NOTAS QUOTIDIANAS: ECONOMIA, CULTURA E SOCIEDADE.

José de Almeida Amaral Júnior



AS VÁRIAS FACES DA TIRANIA


Dias atrás vi, com a Cia. Mungunzá de Teatro dirigida por Nélson Baskerville, baseado no texto quase autobiográfico da romena Aglaja Veteranyi, a peça “Porque a criança cozinha na polenta”. A troupe aborda as memórias de uma garota nascida em uma família circense que vivia no exílio durante o regime ditatorial de Nicolau Ceausescu em plena Guerra Fria. Uma história cruel. E ainda hoje, diga-se, muito comum em vários pontos do planeta: os dramas da migração. Retrata a grande dificuldade experimentada por pessoas que precisaram fugir de sua terra natal para escaparem da opressão e poderem sobreviver. Na Romênia pró-URSS daquele tempo, alguém reclamar de miséria poderia ser punido pela repressão policial. A crença em Deus foi combatida. Havia espaço apenas para o culto à personalidade do déspota e de sua primeira dama. Nas escolas as crianças aprendiam a tecer honras ao governo, desenhando e homenageando seus líderes. Essa era a verdade impingida sobre todos. Por isso os circenses fugiram. Mas, em contrapartida, ao invés do alívio, na prática sofreram outros baques provenientes dos preconceitos étnicos, por serem estrangeiros e pobres em localidades alheias. Inexistência de trabalho decente, fome, humilhações, desagregação familiar, decadência moral. Todo um conjunto de reveses se acumulou no quotidiano daquele grupo em frangalhos, refugiados no Ocidente em busca de liberdade e paz. Esperanças que tragicamente não se concretizaram no dito ‘mundo livre’ da espetacular democracia capitalista.

Posteriormente, pude ver no MASP – Museu de Arte de São Paulo, a exposição “Tesouros da Terra Santa – Do Rei David ao Cristianismo”. A mostra conta com objetos que retratam 16 séculos de história, dividida entre os períodos israelita (1000 a.C. a 586 a.C.), do segundo templo (538 a.C. a 70 d.C.) e bizantino (70 d.C. a 640 d.C.). São mais de 100 itens. Vão de peças de adorno a capitéis de construções, passando por utensílios domésticos, estátuas, urnas funerárias e textos escritos em pedra. Possibilitam conhecer um pouco sobre fatos narrados na Bíblia. De elementos da Torá, presentes no Antigo Testamento a menções dos Evangelhos no Novo Testamento. Por calcar o tema na religiosidade e repleta de itens arqueológicos interessantes, estima-se que essa exposição seja uma das mais apreciadas do ano na cidade. Cheia de gente, de crianças a idosos, os corredores são tomados de intensas demonstrações de curiosidade por parte das pessoas. Fascínio e excitação. Grandes estímulos para o conhecimento.

Porém, observando uma estrutura que expunha pequenas estatuetas milenares de barro representando músicos, aproxima-se uma dupla, garoto e seu pai, de onde ouço o seguinte diálogo: - o que é isso? perguntou a criança. E a resposta: - São ídolos. Venha, vamos embora, sentenciou o homem de forma curta e grossa puxando o filho pela cabeça. Ignoraram solenemente os painéis explicativos presentes ao longo dos corredores e em cada item exposto.

Esta cena assistida remeteu-me imediatamente à experiência da autora romena descrita anteriormente. Aquela que com sua família fugiram no desejo de preservar sua lucidez. A liberdade de pensar, de ter idéias, de atuar. De vir ao mundo para conhecê-lo e nele interagir. Em outras palavras: de serem palhaços, acrobatas, malabaristas. De serem sujeitos. Arriscaram desastrosamente sua existência por essa chance. Por outro lado, o menino, iniciando ingenuamente sua longa jornada na busca de decifrar a vida e, paradoxalmente, imerso naquele esplendoroso ambiente das artes plásticas e humanidades, é tolhido também brutalmente, tendo anulado o seu direito de saber, impondo-se sobre ele a obscuridade. Sem diálogo. Sem meios termos. Sem mais nada. Radicalismo de pai para filho, como uma genética da ignorância. Reproduz-se a subserviente cegueira dogmática proibição da reflexão. Massa de manobra.

O não à divergência, ao querer saber por que, ao aprofundamento, à interpretação. Inquisições, fogueiras ou paredões para os que ousam pensar. Exegese? Hermenêutica? Portas fechadas à razão. Idolatria da estupidez, impiedosa tirania.

Em plena ‘era do conhecimento’, do mercado globalizado, dos saltos tecnológicos nas ciências exatas e biológicas, a humanidade caminha com passos curtos em alguns de seus direitos mais básicos que devem ser estendidos indiscriminadamente a todos: alimentar corpo e a mente com dignidade.


São Paulo, 6 de setembro de 2008


José de Almeida Amaral Jr
Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Cantareira

Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada

http://www.mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_coluna_170.htm