01/07/2007 07:00

Imóveis e a combinação necessária

A teoria econômica prevê que uma empresa deve apenas apelar ao mercado financeiro após se endividar através de empréstimos bancários. Daí então que o dinheiro novo, vindo da emissão de debêntures ou de ações, recolocaria a empresa nos trilhos saudáveis (ao acabar ou diminuir a dívida) e impulsionaria para novos investimentos produtivos.

Mas, como diria Pérsio Arida, em expressão que depois se tornaria coqueluche do pensamento hegemônico para se legitimar, na república das jabuticabas, a teoria não se comprova.

Isso devido aos juros extorsivos e, pior de tudo, históricos, que nosso sistema bancário cobra. Mesmo com as recentes diminuições, com taxas menores para pessoas jurídicas (em comparação às taxas cobradas das pessoas físicas), e linhas especiais para alguns setores, os juros nacionais são enormes. Fazem a Selic (abissal) parecer pequena.

Com juros tão altos, abrir capital através das emissões de ações no mercado financeiro, se tornou a alternativa real para financiamento dos investimentos produtivos.

E com os incentivos dados pelo governo desde o ano passado, o setor imobiliário passou à ser o principal em IPOs (nome dado às empresas que abrem seu capital). Principalmente a partir do segundo semestre de 2006 e o primeiro de 2007.

Mas o setor imobiliário tem uma rara combinação de utilização de capital, tanto vindo dos investidores do mercado financeiro, quanto do referente à empréstimos bancários.

Isso porque no fluxo de caixa da companhia os investimentos iniciais são feitos com recursos próprios, como a compra do terreno e aproximadamente 30% da obra. Quando o prédio entra na fase de construção, com necessidade de capital intensivo, as empresas recorrem aos bancos. Como garantia, oferecem os recebíveis das vendas dos imóveis.

O dinheiro do mercado de capitais serve tanto para a compra de terrenos quanto para fusões e aquisições de pequenas e médias construtoras em outras praças para ampliar mercado. É esse movimento clássico do acirramento do capitalismo concorrencial que faz o diretor do BBI, banco de investimentos do Bradesco, João Carlos Zani, acreditar que no futuro "as médias [empresas] devem deixar de existir. Teremos de 10 a 15 grandes empresas e as pequenas concentradas nos mercados menores".

É a combinação entre a dependência do capital proveniente de empréstimos bancários, o enorme movimento de abertura de capital e conseqüentemente a enorme captação, e o boom que o setor vive, que proporcionam o aumento no crédito imobiliário.

O total destinado pelos bancos desde 2005 (R$ 8,1 bilhões) já supera a captação primária no mercado de capitais feita por venda de ações dessas companhias (R$ 7,5 bilhões). E o valor deve ser maior, já que os bancos concedem ainda outras linhas de crédito, como capital de giro e desconto de recebíveis, além de recurso de operações estruturadas.

Apenas no primeiro trimestre desse ano o total de empréstimos para construtoras e incorporadoras foi de R$ 1,1 bilhão. A estimativa é que sejam emprestados mais de R$ 6 bilhões à empresas do setor até o final do ano - pelo menos R$ 1,8 bilhão superior ao total emprestado em todo o ano passado.

 

01/07/2007 13:43

Os conceitos e desafios bolivianos

A Folha traz hoje excelente entrevista com o presidente da Bolívia, Evo Morales. Serve como o mais firme contraponto às opiniões hegemônicas (que incluem o próprio jornal) acerca das relações entre Brasil e Bolívia. Aí inclusos as relações entre as empresas petroleiras estatais, Petrobrás e YFPB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos).

Os principais pontos, levantados por Morales:

1. O problema maior está na falta de investimentos maiores por parte das multinacionais de petróleo e gás natural, instaladas na Bolívia. O presidente boliviano separa o campo energético em três prioridades.

A primeira se baseia nos investimentos do governo, nos recursos próprios da Bolívia, para prospectar, extrair e comercializar o gás natural, sempre que possível. Nos casos em que isso não seja viável, passa-se a segunda opção: associação com estatais.

As multinacionais aparecem apenas como terceira opção. E Evo Morales garante oferecer garantias e segurança jurídica. "No passado, as empresas firmaram contratos que o Congresso não ratificou; algumas deixaram de cumpri-los; não houve investimento; praticaram o contrabando".

Cutucado pelo repórter (Mercedes Ibaibarriaga, com tradução de Paulo Migliacci), sobre os grupos Repsol YPF e Petrobrás ainda não terem apresentado seus planos de investimentos no país, o boliviano responde com uma estocada nos governos anteriores.

"Eu acreditava que tivesse havido grande investimento sob os governos neoliberais anteriores e ob a lei de capitalização [que fez da estatal YPFB uma empresa de propriedade mista], mas não foi isso que aconteceu". "De 1996 para cá, quase não houve investimento em prospecção, e muito menos para elevar o volume de produção no mercado interno".

2. Sobre os desabastecimentos de gás natural, internos e externos. Para os três meses de inverno, a Bolívia necessitará de pelo menos 3.600 toneladas de gás natural. Contatos já foram feitos com a Venezuela para o caso de não haver produção necessária. Mas o próprio Morales se mostra otimista, acreditando que com fiscalização mais firme na alfândega, haverá menos contrabando.

2 a. O contrato entre a Bolívia (YPFB) e a Argentina (Enasa) prevê que as exportações diárias sejam de no mínimo 4,6 milhões e no máximo 7,7 milhões de metros cúbicos de gás natural ao dia. No momento a Bolívia exporta à Argentina cerca de 5,7 milhões de metros cúbicos ao dia.

2 b. O contrato estabelecido entre Bolívia e Brasil (Petrobrás) prevê que a demanda diária máxima brasileira não pode ultrapassar os 30 milhões de metros cúbicos. Atualmente a importação brasileira é de 25 milhões de m³ diários, com pedido já formalizado de aumento para 27 milhões de m³ ao dia. O presidente boliviano assegurou que cumprir a demanda limite é difícil, mas um aumento na cota é possível.

3. O maior problema interno reside na dificuldade em dispor de pessoal da área de pesquisa e desenvolvimento para trabalhar na estatal YPFB, graças aos baixos salários que o governo Morales se dispõe a pagar. Assim que assumiu o presidente apostou na política da austeridade salarial para o funcionalismo público, ele incluso. Cortou o salário presidencial de 40 mil para 15 mil bolívares [cerca de US$ 1.800], lançando lei que prevê que nenhum funcionário público ganhe mais que o presidente.

Resta aliar maiores investimentos em ganhos de escala na produtividade das empresas estatais, tendo a YPFB como carro-chefe, com alocação dos recursos provenientes desse negócio em programas sociais.

4. Na nova Constituição, em formulação, Morales estuda proposta de tornar o sistema bicameral atual (que se divide em Câmara Alta e Câmara Baixa) em um sistema unicameral, como forma de diminuir os atrasos e conflitos que as iniciativas presidenciais tomam no atual modelo. No campo político, a Câmara dos Deputados, onde o governo tem maioria, as iniciativas são aprovadas; no Senado, onde o partido do presidente (MAS) é minoria, elas são bloqueadas.

5. No campo ideológico, em relação ao socialismo do século XXI, proposto por Hugo Chávez, presidente da Venezuela, ele propõe o “humanismo”:

“Cada país tem suas particularidades. Na Bolívia, os povos indígenas são socialistas por princípio e natureza. Em certas comunidades não existe propriedade privada. Socialismo é viver com certa igualdade. Que alguns não morram de fome enquanto outros enriquecem roubando as riquezas do Estado. Existem algumas famílias na Bolívia que só querem esta terra para saqueá-la, este povo para explorá-lo e este Estado para espoliá-lo. O que me interessa é que exista paz com justiça social. Se em Cuba dão a isso o nome de comunismo, bom; se na Venezuela é socialismo, bom; Eu usaria o termo humanismo”.

 

02/07/2007 21:26

Frase do dia

"
'Gol do Brasiill!!', berrou Galvão Bueno três vezes, narrando desde o Brasil, não da Venezuela. E sem menção a Hugo Chávez, a não ser indiretamente, ao ver Robinho cercado por uma dúzia de soldados. 'É um policiamento ostensivo, muitas vezes agressivo'.

Por uma vez, ele concordou com Bob Fernandes, que em blog no Terra Magazine, desde a Venezuela, vem sublinhando a presença militar em toda a parte, de 'homens com metralhadoras', na Caracas da Copa.

No Rio dos Jogos Pan-Americanos, 'soldados de olhar fixo e fuzil na mão' no Complexo do Alemão, descrevia o 'Jornal Nacional' de anteontem. Mas não, nada de ligar uma coisa e outra, soldados e Pan
".

Trecho retirado da coluna de Nelson de Sá na Folha de hoje.

 

03/07/2007 07:00

Como se interpretará o segundo semestre?

Em texto neste Blog ("Após o soluço, fanfarra volta à tona" de 29 de junho) chamei a atenção para a retomada dos movimentos que supervalorizaram o real no primeiro semestre, após pequeno soluço em junho.

O dólar abriu 2007 valendo R$ 2,137 e, seis meses depois, está valendo R$ 1,91. Em apenas 6 meses a valorização do real foi de 10,4%.

Não quero voltar a questão do texto de sexta, mas sim discutir as diferentes maneiras com que a mídia e os "economistas midiáticos" (aqueles que pautam a mídia) interpretou o processo neste primeiro semestre.

Num primeiro momento a valorização do real foi tida como resultado do expressivo superávit comercial. Isso é certo. Mas, na prática, não foi o que ocorreu. Até 13 de maio o Banco Central promoveu largas compras de divisas, no mercado à vista e no mercado futuro.

Por vezes o BC comprou em dólares, todo o equivalente ao saldo comercial de determinada semana, ou mês. E ainda assim, uma enorme montanha da moeda continuou a inundar nosso mercado, valorizando nosso câmbio.

