Uma História
Ontem, 25 de março de 2008, Vera, a professora da sala de Informática, convidou-me para participar de um Projeto chamado Nossa Escola tem História, porque soube do meu trabalho em sala de aula a respeito de identidade com alunos de sexta série. Aceitei na hora. Porque gosto de desafios. No dia seguinte, informou-me que para participar do projeto teria que escrever a minha história, naquele instante, senti-me em choque, emocionada, voltei para casa dirigindo, chorando muito, aos prantos mesmo. Como escrever sobre a minha vida, minhas raízes, reviver na memória todo o meu passado, colocar ali, no papel, cada momento vivido com pessoas queridas que já se foram, lembrar o que elas viveram até chegarem até mim. Seria muito difícil, pensei em desistir. Então, lembrei-me de uma aluna chamada Monique, que ao entregar–me o trabalho, que eu havia solicitado, exatamente sobre identidade, disse-me que eu havia a feito chorar ao fazer o trabalho. Achei bonito ela me confidenciar, mas naquele momento, não fazia idéia do que havia provocado nos sentimentos de cada aluno ao solicitar um trabalho sobre esse tema. Agora aqui, eu escrevendo algumas passagens e lembranças, compreendo e tenho a exata proporção do sentimento de cada aluno, enquanto escolhia as palavras ao escrever seu trabalho. Muitos brincavam falando que se fossem escrever tudo sobre a sua vida, daria um livro, outros proibiram terminantemente a professora de ler em voz alta a sua escrita. Então, depois de muito pensar e chorar encontrei uma saída. Minha identidade profissional. Não menos emocionante ou significativa. Sou professora, tenho trinta anos de profissão, que começou quando formei–me na faculdade de Letras. A necessidade de trabalhar levou–me, de repente, a assumir muitas aulas numa escola de periferia da cidade, onde permaneci por muitos anos, por motivo de apego, apesar de ter tido a oportunidade de mudar para uma escola mais perto da minha residência. Adorava dar aulas para quinta série, eram alunos alegres e curiosos. Até hoje, ainda lembro de vários rostos, que obviamente já mudaram, seus sotaques, brincadeiras que compartilhávamos. Tive a oportunidade de acompanhá–los, muitos deles até o término do Ensino Fundamental.
Um deles, ao final da oitava série, seu nome, não me lembro, mas sua fisionomia ficará marcada para sempre, colada na minha memória. Sua voz, posso ouvi–la agora, quando chegou até a mim e disse “Isto é para a senhora. Foi feito pela minha avó, para protegê–la sempre”. É uma minúscula almofada azul bordada com uma cruz. Até hoje carrego aquele amuleto, sem saber exatamente o que contém, mas jamais saiu da minha bolsa.
Muitos anos depois, quando fazia compras nas lojas Mappin, um moço alto, moreno e com barbas no rosto, parou-me sorrindo e perguntou: “A senhora não se lembra de mim? Eu sou o Domingos, seu ex-aluno, não está me reconhecendo?” Como reconhecê-lo, de repente, daquele tamanho, escondido atrás das barbas? Mas claro que, fazendo um grande exercício de memória, ainda pude me lembrar de um aluno “fortinho” e falante da quinta série.