia Universidade Católica.

O movimento nunca aconteceu. Não sei se chegou de fato à ser discutido. Mas viesse à acontecer, seriam outras reivindicações, mas seguindo o padrão pioneiro dos estudantes da USP. O conteúdo está na forma.

 

25/06/2007 17:05

Pesquisa e inovação em foco

A lei 11.487, aprovada por Lula há duas semanas, preconiza novos descontos fiscais às empresas que investirem em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O arcabouço montado é complexo.

Os descontos variam de acordo com os gastos feitos em pesquisa, que poderão sofrer acréscimos de 60% a 250% antes de serem declarados. As despesas das empresas se tornarão maiores, reduzindo seus lucros. Com lucro menor, menor é o imposto cobrado. Daí que os lucros só serão reduzidos artificialmente.

Segundo cálculos da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), será possível economizar quase 40% em gastos em pesquisa.

No entanto a legislação garante abatimento apenas para as empresas que operam com regime contábil de lucro bruto. E apenas uma entre dez conseguirá usufruir dos benefícios tributários. De acordo com a Associação das Empresas de Serviços Contábeis de São Paulo (Aescon), 94% das companhias pagam Imposto de Renda (IR) sobre o lucro presumido, respondendo por 15% da arrecadação federal.

Outro ponto negativo da lei é impossibilidade de obter o desconto em casos de prejuízo. Empresas que aplicam em inovações e ficam no vermelho ficam impedidas de transferir as despesas com inovação científica para o ano fiscal seguinte.

Nesse caso, apenas as grandes empresas se beneficiam das novas medidas tributárias. O caso da Petrobras foi levantado pela matéria de Julio Wiziack, ontem na Folha, que discutiu a lei.

A Petrobras é a maior financiadora de pesquisas das universidades. Em 2006 foram cerca de R$ 200 milhões destinados aos principais centros de pesquisas do país. Entre eles estão a USP, Unicamp e UFRJ. Na USP foram R$ 10 milhões apenas na construção de um tanque aquático para testes e de uma sala de realidade virtula que simulará as condições de alto-mar, onde ficam as plataformas de petróleo da empresa.

As universidades aceitam essas condições porque as empresas se comprometem com a montagem e a manutenção dos laboratórios, e com o pagamento de bolsas a mestrandos e doutorandos contratados após a conclusão do curso.

A HP (Hewlett-Packard) calcula que 40% dos US$ 30 milhões gastos anualmente em pesquisa estejam com laboratórios terceirizados. Para o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento, esse valor tende a aumentar porque é mais barato utilizar a estrutura de outras instituições. Segundo a pró-reitora de pesquisa da USP, Mayana Zatz, "a maior parte das verbas que chegam à universidade é usada para pagar salários dos funcionários (...) a saída é buscar parcerias".

A discussão toma o rumo da terceirização de campos de pesquisa e direitos autorais, previstos na Lei de Inovação, do ano passado, já discutida neste Blog.

Conforme diz a matéria da Folha, a Alcoa (gigante do setor de alumínio) investiu US$ 1,5 milhão na Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), para obter fornos mais resistentes ao processamento do minério. A tecnologia aumentou os ganhos anuais da Alcoa em US$ 800 mil e os direitos autoriais foram divididos com o professor Victor Pandolfelli, responsável pelo projeto.

Esse caso tende a se tornar ordem do dia. O processo de utilizar estrutura pública para desenvolvimento privado, sem a partilha dos direitos autorais, deve se extinguir. O exemplo da Coréia do Sul é muito oportuno e foi bem lembrado pela matéria.

"Há três décadas, o governo iniciou um programa de investimento em tecnologia. Abriram-se os cofres e os recursos públicos foram injetados em centros de pesquisa privados para que eles criassem as ferramentas necessárias às corporações consideradas estratégicas ao crescimento do país".

"Cerca de 95% desses laboratórios pertenciam a pequenas e médias empresas. Atualmente eles formam uma rede de 12 mil núcleos de estudo que transformaram a Coréia em uma das potências industriais do mundo, particularmente na área de equipamentos eletrônicos".