O segundo bode expiatório foi o da desvalorização mundial do dólar. Isto é, não era apenas o real que se valorizava, mas todos os câmbios internacionais se valorizavam. Verdade em parte.

Primeiro porque não foram todas as moedas que se valorizaram. A cotação do peso argentino permaneceu constante em 3,10 por cada dólar, de janeiro à junho. Na China, a cotação se valorizou levemente, resultado de enorme pressão norte-americana, como forma de diminuir seu déficit comercial (e conseqüentemente seu déficit em conta corrente).

Segundo porque, embora o período se caracterizou pela derrubada do dólar nos câmbios mundiais, nenhum se valorizou tanto quanto o real. Nem a moeda colombiana - que recentemente passou a rivalizar com a brasileira no ranking de valorização. No período de 36 meses continuamos imbatíveis.

Apenas na semana passada, no apagar das luzes do primeiro semestre, foi divulgado o quadro sistêmico de nossa conta de capitais, após dados divulgados pelo Banco Central.

A manchete de quarta-feira (27 de junho) da Folha foi auto-explicativa. "Aumenta entrada de capital especulativo. Fluxo de recursos captados por bancos no exterior e que ficam menos de um ano no país quintuplica de janeiro a abril". E perceba, atento leitor, que os dados se referem a abril. Não estão contabilizados os dados de maio (auge da fanfarra) e junho (soluço).

Os valores acumulados de janeiro a abril foram os seguintes:
- Investimentos em ações e títulos: US$ 9,526 bilhões
- Investimento direto: US$ 10,049 bilhões
- Empréstimos de longo prazo (superior a 1 ano): US$ 10,668 bilhões
- Balança comercial: US$ 12,901 bilhões
- Capital de curto prazo (inferior a 1 ano): US$ 24,147 bilhões.

Fica claro que foram as especulações com derivativos de juros e câmbio no mercado futuro e as aplicações em papéis do governo, feitas de forma maciça pelo capital "estrangeiro", principalmente através dos hedge funds, que supervalorizaram a moeda brasileira.

Esse movimento visa embolsar a enorme taxa Selic, contando também com a valorização da moeda no período. É o disseminado carry-trade. Chamo atenção para texto de Roberto Giannetti da Fonseca, reproduzido na coluna de Luiz Gonzaga Belluzzo, na revista CartaCapital de 23 de maio:

"O capital estrangeiro ganhou este ano mais com a desvalorização do dólar do que com o juro doméstico. uem entrou com 100 milhões de dólares no último dia útil de 2006 e transformou-os em 213,7 milhões de reais pelo câmbio da época (R$ 2,137), depois aplicou o dinheiro no CDI (rendimento de 5% do início do ano até agora), e reconverteu a aplicação pelo dólar de ontem, mandou de volta 113,154 milhões de dólares, ou seja, ganho bruto de 13,15% em apenas quatro meses e meio. Vale dizer que, de janeiro a meados de maio, o estrangeiro ganhou aqui, sem risco algum, o equivalente a dois anos e meio de aplicação em títulos do Tesouro americano".

A comparação de Giannetti tem todo o sentido. Os melhores fundos de renda fixa renderam 6,60% nos primeiros seis meses do ano. No mesmo período o real se valorizou 10,4%. Aos dois, some o não-recolhimento de Imposto de Renda (o capital estrangeiro esta isento da cobrança desde fevereiro de 2006) e terá o verdadeiro céu de brigadeiro que um rentista pode ter. E não estou nem falando em derivativos...

 

03/07/2007 14:57

A energia de Kirchner com Lula e Morales

Devido à crônica crise de energia que vive a Argentina, seu presidente Néstor Kirchner pediu auxílio ao presidente Lula para que este aumentasse o fornecimento diário de eletricidade do Brasil para a Argentina.

Segundo reportagem do Valor o Brasil atualmente passa a Argentina 700 megawatts (MW) médios diários, grande parte oriundos da usina térmica de Araucária, no Paraná, movida a gás natural. O aumento será de 400 MW, o que resultará em um repasse de 1.100 megawatts médios diários.

O acordo pode atingir a Bolívia, que atualmente repassa 27 milhões de metros cúbicos de gás natural ao Brasil. O acordo entre os dois países cobre até 30 milhões de m³ diários, embora a demanda brasileira seja ligeiramente menor, de 29 milhões.

É essa folga (de 1 milhão de metros cúbicos diários) que o Brasil estuda repassar à Argentina. Nesse caso as negociações terão de ser mais profundas entre Brasil e Bolívia que entre Brasil e Argentina. Isso porque, conforme o presidente boliviano assinalou em entrevista à Folha de domingo (alvo de matéria neste Blog, sob o título de "Os conceitos e desafios bolivianos"), cumprir o aumento da demanda brasileira (se referia à cota diária de 27 milhões de m³) é possivel. Mas alcançar o limite contratual é dificil.

O governo Kirchner pode, no entanto, negociar diretamente com Evo Morales. A Argentina possui contrato similar ao brasileiro de importação do gás do boliviano, embora em proporções menores. No momento a Bolívia exporta à Argentina cerca de 5,7 milhões de metros cúbicos por dia, mas o contrato entre as respectivas petroleiras prevê um limite de até 7,7 milhões de m³ diários.

Há então, uma folga direta de 2 milhões de m³ diários que a Argentina, através de sua Enasa, pode cobrar da boliviana YPFB, sem envolver o Brasil e a Petrobras na intermediação.

 

06/07/2007 15:16

Relação certa; conclusão não acompanha

O economista e professor da PUC-RJ, Márcio Garcia, assinala em seu artigo mensal ao Valor Econômico que os controles de capitais não são benéficos por apenas funcionarem em períodos curtos. Sua convicção "sobre a ineficácia de controles seletivos de entrada de capitais no Brasil hoje está fundamentada em pesquisas sobre o período no qual foram instituídos controles de entrada de capital durante a década de 90".

Garcia traça um ótimo perfil do que foram aqueles anos. Ele assinala que durante a maior parte do primeiro governo FHC (1995-1998), a política econômica se baseava no regime conhecido como crawling peg. Ele se caracteriza por lentas depreciações no valor nominal do câmbio, que Márcio calculou ter sido de 7% por ano.

Como hoje o carry-trade virou regra e principal pilar da conta corrente nacional. O carry-trade se baseia em tomar dinheiro em países de juros baixos e aplicar em países de juros altos, ou seja, arbitrar entre as taxas de juros internacionais.

Naquela época então foi a fanfarra dos especuladores e a festa dos rentistas. Nossa Selic tinha valores sobrenaturais de mais de 50%, 60% ao ano (chegou a valer 83% a.a. em 1994).

O principal risco dessa operação é se houver uma depreciação na moeda do país de juro alto em relação à moeda do país de juro baixo. Mas, se hoje esse risco é quase nulo, imagine nos anos de câmbio fixo. Era ganho na certa.

Naqueles anos havia déficit comercial - inevitável visto que a paridade dólar-real impulsionou as importações ao mesmo tempo em que matou as exportações - e déficit nas transações correntes - que normalmente varia conforme a balança comercial.

Com isso, era o capital de curto e de longo prazo que mantinha a política cambial como estava. Não fosse a sucessão de crises internacionais de 1997 e 1998, quando houve aumento da aversão ao risco e a arbitragem rareou, não teríamos tido a desvalorização cambial de janeiro de 1999.

Mas em seguida Márcio retoma seu mote de que os controles de capitais (como forma de diminuir a apreciação cambial) não são úteis porque a situação atual é diferente da situação dos anos 1990. "Hoje, a realidade é bem distinta. São os fluxos do comércio internacional os principais responsáveis pela contínua apreciação cambial desde 2003".

Essa afirmação perde seu ponto de convergência com a realidade quando se analisa o que de fato acontece com nosso balanço de pagamentos. Não é preciso ir muito longe, não mais que os relatórios do Banco Central, disponibilizados na semana passada.

Lá, com os dados que vão apenas a abril de 2007, percebe-se que a conta financeira de capitais de curto prazo trouxe quase o dobro de dólares que a balança comercial. Esses balanços foram manchetes dos cadernos de economia das edições de terça da semana passada. Abordei essa mudança na interpretação midiático econômica em coluna neste Blog (
Como se interpretará o segundo semestre? de 3 de julho).

De volta a análise do período FHC 1, Márcio estabelece outra relação fortuita com o atual período: o ato do BC de esterelizar a entrada de dólares através da emissão de títulos públicos em reais, ao invés da pura impressão de dinheiro.

Dessa maneira, o BC enxuga a liquidez, que pressiona a remuneração Selic para baixo, "o que, tal como hoje, poderia ameaçar o controle da inflação", escreve ele. "Tais intervenções esterilizadas aumentavam tanto a dívida pública (passivo caro do governo), como as reservas cambiais (ativo do governo que pouco rendia). Para mitigar o custo fiscal das intervenções cambiais esterilizadas, foram impostos os controles de entrada".

 

07/07/2007 12:47

O novo colonialismo africano

O artigo de hoje de Antônio Machado no Correio Braziliense traça o perfil da viagem de Lula à Europa para "vender e defender" o etanol brasileiro aos europeus.

Os países da UE taxam o etanol em 55%, 50% mais que as taxas sobre o petróleo, que viu o lobby dos países da OPEP crescer assustadoramente. O etanol se tornou, principalmente depois dos acenos do governo americano, uma alternativa razoável ao petróleo.

O ponto mais interessente é em relação aos países da África, no meio disso tudo. O continente é sempre limado das discussões, não só no âmbito diplomático e comercial, como também do midiático.

