Arco Virtuoso - projeto e implementação.


Resumo
Esse documento visa detalhar o projeto e a construção de um arco no estilo longbow, para a prática de tiro, denominado o "Arco Virtuoso".
Aqui são abordadas todas as etapas da construção do Arco Virtuoso, detalhando-se os problemas encontrados, explicando-se como tais problemas foram contornados e explicitando-se as limitações do método usado.


Introdução
É com enorme satisfação que aqui apresentamos a documentação da construção do Arco Virtuoso, talvez o mais glorioso e certamente o mais extenso projeto já realizado pela atual equipe da MARQUETTo Projetos.
Este projeto exigiu longas horas de pesquisa, desgastantes testes de materiais e extenuantes sessões de trabalho manual.
Ao final do projeto a equipe se encontrava exausta, porém a visão do Arco Virtuoso concluído nos deu a segunda maior recompensa que um homem pode esperar pelo seu trabalho árduo: o sentimento ímpar de ter realizado uma obra extraordinária. A maior recompensa seria, claro está, muito dinheiro.
Aqui tentaremos apresentar todos os passos da construção, todos os testes fracassados (e o porque de terem fracassado), todas as tentativas que deram errado (e o porque de terem dado errado) e todo o conhecimento acumulado durante a execução deste projeto, com o intuito de esclarecer estas questões a todos os interessados em iniciar na nobre arte da construção de arcos para a prática de tiro.
Note, por favor, que não somos construtores de arcos, nunca havíamos construído um arco antes em nossas vidas e não pretendemos tomar a construção de arcos como carreira. Este arco foi construído com os únicos propósitos de glorificar nossa existência nessa terra e de tirar uma ondinha. O contato da equipe da MARQUETTo Projetos com o mundo da arquearia era nulo quando do início do projeto do Arco Virtuoso. Por este motivo, a etapa de pesquisa acabou por se mostrar a mais crucial para este trabalho.


Primeiros projetos - Conceitos abandonados e idéias fracassadas

1. O arco de bambu
No início do projeto, foi considerada a idéia de se construir um arco feito com bambu, tal qual os arcos tradicionais dos povos indígenas sul-americanos.
Alguns testes foram realizados com diversas peças de bambu coletadas em um bambuzal localizado nas redondezas e, embora alguns testes tenham obtido resultados satisfatórios, decidiu-se por não optar pelo arco de bambu, devido à dificuldade de imbuir-lhe com aquela aura de nobreza e aquela altivez que desejávamos para o Arco Virtuoso.


fig1. Imagem de um arco indígena tradicional.

2. Inventando um arco
Uma vez descartada a idéia do arco de bambu, tentamos fazer um projeto próprio. Muitos desenhos foram feitos e muitas idéias foram colocadas na mesa e debatidas.
Ao final da fase de discussão, chegamos a um desenho em três peças, sendo duas peças iguais chamadas lâminas e uma peça central denominada empunhadura. Posteriormente, descobrimos que esta arquitetura básica é muito usada em arcos modernos.


fig2. Desenho fracassado d
o Arco Virtuoso, feito pela equipe da MARQUETTo Projetos: A escolha errada dos materiais condenou o projeto.



fig3. Ilustração explicativa de como seriam colocadas as lâminas.

Com o desenho em mãos, partimos à análise de diversos materiais para a confecção das peças. A empunhadura não foi uma preocupação, mas estava claro que a escolha correta do material das lâminas seria a decisão mais importante para o sucesso do projeto. Devido à completa falta de experiência e a mais absurda falta de bom senso da equipe, decidimos por usar algumas placas de MDF que estavam em um canto da oficina da MARQUETTo Projetos. A escolha foi feita devido ao fato das placas parecerem bastante resistentes e não flexionarem facilmente, o que, supostamente, daria grande força ao arco. Isso mostra o quanto a equipe era juvenil, e só vem a demonstrar o quão grande foi a quantidade de conhecimento acumulado ao final deste projeto.