 

25/06/2007 17:12

Globalização, internet e as barreiras nacionais

A discussão levantada pela Lei de Inovação (2006), recém "resquentada" pela lei 11.487, ponto que discuto no post abaixo ("Pesquisa e inovação em foco"), é também a linha do livro "Wikinomics - Como a colaboração em massa pode mudar seu negócio", de Don Tapscott e Anthony D. Williams.

"Wikinomics" é a nova sensação editorial dos Estados Unidos, que recebe versão nacional essa semana, e foi alvo de resenhas e matérias na Folha e no Valor, através de seu caderno "Eu e Fim de semana".

Segundo a matéria de Cláudia Trevisan no caderno Dinheiro, da Folha de ontem, "Trinta e cinco empresas da Fortune 500 fazem parte do InnoCentive, um site que reúne 91 mil cientistas de 175 países. Nele as companhias colocam problemas que suas eqipes de P&D (pesquisa e desenvolvimento) não conseguem solucionar e oferecem recompensas que vão de US$ 5.000 a US$ 100 mil para os que trouxerem respostas viáveis".

Essa impressionante descoberta (se assim pode ser denominada) é o passo mais firme da globalização do século XXI. Pode-se, sem sair de casa, ajudar uma megaempresa de outro continente à conquistar ganhos de escala e assim competir de maneira mais eficiente na acirrada disputa comercial.

O texto de Cláudia, tendo a obra "Wikinomics" como mote, traz outros trechos interessantes.

"Em vez de se limitar a seu grupo de funcionários, nomes como Boeing e Procter & Gamble buscam inovação em âmbito global, o que eleva a rapidez e o espectro das descobertas. Apesar de ter 9.000 pesquisadores, a Procter & Gamble decidiu que 50% das idéias para o desenvolvimento de seus novos produtos deverão vir de fora de suas fronteiras até 2010".

Trechos do livro: "As empresas que apreciam essas mudanças estão passando a adotar um novo modelo -uma empresa realmente global que elimina silos nacionais, utiliza globalmente recursos e capacidade e explora o poder do capital humano por meio de fronteiras e barreiras organizacionais".

"Os monopólios de conhecimento da economia industrial estão se desintegrando rapidamente. Os meios de criação estão se abrindo e se proliferando. As inovações que antigamente germinavam nos laboratórios de P&D das grandes empresas agora surgem em vários cenários diferentes".

Esse novo modelo de negócios vêm a se juntar às tradicionais fusões e aquisições, forma mais comum do acirramento concorrencial que caracteriza a disputa comercial entre empresas privadas. Até pelo caráter global da internet, empresas de pequeno e médio porte devem se utilizar desse expediente para alcançarem maior produtividade. De outra maneira, ficarão reféns das mega-empresas que têm maior facilidade em se apropriar de novas técnicas e tendências.

 

25/06/2007 22:46

Frase do dia

"Se considerarmos o aborto um crime, todos os dias, 780 mulheres teriam de ser presas, sem contar médicos, enfermeiras e, eventualmente, seus companheiros".

José Gomes Temporarão, Ministro da Saúde, em sabatina do jornal Folha de S.Paulo. Segundo ele o feto tem proteção jurídica a partir da 12ª semana de gestação. Nesta fase, começa a formação do sistema nervoso central.

 

26/06/2007 23:05

Marcas bem geridas

Muito interessante a entrevista de Eduardo Tomiya, sócio-diretor da BrandAnalytics - uma das principais consultorias em gestão de marcas do país - à revista Amanhã. A entrevista é oportuna pois entra na questão de empresas que, ao adquirirem concorrentes, absorvem uma marca nova, diferente da sua.

Basicamente, o acirramento das relações de capitalismo concorrencial provocam um cenário contundente de fusões e aquisições de empresas de todos os ramos. Inclusive no Brasil.

Apenas nos primeiros cinco meses de 2007, foram realizados 268 negócios no quesito, número recorde, 28% à mais que no mesmo período do ano passado, segundo dados da consultoria PricewaterhouseCoopers.