Segundo Machado "os interesses internacionais emergentes pela África, na qual EUA e China batem cabeça na disputa pela exploração de seus recursos naturais, além de influência, enquanto o governo Lula belisca as sobras na margem, também preocupam a Europa – a antiga potência colonial de quase todos os países africanos. A eles a Europa dá acesso preferencial para a produção agrícola. Em troca, os votos desses países pobres alinham-se aos da UE em fóruns como da OMC".

"E o governo Lula com isso? Sugere o plantio de cana-de-açúcar e outras culturas favoráveis à extração de álcool nas vastas áreas não cultivadas e férteis da África (...) Lula abre uma porta de saída para a miséria da África. A Europa quer manter a chave dessa porta...".

O artigo pode ser lido
clicando aqui.

 

07/07/2007 22:08

Morto políticamente; livre de crime

Não é de hoje que André Petry, colunista da revista Veja, vêm se destacando pela total isenção ao analisar o assunto da semana em sua coluna na revista. Fugindo do efeito manada que a grande imprensa toma em assuntos de grandes proporções.

Na semana passada já havia apresentado um ótimo olhar sobre o caso de espancamento de uma empregada doméstica por quatro jovens da classe média carioca.

Em sua coluna dessa semana André escreve sobre Renan Calheiros, presidente do Senado. Pede sua saída da presidência, até sua cassação, mas através de um angulo que escapa do simplório denuncismo que assola a grande mídia em temas do tipo. Abaixo alguns trechos:

"Renan Calheiros não é inocente até que seja prolatada uma sentença em contrário porque Renan Calheiros não está sendo submetido a um processo jurídico. O processo é político. E, em um processo político, as coisas são diferentes".

"O processo jurídico é tão diferente do processo político que Renan Calheiros é acusado de pedir favores financeiros a um lobista de empreiteira. E qual é o crime? Nenhum. Pedir favores a lobista não é crime. Para um senador, é apenas antiético. Ferir a ética também não é crime. Para um senador, é falta de decoro parlamentar. Falta de decoro parlamentar, não sendo um crime, não produz nenhuma punição jurídica. Mas, no Parlamento, no processo político, é falta grave, tão grave que dá cassação".

"Quando alguém voltar com a catilinária de que não há sentença contra Renan, diga: "O processo é político, estúpido".

 

09/07/2007 14:59

Impunidade consciente

A edição de domingo d'O Globo trouxe matéria pouco usual nos jornalões. Com o título de "Brasileiro não vê importância no pequeno delito", o jornal discute, grosso modo, que ao mesmo tempo que a sociedade cobra ética e respeito às leis do Congresso que desaprova, não exerce na prática.

"Cidadão que cobra fim da impunidade é o mesmo que compra DVD pirata e anda com cachorro solto na rua", é a linha-fina da matéria, com reportagens de São Paulo, Rio e Fortaleza.

O exemplo mais "comum" é o da compra de eletroeletrônicos piratas, principalmente CDs e DVDs. Vejam esse parágrafo do texto:

" - A gente tem muitos exemplos de que não se faz justiça no Brasil. O maior é a impunidade. Quem tem grana sempre dá um jeitinho de não ser punido - diz a pesquisadora de opinião pública Priscila Seckler, de 34 anos, depois de comprar dez DVDs piratas por pouco mais de R$ 20, em uma rua perto da Praça da Sé, no Centro".

A relação não é incomum. Incomum é a matéria analisando a sociedade representada, e não apenas seus representantes (os políticos). È esse ponto, exemplificado pela frase de uma outra pessoa utilizada como fonte pela matéria, que dá uma boa discussão. Vejamos:

"o técnico de informática Ramildson Ferreira de Souza, de 35 anos, comprava um software pirata:
- A impunidade começa de cima. Enquanto tiver uma carga tributária de 38%, a corrupção não vai acabar
O técnico, no entanto, não se mostrou constrangido. Para ele, a 'classe pequena' é a única cobrada pelos crimes".

Ao menos em casa, a discussão suscitada foi a seguinte: a impunidade vêm realmente de cima? Quer dizer, o cidadão mira-se na impunidade instalada naqueles que os representam ao praticar, em seus atos comezinhos, essas "pequenas" infrações?

Ou a impunidade instalada na base (sociedade) serve como ninho formador do futuro representante (político) agir de maneira despreocupada com as consequências?

 

09/07/2007 18:34

Compre um e leve dois

O apagão energético na Argentina se deu graças ao forte crescimento (de 9% anuais por 5 anos) sem a devida organização energética? E agora que se prevê que o Brasil ingressará em um crescimento razoavelmente contínuo à taxa de 5% ao ano, o efeito Argentina pode se repetir aqui?

O assunto é pertinente, mas daí para os editoriais de dois dos principais jornais do Brasil, tratarem do mesmo tema, da mesma maneira, no mesmo dia, é demais, não acham?

Aqui o editorial da Folha de S.Paulo.

Aqui o editorial de O Estado de S.Paulo.

Os 13 fiéis leitores deste Blog não precisam ir muito além do primeiro parágrafo de cada editorial para perceber a similaridade. Fica quase impossível fugir da ironia.

Que os principais meios de comunicação tradicionais estão cada vez mais parecidos, desde o planejamento gráfico até a posição editorial. Mas ter exatamente a mesma opinião, disseminada da mesma maneira é demais, concordam?

 

10/07/2007 21:46

Nova barreia derrubada

O dólar rompeu definitivamente a "barreira" dos R$ 1,90, após o leilão fictício de ontem, quando a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) esteve fechada graças ao feriado paulistano de 9 de julho.

No pregão de hoje, com as opções pelos derivativos reaberta, e o Banco Central (BC) restabelecendo seu leilão de compra de dólar no mercado à vista, o dólar fechou cotado à R$ 1,893. É o menor valor desde outubro de 2000.

Em sua coluna no Valor de hoje Luiz Sérgio Guimarães chamou a atenção para a real relevância desses leilões diários, sempre à meia hora do fechamento da BM&F, que o BC promove, comprando divisas no mercado à vista.

Segundo Luiz Sérgio, "Como há um enorme excedente de dólares na economia, o controle da inflação é realizado por meio das intervenções cambiais do BC. Se precisar reduzir o IPCA, ele compra menos dólares e vende menos contratos de swaps reversos. Se não há preocupação inflacionária, age mais vigorosamente. A taxa de inflação depende da velocidade de apreciação do real e esta da forma como o BC intervém. Nada a ver com o CMN. Enquanto persistir a sobra de US$ 30 bilhões anuais provenientes do saldo das transações correntes e do investimento direto estrangeiro, o BC pode persistir reduzindo a Selic em 0,50 ponto".

À exceção do mês de abril e da primeira quinzena de maio - quando o BC agiu de maneira a segurar a cotação acima dos R$ 2, atuando mais de uma vez ao dia, sem antecipar horários, comprando sempre somas enormes de dólares - a atuação rotineira do BC de Henrique Meirelles tem sido a de realizar leilões às 15h30, apenas para enxugar a liquidez e referenciar o câmbio do dia.

Aos que ouvem ao "deus mercado", a previsão do nosso câmbio para dezembro de 2007, já passou de R$ 2,05, para R$ 2,00, em seguida para R$ 1,95, depois para R$ 1,90. Daqui há algumas semanas o mercado lançará a previsão do dólar a R$ 1,85 em dez/2007.

Fato é que o fundo do poço do dólar está entre R$ 1,60 e R$ 1,80. Atingido esse patamar haverá um repique de forma à depreciar nossa moeda levemente. Nesse momento se abrirá uma janela de oportunidade para o governo se mexer e mudar o rumo da política monetária como está.

O que este Blog acha dificil.

 

11/07/2007 09:30

Luz sobre fanfarra

A matéria de capa da revista CartaCapital
dessa semana está de arrasar, embora não seja nenhum novidade: trabalhar no Banco Central brasileiro, mesmo que por algumas semanas, é meio caminho para alavancar sua carreira pessoal.

Mas não simplesmente trabalhar no BC, é evidente. Deve-se ocupar um cargo diretivo. Se possível durante a implantação de algum plano ou de medidas alternativas de políticas estabelecidas.

Aí não tem erro. Sorte e fortuna na certa, assim que você largar seu cargo. Ou não, como comprovam alguns exemplos elencados na matéria de Márcia Pinheiro, que conseguem garantir o seu, enquanto cuida do nosso.

Sim, esse exemplo de promiscuidade é máximo dentro de nossa democracia. Como uma vez escreveu Angela de Castro Gomes em seu A política brasileira em busca da modernidade, a política brasileira está situada nesta tensão entre o público e o privado.
A tensão é histórica.

Mas não somos os únicos. Essa promiscuidade desleixada que permite à membros ocupantes de cargos públicos trabalharem à favor de uma minoria favorecida não é propriedade brasileira.

O trecho que reproduzo à seguir é de Lênin, em sua obra O Estado e a Revolução, escrita entre fevereiro e outubro de 1917, logo antes da Revolução de novembro, que passaria à história como a Revolução Russa.

Lênin faz referência à nomes de pessoas que, ao passarem pelo governo russo, saíram de seus cargos mais "afortunados". Peço ao caro leitor que faça as atualizações necessárias, com as evidentes transposições de nacionalidade.

Não é feitio deste Blog acusar ninguém. Não é, mais uma vez, este o caso. Apenas quero mostrar a incrível relação entre a situação promiscua público-privado da Rússia de 1917 com o Brasil de atualmente.

"Se, por exemplo, logo nos primeiros meses da república democrática na Rússia, poder-se-ia dizer durante a lua-de-mel do casamento dos socialistas, dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques, com a burguesia no governo de coalizão, o Sr. Patchinski sabotou todas as medidas para domar os capitalistas e o se banditismo, a sua pilhagem do tesouro por meio dos fornecimentos de guerra, se depois de ter saído do ministério o Sr. Patchinski (substituído, naturalmente, por um outro Patchinski, absolutamente igual) foi ‘premiado’ pelos capitalistas com um lugarzinho com um vencimento de 120 000 rublos por ano, então o que é isso? Corrupção directa ou indirecta? Uma aliança do governo com os consórcios capitalistas, ou ‘apenas’ relações amistosas? Que papel desempenham os Tchernov e os Tseretéli, os Avxéntiev e os Skóbelev? – São aliados ‘directos’ dos milionários dilapidadores dos dinheiros públicos, ou apenas indirectos?".