fig4. Placas de MDF.
Embora para um construtor de arco experiente, assim como para a equipe hoje, a idéia de se construir um arco usando MDF seja risível, à época se achou uma boa idéia.
As placas foram cortadas segundo o desenho do projeto e, no primeiro teste de flexão, foram completamente destruídas.
Percebemos então que, apesar de forte e resistente, o MDF é muito rígido. Isso significa que o MDF não se flexiona facilmente e nem dificilmente, ele simplesmente quebra. Isso acontece porque o MDF nada mais é que um prensado de massa de madeira compactado entre duas finas lâminas de PVC ou outro material similar, o que faz com que sua flexibilidade seja sofrível.

fig5. Figura esquemática da estrutura do MDF.

Neste ponto, decidimos por realizar uma pesquisa mais profunda sobre métodos e técnicas de construção de arcos.


Pesquisa - Buscando o caminho
Uma vez que ficou claro que nada seria realizado sem que antes adquiríssemos algum conhecimento sobre o assunto, a oficina foi deixada de lado, em favor da biblioteca.
Diversas fontes nacionais e internacionais foram analisadas e estudadas, usando-se da mais avançada ferramenta de busca de informações e conhecimento, a internet.
Diversos sítios
web foram pesquisados, e dentre eles se destacou um, chamado Toxophilos.
Este sítio é "dedicado especialmente à arquearia tradicional no Brasil", como pode ser lido na primeira página, e apresenta um completo projeto de um arco longbow tradicional, com instruções detalhadas de cada passo da sua construção, além de fotos ilustrativas que esclarecem todas as dúvidas que a equipe poderia ter.
Este foi o projeto adotado para a construção do Arco Virtuoso.
Para mais informações sobre como construir um maravilhoso longbow da forma como foi construído o Arco Virtuoso, o projeto detalhado pode ser visualizado no seguinte endereço web:
http://www.toxophilos.com.br/construindo.html.



Projeto Toxophilos - Aprendendo com quem sabe
Adotado o projeto apresentado no sítio Toxophilos - que chamaremos doravante de "Projeto Toxophilos" - começamos prontamente a executá-lo.

O primeiro passo é a escolha de uma boa madeira. O autor do projeto Toxophilos enfatiza, e a equipe MARQUETTo Projetos reitera, que a escolha da madeira é uma etapa da mais alta importância para o projeto. Uma madeira ruim pode levar todo o projeto ao fracasso, como descobrimos na nossa experiência anterior. O projeto Toxophilos apresenta diversas sugestões de madeira, entre elas o Jatobá, a Aroeira e o Pau-Roxo. Para o Arco Virtuoso, foi escolhida uma madeira nacional conhecida como Cumaru.
A equipe adquiriu um caibro aparelhado de Cumaru, também conhecido como "Ipê-Champagne", de 2m x 5cm x 5cm, ao custo de R$17,00 (dezessete reais), em uma madeireira da região.


fig6. Caibro de Cumaru, o "Ipê-champagne".

Tendo adquirido a madeira, equipamos nossa oficina com as mais modernas ferramentas que estavam guardadas nos armários da MARQUETTo Projetos.


fig7. Bancada preparada com as mais modernas ferramentas disponíveis.

O caibro foi então cortado no comprimento de 70" (aprox. 1,78m), o comprimento adotado para o Arco Virtuoso.


fig8. Caibro na bancada, se preparando para ser cortado.

Estando o caibro com o comprimento correto, este foi levado até uma marcenaria melhor equipada, onde um grande amigo da equipe, o Sr. Paulo, com prazer cortou a madeira de acordo com as dimensões especificadas no projeto Toxophilos, usando uma magnífica serra circular e uma fantástica serra de fita.
Com a madeira já próxima de seu formato final de arco, apenas alguns ajustes foram necessários na oficina MARQUETTo.



fig9. O arco precisou de um trabalho de plaina.


fig10. Os últimos ajustes na forma do arco foram feitos com uma grosa.