Nesse processo de fusões e aquisições, mexe-se com algo muito importante, não apenas do marketing, mas em toda a lógica do consumo capitalista: a credibilidade e o status de uma marca.

Eduardo Tomiya acha que as empresas não dão devido valor às marcas adquiridas. Segundo ele essa é a razão de 75% das fusões em todo o mundo não acabarem bem.

As empresas e suas novas marcas "devem evitar confundir o consumidor. A marca tem de possuir um posicionamento muito claro. Há vários exemplos de grifes famosas que foram infelizes ao pisar em terrenos que não eram seus. Um exemplo clássico é a Bic, que em determinada época resolveu produzir roupas intimas femininas. Outro é o da GM, cujo posicionamento se ampara em duas marcas diferentes, a Chevrolet e a Opel. Isso deixa a grife muito difusa, sem foco", explica o consultor.

São várias as formas que uma empresa pode usar para organizar um portfólio de marcas. Existe o modelo monolítico, em que a empresa usa uma única marca em todos os produtos. Outro extremo é o uso de grifes independentes, dependendo da área de atuação. Tomiya cita o exemplo da Unilever. Pois, segundo ele, a empresa "vende os sabões em pó Campeiro, Omo e Minerva. Isso representa uma grande tendência na gestão de branding, que é o movimento de fortalecer as marcas corporativas".

 

27/06/2007 07:00

Rearranjos no agronegócio argentino

O agronegócio argentino passa por um firme rearranjo, que deverá se intensificar nas próximas safras. Desde que a safra de 2004/05 alcançou 76 milhões de toneladas de grãos, a produtividade dos grãos nortenhos vêm crescendo junto à demanda, de maneira vistosa.

Apenas em 2007 a safra de grãos atingirá 94 milhões de tonelada, podendo alcançar a marca recorde de 100 milhões de toneladas no próximo ano.

Esse movimento se deve, em grande parte, à maior cultura de milho, que é base energética dos combustíveis alternativos norte-americanos. Como já abordado em coluna passada, a maior atenção dada ao etanol requer uma maior entrada de milho importado. Até para a alimentação.

A previsão é que a Argentina tenha mais 700 mil hectares de plantações destinados ao grão no próximo ano.

É essa maior demanda por terras com boa produtividade para os grãos que andam provocando esses rearranjos no agronegócio. O fenômeno é similar ao que ocorre no Brasil.

Os valores das terras vêm sofrendo aumentos consistentes, chegando à US$ 10 mil por hectare. O arrendamento está em US$ 320 por hectare por 12 meses. Essa escalada nos preços é contornada pela forte demanda, que puxa os preços para cima.

No entanto esse mesmo fenômeno de preços altos da terra argentina vêm causando um processo de exclusão dos pequenos agricultores ou daqueles que não tem possibilidades de se tornarem tão eficientes.

Outro ponto negativo é que a pecuária vai sendo empurrada rumo ao Norte do país, encontrando regiões menos apropriadas para a atividade. Esse cenário indica declínio futuros nos setores de carne e leite, tradicionais setores do desenvolvimento argentino. Se tornou ditado a profecia do governador da Província de Córdoba, José Manoel de La Sota, de que "os argentinos terão de torcar o famoso bife de chorizo de carne bovina por um bife de chorizo de soja".

Essa incessante busca por terras e produtividade cria uma enorme procura por bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens intermediários (insumos). O produtor é obrigado a utilizar agricultura de precisão, com o uso de monitor de rendimento (controle de produção por área) e biotecnologia.

Entra nessa nova dinâmica a figura dos "contratistas", como os prestadores de serviços são chamados. Lá, diferentemente do Brasil, a participação do produtor argentino é restrita no campo. A terceirização está presente em 70% da colheita, 60% da pulverização das lavouras e 40% do plantio.

A terceirização relega ao "contratista" as constantes absorções de novas tecnologias. Em compensação, naquele país os financiamentos na área são todos aos "contratistas".

Lá a venda de crédito aos produtores também é mais cara. Enquanto aqui as linhas tem juros similares a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) do BNDES (6,25% ao ano, a partir de julho), na Argentina os juros cobrados aos produtores estão na casa dos 14% ao ano.

