EDITORIAL:
Limites a Chávez
Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do
sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na
Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão
autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de
dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do
final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta
vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto
presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel
Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora
vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria
desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio
para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários
compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo
nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985-
partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam
formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo
autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no
Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os
controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o
Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o
círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de
Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu
caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do
petróleo
a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro
fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe
a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco
na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao
concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam
simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado
foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da
vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na
cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma
queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável
que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a
despeito da vitória de domingo.
AS RESPOSTAS DE FABIO E MARIA BENEVIDES:
"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da
repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos
humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem
comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do
editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi
"doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande
estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!"
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do
vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o
aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e
pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente
enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à
pessoa humana."
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)
A AGRESSÃO DA FOLHA:
A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.