Depois de cortar o cumaru, foi necessário escolher o material do qual faríamos o backing do arco.
O backing é uma fina lâmina de madeira ou outro material, que é colado às costas do arco com o intuito de evitar que as fibras da madeira do arco se desprendam quando este for flexionado. Portanto, deve ser feito de um material mais flexível que a madeira do arco.
Com isto em mente, escolhemos, erroneamente, uma fina tábua de compensado que encontramos na oficina do Sr. Paulo. Mais uma vez, a falta de experiência da equipe ficou evidente. Foi somente muito próximo da conclusão do projeto que este erro mostrou suas desastrosas conseqüências.





fig11. Imagens do compensado usado na primeira tentativa de backing.

O compensado foi cortado e colado ao cumaru, e parecia funcionar bem enquanto backing no começo. No entanto, mais à frente veremos porque essa escolha foi equivocada.

      
fig12. O compensado foi cortado...                                fig13. ...e colado ao cumaru.

Com o backing colado, pudemos começar a etapa de testes de flexão do arco. Isso é feito colocando-se o arco em um suporte, preso pela empunhadura. O arco é então encordoado com uma corda de comprimento adequado e flexionado gradativamente. Dessa forma, pode-se observar a maneira como o arco se flexiona e diagnosticar pontos de maior ou menor rigidez. Com uma grosa, deve-se ajustar a espessura da lâmina nestes pontos problemáticos para que ele se flexione uniformemente.
Foi construído então um suporte para este fim, batizado de "o Rei".


fig14. Arco Virtuoso preso ao Rei.


Também nesta etapa é definida a potência do arco. Isto é feito ajustando a espessura das lâminas com uma grosa. Lâminas mais finas exigem menos força para serem flexionadas, portanto a potência do arco também é menor. Um arco mais potente exige mais força do arqueiro para ser flexionado.

O Arco Virtuoso foi cuidadosamente calibrado, começando com uma curvatura pequena e aumentando a curvatura à medida que corrigíamos os pontos de menor flexibilidade.
No entanto, quando chegávamos à curvatura final desejada para o Arco Virtuoso, o backing feito de compensado se partiu. Isso aconteceu porque, quando o arco se flexiona, o backing sofre uma grande força de tração, portanto a qualidade principal do material do qual ele é feito deve ser a resistência à tração, e não apenas a flexibilidade. O compensado não tem uma boa propriedade de resistência à tração.
Neste momento, todos os testes com o Arco Virtuoso tiveram de ser abortados. Era necessário resolver o problema do backing antes de se fazer qualquer outra coisa. Estava claro para nós que o compensado era um péssimo material, e decidimos que o melhor a fazer seria trocar o backing por completo. Com a graça de deus, conseguimos remover o compensado usando uma plaina elétrica, e tiramos os últimos vestígios de cola com uma lixadeira elétrica.
Mais uma vez, ficou claro que é melhor fazer as coisas direito. Decidimos então por fazer o backing usando couro rústico, como sugerido pelo projeto Toxophilos. Este material se mostrou perfeito para este fim. O couro foi colado à madeira do mesmo modo como fora colado o compensado.



fig15. Backing de couro sendo colado ao Arco Virtuoso.

Com o couro devidamente colado e exercendo com perfeição sua função, os últimos ajustes puderam ser feitos e o Arco Virtuoso finalmente ficou pronto.
Resolvemos então fazer uma decoração no couro da empunhadura, para dar um ar de maior elegância ao arco.
Usando um pedaço de arame aquecido, o couro foi marcado formando padrões artísticos, uma técnica chamada pirografia.


fig16. Arame sendo aquecido no fogo para a pirografia.




fig17. A empunhadura do Arco Virtuoso, marcada com padrões artísticos.



O Arco Virtuoso - Imagens
Com o projeto concluído, deixamos aqui o leitor com algumas imagens do Arco Virtuoso.



fig18. O Arco Virtuoso concluído.


fig19. Apresentação do Arco Virtuoso.


fig20. Primeiro tiro oficial do Arco Virtuoso.


fig21. Alvo destruído.


fig22. Preparação para um tiro especial.

fig23. Irresponsabilidade com o Arco Virtuoso.


fig24. A chama da Verdade.


fig25. A seta flamejante da Justiça.