 

28/06/2007 23:29

Frase do dia

“Eu ouvi dizer que ele está sendo chamado de meu poodle, mas ele é maior do que isso”.

Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, sobre Tony Blair, agora ex-primeiro ministro do Reino Unido - transmitiu o cargo após dez anos, ontem, à seu companheiro trabalhista Gordon Brown.

 

29/06/2007 22:34

Após soluço fanfarra volta à tona

Todas as circunstâncias que fizeram diminuir a fanfarra de dinheiro internacional alavancado em aplicações financeiras no mês de junho, em comparação com o mês de maio, já estão de certa forma superadas. A tendência é que, já a partir de segunda-feira, a escalada especulativa retome a exuberância perdida. E o real volte a se valorizar fortemente.

Logo no início de junho o Banco Central (BC) baixou novas medidas cambiais. Elas limitaram o saldo líquido em dólar das operações em 30% do patrimônio (antes o limite era 60%) de referência das instituições e obrigaram o aporte de capital próprio para a realização dos negócios.

Além de evidenciar que o câmbio é estratégico (mesmo que minimamente para os diretores do BC) ao formular os primeiros passos de uma política cambial, essas medidas tornaram o negócio especulativo de se apostar em derivativos (em sua maior parte, de câmbio) menos alavancado, portanto, mais seguro.

Não causaram imediatamente retorno na cotação do real porque, coincidência ou não, alguns dias antes (a semana, iniciada no dia 4, foi marcada por tensões acerca da política monetária americana) os bancos já haviam destituído suas posições (em sua maioria "vendidos") no mercado de futuro. As medidas do dia 8 não pegou ninguém desprevenido.

A limitação cambial não se refere à posição "vendida" em dólar. Nem em relação à posição "comprada". Só que, quando consideradas todas as operações de compra e venda de moeda americana, à vista e no futuro, o saldo não pode superar 30% do patrimônio.

As clássicas operações especulativas do capital internacional, de trazer dólares para o mercado nacional, trocar (cambiar) por reais para poder aplicar em ativos que rendem a taxa Selic (hoje em 12% ao ano), produziram um salto de 85,3% na dívida externa brasileira de curto prazo (com vencimento em até um ano) em quatro meses. Não precisa nem dizer que o valor é monstruoso.

Em dezembro do ano passado equivaliam à US$ 20,2 bilhões. Em abril (não computando os dados de maio e junho, portanto) foram para US$ 37,43 bilhões.

Outro ponto razoavelmente superado é o que tornou o início do mês turbulento para a turma da bufunfa, como diria Paulo Nogueira Batista Jr.: O discurso do presidente do Fed (o BC americano), Ben Bernanke, de que os juros dos Estados Unidos (fixados em 5,25% ao ano desde junho de 2006) não vão cair em 2007. Diferente do que o mercado esperava - e contava.

Com isso um certo mau humor imperou nas milhares de operações de risco que os hedge funds formam nos mercados mundiais (especialmente nos países do BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China).

Esses fundos passaram então a vender títulos de longo prazo do Tesouro americano e a desmanchar arbitragens com moedas de países emergentes. Como se não bastasse o próprio BC brasileiro, que havia adquirido recordes de divisas até então - para segurar a cotação do real, comprava-se dólares e os aplicava nesses títulos americanos - diminuiu firmemente suas compras e, conseqüentemente, sua aplicação em títulos americanos.

Essa combinação (com evidente maior importância para os movimentos dos hedge funds) fez com que os T-10 (títulos de longo prazo dos EUA) disparassem. Esse aumento trouxe implícito um problema, ao aumentar a inadimplência do crédito hipotecário.

Com o passar dos dias os indicadores econômicos dos EUA vieram dentro das expectativas, quando não abaixo. Quer dizer, se o Fed resolver mexer nos juros, será um movimento de corte, para não sacrificar mais o crescimento.