 

12/07/2007 07:00

A discussão das ZPEs

Este Blog tomou a liberdade de sugerir uma pauta ao jornal Valor Econômico. Quanto ao jornal, sem dúvidas, o melhor nas áreas que cobre, ou seja, Economia, Negócios, Política e Finanças. Quanto à pauta, é de extrema importância. E principalmente por não ter percebido, na imprensa, uma maior discussão recente.

Me refiro às Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), projeto de lei que foi aprovado pela Câmara dos Deputados e, na semana passada, pelo Senado, que foi tema de um dos editoriais do Estadão de hoje.

Não tenho opinião formada sobre as ZPEs. Não sei direito se são benéficas ou não ao desenvolvimento do país. Na realidade, tendo a achar que se trata de algo muito bom "para quem está dentro, e muito ruim para quem está fora". Semelhante à Zona Franca de Manaus.

Enfim, algumas idéias transmitidas ao Valor:

Existe uma certa dicotomia partidária. O relator do projeto, Tasso Jereissati (PSDB-CE) pertence ao mesmo partido (o qual, aliás, preside) de um dos poucos a se insurgir contra a idéia: Luiz Paulo Velloso Lucas (PSDB-ES é deputado federal e ex-prefeito de Vitória).

Vellozo apresentou em artigo na Folha de S.Paulo ("Ninguém merece!", de 22 de abril) idéias contrárias à implementação das ZPEs, sem, no entanto, se basear em disputas partidárias.

Delfim Netto (PMDB-SP) e José Sarney (PMDB-AP) são os maiores defensores do projeto. O primeiro escreveu recentemente em sua coluna semanal no Valor ("ZPEs, 4 mil dias!" de 12 de abril) uma defesa do projeto. O segundo foi o pioneiro, ao instituir a idéia em 1988 quando ainda era presidente.

Segundo matéria de Fernando Exman na Gazeta Mercantil ("Fiesp quer derrubar criação das ZPEs" de 2 de abril), empresários da Fiesp são contra a instalação das ZPEs.

A Associação Brasileira de Zonas de Processamento de Exportação (ABRAZPE) mantém site na internet e é bastante ativa na relação com Brasília. Serve como opinião oficial.

Em artigo para a Folha ("Brasil na rabeira" de 30 de outubro de 2005) o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, cita algumas características que fizeram a China alcançar o desenvolvimento de então. Entre outros citou a implementação das ZPEs como boa política industrial.

O Ministro do Desenvolvimento (Miguel Jorge) já se disse favorável à idéia. Como ambos (Jorge e Coutinho) são os formuladores da nova política industrial (alvo de matéria na seção "Especial" do Valor de algumas semanas atrás), as ZPEs fazem parte dos novos planos?

 

12/07/2007 12:37

Maior IPI sobre cigarros = mais investimentos?

A Receita Federal anunciou ontem que o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) que incide sobre os cigarros aumentará 30%, já a partir de hoje.

Com mais impostos o governo vai contar com uma arrecadação extra calculada em R$ 1 bilhão por ano. Para os fumantes, o preço do cigarro com a nova carga tributária ficará entre 15% e 20% mais caro.

Uma conta rápida: uma pessoa que fuma um maço por dia irá gastar R$ 108 ao mês para manter o vício. No ano, esse gasto alcançará quase R$ 1.300.

Aos fumantes: continuem com esse vício inteligente, ao menos o governo terá maior receita, que poderá ser transformada em investimento. Este Blog agradece o esforço de alguns para aumentar o investimento público nacional.

 

12/07/2007 12:46

As nuances da crise argentina

A crise de energia que assola a Argentina vêm mobilizando o continente sul americano. O Brasil repassa a folga inutilizada de gás natural contratado da Bolívia diariamente; a Bolívia deve aumentar suas vendas diárias à Argentina; a Venezuela pode funcionar como sustentação na utilização do petróleo, que o país já exporta em largas quantidades aos argentinos; e o Chile, que depende de uma quantidade diária do gás argentino já não recebe o mínimo previsto no contrato, em dias de pico.

São várias as causas que levaram a Argentina à esse racionamento industrial em ano de eleições presidenciais. Até agora, a melhor leitura de alguns desses pontos está na Folha de hoje, em artigo do repórter Raul Juste Lores:

"O racionamento improvisado que congestiona postos de gasolina em Buenos Aires, provoca blecautes na indústria e que deixou Bariloche às escuras na noite de terça-feira obedece à lógica eleitoral do presidente Néstor Kirchner.

A cem dias de tentar eleger sua mulher, Cristina, como sucessora, Kirchner nem quer saber de um racionamento para valer e reajustar as tarifas.

Vai empurrar as medidas amargas para depois das eleições. O PIB deve deixar de crescer um ponto percentual neste ano, e milhares de demissões são esperadas.

Figurões do governo ligam diariamente para as usinas de distribuição, determinando quem deve deixar de receber energia. Grandes fábricas são "convencidas" a interromper a produção entre as 18h e as 24h, pico de consumo residencial.

O governo também pressionou a Petrobras e a espanhola Repsol a vender o litro de gasolina para os taxistas pelo mesmo preço do gás por 72 horas.

Os argentinos pagam a energia elétrica, o litro de gasolina, a água e o telefone mais baratos do Cone Sul. Desde que o país acabou com a fantasia da paridade peso-dólar, em janeiro de 2002, as tarifas estão congeladas, apesar de a inflação no período ter ultrapassado 100%.

As empresas do setor deixaram de investir. Várias estrangeiras deixaram o país. Há mais de um ano, alertava-se de que o populismo energético poderia causar um apagão na Argentina - produção congelada e o consumo crescendo sem parar.

Bancar o durão com grandes empresas faz parte do marketing do presidente. Kirchner chegou ao poder prometendo passar a limpo a década neoliberal do ex-presidente Carlos Menem. Quanto mais criticava o FMI e as multinacionais, mais a popularidade de Kirchner subia.

O azar dele é que até neve caiu sobre Buenos Aires. Em um país onde a calefação é popularizada, o consumo de energia em dias frios se multiplica.

A Argentina já pagou caro antes pelo desejo de seus comandantes permanecerem no poder a qualquer preço.

Menem enterrou anos de bonança ao quebrar o país comprando sua reeleição e tentando um terceiro mandato. Ironicamente, ele era queridinho das multinacionais e do FMI e permitiu que as tarifas na Argentina fossem as mais caras da região nos anos 90. Muda o peronismo, não seus meios".

 

12/07/2007 20:00

Frase da semana

"O Doni foi tanto para a frente que quase tira a bola do pé do cara. Se fosse entre times do Brasil, iria ter porrada"

Presidente Lula, ao comentar o
pênalti decisivo da partida entre Brasil e Uruguai, pelas semi-finais da Copa América na Venezuela.

 

13/07/2007 07:00

A Gerdau na concorrência capitalista

A compra da siderúrgica americana Chaparral Steel pela Gerdau coloca a centenária companhia familiar no rol das maiores do mundo no setor, e mais, assegura que não estará na mira de ser, ela própria, alvo de fusões e aquisições. Com a compra, a Gerdau se torna a quarta maior siderúrgica da América do Norte, com uma participação de 20% no mercado de aços longos da região.

A dança do capitalismo concorrencial que vivemos não é recente, mas vêm se intensificando nos últimos anos. O fenômeno em si é histórico, visto seu predecessor de fins do século XIX. Essa forma de capitalismo é baseada na disputa entre empresas, que surgem em caráter nacional, do mesmo setor, por uma parcela maior dos consumos.

Com a livre circulação de capitais restabelecida e constantemente incentivada após as crises mundiais dos anos 1990 - 1994 no México, 1997 na Ásia, no ano seguinte no Brasil e na Rússia e em 2001 na Argentina - os laços globalizantes tornam-se mais perenes.

As empresas se internacionalizam, aumentando sua margem de vendas.
Essa concorrência (daí o termo "concorrencial") demanda maiores ganhos de escala de produção, o que demanda mais dinheiro. Uma vez mais capitalizadas passa-se a adquirir a concorrência, que não se dá mais apenas em solo nacional, mas global.

Não é a primeira aquisição da Gerdau. Mas a notícia está em dois aspectos:
a) é a maior aquisição de sua história: Pagou, em dinheiro vivo, US$ 4,2 bilhões pela Chaparral Steel. O valor equivale à cerca de US$ 1,5 mil por casa tonelada de aço que a Chaparral é capaz de produzir. É quase quatro vezes mais do que o valor médio de todas as compras que realizou nos últimos sete anos.

b) a Chaparral Steel é uma empresa de grande porte e rentável – diferente, portanto, daquelas que o grupo brasileiro costuma adquirir.

O que a Gerdau fez foi apenas acelerar seu plano estratégico de internacionalização. Sua estratégia de crescimento sempre foi de comprar usinas de menor porte e com baixa rentabilidade.

Foi essa a sacada de André Gerdau Johannpeter, filho de Jorge, que assumiu a presidência do conglomerado em janeiro. A empresa se adequou a tendência mundial do setor de siderurgia, que se consolida em torno de algumas poucas empresas, que através de fusões e aquisições de concorrentes mundo afora, passam a monopolizar o mercado.

Essa conjuntura do setor se acelerou no ano passado, quando a Mittal adquiriu a Arcelor. Daí que a compra da Chaparral serve também para o Grupo Gerdau se firmar frente ao assédio das concorrentes.

Além disso, adiciona ao portfólio de produção da empresa brasileira o segmento de aços estruturais, de maior valor adicionado, que a Chaparral é especializada - suas plantas produzem 2,9 milhões de toneladas de aço ao ano.

Os planos da companhia, no entanto, permanecem condizentes ao modelo do capitalismo concorrencial. A Gerdau deve buscar diversificar sua produção, apostando mais, por exemplo, nos aços planos. Ainda há espaços para aquisições nessa área na América do Norte.

 

15/07/2007 17:23

Porque domingo é dia de futebol

Este Blog acompanha de perto a fila corintiana frente ao São Paulo Futebol Clube. E acompanha com gosto, afinal, é impossível dissociar o são-paulinismo deste blogueiro. A função permite já que os temas principais deste Blog, aqueles que a imparcialidade se faz evidentemente necessária, são outros.

Embora há também nos temas econômicos as diferentes posições, estas devem ser clara e puramente defendidas no campo das idéias, e, acima de tudo, no debate. A questão principal é o debate de idéias, não lutas políticas e muito menos desavenças pessoais.

Essa briga diária não é exclusividade do Blog. Felizmente. Mas pode-se contar nos dedos das mãos os outros locais de discussão puramente ideológica. A disputa, majoritariamente, é antropofágica.

A mídia não se toca, mas ao invés de intermediar o debate, participa tanto quanto os debatedores, se tornando ela mesmo, um peão em todas as partidas. Seja dando atenção, seja desqualificando o debate através de sua não promoção.

E aí entra o futebol. Como nas outras questões nacionais, especialmente se analisando as discussões midiáticas, o esporte raramente é discutido por aquilo que ele é.

Deixa-se tomar pelo coração - e junto disso, pela irracionalidade inerente à paixão -, desqualificando o debate. Daí essa palhaçada que é a mídia esportiva. Quase, quase, sem exceções.

Difícil falar com leitor tão inteligente como o leitor atencioso deste Blog. Mal se escreve e ele já sabe do que está pensando escrever em seguida. Sim, caro leitor, nem preciso citar nominalmente aqueles que travam o debate da mídia esportiva. Você já sabe.

Fato é que, para não tornar o debate ainda mais enviesado, este Blog quase não trata de futebol. Seria mais um a desqualificar o outro lado (nesse caso, os times rivais) como forma de glorificar a posição escolhida (o time de coração).

Que fique claro, caro leitor. Este Blog debate tudo. Inclusive futebol. Ou seja, discuto meu são-paulinismo em cima de fatos. E, através deles, retorno ao mote deste texto.

Em toda a história do confronto profissional (o que invalida as disputas entre aspirantes ou juniores), foram 282 partidas entre São Paulo e Corinthians. O alvinegro levou a melhor em 104 oportunidades, enquanto o tricolor venceu 89 vezes. Os empates somam 89.

Mas a freguesia que trato é a "recente". As aspas se referem porque, como se sabe, “recente” deveria ser aquilo que é novo, ou razoavelmente novo. Pois a freguesia não tem nada de recente.

A última vitória do Corinthians sobre o São Paulo data de março de 2003. Não é nem do primeiro semestre daquele ano, porque em junho o tricolor bateu o rival por 2 x 1 em jogo pelo primeiro turno do Brasileiro daquele ano.

Nesse intervalo março/2003 até julho/2007 (52 meses), foram 14 jogos (13 "normais" e mais um que foi anulado, parte daquele bisonho campeonato Brasileiro de 2005) com 10 vitórias são-paulinas e 4 empates.

É a maior freguesia da história do clássico, tanto em número de partidas quanto em duração temporal.

O período mais especial foi com certeza o ano de 2005. Naquele ano o Corinthians teve um excepcional empurrão na auto-estima com a entrada dos investidores russos MSI, que, como provou a Polícia Federal, entrou no clube para lavar os dólares oriundos da máfia russa. Mas a conta só veio no ano seguinte. Em 2005 era ano de festa para a torcida e da imprensa nacional, que se deixou levar pela constelação de craques e a dinheirama envolvida. De deixar a dupla Palmeiras-Parmalat ruborizada.

A comparação não é esdrúxula. Quando do aporte do dinheiro da marca italiana no clube alviverde o Palmeiras vinha de uma fila de 17 anos, além de capengar nos campeonatos de 1991 e 1992. Da noite para o dia foi montado um time de super-estrelas, riquíssimo, que passou a conquistar campeonatos em 1993.

As investigações e punições policiais que vieram em seguida foram largamente discutidas, não cabe retomá-las.

O primeiro São Paulo x Corinthians de 2005 foi no Morumbi, pelo Campeonato Paulista. Maior público do campeonato (50 mil pagantes), com estréia de Roger pelo alvinegro. Vitória tricolor, com gol de Danilo, bem ao seu estilo, chute de canhota, na entrada da área à esquerda. A "fiel torcida" botou fogo nos banheiros do estádio ao final da partida.

O título paulista tricolor serviu para aumentar a escalada na rivalidade entre os dois. Ambos eram tidos como favoritos para o Brasileiro que se iniciava. E logo na terceira rodada, São Paulo x Corinthians, com mando corintiano, no estádio municipal, com quase 18 mil pagantes.

Era a estréia do técnico Paulo Autuori no comando do São Paulo, que jogaria a última partida da fase de grupos da Libertadores dali à três dias. O rival alvinegro tinha acabado de ser desclassificado da Copa do Brasil nas oitavas de final.

Poderia descrever a partida de vários ângulos: do jogo em si, da experiência pessoal, das páginas policiais, do patrimônio público depredado pelo show de horror que se seguiu.
As imagens falam por si só..

Se os 13 atenciosos leitores deste Blog notarem a escalação do escrete MSI/Corinthians neste clássico, perceberão ser rigorosamente o mesmo time que mais tarde seria campeão do certame que entrou para a história como o que revelou o trambique d o árbitro Edilson Pereira de Carvalho. Qualquer relação Parmalat-José Aparecido, é da cabeça de vocês leitores, ok?

O ano de 2005 foi rico na escalada que fez do confronto São Paulo e Corinthians o de maior rivalidade no Estado, suplantando o Corinthians e Palmeiras. O embate memorável do segundo turno daquele ano (3 x 2, com provocações, duas viradas, gol histórico do maior provocador Amoroso, e tento final aos 43 do segundo tempo) seria anulado. Prometo retomar essa conversa mais tarde.

Para não tomar mais texto, este Blog propõe retomar essa conversa mais tarde.

 

17/07/2007 07:00

Gestão pública 12 anos depois

O ponto alto do noticiário político dos últimos dias foi o furo do jornal O Globo de que o governo pretende criar fundações estatais, aplicando um novo modelo de gestão para órgãos e setores públicos ineficientes. Especialmente os hospitais federais.

O jornal carioca conseguiu a informação em entrevista com o Ministro do Planejamento Paulo Bernardo, que toma a frente de uma idéia longe de ser nova.

Nesse ponto a Folha de S.Paulo foi na mosca, em sua edição de sábado, ao lembrar que a idéia de trazer para alguns setores da administração pública critérios privados, foi idéia-base da gestão Bresser-Pereira à frente do Ministério da Gestão Pública, quando Fernando Henrique Cardoso assumiu em 1995.

Como boa parcela do primeiro governo de FHC, o conflito entre diferentes visões paralisou o encaminhamento de várias políticas e de várias pastas. O próprio Bresser foi reincidente. Quando viu que não ia dar em nada, saiu do Ministério ainda em 95. Uma vez reeleito, FHC convocou o ex-Ministro da Fazenda para assumir o Ministério de Ciência e Tecnologia. Pelos mesmos motivos Bresser voltou a vida acadêmica em 1999.

A matéria da Folha foi certo em mostrar a dicotomia partidária. Enquanto Bresser apóia as idéias do governo petista, que mais criticou as idéias dele quando na oposição, o PSDB (partido de Bresser) é contra as fundações estatais.

O texto-base que cria as fundações públicas de direito privado (fundações estatais) prevê que será assinado um contrato de gestão, contendo os indicadores a serem cumpridos por cada fundação e os prazos de execução.

Quem começou a trazer para o governo do PT essas idéias foi José Gomes Temporão, que assumiu em março o Ministério da Saúde. Não é à toa que é sob o Ministério que estarão as primeiras fundações.

A fundação estatal terá autonomia administrativa, gerencial e orçamentária. Será criada por lei e fica ligada ao Ministério da Saúde, que escolhe e nomeia todos os diretores.

Mas não vai integrar a Orçamento da União, e suas rendas serão oriundas das receitas que conseguir obter nas prestações de serviços e do desenvolvimento de suas atividades, além de doações.

O documento prevê ainda que os funcionários serão selecionados por concurso público e contratados no regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em modelo semelhante ao adotado em bancos públicos como a Caixa Econômica Federal e o BNDES.

Por ser de direito privado, a fundação não precisa seguir as normas da Lei de Responsabilidade Fiscal e da Lei de Licitações. Além do mais, pretende-se adotar idéia igual à adotada pelo governo de Aécio Neves (sob a batuta de Antônio Anastasia no Planejamento e do consultor Vicente Falconi) de criação do Conselho Consultivo Social, composto por representantes da sociedade civil, como usuários e outras pessoas físicas e jurídicas com interesse nos serviços da entidade.

"As fundações não estarão livres da fiscalização. Serão supervisionadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e também pelo Ministério Público", avisou Paulo Bernardo na Folha, para se defender da não-vinculação dos resultados na internet. Esse ponto deve ser discutido, afinal, mesmo com o Conselho Consultivo Social, maior transparência a um novo modelo servirá até para imprimir maior rapidez à eventuais mudanças programáticas ou ajustes gerenciais.