As coisas começam a retornar para a situação pré-junho, quer dizer, os juros americanos de longo prazo estáveis abaixo dos 5% a.a.;retorno das arbitragens com a abissal diferença entre os nossos juros (12%) e as taxas internacionais (média de 6%); volta-se a se formarem operações no mercado futuro, que forçam a apreciação cambial.

 

30/06/2007 21:49

Barros de Castro e a política industrial

O governo prepara a política industrial que implantará a partir do segundo semestre de 2007 e que servirá como guia das políticas para o setor até 2011, primeiro ano do próximo governo. ´

Os teóricos das novas platitudes são liderados pelo novo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que é economista especialista no assunto. Mas o principal artíficie do plano é Antônio Barros de Castro, que está deixando o BNDES para atuar como estudioso e consultor da própria instituição, sem no entanto, ocupar um cargo diretivo.

Barros de Castro já não ocupa mais, ao menos informalmente, a diretoria de Planejamento do banco -o novo diretor é José Carlos Ferraz, ligado à Coutinho - mas sua experiência prática à frente da instituição agora vai ser base para suas formulações teóricas.

Segundo Castro a nova política industrial tem que considerar a nova dinâmica que o setor vive desde que a China se tornou uma potência industrial. Essa característica, aliada à uma taxa de câmbio super desvalorizada estrategicamente, torna o país asiático uma potência exportadora. Não se pode ignorar o número cada vez maior de produtos chineses, que, além de baratos, carregam cada vez mais valor agregado.

Foi essa desconsideração que fez da atual política industrial, definida em março de 2004, defasada em suas medidas.

Para ele já está mais do que na hora de deixar de visionar um estilo de crescimento baseado nos antigos NICs (sigla em inglês para países recém industrializados, pertencente aos anos 1970). O modelo se baseava em uma taxa de câmbio desvalorizada, que impulsionava as exportações. Essas por sua vez se davam com pouca margem de inovação tecnológica, se caracterizando mais na produção em massa de uma mesma mercadoria.

"A exportação de cópias atualizadas, destaque daquele estilo de crescimento, perdeu o sentido frente ao meteórico avanço da competitividade chinesa", afirma Castro.

Ele, no entanto, ressalta que as novas diretrizes podem ser jogadas fora por um simples movimento de política monetária (aplicada pelo Banco Central). Exemplo recente não falta.

Em 2004 a economia cresceu 5,7%, as exportações cresceram 26,1% (em volume) e os investimentos, 9,1%. Para o economista o país havia recuperado o ânimo empreendedor, com destaque para o segmento industrial mais avançado, quando foi atropelado pelo movimento do BC de aumentar os juros até 19,75% ao ano. Essa taxa indispôs os investimentos, valorizou o câmbio e matou o crescimento dos dois anos seguintes.

"Além de colocar a economia na contramão dos fatos, não consta que os responsáveis pela política monetária tenham tido em conta que estavam arriscando matar no nascedouro um estado de espírito excepcionalmente favorável à efetiva retomada do crescimento", diz Antônio Barros de Castro.

O fenômeno do "mercado sino-cêntrico" (expressão de Castro) facilita o crescimento dos países especializados no fornecimento de algumas poucas matérias primas de largo uso. Como é o caso do Brasil, que, nos últimos 4 anos viu uma escalada abrupta na demanda por commodities.

Essa realidade torna, ao mesmo tempo, complexo o crescimento de países, como o Brasil, que já possuem uma estrutura industrial complexa. Deve-se ter uma estratégia para os bens que recebem os bônus do crescimento chinês e também para aqueles que sofrem os ônus, como bem assinalou o repórter Chico Santos no Valor desse final de semana.

Luciano Coutinho acredita que o principal foco da política industrial está em incentivar os investimentos no setor, e por consequência, os investimentos produtivos gerais. Como que para homenagear os dez anos da crise asiática (que se iniciou em 2 de julho de 1997), Coutinho compara as taxas de investimentos de alguns países asiáticos com a taxa brasileira.

A taxa de investimento, em relação ao PIB, é de 20% na Malásia, de 29% na Coréia do Sul e na Tailândia; e de 41,5% na China. No Brasil é de 16%.