 

17/07/2007 19:41

Terror aéreo em SP

Dia de chuva intensa e constante em São Paulo. Agorinha, voltava de um passeio com a familia, depois de deixar o irmão na casa de um colega. Na volta para casa, este blogueiro e meus pais ouvíamos ao rádio (CBN) que um avião da TAM se chocou com o depósito de combustivel da companhia no Aeroporto de Congonhas (SP).

O avião da TAM 3054, vinha de Porto Alegre para São Paulo, não conseguiu pousar. Cedo ainda para se averiguar os motivos. A pista, no entanto, não tem as ranhuras normais em pistas do tipo, recém-pronta após meses de obras.

A aeronave atravessou a avenida Washington Luis indo se chocar no depósito de combustível da companhia, que fica em frente à pista principal do aeroporto de Congonhas.

As labaredas são imensas, segundo relatos e as imagens das transmissões de helicópteros. O airbus 320 que não conseguiu completar a manobra tem 170 passageiros. Nos elevadores dos prédios da TAM estavam com funcionários da companhia.

A movimentação é imensa nas cercanias. Acabamos de chegar em casa. Moro à menos de 2 kilometros do local. Abrindo a porta foi possível ouvir do telefone de casa uma interferência, provavelmente do rádio interno da Polícia ou dos Bombeiros.

Consigo ver a fumaça da janela do meu apartamento. As imagens são horríveis.

Mais tarde estaremos no Aeroporto de Guarulhos, para viagem ínternacional. Tinha preparado uma mensagem de férias no Blog.
Tenho outros textos agendados para os próximos dias para o Blog e para a Aba de Música.

Mas o clima é horrível. Horrível.

Me solidarizo com os feridos e as familias das vitimas, que ainda não foram confirmadas, mas há pequena possibilidade, à julgar pelas imagens e relatos, de se esperar pelo melhor.

 

17/07/2007 21:02

Acidente da TAM

Alguns pontos levantados pela cobertura do canal Globonews, através de entrevistas com especialistas acadêmicos, testemunhas e repórteres ao vivo do local:

O avião não conseguiu completar a manobra de pouso, derrapou da pista principal do aeroporto de Congonhas, atravessou as pistas da avenida Washington Luis e se chocou no prédio da TAM Express, em frente ao aeroporto, do outro lado da avenida;

O prédio da TAM Express é um departamento de estocagem da companhia, aonde ficam bagagens especiais e outros compartimentos. O prédio divide parede-com-parede com um posto de gasolina de bandeira Shell. Daí o volume enorme de chamas;

Uma nova explosão ocorreu à poucos instantes. Uma parte do prédio da TAM Express desabou, levando o resgate para mais longe do local, como forma de segurança;

Prédios vizinhos, em sua maioria comerciais, foi alcançados pelas chamas, que diminuem lentamente;

Algumas vítimas foram já encaminhadas para Hospitais. Duas em estado gravíssimo, uma em cirurgia no momento. Não se sabe ainda de onde foram resgatadas essas vítimas, se pedestres da avenida, se funcionários do hangar Express da TAM, ou se tripulantes do võo;

A aeronave da TAM conta com espaço para 168 passageiros, embora ainda não se sabe se estava lotado. Vinha de Porto Alegre, com destino à São Paulo;

Uma equipe do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) - que fora contratado pela Infraero para acompanhar as obras na pista principal do aeroporto - foi destacada para estudar e analisar as causas do acidente;

O presidente Lula já convocou uma reunião ministerial emergencial, com Dilma Rousseaf (Casa Civil), Waldir Pires (Defesa), Franklin Martins (Comunicação Social). O comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, embarcará logo mais para São Paulo, bem como o presidente da Infraero, que manterão Lula informado;

A chuva diminuiu, mas os ventos continuam firmes, o que alimenta as chamas. São esses ventos fortes que estão alastrando as chamas para prédios vizinhos;

Ainda não foram liberados os nomes dos passageiros e dos tripulantes em si, do võo 3054;

São sete feridos no Hospital Jabaquara. Seis homens e uma mulher. Todos funcionários da TAM Express. Duas pessoas já estão livres de riscos. Duas estão em estado grave. Uma está em cirurgia neste momento;

A Eletropaulo cortou a energia nas cercanias, como forma de auxiliar o trabalho dos bombeiros e do resgate;

Como moro perto, posso ficar sem energia. Se não, volto com notícias.

Da janela de minha casa é possível ver a fumaça negra quase na mesma medida de como estavam quando cheguei em casa, por volta das 19h20min. O acidente ocorreu por volta das 18h50min.

Uma morte acabou de ser confirmada.

 

17/07/2007 21:11

Como se já não bastasse

Estávamos chegando em casa, o telefone como se estivesse anunciando as mensagens em nossa caixa-postal. Mas detalhe, estávamos eu e meu pais entrando em casa. Ninguém tinha acionado a caixa-postal.

Foi possivel ouvir uma voz masculina, como que ordenando algo, enquanto ao fundo se ouvia uma voz de pessoa como que chorando.

Terminada a "mensagem" colocamos para ouvir novamente.

Ouvi movimento, provavelmente a mensagem vinha de dentro de um carro. Chuva ao fundo e os pneus cortando asfalto molhado. Vozes balbuciavam algo.

"Se você seguisse carreira poderia estar muito melhor, muito melhor", dizia a voz masculina.

Voz ao fundo, parecia criança ou mulher.

"Mas não, você não segue..."

Fim da mensagem.

Quando entrávamos em casa, dava para se ouvir muitas sirenes. Na frente de casa, dois carros de bombeiros passavam.

Concluimos que a "mensagem" só poderia ser interferência do rádio da polícia, ou dos bombeiros, enfim. Só podia ser isso.

Mas ainda assim, não faz sentido algum, não acham?

Como se os ânimos não estivessem mais tensos.

 

17/07/2007 21:29

Imprensa e o acidente aéreo em SP

A cobertura está muito boa. Estava no carro quando da hora do acidente, ouvindo a rádio CBN, que iniciava seu programa das 19 horas. A cobertura se deu de imediato através da repórter aéreo que cobria o local.

Foram vinte minutos acompanhando a cobertura pelo rádio. A atriz Ligia Cortes entrou em contato com a rádio, para dar mais informações. Lígia estava num táxi quando do acidente, e ligava da porta do aeroporto de Congonhas.

Segundo Lígia o aeroporto estava tomado de gente, que abandonava seus võos, pouco antes de todos os võos serem cancelados.

Em seguida passei a acompanhar pela Globonews, que entrevistava um estudioso de acidentes da UFRJ. São 3 repórteres no local, 1 dentro do aeroporto, um no aeroporto de Porto Alegre, de onde partiu o võo e um em Brasília com as notícias do governo.

Foram entrevistados ainda testemunhas que moram perto do local, que deram detalhes sobre o prédio da TAM Express, que se localiza ao lado de um posto Shell. Foi esse o local do choque da aeronave da TAM.

O pai deste blogueiro acompanhou pela televisão aberta, na Bandeirantes, José Luis Datena chamava a atenção do telespectador para um ponto que discutia com meu pai: como a aeronave atravessou as pistas da Avenida Washington Luis sem ter destruido asfalto, calçadas, árvores ou carros que passavam nesta grande avenida paulistana?

Foram levantadas três hipóteses: a) o avião não conseguiu pousar na pista, se chocando direto nos prédios do outro lado da avenida; b) o avião pousou mas não conseguiu completar a manobra e acabou "escapando" para o prédio da TAM Express/posto Shell; c) o avião tocou a pista principal de Congonhas mas não se fixou, e com a velocidade que vinha se manteve caindo, sem, no entanto, se chocar na pista da avenida, indo bater no prédio.

Continuo acompanhando a cobertura através da Globonews, mas as 23 horas sairei para o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, para viagem de férias. A partir daí o Blog passará a contar com os textos que deixei agendados.

Notícias atualizadas:

A TAM acaba de informar que 175 pessoas estavam a bordo. 155 passageiros, 6 tripulantes e 14 funcionários. A companhia afirma que não divulgará a relação de nomes até que entre em contato com as famílias;

O subprefeito de Santo Amaro afirmou que todos os moradores das cercanias foram retirados;

O governador do Estado, José Serra (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) já estão no local do acidente;

 

17/07/2007 21:52

Maior tragédia da aviação brasileira

Ao vivo no Jornal Nacional da Rede Globo, o repórter Rodrigo Bocardi contou sobre entrevista feita com médico que trabalha no local do acidente. O médico contou sobre uma vítima socorrida por ele. Um funcionário da TAM Express, que estava no segundo andar do prédio quando do choque da aeronave da companhia, se jogou para a rua, com medo após a visão do choque.

O funcionário já chegou morto ao hospital, com traumatismo craniano.

Confirmadas até aqui 3 mortes.

O Jornal da Record também faz excelente cobertura (acabou de acabar, dez minutos depois do gêmeo da concorrente Globo). A âncora do telejornal avisa que, constatada a tragédia de 176 mortos do avião, esse acidente será a maior tragédia da aviação brasileira.

Atualização das 22h:23min
O blog do jornalista
Ricardo Noblat está firme na cobertura desde, pelo menos, dez minutos após constatado o acidente - que ocorreu por volta das 18h50min.

 

18/07/2007 19:00

Ensaio musical

Este Blog é grande fã de música. De qualquer tipo. Mas dentre todos os estilos, o preferido deste que vos escreve, é o Rock. E nele, cinco grupos são como os heróis de uma criança.

É sobre um desses cinco grupos que escrevo, em ensaio dividido em três partes, que será publicado na Aba de Música deste Blog.

The Rolling Stones marcaram a vida deste blogueiro ao mesmo tempo que o descobrimento de seus conterrâneos e contemporâneos The Beatles. Mas os primeiros, por razões que apenas tangenciam em meu ensaio, se fixaram mais em meu gosto que os últimos.

Aliás, falar em contemporaneos dos Rolling Stones é brincadeira. À exceção dos artistas pré-1962, todos os outros são, de alguma maneira, contemporâneos dos londrinos. Desde os Beatles até o Black Eyed Peas.

Convido os 13 leitores deste Blog à acompanharem o ensaio. As partes serão publicadas sempre às quartas-feiras às 19 horas, na Aba de Música. O atencioso leitor encontra a Aba à sua esquerda na seção "Bligs Amigos", ou
clicando aqui.

 

20/07/2007 07:00

A maldição das commodities

O vigoroso e contínuo crescimento mundial, basicamente sustentado pela China, tem produzido efeitos de diferentes proporções em todos os países. Seja nos Estados Unidos que continuam à crescer com seus "déficits gêmeos" (comercial e corrente) ou nos países emergentes, que aproveitaram a bonança para colocar em ordem sua balança de pagamentos.

Como em qualquer modelo, uns fazem melhor que outros. É claro que não existe uma só fórmula para o desenvolvimento com melhor distribuição de renda, depende muito das particularidades regionais dos países nacionais.

Mas se o "fenômeno China" tem feito algo é em nivelar ainda mais as generalidades da globalização entre países. Em todos os campos e meios.

Desde pelo menos 1976 os chineses vêm apresentando taxas enormes de crescimento, mas principalmente a partir de 2003, quando se aliou à um raro período de crescimento global, o setor industrial daquele país passou a se desenvolver de maneira à não só disputar mercado internacional com preços baixíssimos, mas, cada vez mais, agregando valor.

Não é objetivo deste texto discutir as causas ou consequências desse crescimento chinês. Mas sim notar que, essa nova realidade "sino-cêntrica", como bem observou Antônio Barros de Castro do BNDES, têm produzido um crescimento nas taxas do PIB de todos os países produtores de commodities.

Nesse ponto entram os países da América Latina. Uns, mais que outros, se utilizaram bem das condições favoráveis de liquidez externa para financiar uma escalada produtiva na produção dos bens primários (commodities), se baseando na demanda compulsiva chinesa, que vêm continuamente aumentando os preços das commodities. Ou seja, vende-se mais quantidade, à um preço cada vez maior.

Produzir commodities se tornou coqueluche na região. Há demanda, há previsão de lucros exorbitantes, há crédito farto e barato.

Estão postas então, as condições do surgimento da "doença holandesa". Isto é, fica-se preso aos enormes lucros da comercialização de bens primários, tornando qualquer negócio de maior nível de especialização e tecnologia desinteressante. A inundação de dólares oriundos das vendas das commodities valorizam a moeda nacional, piorando ainda mais a situação do setor de transformação. Com a moeda apreciada os bens industriais importados se tornam mais baratos e passam a abastecer a demanda interna. Esses bens importados são produzidos à partir das commodities dos países em desenvolvimento.

Ser abençoado com as condições naturais das commodities se torna então uma maldição.

Daí que alguns países como o Chile, "menina dos olhos" da teoria neoliberal no continente, maior produtor de cobre (commodity) do mundo, criaram um fundo internacional para armazenar os dólares oriundos da exportação desse produto.

Com esse fundo os dólares não entram no país, quer dizer, deixam de apreciar artificialmente o câmbio chileno, que permanece razoavelmente competitivo para outros setores. E mais, como o câmbio permanece alto, os próprios lucros dos produtores de cobre se tornam maiores, afinal o preço em dólares não para de aumentar (mesmo já se encontrando em um patamar recorde).

O dinheiro desse fundo fica determinado tempo "preso" e a partir de determinado momento pode ser acessado por aqueles que têm direito (os vendedores de cobre). Os efeitos de valorização de sua moeda são, então, dispersados no ano, ao invés de concentrados.

O Chile não deixa de crescer por causa disso. Nem suas exportações de cobre diminuíram seu quantum.

 

23/07/2007 07:00

Nova-velha ordem de dominação

A nova ordem mundial, francamente baseada num comércio (e sociedade) sino-cêntrica foi tema da última coluna ("A maldição das commodities"). Naquele texto foi explicado um pouco como vêm se organizando as forças do comércio mundial desde 2003, "ano da virada chinesa", quando passou a competir globalmente com suas exportações em grande quantidade, bastante baratas, e, cada vez mais, com melhor qualidade.

Essa nova ordem se assemelha à teoria tricentenária de David Ricardo, das "vantagens comparativas" entre países. Isto é, um país com "vocação" de produtos primários (commodities) deveria apenas exportar esses produtos aos países com "vocação" de produtos de maior teor tecnológico e valor agregado, que por sua vez, venderiam aos primeiros.

É nessa teoria que se sustentou o vitorioso lobby dos países desenvolvidos, alinhados no Consenso de Washington, de 1990, que preconizava regras para que os países em desenvolvimento se especializassem em produzir suas commodities em larga escala, para consumo dos países ricos. Em troca estes venderiam seus produtos industriais.

Mudam-se algumas regras, perde-se um pouco no caráter político social de dominação ideológica, mas a nova ordem mundial não fica devendo em dominação econômico, financeiro e comercial.

Na coluna anterior citei o caso do Chile, "país coqueluche das teorias neoliberais na América Latina", e seu fundo internacional de dólares do cobre.

Agora cito o exemplo do Peru, país que normalmente passa desapercebido das políticas comerciais dos países desenvolvidos e até do local Mercosul. A atenção midiática ao Peru é o mais forte exemplo de um certo abandono, que transcende o campo econômico.

Pois o país não fugiu à regra estabelecida a partir de 2003. Com sua economia centrada na mineração, o Peru aproveitou os anos para alcançar crescimento médio de seu Produto Interno Bruto (PIB) de 7% ao ano, com meses ocasionais registrando aumentos de 8% ou 9% em relação ao ano anterior.

São vários os índices e números que servem como amostra desse salto. O PIB peruano fechou 2004 valendo US$ 69,8 bilhões e sua dívida externa era de US$ 24,5 bilhões, ou 35,1% do PIB.

Apenas dois anos depois, o PIB peruano alcançou US$ 93,61 bilhões em 2006 (um aumento de 25,5% em dois anos). Sua dívida externa caiu pouco, sendo agora de US$ 22 bilhões. Mas sua proporção em relação ao PIB caiu severamente, para 23,5%, apenas com o crescimento.

Outro índice para análise é o risco-país, que é a taxa, calculada diariamente, do ágio que o país deve pagar para tomar empréstimos no exterior. Em janeiro de 2003 o risco-Peru valia 724 pontos-base. Quatro anos depois já estava em 171 pontos-base. E em abril último valia 120 pontos-base.

Mas todo esse "milagre peruano" foi sustentado pela enorme demanda mundial (mas principalmente chinesa) pelas commodities. Apenas no período 2003-2007 o Peru viu suas empresas do setor de mineração se tornarem grandes exportadoras, grandes sustentáculos de seu crescimento.

Mesmo nesse modelo minério-dependente, são poucas as empresas. As 6 maiores são: Southern Peru Copper, maior empresa de mineração do país e, de longe, a maior entre as cem empresas mais competitivas da região; Santa Luisa, controlada pela japonesa Mitsui, que extrai e processa principalmente chumbo, zinco e cobre; Raura, especializada em concentrados de cobre, chumbo e zinco; Atacocha, formada por duas jazidas (Atacocha e Santa Bárbara) de onde extrai cobre, zinco, chumbo e prata; Minsur, dedicada à extração de estanho com produção superior a 2.700 toneladas métricas por dia; e Perubar, controlada pela Glencore Minera Ag.

A massiva dependência dos dólares provenientes das exportações de commodities fica evidente quando se analisa a participação das commodities em suas exportações totais: excluindo os combustíveis (também commodities), são de 58,5%. Contando também os combustíveis as commodities equivalem a 64,3% de toda a exportação peruana.

Se proteger da "doença holandesa" é a chave para o país não "quebrar" passada essa demanda histórica por suas "vantagens comparativas".

 

27/07/2007 07:00

Adquirindo para prosseguir

A maior rede de lanchonetes de panquecas do maior consumidor desse produto no mundo (os Estados Unidos), a Ihop Corp, acertou a compra da rede de restaurantes Applebee's International Inc. por US$ 1,9 bilhão.

Esse dinheiro virá da venda de títulos que serão garantidos pela renda das franquias. Incluindo a assunção de dívidas, a transação é avaliada em US$ 2,1 bilhões. A Ihop possui 1349 lanchonetes enquanto a Applebee's conta com 1943. A aquisição quadruplicará as vendas anuais da Ihop, que pretende vender a maioria das 508 lanchonetes da empresa adquirida a franqueados. Essa venda poderá gerar US$ 550 milhões, além de US$ 400 milhões oriundos da venda de imóveis da Applebee's.

No Brasil, a Applebee's possui três lojas, sendo duas em São Paulo e uma em Recife. Até 2014 a rede pretende contar com 25 unidades.

Não há nenhuma unidade da International House of Pancakes (Ihop) no Brasil, mas o fenômeno de fusão e aquisiçao de empresas está cada vez mais perene no país e na região.

O número de fusões e aquisições cresceu 54,1% no primeiro semestre de 2007 no Brasil, embora o volume financeiro negociado no período caiu 56,6%, de US$ 36, 4 bilhões para US$ 15,8 bilhões.

Ou seja, a estratégia de adquirir a concorrência como forma de ganhar escala não só em produtividade mas em parcela do mercado, se disseminou no país, deixando de ser privilégio das grandes empresas.

Nos primeiros seis meses deste ano foram realizadas 578 fusões e aquisições nos países latino-americanos, contra 430 no mesmo período de 2006 - avanço de 34,1%. O valor total obtido com essas transações seguiu a tendência brasileira, caindo em relação ao ano passado.

Especialistas do setor calçadista brasileiro já dão como certo um movimento similar na gigante do setor, Grendene, para cima de rivais "menores".

O raciocínio é simples. A Azaléia foi comprada pela Vulcabras, que será comprada pela Grendene. A fusão das três companhias daria origem a uma empresa com faturamento estimdado em R$ 2,3 bilhões, o maior do setor calçadista no Brasil.

Com a constante supervalorização que o real vem sofrendo desde o último trimestre de 2004, o movimento tem se tornado estratégia em setores mais afetados, como o calçadista, contra o fechamento de fábricas.

O eventual passo da Grendene seria um marco, com a formação da primeira grande empresa do setor a aproveitar as vantagens competitivas de marcas rivais para acumular mercado e controlar tendências.

Em fábricas menores as fusões e aquisições funcionam como sobrevivência. O real apreciado torna os produtos manufaturados nacionais mais caros no mercado externo. Ao mesmo tempo, incentiva a importação de toda a sorte de mercadorias, que se tornam mais baratas. Some-se a isso o "efeito China", com suas manufaturas em enormes quantidades, com cada vez mais valor agregado, e "super baratas", e tem-se uma situação de fechamento de empresas.

Personagem desta especulação, a Vulcabrás vêm arregaçando suas mangas também fora das fronteiras. Recentemente adquiriu a calçadista argentina Indular Manufacturas, com produção anual de 600 mil pares.

Os investimentos da Vulcabrás no país vizinho objetivam aumentar a produção da Indular para até 2 milhões de pares anuais. O nível é tal, que nem a crise energética por que passa a Argentina é capaz de assustar demais os planos da empresa.

Segundo executivos da Vulcabrás, a idéia é implantar algo parecido com o efetuado no Brasil em 2001, quando do nosso apagão elétrico. Naquele ano a empresa partiu para um esquema de geração própria de energia elétrica, trabalhando até hoje com seus próprios geradores.

Daí que, ao menos na palavra do diretor superintendente da companhia, Milton Cardoso, não há nenhum plano de fusão com a Grendene. A idéia, segundo Cardoso, é aproveitar o espaço para crescer organicamente, adquirindo "over seas" ou pequenas empresas brasileiras.

Só então se parte para o grande salto de se unir à concorrência.

 

30/07/2007 18:53

A classe média e seus movimentos

Após o acumulo de sentimentos cruzados na elite e na classe média brasileira com a situação política e econômica, alguns movimentos foram sintomáticos em caracterizar uma nova disposição de ativismo.

As discussões acerca dos aumentos salariais dos parlamentares geraram revolta computadorizada, em forma de uma avalanche de e-mails (apenas os mais abastados têm verdadeiro acesso às cartas pós-modernas).

Se antecipando à um clamor inevitável deste segundo semestre que se inicia o então PFL (agora Democratas) lançou o movimento "Xô, CPMF", contra a extensão de 5 anos para a vigência do "imposto do cheque", que atinge os mais endinheirados, que mexem mais em suas contas bancárias.

Com a deflagração de uma crise aérea (privada), horrivelmente conduzida pelo poder público, a OAB Seccional São Paulo lançou, ao lado de setores do empresariado (principalmente paulistano, em forma do LIDE de João Dória Jr.), o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros. Apelidado de "Cansei".

São várias as áreas em que o movimento se cansou. Desde os problemas do sistema político, até a inapetência na condução dos problemas operacionais, passando por demandas de quedas nos impostos.

Todo o nascedouro do movimento se deu pela atuação da mídia, especialmente a partir dos escândalos políticos de 2005. È a mídia a principal aliada do movimento. E vice-versa.

Não à toa, o "Cansei" foi alvo de dois colunistas do espaço "São Paulo", na página de editoriais do jornal Folha de S.Paulo, Clóvis Rossi na edição de domingo; Fernando Barros e Silva na edição de hoje.

Rossi chama a atenção para o fato de que um grupo, o "Movimento Nossa São Paulo", não se atém apenas à crítica e/ou ao protesto. Segundo Rossi um movimento "absolutamente apartidário e que envolve uma formidável coleção de organizações que vão desde a portentosa Nestlé até o Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável".

O projeto mais abrangente do "Nossa São Paulo" é construir "uma base de dados sobre São Paulo que permita que, na campanha eleitoral do ano que vem, sejam apresentadas propostas com metas quantificáveis. Candidato que vier com "a minha prioridade é a educação", por exemplo, será convidado a comprometer-se com metas (e prazos) tanto em número de matrículas como em qualidade do ensino. Chega de discurso vazio".

Já Fernando Barros e Silva começa sua coluna de maneira incomum à seu estilo ácidamente crítico e moroso de se chegar ao assunto. Conta a história de uma personagem, de nome Durval, que é atraído pelo movimento "Cansei". Vejam só:

"Durval detesta gente que se junta para protestar -coisa de comunista safado-, mas desta vez ficou atraído pela nova campanha: "Cansei". Taí, pensou. Identificação imediata. É verdade que não entendeu muito o nome oficial da coisa: Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros. Esse negócio de "cívico" não é com ele. Parece palavrão de doutor. Mas o slogan fisgou Durval: "Cansei" -repetia alto na sua cabeça, reconfortado. Quem foi o gênio? -matutou".

(...) "Identificou o líder do movimento, João Dória Jr. Domingo à noite, costuma assistir ao "Mesa Redonda" na TV Gazeta. Quando muda de canal, lá está ele, aquela pinta de rico, todo engomado, sempre com alguma loira do lado, sempre falando de dinheiro. Se até esse cara cansou, pensou Durval, coitado de mim. E foi dormir, mais aliviado".

 

31/07/2007 07:00

O debate das agências reguladoras

A discussão da vez do mundo político se dá acerca da atuação das agências reguladoras. O debate foi lançado pelo órgão encarregado de pautar o plano de vôo nacional – a mídia. Em suas edições de domingo, os três principais jornais (Folha, Estadão e O Globo) vieram cheios de análises sobre a atuação e o funcionamento das agências.

As agências reguladoras são parte da ideologia neo-liberal dos anos 1980, que começou a ser plantada no Brasil a partir do governo Collor, em 1990. Mas foi seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos, 1995-2002) quem realmente implantou as platitudes do Consenso de Washington (de 1990), que organizava os ideiais.

A idéia era enxugar o Estado através de concessões, parcerias e privatizações. Setores foram abertos à competição entre empresas privadas, quebrando o alicerce político-social anterior, que se baseava em monopólios estatais. O Estado ficaria então encarregado de organizar o sistema, garantindo equidade nas informações para as empresas. Para isso foram criadas as agências reguladoras.

Lançadas em 1997 com a privatização do setor de telecomunicações (com a criação da agência Anatel), essas agências ficariam encarregadas de permitir um campo ideal para os investimentos privados de longo prazo.

Em tese o poder de conduzir as políticas para esses setores recém-privatizados permaneceria com os ministérios, aos quais as agências estão vinculadas. Mas na prática não é o que acontece.

O melhor exemplo é o Banco Central, a mais antiga das agências reguladoras -criado pela dupla Bulhões-Campos em dezembro de 1964 – que a partir da gestão de Marcílio Moreira Marques no ministério da Fazenda (substituiu Zélia Cardozo em 1991) passou a ganhar poderes incomensuráveis de atuação. O Plano Real de 1994 foi a chave para que BC tivesse caráter de ministério.

O colunista da Folha Fernando Rodrigues foi na mosca ao apontar o caráter desfigurado que a discussão conta. Segundo Rodrigues quem é a favor da manutenção das agências reguladoras é associado ao "laissez-faire" dinheirista do mercado. “O outro lado, defensor de demissão sumária de diretores e repasse das atribuições ao governo, é tachado de retrógrado ou romântico de Cuba. Não é uma coisa nem outra”.

Sem ideologias, que travam todo debate de interesse nacional, deve-se debater como reorganizar toda a questão entre os ministérios e as agências, bem como suas atuações. Com suas tarefas tornadas claras, inclusive com regras para dinamizar e tornar igualitário o relacionamento entre os órgãos e as entidades privadas.

Mas o passo mais importante é mudar a maneira como se dá a escolha dos funcionários desses órgãos públicos. Em sua maioria têm ligações com empresas e sua atuação se torna puro lobby interno para seu benefício posterior, quando o funcionário (ou diretor) retornar à vida privada. Além dos casos de profissionais que usam sua passagem no poder público como trampolim para a carreira pessoal, que, após cumpridas as exigências legais (nada rígidas, é bom que se diga) da quarentena (quatro meses sem assumir cargo privado após deixar o serviço público), assumem cargos diretivos em grandes empresas com grandes salários.

 

31/07/2007 18:43

Apostem na queda. O lucro é seu, o país que se vire

O dólar fechou o mês de julho valendo R$ 1,883, após leve alta no pregão de 0,32% no pregão de hoje. Ainda assim a queda total no mês foi de 2,44%. Mesmo com as turbulências derivadas dos problemas do mercado subprime de hipotecas norte-americanas, que tem causado alguns estragos em fundos de private equity e hedge funds.

O valor de queda da cotação do dólar frente ao real (que chegou a beirar os R$ 1,83) foi quanto os investidores institucionais instalados no país (basicamente fundos de investimentos) auferiram ao assumirem posição "vendida" no mercado de câmbio derivativo na BM&F. Ou seja, apostaram que o dólar iria cair. E lucraram com sua queda. Como aliás vêm ocorrendo há séculos no Brasil.

O valor de R$ 1,883 será definido como a Ptax de julho, ou seja, a taxa de câmbio âncora, aquela que será usada para fechar todos os contratos firmados no mês.

Apenas adquirindo os contratos de swap cambial reversos (que equivalem à montar posição "vendida") os investidores lucraram em um mês no Brasil, mais da metade do que lucrariam em um ano nos títulos do tesouro dos Estados Unidos. Os títulos mais seguros do mundo, que hoje pagam 4,8% ao ano.